A mudança dos ventos

Sim, meus amigos… Houve um tempo em que eu fui ‘craque’ no ping-pong, ao menos, no Edifício Esperanto, lá na velha Zamenhof do meu inesquecível Estácio. Mas isso, reconheço, ocorreu na minha infância querida e já faz um bom tempo. Fazer o quê?!

Houve também aqueles bons anos em que eu namorava no banco traseiro do velho fusca, lá na Estrada da Cascatinha, escondida no Alto da Boa Vista. Céus! Confesso que foram momentos de muita ‘adrenalina’, de aromas maravilhosos e sorrisos soltos feito passarinho…

Além disso, como professor, eu vi passar pela frente a ‘esperança’ estampada nos rostos dos milhares de alunos que tive, ao longo dos trinta anos de magistério. Quem sabe, por isso, eu possa ser lembrado como um bem-humorado ‘mestre’ no exercício da profissão?!

De um jeito ou de outro, o que posso dizer é que esse ‘caminho’ já me levou para muitos lugares. E nem sei para onde ele ainda vai me levar… Percebo apenas que as pernas já não possuem o mesmo vigor, o que é uma pena. Paciência, são coisas da vida! Muito embora eu guarde em mim o desejo de poder realizar outros tantos sonhos – não somente meus, mas de meu filho e de minha esposa. Afinal de contas, faz tempo que nós temos vivido essa jornada familiar: juntos e felizes!

Aliás, não querendo ser saudosista, eu tenho procurado manter o meu olhar para frente, sim, sem me esquecer do que já passei. É que a vida nos ensina muitas coisas, não acham? Melhor ainda é se aprendemos a ‘soletrar’ o mundo de modo correto. Porquanto haveremos de acumular preciosas lições. Digo isso não somente pela minha trajetória, podem acreditar. Até porque, ao observar os outros, pode-se aprender muito com eles. No fundo, isso se tornou algo essencial em minha vida. Sim! Pois me deu a oportunidade de ‘incorporar’ um sem-número de pequenas conquistas.

No entanto, chega uma hora em que os rumos da vida acabam tomando outras direções. Muitas vezes, é verdade, ocorrem à nossa revelia. E foi revendo o belíssimo filme “Chocolate”, de Lasse Hallström, que fui compreender o quanto a ‘história’ se repete. Incontáveis vezes. E olha que eu já fora avisado, logo no início da trama, que naquela pacata vila francesa tudo funcionava perfeitamente. “Até que em um dia de inverno, o vento matreiro soprava do norte…”

Daí, eu fui fazer os habituais exames médicos, começando pelo oftalmologista que acompanha o meu glaucoma há dez anos. Por sorte, consegui ‘renovar’ mais um ano sem preocupações, uma vez que está tudo sob controle.

Novamente, o aviso do filme saltou em minha frente: “…mas o matreiro vento norte ainda não estava satisfeito. Os ventos falaram de cidades ainda a serem visitadas. Amigos ainda a serem descobertos. Batalhas ainda a serem enfrentadas… Por outra pessoa, numa próxima vez!”

Resta-me, agora, aguardar o resultado da biópsia da próstata. Isto porque, apesar do histórico familiar ser ‘preocupante’, eu mantenho o meu espírito em alta e faço planos para mais trinta anos pela frente. Claro, afinal o meu querido pai, que tem 97 anos, passou por situação semelhante aos 70, logrando-se vitorioso. Então, comigo não deverá ser diferente, tenho certeza!

Por tudo isso, minha gente, baseado nesse espírito otimista, eu aproveito a narrativa do filme e relembro o pensamento final: “Quando o verão chegou na pequena aldeia, uma brisa vinda do sul soprava suave e morna…”

“NAS ASAS DA PANAIR…”

Vejam vocês, meus amigos: foi preciso eu viver quase setenta anos para descobrir que essa bela melodia de Elis Regina, de algum modo, sempre esteve ao meu lado. Até mesmo quando eu não era capaz de perceber. E, saibam: muitas coisas dessa vida eu não consegui perceber quando elas ocorreram. Foi uma pena, isso sim, à medida que somente muitos anos depois é que eu fui me dar conta desses ‘movimentos’ internos e externos. Eu não culpo ninguém por isso. Seguramente. É da vida! Afinal, os acontecimentos simplesmente ‘aconteciam’, sem me dar nenhuma explicação. Eu é que deveria ter desenvolvido um senso de observação mais apurado a ponto de ‘acompanhar’ os fatos, os desdobramentos e suas consequências.

