Carlos Holbein Antunes de Menezes

 

Quando comecei a escrever para revistas, em abril de 2000, fiz-me duas perguntas: o que pretendo com essas crônicas? E a quem eu quero me dirigir?

Na verdade, eu demorei um bom tempo para descobrir as respostas, porquanto eram muitas! Precisei, por exemplo, atingir 68 anos de idade e estar feliz com isso. Ter alcançado 35 anos numa vitoriosa carreira no magistério, onde aprendi bem mais do que ensinei. Talvez também tenha sido necessário consumar dois casamentos maravilhosos, muito embora sentisse falta dos filhos que não vieram… No entanto, a maior razão para eu escrever é acreditar que tenha algo a dizer para alguém. Sem o quê, convenhamos, nada disso teria sentido!

No fundo, eu creio que o que me move na direção da literatura é a grande oportunidade de fazer as minhas “expiações”. Tão somente! Ou seja, enfiar a mão na “caixa-preta” da memória afetiva e retirar de lá o que puder… E desse modo, ao revisitar antigos episódios, quem sabe eu possa renovar os laços que estão no presente?! O mais importante é convidar o leitor a fazer uma longa “viagem” comigo.

Quando me disponho a escrever, fico imaginando que há nesse “mundo mundo vasto mundo”* alguém que deseja se identificar nas minhas histórias. E dizer: eu também sinto isso! Ou, então, quem sabe, eu apenas queira ouvir de alguém: você me tocou! Seria sinal de que valera a pena!

Nas minhas crônicas há um aspecto bem marcado: opto sempre pela primeira pessoa do singular. Porquanto é mais íntimo e convidativo. Com isso, quebra-se o constrangimento, estabelece-se a tácita cumplicidade e o “rapto” é concedido afinal.

As crônicas pretendem desencadear no leitor alguns desejos. De modo óbvio, o de “embarcar” na história. E logo a seguir, o de refletir sobre o “em volta” dela. Isso porque, meus amigos, raramente as crônicas falam sobre o cinema ou o jazz de forma direta. Muito ao contrário, são os filmes e os discos que pegam carona no texto, como pano de fundo.

Os artigos são destinados a um público ávido por informações: às criaturas que ao fazerem uso de uma leitura rápida e instigante possam ter um entretenimento agradável. Como professor, sei bem que a pior coisa que uma pessoa gosta de ouvir é: “você não entende disso”. Sendo assim, sempre tive o cuidado de não ferir ninguém ou me mostrar arrogante. Até porque, convenhamos: o conhecimento é algo para ser repartido, socializado e difundido.  E, sempre que possível, sem cerimônias!

O escritor tem a obrigação de seduzir o leitor. Primeiro para que o leia. Depois, para que tome gosto pela leitura. Mas, acima de tudo, para que se sinta tentado a prosseguir nesse maravilhoso caminho.

Um grande abraço a todos e boa diversão!

(*Carlos Drummond de Andrade: “Mundo mundo vasto mundo, / se eu me chamasse Raimundo / seria uma rima, não seria uma solução. / Mundo  mundo vasto mundo, / mais vasto é o meu coração.”)

O  GRITO DO IPIRANGA

Canelau sempre foi um moleque voluntarioso, devemos reconhecer. E sabia buscar soluções sensatas para todo tipo de problema que surgia. Na idade dele, convenhamos, problemas e desafios não faltavam, minha gente. Ora ele sentia raiva por não poder usufruir dos ‘bens de consumo’ que alguns vizinhos faziam questão de esnobar sem medida. Ora se sentia impotente por não poder ‘encarar’ algumas pendengas familiares… Paciência, fazer o quê?!

É bem verdade que a vida era difícil para quase todos daquele prédio. Afinal, o Estácio era um bairro de classe baixa. Poucos ali possuíam bons recursos. E a família de Canelau, não fosse muito numerosa, até seria ‘abastada’, uma vez que o seu pai era funcionário público de uma grande empresa estatal. Mas, cá entre nós: sustentar oito bocas famintas não é fácil não! E, ainda por cima, tem roupas para comprar, dentes pra cuidar e toda sorte de despesas que filhos pequenos apresentam…

Talvez, por isso, Canelau desejasse ‘crescer’ o mais rápido possível. Porquanto, somente assim, ele poderia dar o “grito do Ipiranga” tão sonhado. Mas, para tanto, ele ainda deveria atravessar um sem números de problemas e desafios. Segundo consta, o primeiro desafio foi subir na marquise do Colégio para pegar a bola que havia chutado. É que a bola ficou presa no telhado e para subir até lá, meus amigos, a ‘empreitada’ era árdua, já que o muro que dava acesso tinha mais de três metros de altura. E Canelau visivelmente não se sentia confortável. Isso para não dizer que ele morria de medo de altura.

Foi Roberto que deu ‘cadeirinha’ para que Canelau segurasse no muro e pudesse iniciar a escalada. Depois disso, sem poder olhar para baixo, ele colocou a primeira perna na pilastra e alavancou o corpo para cima. É bem verdade que muitos colegas faziam isso de olho fechado, numa rapidez que nem se pode imaginar. Porém, Canelau sofria de ‘vertigem’ e vocês podem imaginar o que isso representa. Pânico, era o sentimento mais suave que se abatia nele!

