Disco: ““Saga of the Good Life and Hard Times”, com Nina Simone.

O nome de batismo era Eunice Kathleen Waymon. É bem verdade que durante um bom tempo ela podia ir para todos os cantos sem ser importunada. Mas isso, só foi possível até completar 20 anos. Daí para frente, ela iniciou uma carreira musical e passou a ser conhecida como Nina Simone: cantora, pianista e compositora. O fato é que ela foi bem mais do que isso, minha gente, pois tornou-se também uma das mais renitentes ativistas pelos direitos civis nos EUA.
Dona de uma linda e vigorosa voz, Nina Simone parece ter embutido no seu canto um sem número de outros sofrimentos. Surgidos na dor dos negros norte-americanos, cujos os destinos nem sempre foram alvissareiros. Eram tempos difíceis! Tempos de muita dor, perseguição e desesperanças. Época em que os negros já nasciam com o espírito conformado para a “sina” que se iniciava. E por infortúnio, ou eles buscavam descobrir o talento que poderia lhes render algum “salvo-conduto” ou estavam predestinados a sofrer toda sorte de humilhações.
Foram tempos em que os homens, as mulheres e as crianças usavam a música e a dança como expressão de “fala”. E o que aquelas palavras diziam, meus amigos, inexoravelmente, eram apelos por liberdade e justiça. Um clamor que o homem branco teve muita dificuldade para entender. Como castigo, viu-se obrigado a reconhecer o enorme valor da arte negra. Arte baseada no ritmo e na melodia, nas letras das canções e nas danças… Enfim, arte nascida dessa maravilhosa negritude! E foi preciso muito, muito tempo para que um dia um branco dissesse: “Black is beautiful”!
Talvez, por isso, é que Nina Simone tenha construído uma personalidade “endurecida” por tanta revolta. E inconformada, ela conseguiu expressar no seu canto toda emoção que uma criatura pode externar… Uma verdadeira “expiação vocal”!
O CD em questão, “Saga of the Good Life and Hard Times”, é uma compilação de 16 consagradas canções da carreira de Nina. E ao ouvirmos “Ain’t got no / I got life” podemos ter a dimensão do que é o “não ter” na vida de muitos irmãos…

Disco: Trilha sonora do filme “O ascensor para o cadafalso”, com Miles Davis.

Pode-se dizer que o clima “noir”, criado entre 1958 e 1959, foi ligeiramente antecipado nesse primeiro longa-metragem de Louis Malle, “O ascensor para o cadafalso”, de 1957. Nesse bom filme, do início ao fim, o clima alcança sua plenitude. E para completar a missão, ninguém melhor do que Miles Davis para criar a “costura” perfeita entre o enredo da história e a trilha sonora. Meu Deus! Miles se superou completamente nesse desafio, minha gente. Ao compor a soberba trilha sonora, ele atingiu a um nível de dramaticidade musical jamais imaginado. Ao longo do filme, o trompete de Miles mergulha de cabeça na atmosfera da história. Sem medos ou remorsos, como os personagens. Confesso que fiquei arrepiado ao assistir ao inebriante filme e perceber o drama de Florence (Jeanne Moreau) e de Julian (Maurice Ronet). Por sinal, a extraordinária cena do passeio noturno de Jeanne Moreau pelos “Champs-Élysées”, tendo ao fundo o sopro angustiado de Miles Davis, sem dúvida, desenhou vivamente a dimensão do drama! E de algum modo, meus amigos, todos nós ficamos na torcida para que o “final” aconteça. Seja ele qual for…
O filme “Ascensor para o Cadafalso” foi o drama policial que introduziu Louis Malle no cenário do cinema francês e narra a história de amor e de um crime quase bizarro. E como um bom filme francês, ele trabalha as imagens com profunda elegância, a exemplo de Truffaut, o grande mestre do gênero “noir”.
Milles Davis viveu uma temporada em Paris, em 1949, assim como Sidney Bechet e Charlie Parker. Esta viagem mudaria para sempre o destino de Miles. Segundo ele, “jamais havia recebido nos Estados Unidos tamanho “carinho e admiração” pelo meu trabalho”. Em Paris, Miles conheceu Pablo Picasso, tomou café com Jean-Paul Sartre e viveu tórridos romances que, no fundo, reacenderam a chama do talento e da genialidade, bem como das suas inseparáveis “sombras”…

Disco: “The more I see you”, com Oscar Peterson, Benny Carter, Clark Terry e Ray Brown.