Ferreira Gullar, nosso encantado poeta, foi mais feliz nesse aspecto, pois conseguiu compreender os conflitos que cercavam sua vida. Daí porque pode declarar no poema “Traduzir-se”:

“Uma parte de mim é todo mundo: / outra parte é ninguém: fundo sem fundo. / Uma parte de mim é multidão: / outra parte estranheza e solidão. / Uma parte de mim pesa, pondera: / outra parte delira.”

Pois é. Ah, sorte a sua, meu querido poeta. Sorte por ter identificado esses ‘dualismos’, tão presentes em cada um de nós, e deles tirar proveito. Sim! Talvez, no fundo, somos todos sensíveis à semelhantes trajetórias. O que nos diferencia, no entanto, é tão somente a percepção do que está ao redor… Também é verdade que a vida é traiçoeira e, quase sempre, não perdoa os ‘desavisados’. Na minha infância distante, o meu avô costuma declamar: “o segredo da vida é nascer burro, criar-se ignorante e morrer de repente.” Céus! Confesso que isso me impressionou durante um punhado de anos. Ao menos, até o dia que eu pude compreender que se tratava muito mais de uma frase de efeito do que uma verdade universal…Quem sabe tudo isso não faça parte da nossa ‘seleção natural’? Porque no fim das contas, minha gente, somos nós que iremos ‘desbravar’ esses labirintos. Com as ferramentas que conseguirmos acumular. Ou construir. Mesmo que para isso seja necessário repassar velhas histórias. Buscando identificar nelas o que foi verdadeiro e o que foi ‘alegoria’. Convenhamos: todos nós temos, de alguma maneira, inúmeros episódios para rever. Basta apenas arregaçar as mangas e ir à luta! O resto… bem… o resto é ‘folclore’, não acham? Elis Regina nos mostrou isso, com cores vivas!

“Descobri que as coisas mudam / E que tudo é pequeno nas asas da Panair… / … O medo em minha vida nasceu muito depois… / Descobri que minha arma / é o que a memória guarda / dos tempos da Panair…”

A CURVA DO TEMPO

É bem possível que algumas pessoas venham dizer que esse meu texto é saudosista. E que eu estou ficando velho e vivo ‘remoendo’ antigas passagens. Pois é, sei bem disso. Acredito até que, no fundo, elas têm razão. Porquanto o ato de escrever, de algum modo, traz embutido nas linhas incontáveis motivos de reminiscências.

Além disso, meus amigos, já se disse por aí que escrever é um ato de ‘resistência’. Ou de ‘libertação’. Vem daí, talvez, o porquê de os escritores ficarem entrincheirados em algum canto, pacientemente, à espera da oportuna chance de despejar suas palavras ‘ferinas’. Quase sempre, por meio de tortuosos e criativos pensamentos. Vá lá… isso também é verdade, devo reconhecer. Porém, não nos impede e nem limita a nossa capacidade de ensaiar novas ideias. E fazer o uso delas para aquilo que de fato os textos se destinam…

Sendo assim, feitas as apresentações formais, vamos ao que interessa. Ou seja: ‘A curva do tempo’!

Na verdade, o tema surgiu ontem à noite ao receber uma ligação do meu sobrinho. Ele me informava sobre o estado de saúde de minha irmã mais velha. É que ela foi infectada com a COVID-19 e está passando por maus momentos. Algo muito triste, isso sim, pois imagino o sofrimento que vem atravessando. Só quem passou ou passa por isso pode compreender a dimensão dessa dor. E torço imensamente que ela saia vitoriosa e sem sequelas. Até porque, justiça seja feita, ela vinha se cuidando bem e, por um desses infortúnios, acabou se tornando vítima dessa doença ainda desconhecida.

“Mas o que ‘A curva do tempo’ tem a ver com a enfermidade de sua irmã, Carlos?” – perguntarão alguns. Eu responderei: tem tudo a ver! É que ao me recolher e voltar os meus pensamentos para ela, eu me dei conta da importância que ela teve e tem em minha trajetória.

Afinal, ela foi a irmã mais presente nos episódios de minha vida. Sempre acrescentando ‘luz’ nos meus caminhos. Não apenas quando era preciso me consolar nos tropeços, é verdade. Mas, também, quando comemorava os meus progressos e conquistas. Pois, lá estava ela: presente, fiel e solidária.

Portanto, minha gente, ‘a curva do meu tempo’, de alguma maneira, sempre esteve atrelada a curva da vida da Mana. E por acreditar que há ‘justiça’ no reino divino, por certo, Deus abençoará essa sua filha corajosa e lhe concederá o ‘salvo-conduto’ de que tanto carece no momento…

Abençoada seja, minha irmã Holberina!