Finalmente, ele atingiu o telhado e partir dali, bastava pisar entre as telhas para não as quebrar com o peso e provocar um tombo perigoso. Então, ele foi indo bem devagar, quase engatinhando pelo íngreme telhado, até vislumbrar a maldita bola que insistia em não se mover com as pedras que Canelau arremessava, tentando deslocá-la. Tudo em vão. Foi necessário subir mais uns dois metros, telhado adentro, para finalmente pegar a bola e arremessar para a rua.

Agora, uma coisa é certa: se a subida foi um problema, imaginem a volta. Pois é. Lá de cima, ele lembrou da antológica frase de Millôr Fernandes: “O pior do alpinismo é a volta!” Porquanto existe apenas o risco de cair, já que o prazer de poder ‘apreciar’ a vista desaparece por completo!

No entanto, aos trancos e barrancos, o nosso ‘destemido’ Canelau foi obrigado a descer do telhado, inaugurando uma nova modalidade de técnica: “salto no escuro”. O resultado já era esperado: arranhões, ferimentos e entorses nas mais variadas articulações.

A partir daí, Canelau encerrou a promissora carreira de jogador, preferindo esportes mais amenos, que não exigissem escaladas ou algo assim…

 

telhado

CHET BAKER: CRIME E CASTIGO

É sabido que a vida de Chet Baker foi bastante conturbada. Nela, sempre houve um complicado dualismo: ou aparecia o doce e terno Chet Baker, com seu maravilhoso trompete e delicada voz, ou surgia o ‘dependente químico’ da heroína que, a partir daí, desencadeava uma sucessão de brigas, confusões e violências. Talvez, alguns leitores poderão perguntar: “mas, como pode isso acontecer, Carlos?!”

Sim! Ao que tudo indica, meus amigos, a natureza humana revela mais contradições do que somos capazes de atinar. Se por um lado isso representa grande lástima, por outro, também é verdade que essas ‘almas conflitadas’ têm nos ofertado momentos de raro prazer. Talvez por isso, nós nos tornamos benevolentes e, muitas vezes, ‘perdoamos os deslizes’ desses monstros sagrados.

No fundo, essa é uma questão antiga. Pois de algum modo, todos nós possuímos impulsos feito o de “Ramanovich Raskolnikov”, de Dostoiévski, em “Crime e Castigo”.
É que na obra de Dostoiévski, uma questão moral é colocada, desde cedo: o assassinato de uma pessoa reles seria moralmente errado se o objetivo fosse nobre? Afinal, no antológico romance, Raskolnikov acredita que todas as pessoas superiores acabam cometendo assassinatos para atingir os seus objetivos. E que, no final, são até justificáveis, pois representam grandes ‘serviços’ para a humanidade…

O que sei dizer é que o nosso Chet Baker, nascido em Oklahoma e criado em um subúrbio de Los Angeles, Califórnia, também sofreu bastante na infância. Ainda muito jovem, ele perdeu um dente em uma brincadeira de rua com outros meninos. Anos depois, ele perderia quase todos em brigas, supostamente com traficantes que vinham lhe cobrar dívidas.
Aos dezessete anos, ele sai da escola e entra para o exército e, em pouco tempo, é transferido para Berlim, para tocar na banda. Aos 22 anos de idade, Chet já se apresentava regularmente por toda Los Angeles. Soube, então, que Charlie Parker estava à procura de um trompetista para acompanhá-lo em sua turnê pela costa oeste dos Estados Unidos e Canadá, iniciando ali uma nova etapa em sua vida.

Por certo, o grande reconhecimento ao talento de Chet só surgiu em 1952, quando Gerry Mulligan começou a formar seu famoso quarteto sem piano e escolheu Baker, com quem já havia tocado em algumas “jam sessions”. O sucesso foi extraordinário e ele se apresentou em diversos clubes por cerca de um ano, antes de Mulligan pegar noventa dias na prisão (por posse de heroína). Depois disso, Chet viajou para a Europa e começou a ganhar prêmios e aplausos.

De volta aos EUA, começou a consumir heroína e a ser preso frequentemente. Sem a autorização para tocar em lugares que servissem bebidas, Chet resolveu voltar para a Europa. Viveu na Itália por quatro anos, onde também foi preso por drogas. Lá, casou-se e teve um filho.

Em 1964, novamente voltou aos EUA, agora dominados pelo “rock” dos Beatles. Daí, como restava pouco espaço para os músicos de jazz, passou a gravar discos comerciais de baixo valor artístico. Nessa mesma época, ele perdeu diversos dentes em consequência de uma briga envolvendo a negociação de heroína. Praticamente, foi obrigado a abandonar o instrumento de 1970 a 1973, quando tentou retomar sua carreira. Em viagem pelo Colorado para visitar um velho amigo, ouviu Dizzy Gillespie tocar em um clube. Foi o início do seu retorno. Quando Gillespie ficou sabendo do esforço de Baker para voltar à cena, ligou para o gerente do famoso “Half Note Club”, arrumando-lhe uma temporada de três semanas em Nova Iorque.

No Brasil, ao se apresentar na primeira edição do “Free Jazz”, em 1985, Baker sofreu uma “overdose” no quarto do hotel e quase morreu. De certo, era o prenúncio. Três anos depois, em um pequeno hotel de Amsterdã, Chet ‘caiu’ do segundo andar do prédio… Nunca se soube, ao certo, se ele cometeu suicídio ou se foi uma queda acidental. Desafortunadamente, essa perda representou para nós tanto o ‘crime quanto o castigo’. E por conta disso, todos nós ficamos órfãos!

