Literatura: crônica “Histórias de Professores” – Parte 4.

Aquele período dos anos 70 e 80, no Rio de Janeiro, foi de muita efervescência para os professores que trabalhavam nos cursinhos pré-vestibulares. É que havia uma ferrenha disputa entre os inúmeros cursinhos para ver quem aprovava mais no vestibular. Verdade é que eles gastavam verdadeiras fortunas em propagandas nos jornais e TV, cada um afirmando que possuía a melhor equipe de professores, as maiores salas de aula e o material didático mais adequado possível. Naquela época valia qualquer esforço para conseguir o disputado aluno, desde concurso de bolsas de estudo aos treinamentos de provas simuladas no próprio Maracanã, local onde aconteciam as provas do vestibular unificado.

Lembro bem que em 1973 eu era o novato na equipe de quinze professores de química, com apenas 22 anos de idade. E evidentemente, por ser novato, peguei as últimas 13 aulas da grade no período noturno, sendo 8 em Madureira e 5 em Niterói. Ou seja, era o que cabia a um “soldado raso” naquele batalhão de professores com capitães, majores, coronéis e até generais.

Contudo, como dizem por aí, o “tempo” é o melhor aliado do homem. Por isso, passados apenas três anos, eu já tinha a patente de coronel e era respeitado na equipe. Porquanto na hora que a equipe se reunia para resolver as questões e divulgar o gabarito da prova do vestibular, sim, o “bicho pegava” e muitos majores, coronéis e até generais sumiam do quartel pois, no fundo, tinham mais fama do que competência…

No entanto, o que eu gostaria de contar era o caso ocorrido com o Reinaldo, o melhor professor de matemática do cursinho. Ainda que o tratassem como capitão ou major, por ser autodidata, sem ter finalizado nenhum curso superior, Reinaldo era, antes de tudo, “auleiro”. E dos melhores, meus amigos!

O antológico “causo” se passou em um outro cursinho, onde Reinaldo dava aulas. Certo dia o coordenador geral do curso procurou o Reinaldo para solicitar a indicação de um professor de inglês. Reinaldo, imediatamente, disse que conhecia o melhor professor de inglês com quem trabalhara.

– Ótimo, Reinaldo. Peça para que ele venha falar comigo urgente.

– Tudo bem. Eu encontro com ele hoje e transmito o seu recado. Só tem um pequeno problema: é que ele usa aparelho para surdez e teve que trocar as pilhas e só chegam depois de amanhã. Portanto, amanhã, quando ele vier para a entrevista estará sem o aparelho. Desse modo, para não o constranger sugiro que o senhor fale bem alto com ele.

– Combinado!

Quando chegou a noite, a primeira coisa que o Reinaldo fez foi acertar o encontro com o Miranda, professor de inglês.

– Miranda, é o seguinte: o coordenador geral do curso é surdinho. Portanto, quando você for para a entrevista, não se esqueça de falar bem alto. Ele fica “pau da vida” quando alguém fala baixo com ele… sabe como é?!

-Tranquilo. Deixa comigo!

Bem, amigos, o relato dos funcionários do cursinho foi rico em detalhes. Segundo eles, o Miranda, professor de inglês, foi conduzido até a sala do coordenador geral. Lá, chegando, deu-se o seguinte diálogo:

BOM DIA, PROFESSOR!

BOM DIA…

O SENHOR RECEBEU AS MELHORES REFERÊNCIAS… SABE QUE SÃO APENAS DEZ AULAS?!

– SEM PROBLEMAS!

O coordenador geral, já incomodado com a gritaria, perguntou?

O SENHOR ESTÁ GRITANDO PORQUÊ?!

FALO ALTO PORQUE SOUBE QUE O SENHOR É SURDO…

SURDO PORRA NENHUMA! QUEM LHE DISSE ISSO?

Aí, os dois olharam para o Reinaldo que acabara de entrar e perceberam que era uma “pegadinha”. Sem que combinassem, deram uma bela e sonora gargalhada.

