Carlos Holbein Antunes de Menezes

CAPA_HP

Quando comecei a escrever para revistas, em abril de 2000, fiz-me duas perguntas: o que pretendo com essas crônicas? E a quem eu quero me dirigir?

Na verdade, eu demorei um bom tempo para descobrir as respostas, porquanto eram muitas! Precisei, por exemplo, atingir 66 anos de idade e estar feliz com isso. Alcançar 35 anos numa vitoriosa carreira no magistério, onde aprendi bem mais do que ensinei. Talvez também tenha sido necessário consumar dois casamentos maravilhosos, muito embora sentisse falta dos filhos que não vieram… No entanto, a maior razão para eu escrever é acreditar que tenha algo a dizer para alguém. Sem o quê, convenhamos, nada disso teria sentido!

No fundo, eu creio que o que me move na direção da literatura é a grande oportunidade de fazer as minhas “expiações”. Tão somente! Ou seja, enfiar a mão na “caixa-preta” da memória afetiva e retirar de lá o que puder… E desse modo, ao revisitar antigos episódios, quem sabe eu possa renovar os laços que estão no presente?! O mais importante é convidar o leitor a fazer uma longa “viagem” comigo.

Quando me disponho a escrever, fico imaginando que há nesse “mundo mundo vasto mundo”* alguém que deseja se identificar nas minhas histórias. E dizer: eu também sinto isso! Ou, então, quem sabe, eu apenas queira ouvir de alguém: você me tocou! Seria sinal de que valera a pena!

Nas minhas crônicas há um aspecto bem marcado: opto sempre pela primeira pessoa do singular. Porquanto é mais íntimo e convidativo. Com isso, quebra-se o constrangimento, estabelece-se a tácita cumplicidade e o “rapto” é concedido afinal.

As crônicas pretendem desencadear no leitor alguns desejos. De modo óbvio, o de “embarcar” na história. E logo a seguir, o de refletir sobre o “em volta” dela. Isso porque, meus amigos, raramente as crônicas falam sobre o cinema ou o jazz de forma direta. Muito ao contrário, são os filmes e os discos que pegam carona no texto, como pano de fundo.

Os artigos são destinados a um público ávido por informações: às criaturas que ao fazerem uso de uma leitura rápida e instigante possam ter um entretenimento agradável. Como professor, sei bem que a pior coisa que uma pessoa gosta de ouvir é: “você não entende disso”. Sendo assim, sempre tive o cuidado de não ferir ninguém ou me mostrar arrogante. Até porque, convenhamos: o conhecimento é algo para ser repartido, socializado e difundido.  E, sempre que possível, sem cerimônias!

O escritor tem a obrigação de seduzir o leitor. Primeiro para que o leia. Depois, para que tome gosto pela leitura. Mas, acima de tudo, para que se sinta tentado a prosseguir nesse maravilhoso caminho.

Um grande abraço a todos e boa diversão!

(*Carlos Drummond de Andrade: “Mundo mundo vasto mundo, / se eu me chamasse Raimundo / seria uma rima, não seria uma solução. / Mundo  mundo vasto mundo, / mais vasto é o meu coração.”)

JAZZ: O jazz nosso de cada dia…

Boa parte das raízes do jazz surgiu na religião. Talvez por ser uma música reveladora da alma. Ou, quem sabe, por ter nascido na aspereza da dor?! O certo é que o jazz sempre andou de braços dados com a espiritualidade e, por isso mesmo, ele cativa e acalenta nossas esperanças. E esperança, meus amigos, é algo ‘mágico’. Algo que somente as criaturas dotadas de imaginação e sensibilidade são capazes de perpetuar. Então, sorte a nossa termos recebido esse fabuloso legado. Assim, podemos dar sentido àquilo que acreditamos e, em última análise, às nossas vidas!