 

LAÇOS  &  ENTRELAÇOS

 

Certamente esse é um assunto bastante delicado, difícil até. Isto porque, quase sempre a gente esbarra em suscetibilidades. Vindas de todas as formas. E com isso, o tema acaba virando um verdadeiro tabu. Cheio de ‘não-me-toques’, melindres e outras coisas mais…

De fato, eu me refiro aos aspectos familiares, cujo protagonismo envolve as relações com os pais e os irmãos. Alguém poderá dizer: “Carlos, pelo amor de Deus, isso é ‘casa de marimbondos’, então, é melhor não mexer!”  Sei bem disso, minha gente. E tampouco pretendo levantar o dedo em riste para qualquer familiar. Longe de mim essa intenção!

Na verdade, o tema surgiu nesse período de confinamento, por conta da pandemia. É que para preencher o tempo, obrigatoriamente, nós temos assistido a muitos filmes. Alguns deles, devo reconhecer, foram maravilhosos e nos fizeram refletir sobre o entorno da história. Filmes que nos emocionaram, que apontaram a mira na direção dos tantos ‘nós’ que existem por aí.

Como é habitual, nessas horas, a gente para pra pensar e avalia os ‘ecos’ provenientes. Ecos dos enredos das histórias que, de algum modo, refletem na gente. No fundo, isso é algo bastante interessante, e sadio, à medida que desenvolve a nossa capacidade de observação.

Como pano de fundo dessa nossa conversa, meus amigos, eu irei evocar o belíssimo texto escrito pela blogueira Ivi Kuchpil, do site “Biarticulando”.

Segundo ela, “ao ler à sinopse do filme sul-africano, “Buraco na Parede”, pode-se concluir – precipitadamente, diga-se de passagem -, que estamos diante de mais uma história de ressignificação, quando o personagem principal descobre que tem poucos meses de vida e resolve aproveitá-los de forma intensa e reconciliadora.

Porém, “Buraco na Parede” vai além disso: consegue ser intimista, sensível, engraçado, tudo sem flertar com o dramalhão ou a pieguice.

No centro da história, temos Riaan, sujeito independente, de espírito livre e hedonista que descobre ter um câncer de cólon no estágio quatro.

Com poucos meses de vida pela frente, Riaan, durante um de seus mergulhos diários no mar, conhece Ava e propõe a ela um emprego/aventura: o acompanhar na sua última viagem pela África do Sul, revendo amigos, amores e lugares.

Para isso, Riaan convoca o filho único, Ben, a quem não vê há três anos e que vive no exterior, para ser o terceiro elemento nesta jornada.

Nem tudo serão flores nesta pequena odisseia pessoal: ressentimentos e conflitos também vêm à tona, o que deixa a história ainda mais humana e sem idealizações.

Totalmente falado no idioma africâner e tendo como cenário as estonteantes paisagens de Transkei e KwaZulu-Natal, incluindo a fazenda de café do protagonista, o longa-metragem é um deleite para os olhos. Mas acima disso, deixa uma mensagem que vai além dos créditos finais: a vida é curta e inesperada.

Filme belo e que pode nos levar a uma breve autoavaliação… Recomendo.”

Que bom ter pedido emprestado a Ivi Kuchpil um pouco do seu olhar talentoso. Poupou-me tempo e a agudeza de observação. Com isso, eu criei coragem para empunhar o tema central: família. Peço desculpas a quem se sentir melindrado. Mas meu desejo não é apontar falha ou culpa de alguém. Muito pelo contrário. Se houve enganos na relação familiar, quem sabe, caiba a mim a parcela maior dos movimentos ocorridos? Afinal, fui eu que me afastei dos entes, por motivos que nem vêm ao caso aqui. Simplesmente, foram movimentos espontâneos, quase naturais, como as ondas do mar que criam diferentes desenhos a cada dia.

Todos eles, familiares, foram e continuarão sendo importantes na minha vida. No entanto, chega um momento em que é preciso ‘desatrelar’, quebrar viciados laços que não respondem mais pelos afetos presentes. Prescreveram com o tempo, isso sim. E não cabe nenhum desejo de ‘futucar’ antigas feridas ou episódios distantes…

Talvez seja o caso de apenas sugerir aos interessados que assistam ao filme e extraiam dele o que for conveniente e verdadeiro para cada um. O resto, meus amigos, é tão somente história e imaginação!

 

UM  MAR DE ESPERANÇA

De vez em quando eu paro para observar o meu filho Gabriel. Não que eu deixe de observá-lo no dia a dia. Mas é que algumas vezes isso se impõe de modo mais intenso. Seja por algo diferente que ele apresenta, seja por intuição ‘paterna’ que sugere alguma intervenção.
Sabemos que os filhos têm a tendência de ‘copiar’ alguns modelos dos pais. Até aí, nada demais. Eu também já pratiquei isso. Por certo, inúmeras vezes. Também é verdade que muitas dessas tentativas não deram certo ou, quando muito, não serviram aos meus reais impulsos de vida. Paciência, fazer o quê?! Faz parte do caminho. Aliás, creio, esse parece ser o grande aprendizado da vida: perceber o que nos cabe e o que é indevido. De algum modo, tudo isto me remete ao poema de Drummond, “A flor e a náusea”, que destaca a preocupação com a solidão, ao apontar que as pessoas só tomam conhecimento de fatos trazidos pelo jornal. Como consequência, não há diálogo ou correspondências. Daí a metáfora do último verso do poema, que deixa claro que as notícias do mundo chegam lenta e friamente, sem maior envolvimento. Principalmente quando esquecemos de “soletrar” a vida…

“Quarenta anos e nenhum problema resolvido, sequer colocado. / Nenhuma carta escrita nem recebida. / Todos os homens voltam para casa. / Estão menos livres mas levam jornais / E soletram o mundo, sabendo que o perdem”.