Todos nós tivemos na infância ou adolescência os grupos prediletos de amigos, feito um “clube de esquina”, não é verdade? Pois é. O nosso clube ficava lá na ladeira da Zamenhoff, no velho e bom Estácio do Rio de Janeiro, ainda sem intervenção federal. “E pela nossa lei, a gente era obrigado a ser feliz!”, já dizia Chico Buarque. Céus! Nós éramos felizes, disso eu não tenho dúvida alguma, meus amigos. Éramos os verdadeiros “bandoleiros” da imaginação… Afinal de contas, todos os dias aconteciam surpresas e aprendizados que, no fundo, ajudaram a formar o nosso caráter: tanto coletivo, quanto individual. E, pelo visto, deu certo. Acredito que funcionou bem, pois ninguém virou pilantra, bandido ou algo assim. Muito ao contrário! Haja visto que todos se tornaram pessoas do bem, ativas e competentes nos seus afazeres profissionais e pessoais… Ah, bons tempos aqueles!
Curiosamente, ocorre o mesmo na música. Porquanto podemos observar os grupos afins se aproximando e celebrando os encontros. Todos eles. É bem o caso dessa turma endiabrada, capitaneada pelo mestre Oscar Peterson. Meus Deus, que maravilhosas composições saíram desses encontros de amigos. Lado a lado, Oscar Peterson, Benny Carter, Clark Terry, Ray Brown, Lorne Lofsky e Lewis Nash aprontaram um bocado…
O CD, muito bem intitulado “The more I see You”, é uma verdadeira pérola e traz nove maravilhosas melodias para o deleite de todos. E não é que eles ainda tiveram a coragem de tocar “Gee Baby, Ain’t I Good to You”. Caramba… Já imaginaram se eles fossem melhores, o que seria dessa “garota”?!
Após ouvir algumas vezes o grupo, eu voltei a me lembrar do nosso clube de infância. Lembrei-me com saudades dos amigos Luiz Henrique, Edinho, Isaac, Roberto Brasil e outros mais. Assim, envio daqui o meu saudoso abraço e a torcida de que a vida tenha sido generosa com todos!

Disco: “Ballads – Remembering John Coltrane”, com Karrin Allyson.

Devo reconhecer que na época eu não compreendia o significado daquele encontro. Sabia, ao menos, que as pessoas que estavam ali eram importantes e só por isso já representava muito para mim. É que criança é bicho ingênuo e se alegra com qualquer coisa, não é verdade?
O lado bom da história era poder tomar sorvete à vontade, sem cerimônia ou economia. O lado ruim, no fundo, era a persistente dor de garganta, que me proibia de falar. E eu era um tremendo tagarela, meus amigos. Fazer o quê?!
No entanto, só bem mais tarde é que eu fui entender que não havia necessidade de operar as minhas amídalas. Afinal, eu era um menino de apenas oito anos. E só porque a garganta inflamava de vez em quando, foram arrancar a pobre coitada?
O que sei é que o mundo, então, girou mais um bocado. Talvez, por ironia, ele me colocou frente aos melhores cantores e cantoras. Ainda mais no jazz, que desde a adolescência eu já apreciava, vejam vocês. De lá para cá, eu tenho escutado muitas preciosidades e verdadeiras pérolas, sorte a minha. E também algumas coisas ruins… Paciência!
Também é verdade que eu tenho escutado de alguns amigos e leitores que o meu gosto musical é bastante ortodoxo, uma vez que pouco me abro para as “novidades” que vivem surgindo no cenário musical. Sei não. Pode até ser que as minhas preferências no jazz sejam conservadoras. Mas, por certo, não sou teimoso. Tenho procurado ouvir uma coisinha nova aqui e outra acolá. É bem o caso dessa norte-americana do Kansas, Karrin Allyson. Confesso que nunca escutara nada dela e olha que já é “cinquentona”. Mas, enfim, topei a parada e adquiri dois álbuns. Este primeiro, intitulado “Ballads – Remembering John Coltrane” deixou-me intrigado à medida que homenageia um monstro sagrado do jazz.
Após ouvir algumas faixas, eu cheguei a conclusão de que Karrin é boa cantora sim, mas nada excepcional. Canta com suavidade e quase sempre opta pelos médios sonoros, região em que se sente visivelmente mais confortável. Os arranjos e os acompanhamentos, por sua vez, são muito bons. Principalmente o sax tenor de James Carter, que passeia nas melodias homenageando o estilo Coltrane de tocar. Coisa linda!
Agora, pelo sim ou pelo não, após as audições, a única dúvida que ainda permanece em mim é se Karrin Allyson fez cirurgia da garganta. Sei lá… De repente me bateu uma saudade de sorvete de flocos… Hummmm!