Muitas pessoas consideram o “blues” uma espécie de música triste, marcada pela sofreguidão. É bem possível que seja. Afinal, os autores dos memoráveis “blues” viveram ‘tempos difíceis’ em suas vidas. O cego Lemon Jefferson, por exemplo, foi um típico representante dos primitivos cantores de blues, que ‘erravam’ pelo Sul dos EUA na primeira metade do século passado. Filho de lavrador, nascido no Texas, em 1897, Lemon aprendeu desde cedo que a música era a única esperança capaz de fazê-lo escapar da amarga pobreza e conformar-se com a cegueira. Por isso, aprendeu sozinho a tocar guitarra e cantar nas ruas de Dallas para ganhar alguns poucos “cents”. Uma dura realidade, isso sim! Muitos outros exemplos, como esse, poderiam ser lembrados. Provariam apenas que o jazz, assim como a religião, só adquire ‘significado’ se consegue libertar almas. Portanto, bendito seja o jazz. Bendita seja a esperança. Benditas sejam todas as libertações!

Memórias: a fértil imaginação de John Lennon.

Dizem que a ‘gratidão’ é um dos sentimentos mais evoluídos que um ser humano pode apresentar. Sim! É bem provável. E se isso for verdade, meus amigos, eu torço apenas para que os ‘espíritos hospedeiros’ tenham esta compreensão quando chegar a minha hora… Por enquanto, creio eu, ainda há muito o que fazer por aqui. Muitos projetos de vida. Muitas descobertas e muito o que aprender… isso sim!

Asseguram também que não devemos criar expectativas a cerca do que está para vir. Tudo bem, posso até compreender tal sugestão. Mas, convenhamos: nós somos humanos. Por conseguinte, ‘fantasiar’ e ‘projetar’ são verbos nitidamente emocionais e não há ‘freio’ que os segure, não é verdade?

Quando eu era menino e alguém abordava o tema ‘futuro’, confesso, bastava o som dessa palavra para me mobilizar, como uma espécie de ‘senha’ para dar início aos devaneios. Não sei quanto a vocês, mas eu era o primeiro a ‘viajar na maionese’. Porquanto a minha imaginação sempre foi fértil. Daí, eu desandava a sonhar com um mundo especial, harmônico e humanizado, em que as pessoas realmente se importassem com os outros.

O que sei dizer é que uns poucos anos depois, minha gente, um talentoso homem de fértil imaginação nos presenteou com uma pérola, intitulada “Imagine”. Foi em 1971 que John Lennon entoou os maravilhosos versos: “Você pode dizer que eu sou um sonhador /  Mas eu não sou o único  /  Eu espero que um dia você se junte a nós  /  E o mundo viverá como um!”

Abençoado seja!

https://www.youtube.com/watch?v=YkgkThdzX-8

 

materia_dc

DISCO e FILME: “Sweet and Lowdown”, de Woody Allen.

NO  DIVà DE  WOODY  ALLEN

O meu primeiro contato com ele foi em 1967. De lá para cá, confesso: nunca mais pude me separar de suas histórias, sejam elas hilárias ou dramáticas. O que sei dizer é que Woody Allen responde, de certo modo, pelo “inconsciente coletivo” da galera. Sim, meus amigos, ele é o cara! Pelo menos é o cara que aceitou encarnar os mais variados papéis do “desajeitado”, incapaz de lidar com os mais simples afazeres cotidianos, pois estará sempre questionando a todos e, principalmente, a si próprio. Por isso mesmo, ficou consagrado como o “neurótico de carteirinha”. Afinal, após uma sequência de filmes maravilhosos, alguns até geniais, Woody Allen se tornou o nosso anti-herói preferido. Decerto, ele é o meu!

Este CD traz a trilha sonora original do impecável filme produzido em 1999, intitulado “Sweet and Lowdown” e que aqui no Brasil foi convertido (argh!) para ‘Poucas e boas’. Aliás, o título original do filme é baseado na canção “Sweet and Low-Down”, do genial compositor George Gershwin. E curiosamente, vejam vocês, esta música esteve presente em outro filme de Woody Allen: uma das obras-primas dele, “Manhattan”, de 1979.
Quanto ao disco, são 15 excelentes canções, escolhidas a dedo, para homenagear os “mestres do jazz”. Tanto é verdade que no filme ‘Poucas e boas’ o personagem de Sean Penn (Emmet Ray) toca um violão Selmer Maccaferri, modelo 1932. Por sinal, é o mesmo tipo de instrumento que o lendário Django Reinhardt costumava usar. Daí porque o enredo do filme gira em torno dessa bela homenagem ao músico belga. Coisa linda!
Portanto, minha gente, são duas dicas que estou sugerindo: o filme e o CD. E tenho certeza de que tanto um quanto o outro serão capazes de emocionar e promover um verdadeiro deleite. Então, mãos à obra!