Eu não sei dizer se aprendi a ler o livro da vida de modo correto. Tão pouco posso assegurar que consiga deixar ao Gabriel algum legado precioso nesse sentido. Isso porque, caberá a ele a ‘construção’ dos valores, assim como o uso que fará deles para que tenha uma ordenação mais proveitosa na vida. Oxalá, ele consiga isso, é o que posso desejar!
De todo modo, eu acredito que seja papel dos pais provocar ‘movimentos’ no percurso dos filhos. Obviamente, sem perder de vista que o patrimônio afetivo é algo individual, por mais coletiva que seja a nossa trajetória. Com sorte, poderemos desencadear algumas boas reflexões que, em última análise, promovem ‘crescimentos’. O resto… bem… o resto é com eles, não acham?!

Com o passar do tempo, eu acredito que eles descobrirão onde estão as fiéis amizades, bem como onde encontrar os ‘sócios’ certos para todo tipo de empreitada. Isto, no fundo, constitui a grande ‘peleja’ da vida…

Então, como um bom torcedor, eu irei aplaudir, reclamar e me emocionar com o desempenho do time. Mas sempre na esperança de poder gritar: é campeão… é campeão!!

(Imagens do Gabriel: aos 4 meses, 9 anos e 17 anos)

 

A LONGA ESPERA

Eu nem precisei ouvir o relato do companheiro Ênio para saber que o ‘cerco’ havia se intensificado. Tudo bem. É preciso aceitar que isso faz parte do jogo. Porquanto o papel ‘deles’ é de nos procurar e o nosso é de se esconder. Aliás, a vida da gente é assim mesmo, não acham? Uma coisa é certa: em tudo que observamos no mundo, tem sempre o lado avesso. Tem o forte e o fraco. O bom caráter e o mau caráter e outras coisas mais que não vêm ao caso… Por isso, nós nunca ligamos para o estardalhaço que faziam. Preferíamos permanecer reservados, com poucas conversas. Até porque, nesse ramo de negócio, a ‘discrição’ é algo fundamental, meus amigos.
Ainda assim, por precaução, nós resolvemos adotar algumas medidas, sabe como é?! Nunca se deve pôr em dúvida do que são capazes esses ‘pilantras’. Lembro até quando foi a vez do ‘Berimbau’. Eles foram para as rádios e falaram um monte de sandices. Disseram até que foi a mãe do coitado do Berimbau que havia dado o serviço, fornecendo informações sobre o paradeiro do filho. Caracas! Uma tremenda injustiça, isso sim. Qual mãe deseja ‘entregar’ o filho? Ainda mais um filho carinhoso como ele? Conversa fiada! Dona Odete era de total confiança e jamais denunciaria o filho. No fundo, o que eles queriam era provocar a discórdia entre nós. A velha técnica de nos dividir, semeando desconfianças. Mas, pra cima da gente, não. Somos ‘escolados’!
Por sinal, foi Ênio que lembrou o pensamento do livro de Sun Tzu, “A arte da guerra”. Segundo o livro: “A guerra é um dos assuntos mais importantes do Estado. É o campo onde, a vida e a morte são determinadas. É o caminho da sobrevivência ou da desgraça de um Estado. Assim, o Estado deve examinar com muita atenção este assunto antes de buscar a guerra.”
De certo modo, devo reconhecer, essa questão é até muito simples e não requisita ‘criar planos mirabolantes’, uma vez que a vida em comunidade exige certas posturas. E quem topa viver aqui sabe muito bem quais regras deve seguir. De mais a mais, essa guinada que a vida deu não é culpa de ninguém. No caso do Chau, foi ele que escolheu viver assim… Antes disso tudo acontecer, é verdade, ele era um bem-comportado professor de química, que dava quarenta aulas por semana em cinco escolas diferentes. Mesmo assim, vivia endividado, encalacrado até o pescoço! Cheio de empréstimos para pagar…
Mas não estou aqui ‘chorando pitangas’. É da vida, seu moço! O diabo é que a gente não pode relaxar um minuto sequer. E foi o que aconteceu. Eu conto a vocês.
Depois daquele último assalto ao Banco Boavista, ali no Estácio, ele jurou que iria dar um tempo. Afinal, a grana arrecadada foi boa, mais de duzentos mil cruzeiros. No entanto, os ‘filhos da mãe’ divulgaram que os assaltantes levaram mais de quinhentos mil cruzeiros. Miseráveis. Eles se aproveitam de tudo. Até do roubo alheio, vejam vocês… Por certo, algum gerente pilantra aproveitou para tirar o dele!!
Sim. Eu estava contando sobre o cerco que eles fizeram. Sei que eram mais de dez ‘camburões’ nas imediações do São Carlos. Até aí, tudo bem: nós já estávamos acostumados. Sempre tivemos sangue-frio e não nos impressionávamos com isso. Porém, o que não contávamos era com a ‘deduragem’ de antigos parceiros. E o desgraçado do ‘Pará’ nunca inspirou confiança…
Os primeiros tiros vieram da região da pedreira. Não revidamos, pois não queríamos confirmar a nossa localização para os ‘meganhas’. Havia um pequeno intervalo e a seguir se ouvia outra série de tiros. Foi quando o Chau cometeu o grande erro. Resolveu pular o muro e ir para a rua de trás para facilitar a fuga. Contudo, veio a rajada certeira e duas ou três balas atingiram o peito dele. Caiu do muro, já com o olhar perdido. Talvez pensando na mãe e na tristeza que ela iria sentir. Caramba! Ela não merecia passar por isso, minha gente…