O OLHO MÁGICO

Eu escutei o som da campainha tocando freneticamente. Daí, pensei: “quem será o miserável que vem incomodar a gente numa hora dessa?” Antes de abrir a porta, na dúvida, dei uma espiadinha pelo olho mágico. Só que não reconheci a figura, embora fosse ‘familiar’. “Céus, eu já vi este rosto antes… mas não lembro quem é!”

O sujeito era alto e magro, bem mais velho do que eu. Decorridos alguns segundos tentando identificar a fisionomia, sem lograr êxito, acabei rendido pela curiosidade e abri a porta. “Pois não…” “O senhor é o professor Carlos?” Sim, respondi no automático. “E o senhor é quem?” Mal acabei de formular a pergunta e, pimba!, lembrei: João Saldanha, o grande escritor e comentarista esportivo. Ex-técnico da seleção de 1970!

Isso, contudo, não me trouxe alívio, e sim perplexidade. O que ele queria de mim? Foi quando ele se apresentou: “Meu nome é João Saldanha. Sou pai da proprietária desse apartamento que o senhor aluga…”

Amigos, nessa hora o meu ‘desconfiômetro’ estava desligado, pois nem imaginei o que viria a seguir. Muito afobado, ele pediu para entrar e explicar o motivo de sua ‘visita’, já tarde da noite. “A ‘questão’ toda, professor, é que minha filha resolveu vir morar comigo. Portanto, o senhor pode imaginar o problema que isso está acarretando.”

Refeito do susto inicial, eu ouvi atentamente as explicações dele. Lembro, inclusive, que concordei com quase todos os argumentos dele. Por certo, isso ocasiona muitos ‘transtornos’, uma vez que a vida da criatura toma outro rumo. Abruptamente!

“Eu posso compreender os seus motivos… Mas peço que entenda os meus. Afinal, acabei de alugar esse apartamento, pela imobiliária. O contrato não completou sete meses e ainda tenho outros cinco pela frente… E de mais a mais, eu vim para cá porque fui despejado do apartamento do Leblon, após sete anos de moradia. Ou seja: eu fiquei muito aborrecido por ter que sair daquele apartamento que tanto gostava. Ainda por cima, ele era perto de todas as escolas aonde leciono. Já esse aqui, embora mais distante, compensou pelo tamanho, uma vez que é bem mais amplo que o anterior!”

Pois é. Eu ainda pretendia dizer ao Saldanha que tão logo encontrasse outro imóvel, eu liberaria o da filha dele. Qual o quê! De repente, ele começou a esbravejar. “Porra… Eu preciso que o senhor saia até o final desse mês, professor!”

Expliquei que isso era impraticável. Eu só teria tempo para procurar outra moradia nos finais de semana, porquanto durante a semana eu dava quarenta e poucas aulas, não sobrando tempo. “Eu estou contando com a sua ajuda, professor… Com a sua ajuda!” Esta foi a derradeira frase, antes de ir embora…

Nem preciso dizer o quanto eu fiquei atordoado com tudo aquilo. E na manhã seguinte, bem cedo, eu liguei para minha irmã que morava no apartamento que me pertencia. Aliás, eu só não morava nele porque ficava na zona norte, muito contramão. Comecei a ligação com humor negro: “eu tenho duas notícias ruins para lhe dar.” Ela deu um suspiro e perguntou: quais são?!” Comecei dizendo que, mais uma vez, eu havia sido ‘despejado’. E ela retrucou: “que chato… e a segunda notícia, qual é?” Eu respondi de bate-pronto: “É que por conta disso, você também será despejada!”

Meu Deus do Céu, ela ficou uma arara, minha gente, alegando que eu iria ‘tumultuar’ a vida dela. Falou um monte… Argumentei que aquilo era necessário. Não aguentava mais fazer tantas mudanças em tão pouco tempo. O certo é que ela ficou bastante aborrecida por uma semana. Mas não é que o destino aprontou? Na semana seguinte, vejam vocês, ela conseguiu um apartamento no mesmo bloco, dois andares acima, no lado da sombra!