 
https://www.youtube.com/watch?v=hhQGTOnzMWs&list=PL21E4C7162DFE0C23
https://www.youtube.com/watch?v=oMFx7rn7PhQ

 

sweet and lowdown

Disco: “Copacabana”, com Sarah Vaughan e Hélio Delmiro.

Outro dia eu estava fazendo uma caminhada pela orla da Lagoa da Conceição e no retorno para casa, parei para beber água de coco. Foi quando ouvi um lindo som de guitarra. Logo a seguir, surgiu uma voz manhosa e “enfeitiçada”. Era Sarah Vaughan, acompanhada por Hélio Delmiro. Ah, minha gente, aqueles dois conseguiram recuperar todo o fôlego que eu havia perdido na longa caminhada, isso sim! A milagrosa faixa era, na verdade, a famosíssima “Dindi”. Meu Deus, que coisa linda! Até parece que Helinho e “Sassy” foram criados juntos, tal a intimidade alcançada.

Pois muito bem: movido por um forte impulso, eu fui para casa disposto a escutar o CD “Copacabana”. Deitei-me no sofá, fechei os olhos e comecei a escutar o álbum. Quando chegou a vez de “Bonita”, argh, tocou o telefone. Caracas, podia ser até o governador me convidando para ser o futuro secretário de cultura, mas nem quis saber… Despluguei o telefone e desabei novamente no sofá. Não demorou muito e me pus a sonhar, sonhar e sonhar com aquelas melodias…

Sei apenas que após algum tempo aquela mão feminina insistia em me cutucar. E eu, com um largo sorriso estampado na cara, imaginando mil coisas, demorei a abrir os olhos. Quando abri, vejam vocês: era a faxineira querendo passar o aspirador na sala.

Céus… Pode isso, meus amigos?!

https://www.youtube.com/watch?v=kgHS91JvWg0

sara_vaughan

Jazz: “Quando a vida imita a arte!”

Esta semana, ah, que delícia, eu revi o belíssimo filme de Bertrand Tavernier, intitulado de “Por volta da meia-noite”. O filme narra a história de ‘Dale Turner’, um saxofonista maravilhoso que luta contra o alcoolismo, algo bastante comum na década de 1950. Por conta dessa difícil peleja, Dale deixa a perigosa Nova York e se muda para Paris em busca de reconhecimento, afeto e, com sorte, a cura da doença que tanto o maltrata…

Na glamorosa Paris de 1959, o nosso querido Dale Turner encontra um público ávido pelo bom jazz. E encontra, também, um fervoroso admirador da sua obra que resolve ajudá-lo no combate ao alcoolismo. O final dessa bela história pode ser vista assistindo ao filme, que recebeu o Oscar de melhor trilha sonora, assinada por Herbie Hancock. Além disso, tivemos a reveladora participação de Dexter Gordon e outros grandes músicos de jazz como ‘intérpretes’ da memorável música norte-americana.

O mais interessante é que somente depois que ele participou do cultuado filme é que os amantes do jazz acordaram para o talento de Dexter Gordon. E, para surpresa geral, ele se saiu muito bem como ator. Ainda assim, eta músico de primeira, minha gente! Dexter toca um sax tão puro que é capaz de emocionar até os anjos… Lá, isso sim!

Após rever o filme, eu fui ouvir os CDs de Dexter Gordon. No disco “Ballads”, por exemplo, Dexter põe para fora todos os anjos… Prontos para serem acolhidos. ”I´m fool to want you” quase me fez cair da poltrona. Uma maravilha! Ele consegue mesclar a intimidade de Ben Webster com a elegância de Coltrane. Resultado: Dexter Gordon!