 

(Imagem:  Morro do São Carlos – Rio de Janeiro)

São Carlos

AS  RECORRENTES  ARMADILHAS

Eu tenho pensado bastante nesse tema nos últimos tempos. Sim, meus amigos! É que, vira e mexe, a gente se depara com situações conflitantes ou delicadas. E se pensarmos bem, podemos perceber que nenhum de nós está livre de tais situações ou comportamentos. É da vida… paciência!

De fato, chega a impressionar o número de vezes que plantamos ‘minas’ pela estrada que trilhamos. Sem sequer nos darmos conta que haveremos de percorrer aquele percurso pouco tempo depois. Ou seja: nós somos potencialmente vítimas de nossas próprias ‘armadilhas’…

No entanto, ainda que esse processo seja impiedoso, uma vez que é ‘autoimune’, devemos reconhecer a ‘vocação’ que o homem tem em promover boicotes à sua ascensão e ao seu progresso afetivo ou material. Para muitos de nós, essa tendência parece não ter fim. Porquanto praticamos gestos e ações autodestrutivas reiteradas vezes. E nem mesmo a lembrança do último ‘boicote’ é capaz de nos propiciar salvaguardas.

Basta olharmos para os lados e constataremos um significativo grupo de amigos ou colegas patinando nas ‘peculiaridades’. Com poucas variações nos processos. De tal forma que o observador atento pode até mesmo “antever” os passos desastrosos que serão efetuados por nós ou pelos outros, sem a devida percepção do momento vivido. Ah, minha gente… Isso dói. Dói muito! E o pior de tudo é que iremos repetir exaustivamente as equivocadas posturas. Ironicamente. Como se fosse ‘irrefreável’ o desejo de chafurdar na lama!

O que eu posso dizer é que comigo não foi diferente. Como tantas outras criaturas, eu também plantei em mim inúmeras ‘minas’, sem me dar conta de que elas explodiriam a qualquer momento. Por isso, sangrei pra valer. E sofri bastante… Até que um dia eu aceitei que precisava de ajuda. Céus… Talvez fosse o primeiro sinal de minha possível recuperação. Afinal, em algum lugar dentro de mim havia a crença de que eu podia me ‘restituir’ e que valia a pena o ‘risco’ nessa longa travessia…

Foram necessários sete anos de ajuda terapêutica em busca das minhas extraviadas ‘verdades’. É uma etapa difícil, sem dúvida, pois além de tudo nós nos deparamos com os hábitos e vícios adquiridos durante a trajetória. Afinal, até que a gente consiga se desvencilhar das ‘resistências’ ao tratamento, muita água há de passar por debaixo dessa ponte. Ou melhor, dessa vida!

Além disso, o processo terapêutico não promete nos levar para o “outro lado do arco-íris”. O que ele possibilita, isso sim, é que a gente possa enxergar o mundo de modo mais confortável às nossas emoções. Com sorte, aprenderemos a evitar aquelas conhecidas ‘minas’ que surgem ao nosso redor. E, com isso, aumentaremos a chance de não repetir os mesmos enganos de outrora.

O resto, creio, ficará por conta do destino de cada um. Posso, ao menos, desejar muita sorte, determinação e um universo de possibilidades novas aos amigos que permitirem essa chance.

Quem sabe assim poderemos viver dias melhores?!