Com isso, eu pude entregar o imóvel da filha do João Saldanha em apenas quinze dias…

Ufa! Quando eu liguei para o Saldanha, anunciando a entrega, ele fez questão de ir pessoalmente receber as chaves. No dia combinado, ao chegar, eu o encontrei na portaria do prédio. Com um largo sorriso, abraçou-me com entusiasmo e agradeceu o esforço que eu havia feito. Para demonstrar a gratidão, João me entregou uma camisa do Botafogo, autografada pelos jogadores. Recebi por educação, confesso. Dei um leve e maroto sorriso, mal disfarçando o descontentamento. Afinal de contas, eu sou Flamenguista roxo… e aquilo me pareceu ‘provocação’! Vai saber…

AS PAIXÕES QUE MOVEM O MUNDO

Há quem acredite que o talento extraordinário de um artista anda sempre de braços dados com a loucura. Ou, no mínimo, com a excentricidade. E mais: dizem até que a capacidade produtiva do artista está intimamente ligada à dor e ao sofrimento. Sei não. No fundo, eu desconfio dessas posturas ou teses totalitárias. Até porque, convenhamos, na maioria das vezes eu as considero reducionistas. Sim, minha gente! Afinal, não se pode julgar a dor alheia, seja ela é certa ou errada, se é justa ou injusta… Nada disso importa, pelo simples fato de não sermos o ‘outro’.

Aliás, foi Blaise Pascal, famoso físico, matemático e filósofo que afirmou que: “O coração tem razões que a própria razão desconhece!” Por isso, não me cabe fazer juízo de valor sobre a vida de quem quer que seja. Muito menos, com os ‘virtuoses’, cuja expressão artística deveria ser livre de qualquer cobrança. E quando afirmo isso, meus amigos, não estou compactuando ou endossando as escolhas que eles fizeram. Pelo contrário, lamento profundamente que boa parte da vida artística deles se esvaia por conta dessas escolhas… Porém, esse foi um caminho que ‘eles’ elegeram, independente de todo e qualquer repúdio que eu possa externar.

Billie Holiday, por exemplo, foi uma dessas incríveis criaturas que acabou sofrendo duramente com os problemas das drogas e experimentou um declínio agonizante. De algum modo, todos nós perdemos muito do seu talento, pois ela nos deixou precocemente, em 1959, com apenas 45 anos de vida.

Apesar disso, eu devo reconhecer que a trajetória de vida dela é fruto de uma alma conflitada, isso sim. Afinal, ela possuía muitas razões para se sentir desestruturada. E o destino, desafortunadamente, foi um “padrasto” tão duro como o que ela teve durante a sua infância aviltada…

PARA SEMPRE NA MEMÓRIA

Foi no ano de 1978 que eu tive essa grande lição. E de lá para cá, reconheço, ela tem permanecido ao meu lado para lembrar sempre o que é acolhimento e solidariedade. Eu explico a vocês.

Na verdade, o início da minha carreira de professor de química foi quase acidental. Estávamos em 1971 e eu era aluno de um cursinho pré-vestibular. Ao final desse ano, eu obtive aprovação no exame vestibular, alcançando o sétimo lugar no Curso de Farmácia e Bioquímica da UFRJ. Na época, eu trabalhei em um banco privado no período da tarde e, à noite, frequentava as aulas no cursinho. Mas isso só ocorreu porque eu não queria que os meus pais pagassem o cursinho, uma vez que que todo o meu período escolar – fundamental e médio – havia sido feito em escolas gratuitas. Pois é, minha gente, o ensino público já teve qualidade. Sim! E muita!

No entanto, eu estava dizendo que acabei logrando uma vaga na Universidade Federal do Rio de Janeiro. E ao começar o curso superior, em 1972, eu logo me senti identificado com a química, principalmente, a química orgânica. É que no curso de Farmácia ela era ministrada pela professora Maria Alice, craque de primeira grandeza. Ah, meus amigos, que extraordinária criatura foi aquela! Além de ser profunda conhecedora da disciplina, ela possuía um enorme talento para nos cativar. Com isso, rapidamente, eu me senti apaixonado pelo modo como ela abordava a ciência.

No ano seguinte, eu já me destacava em química, obtendo boas avaliações. Por conta disso, ao comentar com um dos donos do cursinho, recebi dele muito incentivo, acenando até com a possibilidade de ser contratado para a equipe de professores. Embora descrente, vibrei com a ideia!

No entanto, dito e feito. Um ano mais e eu ingressava na numerosa e disputada equipe de professores do cursinho. No início, confesso, eu ‘apanhei’ um bocado, pois não possuía a ‘experiência’ que os outros colegas, mais antigos, tinham de sobra. Aliás, confiança, carisma e magnetismo, convenhamos, só o tempo se encarrega de desenvolver!

Assim, decorridos três anos dando mais de quarenta aulas por semana, eu já havia desenvolvido o controle das aulas e fazia parte do ‘primeiro time’ da química.

Contudo, é aquela tal história: de algum modo, o ‘destino’ faz questão de nos testar. E não é que após cinco anos como professor, acabei recebendo a primeira grande lição do magistério?!

