Carlos Holbein Antunes de Menezes

 

Quando comecei a escrever para revistas, em abril de 2000, fiz-me duas perguntas: o que pretendo com essas crônicas? E a quem eu quero me dirigir?

Na verdade, eu demorei um bom tempo para descobrir as respostas, porquanto eram muitas! Precisei, por exemplo, atingir 68 anos de idade e estar feliz com isso. Ter alcançado 35 anos numa vitoriosa carreira no magistério, onde aprendi bem mais do que ensinei. Talvez também tenha sido necessário consumar dois casamentos maravilhosos, muito embora sentisse falta dos filhos que não vieram… No entanto, a maior razão para eu escrever é acreditar que tenha algo a dizer para alguém. Sem o quê, convenhamos, nada disso teria sentido!

No fundo, eu creio que o que me move na direção da literatura é a grande oportunidade de fazer as minhas “expiações”. Tão somente! Ou seja, enfiar a mão na “caixa-preta” da memória afetiva e retirar de lá o que puder… E desse modo, ao revisitar antigos episódios, quem sabe eu possa renovar os laços que estão no presente?! O mais importante é convidar o leitor a fazer uma longa “viagem” comigo.

Quando me disponho a escrever, fico imaginando que há nesse “mundo mundo vasto mundo”* alguém que deseja se identificar nas minhas histórias. E dizer: eu também sinto isso! Ou, então, quem sabe, eu apenas queira ouvir de alguém: você me tocou! Seria sinal de que valera a pena!

Nas minhas crônicas há um aspecto bem marcado: opto sempre pela primeira pessoa do singular. Porquanto é mais íntimo e convidativo. Com isso, quebra-se o constrangimento, estabelece-se a tácita cumplicidade e o “rapto” é concedido afinal.

As crônicas pretendem desencadear no leitor alguns desejos. De modo óbvio, o de “embarcar” na história. E logo a seguir, o de refletir sobre o “em volta” dela. Isso porque, meus amigos, raramente as crônicas falam sobre o cinema ou o jazz de forma direta. Muito ao contrário, são os filmes e os discos que pegam carona no texto, como pano de fundo.

Os artigos são destinados a um público ávido por informações: às criaturas que ao fazerem uso de uma leitura rápida e instigante possam ter um entretenimento agradável. Como professor, sei bem que a pior coisa que uma pessoa gosta de ouvir é: “você não entende disso”. Sendo assim, sempre tive o cuidado de não ferir ninguém ou me mostrar arrogante. Até porque, convenhamos: o conhecimento é algo para ser repartido, socializado e difundido.  E, sempre que possível, sem cerimônias!

O escritor tem a obrigação de seduzir o leitor. Primeiro para que o leia. Depois, para que tome gosto pela leitura. Mas, acima de tudo, para que se sinta tentado a prosseguir nesse maravilhoso caminho.

Um grande abraço a todos e boa diversão!

(*Carlos Drummond de Andrade: “Mundo mundo vasto mundo, / se eu me chamasse Raimundo / seria uma rima, não seria uma solução. / Mundo  mundo vasto mundo, / mais vasto é o meu coração.”)

ALTAIR * – crônica.

Verdade é que nem sempre a vida é justa. Muitas vezes, devemos reconhecer, o destino ‘sacaneia’ algumas pessoas e põe no chão criaturas que, no fundo, são boas. Pois saibam, então: Altair foi uma dessas ‘vítimas’. Assim, para não pairar dúvidas, eu peço que me deixem contar como tudo aconteceu…

Estávamos no início dos anos 60. Segundo os entendimentos, era o tempo em que havia muita inocência pairando no ar. Mas era também o período em que começaram a aflorar os ‘maus espíritos’. Ao menos, era o que dizia D. Maria de Piabetá, a nossa fiel cozinheira. Muito embora fosse carioca, ela mais parecia uma daquelas baianas que vendem acarajé, lá no Pelourinho, em Salvador. Ah! meus amigos, D. Maria parecia uma verdadeira ‘Mãe de Santo’, isto sim, pois adivinhava tudo. E ela trabalhou em nossa casa, com profunda dedicação, por mais de vinte anos, preparando toda a sorte de quitutes e guloseimas. Que criatura maravilhosa foi aquela mulher! O que mais impressionava a todos que a conheceram era o constante sorriso bondoso, estampado nas largas bochechas para quem quisesse apreciar. E posso assegurar a vocês que ela representou o que de melhor eu tive na infância distante. Abençoada seja, D. Maria!