HISTÓRIAS NÃO CONTADAS

Nem bem ele terminou a palestra que veio dar no SESC-Cacupé, aqui de Florianópolis, já se via a longa fila de admiradores para os cumprimentos e autógrafos. E Ariano, sempre paciente, atendeu a todos com a habitual gentileza nordestina. Além do tímido sorriso, ele fazia questão de agradecer a presença na palestra. Isso rendeu mais de uma hora e a fome já batia fundo nele, tenho certeza.
Saímos dali e fomos para a minha casa no Rio Vermelho, que é um bairro quase rural, distante mais de 30 km do centro da cidade. Ao entrarmos na garagem, minha esposa veio abrir a porta do carro para Ariano e o abraçou com extrema alegria. Anunciou que o almoço sairia em cinco minutos e que bastaria que lavassem as mãos e se sentassem na sala de jantar.
Como eu previra, Ariano confirmou que adorava camarão. Assim, iria experimentar o bobó feito pela minha mulher. Céus! Eu nunca vi o homem tão feliz como naquele dia, meus amigos. E após o almoço, ele se refestelou na rede da sala e, aproveitando o silêncio, tirou uma ‘pestana’ de meia hora.
Ao acordar, passeou pelo jardim, observando as árvores e o canto dos pássaros. Disse-me que não trocaria Recife por Florianópolis por dois motivos: primeiro pelo nome da cidade, que era indevido, pois homenageia um ‘cabra tirano’. E depois, por causa do frio que faz no sul, do qual foge feito ‘cão ressabiado’.
Fomos para a varanda da frente e nos acomodamos nas espreguiçadeiras. Eu, ele e minha mulher. Foi quando eu lembrei do ‘causo’ que contou na palestra. Segundo ele, toda cidade pequena que visita tem o ‘maluco-beleza’ bastante conhecido do povo. Numa dessas cidades, Ariano percebeu que havia um homem com o ouvido encostado na parede do muro. Vez por outra a criatura tirava e voltava a pôr o ouvido no muro. Foi quando se aproximou, sem nada dizer, e encostou também o ouvido no muro, na esperança de alguma ‘revelação’. Passados alguns instantes, virou-se para o cidadão e comentou: “não estou ouvindo nada!” Prontamente, o cabra respondeu: “Pois é. Está assim desde ontem!”
Ele sorriu com a lembrança e declarou que sente uma enorme identificação com os doidos. Isso porque, tanto os doidos quanto os escritores veem o mundo por uma ótica original, particular. Ao ouvir o seu argumento, acabei concordando com ele. De fato, ambos experimentam sensações diferentes, mas com semelhante olhar alternativo.
Passamos algumas horas proseando a valer e eu nunca mais esquecerei do jeito dele, quando calmamente anunciou: “Carlos, meu amigo, não quero que se assuste… mas, Gabriel subiu no telhado!”
Já acostumados a isso, eu e minha mulher demos uma longa gargalhada. É que já imaginávamos que o inquieto Gabriel iria ‘aprontar alguma’ para cima de Ariano Suassuna!

– “Não sei. Só sei que foi assim!”

 

“O  BELLA  CIAO, BELLA CIAO…”

 

Devo reconhecer que nessas questões, normalmente, eram Luiz Henrique e Ênio que davam o veredicto. E naquele caso, convenhamos, a sentença proferida por Ênio foi dura e taxativa: “Chau, francamente, isso é um comportamento pequeno-burguês!”

Caramba! Eu nem sabia onde esconder a vergonha. Juro. Mas é o tal negócio: que mal havia em querer comprar aquela calça “Lee” e a camisa “LaCoste”? Só porque eram estrangeiras, minha gente, sempre vão representar ‘símbolos imperialistas’? Além do mais, o importante não seria o nosso pensamento socialista, alinhado às causas comuns?! E mais ainda: porque é que em toda revolução socialista o povo tem que ser miserável, quase indigente, heim?!

O fato é que elas eram lindas, isso sim, e bem superiores à nossa brasileira calça “FarWest” e as camisetas “Hering” que vendiam na “Ki-Lojão” da Rua Uruguaiana. Afinal, era sabido por todos que a loja era a ‘número 1’ em roupas bregas e sem graça… Fazer o quê?!

Pois muito bem. O fato era que os meus argumentos não eram convincentes a ponto de demover os preparados discursos de Luiz Henrique ou de Ênio. Por isso, então, eu acabava acatando os argumentos e ‘orientações’ deles. Sempre. Porém, devo confessar: no fundo, tudo aquilo me deixava à flor da pele. Talvez, até revoltado… Sei lá!

No entanto, vejam vocês a ironia do destino. Não é que a história se encarregou de nos mostrar vários exemplos de supostos ‘libertadores da pátria’? E eles vieram com discursos arrumadinhos: ora declarando-se ‘caçadores de marajás’, ora assumindo o falso ‘nacionalismo’. Vimos no que deu… e no que ainda vai dar!

Agora, que já se passaram quase trinta anos e mundo girou um bocado, nós devemos reconhecer algumas coisas. Em primeiro lugar, é que ‘ideologia’ não tem nada a ver com bom-gosto ou requinte. Tanto é verdade que o amigo Luiz Henrique bebe os melhores vinhos importados e veste ternos de fino trato, sem perder a coerência. Ah! quanto desperdício nós tivemos em nome de supostas causas e sistemas falidos e contraditórios…

Além disso, há outras questões a serem respondidas. Em que lugar da memória ficaram guardados os sonhos de sociedades ‘mais justas e equânimes’? E o que foi feito das nossas ‘bandeiras’ e dos nossos líderes socialistas? Afora a queda daquele ‘emblemático’ muro, o que mais ruiu além dos nossos sonhos, esperanças e utopias, meus amigos?!

 

ALTAIR

 

Verdade é que nem sempre a vida é justa. Muitas vezes, devemos reconhecer, o destino ‘sacaneia’ algumas pessoas e põe no chão criaturas que, no fundo, são boas. Pois saibam, então: Altair foi uma dessas ‘vítimas’. Então, para afastar qualquer dúvida, eu peço que me deixem contar como tudo aconteceu.

Nós estávamos no início dos anos 60. Segundo os entendimentos, era o tempo em que havia muita inocência pairando no ar. Mas era também o período em que começaram a aflorar os ‘maus espíritos’. Ao menos, era o que dizia D. Maria de Piabetá, a nossa fiel cozinheira. Muito embora fosse carioca, ela mais parecia uma daquelas baianas que vendem acarajé no Pelourinho, em Salvador. Ah, meus amigos, D. Maria parecia uma verdadeira ‘Mãe de Santo’, isto sim, pois adivinhava tudo. Ela trabalhou em nossa casa, com profunda dedicação, por mais de vinte anos, preparando toda a sorte de quitutes e guloseimas. Que criatura maravilhosa foi aquela mulher! O que mais impressionava a todos que a conheceram era o constante sorriso bondoso, estampado nas largas bochechas para quem quisesse apreciar. E posso assegurar a vocês que ela representou o que de melhor eu tive na infância distante. Aliás, Dona Maria chegava a nossa casa bem antes das sete da manhã, mesmo morando em outro município: Piabetá, próximo a Magé, no Rio de Janeiro. Muito embora já tenham se passado mais de cinquenta anos desde que aprendi a saborear as ‘especiarias’ de Dona Maria, o seu rosto, no entanto, eu tenho dificuldades para resgatar na memória. Já os aromas que ela esparramou ao meu redor, ah, eu jamais esqueci…

Abençoada seja, minha querida ‘Dona Maria’!