É que havia naquele período uma forte concorrência entre os cursinhos. Com isso, todos os anos eles publicavam nos jornais qual era a equipe de professores para o ano seguinte, com o objetivo de atrair novos alunos. Além disso, os donos de cursos ‘exigiam’ exclusividade para alguns professores. E isso eu não concordava, pois me parecia ‘autoritário’.

Então, quando chegou o final de fevereiro de 1978, eu tive a surpresa de receber o ‘bilhete azul’, por não concordar com a exclusividade. Meus Deus do Céu, faltando uma semana para o início do ano letivo, como eu faria para arrumar aulas? Como iria sobreviver?

Lembro inclusive que cheguei em casa arrasado, completamente atônito com a notícia. Meu pai, ao ver naquele estado, perguntou: “o que houve, meu filho?” Com dificuldades, eu relatei a novidade, afirmando: “pai, eu estou ferrado. Literalmente!”

Ele me abraçou com carinho e pausadamente rebateu: “ferrado por quê? Você tem casa, comida e roupa lavada. Tem saúde e família ao seu lado… Portanto, por mais que seja chato, saiba, é só um emprego que perdeu, filho.”

Nesse momento, meus amigos, eu me dei conta da dimensão do acolhimento e da solidariedade que tanto necessitava. Daí, eu abracei o meu pai e agradeci pelo gesto e pelo incentivo. E precisei de apenas dois dias para conseguir, por intermédio dos amigos, a indicação para 24 aulas em diferentes escolas da zonal sul. A partir desse episódio, a minha carreira no magistério progrediu de vento em popa e, finalmente, eu me tornei um “professor”. Acima de tudo, graças ao meu pai!

(Na foto: eu, meu pai e meu filho)

A PAIXÃO DE TOTÓ

Desde muito cedo eu entendi que a vida teria mais sentido se ela fosse regida pelo signo da paixão. Sim… Paixão, meus amigos! Aquela manifestação que alguns chamam de desvio, outros de obsessão e, por vezes, até de estado febril. Certo mesmo é que esse ‘comportamento’ tem propiciado profundas teses e estudos da psicanálise. Pois é. No entanto, uma coisa nós devemos reconhecer: sem paixão, o homem teria inventado a roda? A calça ‘jeans’? A música? A linguagem? Ou, para além disso, mergulharíamos tão fundo nas relações interpessoais? Seríamos seguidores de movimentos e ideologias, inda que utópicas? Sei não, minha gente… Quem pode assegurar?!

Os céticos, provavelmente, dirão: “é… mas pagamos um preço alto demais por tudo isso, meu caro Carlos”. É que segundo esses, o mundo prescindiria de muitos dessas manifestações. Porquanto foram movimentos que têm determinado o desenvolvimento da sociedade, sem dúvida alguma, porém de forma turbulenta. Os pessimistas proclamam que nós arrastamos, no bojo de tais criações, um sem número de idiossincrasias. Doenças essas que se incorporam às nossas personalidades hodiernas. É… pode ser.

“Mas, o que isso tudo tem a ver”, perguntarão os impacientes. O que tem a ver com o filme ‘Cinema Paradiso’? – indagarão alguns desconfiados leitores. Tudo bem. Mas, calma aí, companheiros! É que eu demoro a encontrar a minha linha de raciocínio, uma vez que ela também está impregnada de paixão.

O que eu gostaria de dizer, efetivamente, é que por trás da ‘criação’ nada mais há do que paixão. Sim, meus amigos, paixão! Esse doce e lindo sentimento que impulsiona a história, que arrebata espíritos empreendedores. E que nos faz acreditar em… em tudo!

A grande verdade é que na paixão se pode encontrar o talento da arte, dos místicos e dos inquietos. Com sorte, nós poderemos descobrir um pouquinho desse talento (paixão) até em nossas vidas. Ah, como isso faz bem!

Vejamos. O ser humano é capaz de se sensibilizar diante da arte. Mas, arte, convenhamos, é algo subjetivo. Algo que suscita diferentes reações para cada criatura e em cada momento da vida. É possível que, frente à arte, tenhamos diferentes comportamentos: o que para uns se traduz em desafio, para outros é motivo de certa resistência…

Quando eu assisti, pela primeira vez, ao filme ‘Cinema Paradiso’, confesso a vocês: eu fiquei profundamente comovido. Tão emocionado que me senti ‘paralisado’ diante de tamanha beleza. Meu Deus do Céu, como pode um simples mortal produzir tanta poesia em apenas 123 minutos de filme? Como pode alguém ser capaz de fazer o espectador ‘viajar’ na linguagem mais sensível da raça humana: o olhar para dentro? Talvez alguns possam responder: técnica e conhecimento! E eu refuto: não bastam!