Para finalizar, eu tenho que confessar algo a vocês: este disco sempre foi a minha ‘arma secreta’ contra a ‘resistência’ de algumas namoradas. Eu explico. A fórmula era quase infalível: bastavam vinte minutos desse sax intimista, um bom vinho “Bordeaux” e por último, sim, as ‘sinceras’ juras de amor. Daí, então, podem acreditar: a noite se tornava longa, macia e perfumada… Huummm… Coisa mais linda desse mundo!

 

dexter_gordon

 

 

Memórias: ANO  NOVO…  E VELHAS QUESTÕES.

Segundo o dicionário Houaiss,déjà-vu’ é “uma forma de ilusão da memória que leva o indivíduo a crer já ter visto (e, por extensão, já ter vivido) alguma coisa ou situação de fato desconhecida ou nova para si”. Pois é. Isso é algo tão comum, tão corriqueiro que parece que cada um de nós já se deparou com tais sensações, não é verdade?

Para a Wikipédia, déjà-vu” é “um galicismo que descreve a reação psicológica da transmissão de ideias de que já se esteve naquele lugar antes, já se viu aquelas pessoas, ou outro elemento externo. O termo é uma expressão da língua francesa que significa: ‘eu já vi’”.

Desse modo, clareados os conceitos e aspectos envolvidos, vamos ao que interessa. De fato, minha gente, assim como tantas outras criaturas, eu também atravessei esse rio de ‘fantasias’ e percepções recorrentes. É que ao ter vivido algumas paixões ao longo da vida, a gente desenvolve uma estranha ‘tendência’ de achar que já viu isso acontecer em outras relações. Pior ainda é quando a gente se ‘convence’ dessa suposta verdade e acaba criando teses e mais teses sobre as questões do amor. Ledo engano, meus amigos!

Na verdade, cada relação afetiva é individual e própria, não comportando ‘regras ou tutoriais’ sobre a experiência vivida. Simplesmente, cada uma é uma. Ou foi… como queiram! E sendo únicas, não se repetem igualmente. Quando muito, apresentam algumas semelhanças. Isto porque, é sabido que a raça humana apresenta inúmeros comportamentos e infindáveis variações. Aliás, é melhor que seja assim, uma vez que isso nos permite experimentar ‘surpresas’ e ‘encantamentos’. Pois, no mínimo, isso nos torna mais interessantes…

Contudo, também é verdade que temos o forte hábito de ver a história da humanidade narrada sob forma de ‘ciclos’. Como se não houvesse outra ‘visão de mundo’ capaz de observar outros ângulos. É um tal de ciclo de ‘pensamentos’, ciclo de ‘modas’, ciclo de ‘poder’ e por aí afora. De certo modo, tal comportamento se deve a nossa tendência de ‘sistematizar’ tudo que há no mundo… Muitas vezes isso dá certo, vá lá! Porém, em outras situações não cabe ou, quando muito, cabe apenas de modo parcial. Isso sim!

E se o objeto da ‘observação crítica’ é algo dotado de sentimentos ou emoções, xi! a coisa então se complica. Sim, minha gente! À medida que somos portadores de fortes contradições e teimosias, ao generalizarmos comportamentos, nós corremos o risco de nos tornarmos imprecisos. Superficiais e precipitados. Até mesmo, incoerentes. Afinal, o repertório de ‘idiossincrasias’ presentes na raça humana parece não ter fim. E em nome delas, muitas vezes varremos o ‘lixo’ para debaixo do tapete…

Portanto, o melhor a fazer é tratar estas questões com acuidade e atenção. Evitando, se possível, incorrer nos modelos e estereótipos já ‘consagrados’ nos divãs e terapias. Afinal, sabemos que eles estão por aí, sedentos. Esparramados nos quatro cantos do planeta, apenas aguardando os ‘incautos espíritos desarmados’…

Meus Deus do Céu, juro que “eu já vi”!

 

museu do amanhã