Mas o que eu estava querendo contar para vocês era sobre o Altair. Na época, eu devia ter uns sete ou oito anos de idade e a garagem do nosso prédio era repleta de esconderijos perfeitos para crianças com imaginação. E a turma de meninos do ‘Edifício Esperanto’ aprontava um bocado. Com isso, seu Severino, o porteiro do prédio, sofria em nossas mãos; ora era um vidro quebrado e barulhos de crianças correndo em disparada, ora era um morador aborrecido porque ‘alguém’ havia apertado todos os botões, fazendo o elevador parar em andar por andar.

Lembro que nessa época nós estávamos querendo abrir um ‘clubinho’ no saguão de entrada, porém, não conseguíamos adesão dos proprietários dos apartamentos do prédio. Embora fizéssemos forte campanha junto aos moradores, ainda assim, os resultados eram pífios.

Foi quando o Ênio, um brilhante colega da turma, chegou e, ao perceber o nosso desespero, argumentou: não são os pais que vão definir os rumos da votação, pessoal. São os filhos, nossos colegas, isso sim!

Eureka!! Ênio sempre tinha uma solução inusitada e, invariavelmente, brilhante. Algumas vezes, é bom que se diga, isso causava irritação até na gente, pois morríamos de inveja de sua alta criatividade.

Sabendo disso, ele se sentou na cisterna da garagem e começou a fazer desenhos em várias folhas. Quando terminou, Ênio pediu que afixássemos os cartazes no elevador, no “hall” de entrada, nas lixeiras e em todos os lugares de grande circulação. Eram desenhos de crianças brincando. Crianças com semblantes felizes. Moral da história: no dia marcado para a votação, houve alto comparecimento dos pais e fortíssima adesão à nossa reivindicação… Ganhamos de lavada, com 78% dos votos favoráveis. Agora, nós tínhamos um espaço só nosso: com mesa de totó, pingue-pongue e futebol de botão. Com isso, Ênio se tornou o nosso verdadeiro herói!

Sim, o certo é que eu estava querendo lembrar algo sobre o Altair. Pois bem. Para começo de conversa, Altair era o ‘faz-tudo’ do prédio. De encanador a pintor ou de marceneiro a eletricista, o que sei é que ele ‘jogava nas onze’. Era um negro alto e forte, dono do sorriso mais branco que eu já vi na vida. Do mesmo modo em que era corpulento, também era simpático e educado com todos. Uma verdadeira ‘dama’, como diziam os nossos vizinhos.

Eu tinha uma especial simpatia pelo Altair, porquanto ele sempre atendia os meus pedidos: fosse para preparar o ‘cerol’ para a linha da pipa ou até mesmo para construir um carrinho de rolimã e descer em disparada a íngreme ladeira da Zamenhof. Era com ele que eu contava!

Contudo, como eu disse no início da história, o diabo é que a vida nem sempre é justa. Pois não é que o coitado do Altair se casou com uma moça, da Baixada Fluminense, e ela infernizou a vida do pobre homem?! Pois é. Nunca se soube os detalhes. Sabíamos apenas que ele andava cabisbaixo, preferindo nem voltar para casa após os serviços no prédio.

Daí até se entregar à bebida, foi só questão de tempo, aliás, pouco tempo. Altair já não aparecia para efetuar os serviços contratados. E não tratava os moradores com a costumeira elegância. Sim! Foi muito triste acompanhar aquilo tudo, meus amigos. Afinal, observávamos a ‘derrocada’ de um homem de bem. Abruptamente. E quem procurasse pelo Altair, bastava ir à esquina de nosso edifício, bem debaixo da marquise, e veria um verdadeiro ‘trapo humano’, sujo e malcheiroso…

Até que um dia apareceu no tortuoso caminho do Altair um daqueles ‘maus espíritos’ que a D. Maria de Piabetá previra. Ele atendia pelo apelido de “Pará”. Céus! Ele era o ‘cão chupando manga’. Um sujeito perverso, capaz de terríveis maldades. Como diziam os os frequentadores da esquina da Zamenhof, ele era um tremendo ‘fio desencapado’!

Assim, ao perceber a decadência de Altair, Pará começou a insidiosa perseguição, fazendo toda a sorte de provocações. Que iam da obrigação de fazê-lo beber um copo cheio de cachaça, aos chutes para acordar o pobre coitado debaixo da marquise, impondo um tremendo martírio. Algo muito triste…

Lembro até que eu, Luiz Henrique, Ênio e Edinho nos mobilizamos para buscar ajuda nos apartamentos do prédio e pouco interesse houve dos moradores em socorrer o pobre Altair. Uma baita injustiça!