Com toda certeza, meus amigos, é preciso bem mais do que um bom enquadramento, diálogos bem produzidos, interpretações corretas e uma trilha sonora comovente para se fazer um extraordinário filme. Pela singular razão de que é preciso tudo isso ‘junto’! E em dose perfeita!

De uma coisa eu estou convencido: no ‘Cinema Paradiso’, ocorre exatamente assim. É que a nostálgica atmosfera, criada desde os primeiros minutos, sugere sempre um contato íntimo com o espectador. E pelas mãos de Giuseppe Tornatore, diretor do filme, os personagens vão ganhando vida. Vão assumindo o espectro da dor, mas com profunda poesia. Revelando as frustrações presentes em cada um de nós, sim, mas com suavidade e encantamento. O sentimento desencadeado pelo toque de Alfredo na vida de Totó, por
exemplo, só pode ser comparado à linguagem materna, que é divina e universal.

Sabemos que o ‘conhecimento’ é o bem mais almejado na vida. De fato, ele é algo extraordinário e, muitas vezes, constitui o verdadeiro objeto de desejo. A verdade é que, por ele, temos sido capazes de buscar soluções, de criar um sem número de técnicas e, até mesmo, de pagar um bom preço para lográ-lo. Tudo isso para que tenhamos atendido a nossa ânsia de ‘desenvolvimento’.

No entanto, amigos, eu falo de paixão. Sim! Aquilo que nos dá a capacidade de sonhar, sonhar e sonhar. E, quem sabe, sonhando, possamos aplacar nossos recalcados desejos de imitar a vida por intermédio da arte?!

No filme, foram muitos os ‘beijos proibidos’ a que Totónão pode assistir na tela do ‘Cinema Paradiso’. Como consequência, quando ele se tornou um homem maduro e bem sucedido, passou a ser extremamente importante ‘recuperar’ aqueles beijos e ressuscitar ‘outras vidas’ dentro dele. Afinal, como representante de uma raça dotada de emoção, Totóseguidamente viu-se enredado por dolorosas lembranças. E ao se ver paralisado por essas memórias, ele percebeu que era preciso desatar os tantos ‘nós’ que a vida foi aprontando. Ao que tudo indica, ele conseguiu!

Quanto a nós, ‘desavisados náufragos’, quem sabe se um dia poderemos conquistar o conhecimento, sem perder de vista a paixão que nos domina? Sem que viremos às costas ao humanismo em nome do desenvolvimento! Com sorte, talvez possamos dar ao conhecimento novas formas e novos ambientes. E que consigam atender as individualidades de cada um. Com isso, devolveríamos a quem de direito o extraviado ‘selo de autoria’. Essa mesma autoria que fez Giuseppe Tornatore buscar em Ennio Morricone a trilha sonora perfeita para soltar o enredo dessa belíssima história. Ah! Tomara que isso aconteça, minha gente. Tomara!

O desempenho do menino Totó(Salvatore Cascio) é algo comovente e muito bem sucedido por Totóadolescente (Marco Leonardi) e melhor ainda na dramática expressão facial de Totóadulto (Jacques Perrin). A cena da demolição do ‘Cinema Paradiso’é, seguramente, digna de observação psicanalítica. Pode-se perceber que os alicerces da ‘memória afetiva’ de Totóvão caindo lentamente, um a um. Trágica e impiedosamente. Por outro lado, com muita sensibilidade, eles passam a ser reconstruídos na simbólica montagem dos trechos de filmes proibidos de sua infância distante. Desse modo, Totóconsegue finalmente ‘realizar’ a sua expiação e exorcizar para sempre os fantasmas que tanto incomodavam…

Aliás, segundo os irmãos Taviani (Paolo e Vittorio): “Este é o filme de um homem
dedicado ao cinema para aqueles que amamo cinema”. Romântico (mas não piegas), sentimental (mas não menos vigoroso), ‘Cinema Paradiso’traz de volta o sorriso nos lábios. Até mesmo nos homens taciturnos!





Cinema Paradiso

A VIDA VIVIDA

Eu devia ter pouco mais de treze anos quando fui apresentado ao poeta Fernando Pessoa. E a doce criatura que possibilitou esse encontro, devo reconhecer, foi a minha professora de Língua Portuguesa, Maria Aldina. Sabemos que o tempo é algo impessoal e, muitas vezes, injusto até. Por isso, eu acredito que ela não esteja mais entre nós, ao menos, nesse plano aqui. No entanto, minha gente, existem algumas criaturas, espalhadas pelo mundo, que fazem a diferença em nossas vidas. São os verdadeiros ‘anjos-da-guarda’, isso sim. Porquanto são capazes de nos guiar e determinar, em parte, o rumo dos nossos destinos. Ah! disso eu não tenho dúvida!