Disco: “Sophisticated Lady”, com Ella Fitzgerald e Joe Pass.

Convenhamos, minha gente: disco “ao vivo” é encrenca pura! Poucos escapam ilesos, isso sim, à medida em que a captação do som dos instrumentos e da voz é algo muito difícil e delicado. Geralmente, ela requisita uma competente engenharia e equipamentos de altíssima qualidade. E além disso, tem a questão da acústica do ambiente em que se deseja gravar o disco ou DVD. Porquanto nem sempre a acústica favorece e aí, o que é mais comum, o resultado costuma sair abaixo do aceitável. Paciência!
Por conta disso, confesso, diversas vezes eu deixei de comprar determinados CDs com o selo “Ao vivo”. No fundo, é uma pena, uma vez que os músicos envolvidos até valiam o risco. Vejam o caso deste CD da Ella Fitzgerald e do Joe Pass, intitulado “Sophisticated Lady”, que foi gravado ao vivo em duas sessões: uma em Tóquio e outra em Hamburgo.
Muito embora a qualidade de gravação seja razoável, o que se observa, nitidamente, é a perda do conhecido “palco sonoro”. De fato, tudo fica meio embolado e sem grandes definições do posicionamento dos músicos. Joe Pass, craque de primeira grandeza, até que conseguiu se sair bem, pois os solos de guitarra não ficaram tão comprometidos. “Wave”, por exemplo, ficou deslumbrante e, por certo, nosso Tom Jobim ficaria orgulhoso. No entanto, quando a nossa divina Ella Fitzgerald começa a cantar “Georgia on my mind”, percebe-se um certo “descompasso” entre a voz e o acompanhamento de Joe Pass. Um verdadeiro pecado!
De toda forma, ouvir Ella Fitzgerald é sempre uma delícia. E melhor ainda quando ao seu lado tem um mestre como Joe Pass. Dá uma vontade danada de deitar numa boa rede cearense, deixar o som rolar e ai, então, repassar nos pensamentos os bons momentos da vida. Céus… Que maravilha é viver!

Disco: “Being myself”, com Lena Horne.

Havia nos Estados Unidos, no início dos anos 1940, uma enorme compulsão por musicais, quase sempre ricos e bem ensaiados. Com isso, os atores e atrizes eram “convidados” a se transformarem em talentos performáticos. Caso contrário, não prosperavam em suas carreiras, uma vez que somente os bons dançarinos, sapateadores e cantores, ao mesmo tempo, sobreviviam nos tempos da grande indústria cinematográfica norte-americana.
Por conta disso, eles protagonizaram centenas de grandes musicais, com ou sem histórias interessantes a serem apresentadas. O que valia naquela época, minha gente, era o resultado das bilheterias. Tanto que na Broadway todas elas estavam sempre lotadas e os gerentes ávidos para contar as inúmeras cédulas de dólar. Sim! Foram bons tempos para eles!
No bojo dessa onda, é verdade, pipocaram muitos talentos e outros nem tanto assim. É bem o caso da nossa Lena Horne. Dona de uma voz mediana, sem grandes extensões e variações, Lena viu-se obrigada a se tornar cantora, pois atriz ela já era, sendo consagrada pelo seu rosto bonito e atuações bem-comportadas, como desejavam os diretores dos grandes estúdios.
Mas é aquela tal história: “em terra de cego”… E justiça seja feita, Lena Horne soube escolher um repertório apropriado e com ele defendia o “pão nosso de cada dia”.
Contudo, este CD “Being myself”, de 1997, nós pegamos a Lena já na sua “descendente” e o resultado foi muito ruim, pois nem mesmo os fabulosos músicos que acompanhavam puderam “evitar o naufrágio”. Ainda que se possa louvar o repertório de belas melodias e “contidas” interpretações, no final, o melhor a fazer é lembrar de outras épocas dela em que a voz, ao menos, não escorregava tanto… Portanto, perdão, amigos!