– Esse Reinaldo não vale nada…  É  um  pilantra, isso sim!

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Memórias: “O despertar da força!”

Pode até ser que para muitos não constitua surpresa. Mas que é intrigante, lá, isso é. Sim, eu me refiro as mudanças que ocorrem na trajetória de determinadas criaturas. Para mim, confesso, acho incrível perceber as guinadas que o “volante da vida” apronta. No fundo, isso é pura “magia” do universo, conspirando contra os destinos de algumas criaturas.

Eu poderia até começar essa história por mim, meus amigos, pois experimentei diversas vezes esse toque mágico do universo. Então, deixem-me contar.

Quando era adolescente, ainda no curso ginasial, não tinha em mente nenhuma profissão a adotar. Creio que somente no último ano do ensino médio é que me bateu o desejo de ser “bioquímico”. E por certo, era por influência da brilhante carreira que minha cunhada empunhava. Por conta disso, eu sonhava com aqueles incríveis laboratórios, cheios de vidros e bugigangas e me imaginava como um verdadeiro “cientista”. Porém, o fato é que o sonho não suportou mais do que dois anos. Porquanto ainda no segundo ano do curso de Bioquímica da UFRJ eu comecei a dar aulas de química no cursinho pré-vestibular que havia estudado, dando início a uma longa carreira do magistério…

Do cursinho aos grandes colégios do Rio de Janeiro bastaram apenas cinco anos. Dali para frente, virei professor. E com o tempo, sorte a minha, tornei-me educador! Ah, minha gente, eu fui professor e coordenador de diversas escolas, mas tenho a certeza de que aprendi muito mais do que ensinei.

Veio o fim de um casamento, a aposentadoria especial e a grande chance de dar outra guinada no volante da vida e buscar novos ares. Vim para Florianópolis e aqui eu acabei “descobrindo” que era capaz de desempenhar outras atividades. Tornei-me coordenador editorial de uma importante revista de São Paulo e comecei a escrever os primeiros textos sobre cinema e jazz. Daí até o livro publicado, foi só um pulinho.

Como fui professor por tantos anos, aproveitei a embocadura e comecei a ministrar “Cursos sobre a História do Jazz”. E estes cursos estão abrindo outras portas: rádio, festivais e o segundo livro a ser editado ainda este ano. Ao que tudo indica, 2018 ainda promete muitas surpresas agradáveis!

Por fim, devo dizer que, de alguma maneira, isso me fez recordar a saga do “Star Wars”. Céus… Lembrei-me do primeiro episódio da série (Star Wars IV), quando Obi-Wan Kenobi revela a Luke Skywalker que “a força” está com ele…

Pois é. Somente hoje eu percebo que a “força” está dentro de todos nós… Sim, podem acreditar nisso. Para tanto, é necessário apenas que aprendamos a confiar em nosso potencial latente. A partir daí, convenhamos, a vida vai nos dando coragem e apontando os novos desafios que surgem.

Aliás, como diria Obi-Wan Kenobi: é apenas o “despertar a força”!

Disco: “The Phenomenal Dukes of Dixieland”, com Louis Armstrong.

Tudo bem, meus amigos, é verdade que eu ando “saudosista” por demais… Alguns dirão que é por conta da idade, que beira os 67. Sim, pode até ser. Mas o fato é que eu não posso ouvir um disco antigo e logo, logo começam as lembranças. Às vezes, reconheço, é por causa de algum aspecto particular e especial. Ou por interpretação marcante. Mas, no caso desse disco, eu confesso: a “culpa” foi do meu filho Gabriel. Deixe-me explicar. É que eu estava lendo um magnífico artigo sobre o filme canadense, “As invasões bárbaras”, de Dennys Arcand, e me lembrei do Gabriel. É que já fazia mais de meia hora que ele estava na sala de música, muito quietinho por sinal. Convenhamos, para uma criança de três anos (na época), bem “ativa”, isso é o mesmo que uma década para nós adultos. Pois bem, fui ao encontro dele e lá estava o Gabriel fuçando os meus discos. Quando cheguei, ele olhava fascinado para a capa desse disco. Ao perceber a minha presença, assustado, virou-se e disse: “olha, papai, eu vou tocar essa música para você. E você vai ficar bem feliz!”