Lembro também que era a minha aula preferida e que eu torcia avidamente que chegasse a semana seguinte para desfrutar de mais uma ‘viagem’ no imaginário. Isso porque, Dona Maria Aldina possuía forte talento para nos ‘raptar’, sem que percebêssemos. Muito embora, ela contasse com a nossa tácita cumplicidade…

A partir daí, nós saíamos embarcados naquela ‘encantada caravela’, em busca de novas descobertas e aventuras. Os enredos eram criados com delicada tessitura. Assim como percebíamos o apurado bom gosto envolvendo o clima de cada história. Meu Deus do Céu, que coisa linda era aquilo?!

Um dos poemas que nunca esqueci e que ela recitava com maestria, intitulava-se “Aniversário”, escrito por Álvaro de Campos, um dos pseudônimos de Fernando Pessoa. “No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, / Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, / De ser inteligente para entre a família, / E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. / Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. / Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida…”
O fato é que a roda do mundo girou mais um bocado. Com isso, muitos sonhos foram perdidos, é verdade, mas outros tantos foram criados e até hoje alimentam esperanças. Além disso, por sorte, eles renovam os laços com a vida e nos fazem crer que outras escolhas estão à nossa frente…

Hoje eu completo mais um aniversário, de número 69, e comemoro o que a vida tem me oferecido. Na maior parte das vezes, reconheço, foram momentos de profunda alegria. Quase sempre partilhado com pessoas que deixaram marcas no percurso. E eu as agradeço. Todos os dias!

(Eu, Zelândia e Gabriel, em Amsterdam – Janeiro de 2020)

O GUARDADOR DE REBANHOS *

Tem vezes que a gente se depara com situações que nos parecem profundamente familiares. E desse modo, somos até capazes de acreditar que já conhecíamos ou, pelo menos, já tínhamos visto aquela pessoa ou situação em outro lugar…

Pois é. Isso parece incrível, o verdadeiro “déjà vu”. Mas foi o que me ocorreu quando escutei a voz de António Zambujo. É que ao ouvir, logo de início, ela me soava algo muito próximo, íntimo até. E mais feliz eu fiquei quando ouvi a canção “Ao sul”. Céus! Zambujo consegue acolher com profunda sensibilidade o solitário violão e, carinhosamente, canta a linda melodia: “Sob as águas desse rio / onde a barca dos sentidos / nunca partiu. / Lá longe / inventei o dia azul / pelo desejo de chegar ao sul…”
Como ato contínuo, eu me lembrei dos versos de Fernando Pessoa, em “O Guardador de Rebanhos”: “Não tenho ambições nem desejos / Ser poeta não é uma ambição minha / É a minha maneira de estar sozinho.”

O que sei dizer, meus amigos, é que ouvindo o CD, “Outro sentido”, eu fui tomado por muitas lembranças de Portugal e de um tempo que eu já não sabia mais que existia em minhas memórias. Porquanto eu tinha apenas vinte e cinco anos de idade e conheci sozinho aquele maravilhoso país. Sim! Perambulei um bocado pelas ruas de Lisboa. Ora fuçando a Livraria Bertrand, na Rua Garret, 72, bem atrás dos Armazéns do Chiado. Ora extasiado pelo passeio nas ruas e becos da Alfama, visitando o Museu do Fado e ouvindo toda sorte de canções de Amália Rodrigues e tantos outros.

“Eu não tenho filosofia: tenho sentidos… / Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, / Mas porque a amo, e amo-a por isso, / Porque quem ama nunca sabe o que ama / Nem sabe por que ama, nem o que é amar…”

É bem possível que hoje eu tenha recebido a visita do meu avô materno, João Antunes. Ah!, meus amigos, essa foi uma visita especial. Afinal de contas, eu mal conheci o meu avô. Ele faleceu quando eu tinha pouco mais de dois anos de idade. Contudo, em algum ponto do meu DNA ficou gravado o imenso amor que ele tinha por sua terra… e me repassou!
“O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério! / O único mistério é haver quem pense no mistério. / Quem está ao sol e fecha os olhos, / Começa a não saber o que é o sol / E a pensar muitas cousas cheias de calor.”

