Disco: Trilha sonora do filme “O ascensor para o cadafalso”, com Miles Davis.

Pode-se dizer que o clima “noir”, criado entre 1958 e 1959, foi ligeiramente antecipado nesse primeiro longa-metragem de Louis Malle, “O ascensor para o cadafalso”, de 1957. Nesse bom filme, do início ao fim, o clima alcança sua plenitude. E para completar a missão, ninguém melhor do que Miles Davis para criar a “costura” perfeita entre o enredo da história e a trilha sonora. Meu Deus! Miles se superou completamente nesse desafio, minha gente. Ao compor a soberba trilha sonora, ele atingiu a um nível de dramaticidade musical jamais imaginado. Ao longo do filme, o trompete de Miles mergulha de cabeça na atmosfera da história. Sem medos ou remorsos, como os personagens. Confesso que fiquei arrepiado ao assistir ao inebriante filme e perceber o drama de Florence (Jeanne Moreau) e de Julian (Maurice Ronet). Por sinal, a extraordinária cena do passeio noturno de Jeanne Moreau pelos “Champs-Élysées”, tendo ao fundo o sopro angustiado de Miles Davis, sem dúvida, desenhou vivamente a dimensão do drama! E de algum modo, meus amigos, todos nós ficamos na torcida para que o “final” aconteça. Seja ele qual for…
O filme “Ascensor para o Cadafalso” foi o drama policial que introduziu Louis Malle no cenário do cinema francês e narra a história de amor e de um crime quase bizarro. E como um bom filme francês, ele trabalha as imagens com profunda elegância, a exemplo de Truffaut, o grande mestre do gênero “noir”.
Milles Davis viveu uma temporada em Paris, em 1949, assim como Sidney Bechet e Charlie Parker. Esta viagem mudaria para sempre o destino de Miles. Segundo ele, “jamais havia recebido nos Estados Unidos tamanho “carinho e admiração” pelo meu trabalho”. Em Paris, Miles conheceu Pablo Picasso, tomou café com Jean-Paul Sartre e viveu tórridos romances que, no fundo, reacenderam a chama do talento e da genialidade, bem como das suas inseparáveis “sombras”…

Disco: “The more I see you”, com Oscar Peterson, Benny Carter, Clark Terry e Ray Brown.

Todos nós tivemos na infância ou adolescência os grupos prediletos de amigos, feito um “clube de esquina”, não é verdade? Pois é. O nosso clube ficava lá na ladeira da Zamenhoff, no velho e bom Estácio do Rio de Janeiro, ainda sem intervenção federal. “E pela nossa lei, a gente era obrigado a ser feliz!”, já dizia Chico Buarque. Céus! Nós éramos felizes, disso eu não tenho dúvida alguma, meus amigos. Éramos os verdadeiros “bandoleiros” da imaginação… Afinal de contas, todos os dias aconteciam surpresas e aprendizados que, no fundo, ajudaram a formar o nosso caráter: tanto coletivo, quanto individual. E, pelo visto, deu certo. Acredito que funcionou bem, pois ninguém virou pilantra, bandido ou algo assim. Muito ao contrário! Haja visto que todos se tornaram pessoas do bem, ativas e competentes nos seus afazeres profissionais e pessoais… Ah, bons tempos aqueles!
Curiosamente, ocorre o mesmo na música. Porquanto podemos observar os grupos afins se aproximando e celebrando os encontros. Todos eles. É bem o caso dessa turma endiabrada, capitaneada pelo mestre Oscar Peterson. Meus Deus, que maravilhosas composições saíram desses encontros de amigos. Lado a lado, Oscar Peterson, Benny Carter, Clark Terry, Ray Brown, Lorne Lofsky e Lewis Nash aprontaram um bocado…
O CD, muito bem intitulado “The more I see You”, é uma verdadeira pérola e traz nove maravilhosas melodias para o deleite de todos. E não é que eles ainda tiveram a coragem de tocar “Gee Baby, Ain’t I Good to You”. Caramba… Já imaginaram se eles fossem melhores, o que seria dessa “garota”?!
Após ouvir algumas vezes o grupo, eu voltei a me lembrar do nosso clube de infância. Lembrei-me com saudades dos amigos Luiz Henrique, Edinho, Isaac, Roberto Brasil e outros mais. Assim, envio daqui o meu saudoso abraço e a torcida de que a vida tenha sido generosa com todos!