É claro que perdi a coragem de adverti-lo pela bagunça que fazia. Apenas coloquei o CD no aparelho e abracei-me a ele. Ao ouvir as canções, aí, sim, eu pude confirmar a felicidade que o Gabriel já previra… Coisa linda!

https://www.youtube.com/watch?v=2MYWw9TkwGA

dukes

Disco: a beleza incontida do “Nouvelle Cuisine”

Olha, minha gente, já fazia um bom tempo que eu não limpava a estante de discos. É o tal negócio: a gente “finge” que se esquece que é pra ver se a poeira baixa em outras paragens… Mas, enfim, topei o desafio e botei a mão na massa. Ou melhor, na flanela!
Só aí é que eu vi a sandice que cometia, pois acabei me deparando com verdadeiras “pérolas” no meu pequeno acervo, que nem lembrava mais… É bem o caso desse belíssimo grupo “Nouvelle Cuisine”. Meu Deus do Céu, que som vigoroso e elegante essa turma produziu. Uma maravilha! Basta ouvirem a magnífica interpretação deles em “Embraceable You”. O que é aquilo, sô?! E se não bastar, sintam a inebriante atmosfera criada em “My funny Valentine”. É coisa do outro mundo!

Contudo, se ainda assim não se convencerem do que estou falando, então, apelo para o irretocável francês declamado em “Riquixá (Pousse-Pousse)” ou para o arranjo de “Blues in the night”.

A verdade é que o Nouvelle Cuisine foi um desses raros grupos brasileiros que despontou e depois sumiu. Só para nos deixar com a garganta seca. Isto porque, meus amigos, somente agora confesso, eu sempre ouvi este CD acompanhado por uns bons vinhos. Evidentemente, todos eles foram “furtados” da adega do meu velho pai. Torço apenas para que ele não saiba disso. Afinal, sou professor. Mais “liso” do que vidro ensaboado! Mas, o fato é que aquele último “Bourdeaux” deixou saudades, lá, isso sim! Até hoje eu me lembro dele. E “dela”, então, nem é preciso dizer mais nada…

Pois é. Ao menos, restou o disco para me consolar. Enfim, são coisas da vida!

https://www.youtube.com/watch?v=Y25pepRx0Eo

NOUVELLE

Disco: “Take Love Easy”, com Ella Fitzgerald e Joe Pass.