Três meses se passaram sem notícias do nosso ‘faz-tudo’. O que aconteceu de fato, ninguém ficou sabendo. Soubemos apenas, tempos depois, que o enterro ocorrera no Cemitério do Caju, numa cova destinada aos ‘indigentes’. E isso, meus amigos, era tudo que ele nunca fora: indigente.

Merda de vida!

Nota do autor: Ênio faleceu em 1974. Luiz Henrique tornou-se um respeitável e competente auditor da Receita Federal. Edinho transformou-se em um bem-sucedido empresário no ramo da limpeza. E ‘Pará’, após três mandatos consecutivos na Assembleia Legislativa, acabou sendo acusado de fazer parte de grupos de milícias. Afastado, foi submetido a julgamento, sendo condenado a vinte anos de prisão. Atualmente, cumpre sentença em regime semiaberto por conta de outros delitos.

 

* Texto dedicado a Luiz Henrique, Ênio (in memoriam) e Edinho, os ‘mosqueteiros’ da querida Zamenhof: porque também somos o que perdemos!

LuizHenrique

(Na foto: eu e Luiz Henrique, após sessenta anos de amizade )

O BARCO NAUFRAGADO

 

Esta semana eu revi o filme “Despedida em Las Vegas”, de Mike Figgis. Aliás, rever filmes é um hábito que eu sempre cultivei, quem sabe com a esperança de que consiga enxergar àquilo que as minhas emoções ainda não haviam percebido?!

O que sei dizer é que “Despedida em Las Vegas” é um desses filmes impiedosos, que revelam as nossas ‘doenças’, sem cerimônia, à medida que nos identificamos com cada um dos personagens, todos eles. Ainda assim (ou, quem sabe, por isso mesmo), nós preferimos ‘varrer os problemas para debaixo do tapete’. Cinicamente. Como se tal comportamento resolvesse alguma coisa…

Pois é, meus amigos. Nessas horas, eu lembro que os dramas são sempre individuais e que a dor – incômoda parceira – é solitária e particular. Somente a criatura envolvida no processo pode sentir o real espectro da angústia. Lá, isso é verdade!

Quando leio Cecília Meireles, por exemplo, vejo alguém derramar em poesia a imensa dor de se ver envelhecendo: “Eu não tinha este rosto de hoje / assim calmo, assim triste, assim magro / nem estes olhos vazios / nem o lábio amargo. / Eu não tinha este coração que nem se mostra… / Eu não dei por esta mudança / tão simples, tão certa, tão fácil / Em que espelho ficou perdida a minha face?”

De fato, não é preciso muita acuidade para perceber que somos pessoas diferentes. Se pensarmos bem, é essa pluralidade que nos torna tão interessantes. Além disso, mais do que diferentes, somos contraditórios, assim como contraditória é a vida. E a vida de “Ben”, personagem de Nicolas Cage, com certeza não foi bem tratada por ele ou pelo destino. Uma pena! Contudo, isso não faz dele um perdedor. Quando muito, mais uma vítima… Sim! Muitas vezes nós somos vítimas de processos que acontecem à nossa revelia: seja por circunstância, seja por inocência ou até mesmo ignorância. Também é verdade que, de uma forma ou de outra, nós ‘ajudamos’ esses boicotes. Ademais, já se disse por aí que nessa vida ninguém é absolutamente santo ou carrasco. No fim das contas, somos todos portadores de impulsos generosos e destrutivos. E, cá entre nós, essa é apenas mais uma contradição humana. Tão somente!

Na longa história do homem, muitas injustiças já aconteceram. Ainda que elas sejam encaradas com ‘repúdio’, não cessarão por aí. Seguramente, muitas outras virão. Paciência! O que é preciso, então, é aprender como drená-las. E assim, ao conquistar tal ‘sabedoria’, poderemos dar prosseguimento às belezas da vida. Quem sabe se não é essa a nossa ‘seleção natural’? Isto porque somente alguns de nós terão êxito e saberão colher o ‘néctar’ da vida. Os outros, ah!, os outros irão ‘tropeçar’ e pagarão um alto preço, onde a moeda contábil raramente é o dinheiro! O nosso querido Manuel Bandeira pode lá ter sofrido muitas dores, que alimentam os poetas, mas, apesar disso, ele exclamava com orgulho: “Uns tomam éter, outros cocaína. / Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria. / Tenho todos os motivos menos um de ser triste”.

O filme Despedida em Las Vegas não pode ser visto apenas como a ‘crônica de uma morte anunciada’. De um modo irônico e cruel, ele acaba revelando uma das maiores contradições humanas. É que ao se relacionar com a morte de ‘Bem’, somente assim ‘Sera’, personagem de Elizabeth Shue, consegue retomar a vida. Porquanto ela consegue recuperar a autoestima que fora extraviada nos caminhos do mundo.

O que sei é que se por um lado o filme nos deprime com um enredo massacrante, por outro, ele nos oferta profundas reflexões, trazidas à baila por conta dessa linda história de amor. E desse modo, ele nos possibilita a aproximação a algumas questões que há tempo nos afligem? São perguntas que aguardam respostas e que, de alguma maneira, um dia precisaremos atender. Por sinal, foi Nietzsche que, diante do absurdo da vida e do mundo, escreveu: “o absurdo de uma coisa não é uma razão contra a sua existência. É mais uma condição!”

E agora, minha gente?! Talvez a resposta para tudo isso esteja, simplesmente, no verso cantado por Caetano Veloso: “…cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é!”

 

Las Vegas