Literatura: Histórias de estudantes – Parte 1 / 2.

O ano era 1967 e eu era um secundarista bastante engajado. Morava lá na boa e velha Tijuca, no Rio de Janeiro. É bem verdade que naquela época o movimento estudantil estava fervilhando e a moçada do Grêmio Recreativo do nosso colégio acompanhava toda e qualquer convocação. Ou seja: estávamos ali para o que desse e viesse, minha gente! Isso porque o nosso grupo era muito atuante e atento, disposto a qualquer empreitada…
[“Diz que eu não sou de respeito / Diz que não dá jeito / De jeito nenhum / Diz que eu sou subversivo / Um elemento ativo / Feroz e nocivo / Ao bem-estar comum.” – Chico Buarque de Holanda]
Também é verdade que entre nós havia certa divisão à medida que uns queriam “ações” mais radicais e outros entendiam que esse não era o nosso papel. De toda forma, nós sempre chegávamos ao entendimento sobre o que era melhor fazer. Sem muitos embates, sem rachas na “base” do movimento… No fundo, havia acordo. Lá, isso sim!
[Hoje sei bem que diversas vezes agi como na canção: “dei pra sonhar / fiz tantos desvarios / rompi com o mundo / queimei meus navios / me diz pra onde que inda posso ir?” – Chico Buarque de Holanda]
O que sei dizer, meus amigos, é que o ano seguinte foi definitivo para o destino do nosso grêmio e, de certa forma, para quase todos nós. É que pipocaram no mundo inteiro fortes movimentos estudantis que exigiam melhorias na qualidade do ensino, mais verbas e mais liberdades… Tanto na França quanto em outros lugares, a palavra de ordem era uma só: “reformas”!
No Brasil, que iniciara a ditadura militar quatro anos antes, as coisas estavam bem complicadas para os estudantes, pois já havia um forte aparato da repressão. Muitos colegas sofreram na pele o peso da “discordância”. Foi quando eu sofri a primeira grande ameaça. Como eu era o presidente do Grêmio Estudantil, o diretor da escola mandou me chamar na sala de aula e despejou em mim uma saraivada de “pressões”. Alertas que iam do risco de ser preso à possibilidade de expulsão da escola. Para aquele diretor autoritário, a cartada era forte e, por isso, valiam todos os trunfos!
No entanto, nem era preciso tamanha truculência, já que logo a seguir os grêmios foram dissolvidos. E o que se viu, ironicamente, foi uma forte adesão ao movimento universitário, que culminou na famosa passeata dos “Cem Mil”, no largo da Candelária. Hoje, posso dizer ao meu filho: eu estava lá!
A ditadura teve seu ocaso em março de 1985. Já os estudantes, estes sim, continuam lutando por toda e qualquer boa bandeira, cumprindo o papel que lhes cabe… Ainda bem!
Quanto a mim? Ah, minha gente, só posso dizer que eu já escrevi um livro, plantei muitas árvores e, sobretudo, tive um filho maravilhoso…
De resto, mais uma vez eu evoco Chico Buarque: “…eu já arrisquei muita braçada / Na esperança de outro mar / Hoje sou carta marcada /Hoje sou jogo de azar!”

(imagens da internet, meramente ilustrativas)

Publicado por

Carlos Holbein

Professor de química por formação ou "sina" e escritor por "vocação" ou insistência...

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