Se há algo que me espanta nessa vida é ver a facilidade que algumas criaturas têm para determinadas atividades. E quando eu digo facilidade, meus amigos, refiro-me muito mais àquela capacidade de fazer “o belo” acontecer, aparentemente sem muito esforço. Ou seja, construir verdadeiras obras-primas de modo simples e natural. Como podem?!
Confesso a vocês: no fundo, eu morro de inveja dessa gente. Sim! Porquanto eles produzem preciosidades, aos olhos de todos, mas que aparentemente parecem tão banais, tão corriqueiras…
Só para ilustrar, eu trago aqui o exemplo do disco da Ella Fitzgerald e do Joe Pass, intitulado “Take Love Easy”. Meu Deus do Céu, como pode alguém cantar de modo tão simples e, ao mesmo tempo, tão arrebatador?! Isso, sem falar que o nosso Joe Pass nos passa a sensação que o violão é o mais fácil dos instrumentos, tal a fluência com que ele executa os brilhantes acompanhamentos. Só ouvindo!
E ao ouvir novamente o CD nesta quarta chuvosa, eu comecei a me dar conta de que isso é bem maior do que parece. Calma aí… Eu tentarei explicar.
Vocês já perceberam que todas as vezes que a gente tentar “sofisticar” determinadas coisas, ela acabam perdendo a graça, a naturalidade e até mesmo a beleza? Pois é. Parece que a gente possui uma irremediável tendência de tornar tudo mais complicado. De querer, até mesmo, “reinventar a roda”, buscando explicações mirabolantes para aquilo que poderia ser simples e comum. Tão somente!
Aliás, já faz um bom tempinho que um matemático greco, de nome Arquimedes, precisou empreender profundas elucubrações para resolver um complexo dilema apresentado pelo rei. Segundo reza a lenda, o rei Hierão queria saber se uma coroa encomendada ao ourives era de ouro puro ou se haveria material de qualidade inferior na sua composição. O competente Arquimedes sabia que para isso deveria determinar a densidade da coroa e comparar com a densidade do ouro. A questão se complicava à medida que para medir o volume, seria necessário derreter a dita cuja. Arquimedes só descobriu a solução quando entrou numa banheira com água e, então, observou que o nível da água subia quando ele entrava. Com isso ele concluiu que para medir o volume da coroa bastava mergulhar a coroa em água e calcular o volume de água deslocado, que deveria ser equivalente. Segundo a história, ele saiu nu, correndo pelas ruas e gritando eufórico: “Eureka! Eureka!” (Achei! Achei!). Assim, foi criado o famoso “Princípio de Arquimedes”, como ficou conhecida a “solução” descoberta pelo grande cientista grego.
Moral da história: já que não somos Arquimedes, convenhamos, nós não precisamos ficar nus para provar os nossos valores. Por outro lado, se pensarmos bem, vale a pena nos desnudarmos de alguns bens “desnecessários”, não acham?!

 

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Memórias: aprendendo a soletrar o mundo…

Está chegando ao fim este “reencontro” com o Rio de Janeiro. E eu sinto que a sorte, de fato, sorriu para mim. Sim, meus amigos. É que o destino foi generoso e resolveu me presentear com maravilhosos “encontros”, ao me oferecer pessoas especiais que marcaram para sempre a minha alma!
Talvez, por isso, eu tenha adquirido um pouco mais de esperança no meu país, na minha gente e no nosso futuro. Por certo, tem horas que nós chegamos a duvidar de muitas coisas. Pois é. Paciência!
Contudo, é importante manter ao nosso lado grandes amigos. Afinal, eles sempre dão um jeito de nos “reposicionar” frente a vida…
Então, quero agradecer a cada um desses amigos. Afinal, foi com eles que eu aprendi a “soletrar” o mundo!
Um abraço e obrigado por tudo!

Memórias: “Longe desse insensato mundo!”

Que ele era um homem diferenciado, disso ninguém duvidava. E nem mesmo os filhos conheciam suas andanças, suas paixões e seus amores extraviados. Porquanto era uma criatura bastante reservada. Lá, isso sim!

O que eu posso dizer, meus amigos, é que reencontrá-lo na pacata e distante Barbacena foi algo emocionante. Somente após aquela tarde, ouvindo suas histórias, é que eu pude perceber o quanto a vida muitas vezes é injusta…

Ali ao meu lado, de fato, estava a mais incrível criatura que eu já conhecera nesta vida. Um homem brilhante. Ético. Culto e generoso. No entanto, devo reconhecer, nem mesmo tais atributos tornam um homem feliz e realizado. E Luiz sabia disso. Tanto é verdade que ele não se surpreendeu quando Glória, sua companheira, mais uma vez reclamou com veemência sobre a desarrumação da sala de estar…

Sem nada dizer, Luiz foi no quarto, organizou as duas malas e, ao passar pela cozinha, anunciou: “eu estou indo embora. Vou para Jackson!”

– E por diabos, onde fica isso?, perguntou Glória.

– Tennessee!

– Tá… pode ir. Mas, ao menos, penteia o seu cabelo!

Bem, meus amigos, já se passaram vinte anos. Confesso que eu gostaria de ter notícias do amigo Luiz. Saber se a vida foi generosa com ele, essas coisas que o destino apronta…

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