Então, por tudo isso é que nesse ensolarado sábado de frio, após a caminhada matinal pela Beira-mar, eu acabei pegando na estante um disco para ouvir, enquanto me acomodava na rede do escritório. Não por acaso, o disco escolhido foi esse de António Zambujo, intitulado “Outro sentido”. Belíssimo. Comovente! E tem os ingredientes necessários para o deleite de todos: lindas melodias, belas interpretações e um imenso amor ao canto português!
“Mas abre os olhos e vê o sol, / E já não pode pensar em nada, / Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos / De todos os filósofos e de todos os poetas. / A luz do sol não sabe o que faz / E por isso não erra e é comum e boa.”

Assim, como não há nada mais a dizer, eu quero apenas deixar o meu registro de gratidão por esse Portugal que me acolheu tão bem. De quebra, eu presto uma homenagem ao meu avô João Antunes. Decerto, ele plantou nas terras brasileiras a marca de sua brava trajetória. Abençoado seja, vô!

“Mas se Deus é as flores e as árvores / E os montes e sol e o luar, / Então acredito nele, / Então acredito nele a toda a hora, / E a minha vida é toda uma oração e uma missa, / E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos…”

(*) “O Guardador de Rebanhos”, de Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

Fernando Pessoa
Meu avô materno, João Antunes

O  GRITO DO IPIRANGA

Canelau sempre foi um moleque voluntarioso, devemos reconhecer. E sabia buscar soluções sensatas para todo tipo de problema que surgia. Na idade dele, convenhamos, problemas e desafios não faltavam, minha gente. Ora ele sentia raiva por não poder usufruir dos ‘bens de consumo’ que alguns vizinhos faziam questão de esnobar sem medida. Ora se sentia impotente por não poder ‘encarar’ algumas pendengas familiares… Paciência, fazer o quê?!

É bem verdade que a vida era difícil para quase todos daquele prédio. Afinal, o Estácio era um bairro de classe baixa. Poucos ali possuíam bons recursos. E a família de Canelau, não fosse muito numerosa, até seria ‘abastada’, uma vez que o seu pai era funcionário público de uma grande empresa estatal. Mas, cá entre nós: sustentar oito bocas famintas não é fácil não! E, ainda por cima, tem roupas para comprar, dentes pra cuidar e toda sorte de despesas que filhos pequenos apresentam…

Talvez, por isso, Canelau desejasse ‘crescer’ o mais rápido possível. Porquanto, somente assim, ele poderia dar o “grito do Ipiranga” tão sonhado. Mas, para tanto, ele ainda deveria atravessar um sem números de problemas e desafios. Segundo consta, o primeiro desafio foi subir na marquise do Colégio para pegar a bola que havia chutado. É que a bola ficou presa no telhado e para subir até lá, meus amigos, a ‘empreitada’ era árdua, já que o muro que dava acesso tinha mais de três metros de altura. E Canelau visivelmente não se sentia confortável. Isso para não dizer que ele morria de medo de altura.

Foi Roberto que deu ‘cadeirinha’ para que Canelau segurasse no muro e pudesse iniciar a escalada. Depois disso, sem poder olhar para baixo, ele colocou a primeira perna na pilastra e alavancou o corpo para cima. É bem verdade que muitos colegas faziam isso de olho fechado, numa rapidez que nem se pode imaginar. Porém, Canelau sofria de ‘vertigem’ e vocês podem imaginar o que isso representa. Pânico, era o sentimento mais suave que se abatia nele!

Finalmente, ele atingiu o telhado e partir dali, bastava pisar entre as telhas para não as quebrar com o peso e provocar um tombo perigoso. Então, ele foi indo bem devagar, quase engatinhando pelo íngreme telhado, até vislumbrar a maldita bola que insistia em não se mover com as pedras que Canelau arremessava, tentando deslocá-la. Tudo em vão. Foi necessário subir mais uns dois metros, telhado adentro, para finalmente pegar a bola e arremessar para a rua.

Agora, uma coisa é certa: se a subida foi um problema, imaginem a volta. Pois é. Lá de cima, ele lembrou da antológica frase de Millôr Fernandes: “O pior do alpinismo é a volta!” Porquanto existe apenas o risco de cair, já que o prazer de poder ‘apreciar’ a vista desaparece por completo!

No entanto, aos trancos e barrancos, o nosso ‘destemido’ Canelau foi obrigado a descer do telhado, inaugurando uma nova modalidade de técnica: “salto no escuro”. O resultado já era esperado: arranhões, ferimentos e entorses nas mais variadas articulações.

A partir daí, Canelau encerrou a promissora carreira de jogador, preferindo esportes mais amenos, que não exigissem escaladas ou algo assim…

 

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