Mas o que eu estava querendo contar para vocês era sobre o Altair. Na época,

eu devia ter uns sete ou oito anos de idade e a garagem do nosso prédio era repleta de esconderijos perfeitos para crianças com imaginação. E a turma de meninos do ‘Edifício Esperanto’ aprontava um bocado. Com isso, seu Severino, o porteiro do prédio, sofria em nossas mãos; ora era um vidro quebrado e barulhos de crianças correndo em disparada, ora era um morador aborrecido porque ‘alguém’ havia apertado todos os botões, fazendo o elevador parar em andar por andar.

Sim, eu estava querendo contar algo sobre o Altair. Pois bem. Para começo de conversa, Altair era o ‘faz-tudo’ do prédio. De encanador a pintor ou de marceneiro a eletricista, o que sei é que ele ‘jogava nas onze’. Era um negro alto e forte, dono do sorriso mais branco que eu já vi na vida. Do mesmo modo em que era corpulento, também era simpático e educado com todos. Uma verdadeira ‘dama’, como diziam os nossos vizinhos.

Eu tinha uma especial simpatia pelo Altair, porquanto ele sempre atendia os meus pedidos: fosse para preparar o ‘cerol’ para a linha da pipa ou até mesmo para construir um carrinho de rolimã e descer em disparada a íngreme ladeira da Zamenhof. Era com ele que eu contava!

Contudo, como eu disse no início da história, o diabo é que a vida nem sempre é justa. Pois não é que o coitado do Altair se casou com uma moça, da Baixada Fluminense, e ela infernizou a vida do pobre homem!? Pois é. Nunca se soube os detalhes. Sabíamos apenas que ele andava cabisbaixo, preferindo nem voltar para casa após os serviços no prédio.

Daí até se entregar à bebida, foi só questão de tempo, aliás, pouco tempo. Altair já não aparecia para efetuar os serviços contratados. E não tratava os moradores com a costumeira elegância. Sim! Foi muito triste acompanhar aquilo tudo, meus amigos. Afinal, observávamos a ‘derrocada’ de um homem de bem. Abruptamente. E quem procurasse pelo Altair, bastava ir à esquina de nosso edifício, bem debaixo da marquise, e veria um verdadeiro ‘trapo humano’, sujo e malcheiroso…

Até que um dia apareceu no tortuoso caminho do Altair um daqueles ‘maus espíritos’ que a D. Maria de Piabetá já previra. Ele atendia pelo apelido de “Pará”. Era um sujeito perverso, capaz de terríveis maldades. Um tremendo ‘fio desencapado’, como diziam os frequentadores da esquina da Zamenhof.

Ao perceber a decadência de Altair, Pará começou a insidiosa perseguição, fazendo toda a sorte de provocações. Que iam da obrigação de fazê-lo beber um copo cheio de cachaça, aos chutes para acordar o pobre coitado debaixo da marquise, impondo um tremendo martírio. Algo muito triste…

Lembro até que eu, Luiz Henrique, Ênio e Edinho nos mobilizamos para buscar ajuda nos apartamentos do prédio e pouco interesse houve dos moradores em socorrer o Altair. Uma baita injustiça, isso sim!

Três meses se passaram sem notícias do nosso ‘faz-tudo’. O que aconteceu de fato, ninguém ficou sabendo. Soubemos apenas, tempos depois, que o enterro ocorrera no Cemitério do Caju, numa cova destinada aos ‘indigentes’. E isso, meus amigos, era tudo que ele nunca fora: indigente.

Merda de vida!
Em tempo: Ênio faleceu em 1974. Luiz Henrique tornou-se um respeitável e competente auditor da Receita Federal. Edinho transformou-se em um bem-sucedido empresário no ramo da limpeza. E ‘Pará’, após dois mandatos consecutivos na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, acabou sendo acusado de fazer parte de grupos de milícias. Foi submetido a julgamento, sendo condenado a vinte anos de prisão. Atualmente, cumpre sentença em regime semiaberto.

* Texto dedicado a Luiz Henrique, Ênio (in memoriam) e Edinho, os ‘mosqueteiros’ da querida Zamenhof: porque também somos o que perdemos!

(Na foto: eu e Luiz Henrique, após sessenta anos de amizade )

LuizHenrique

PÉ NA ESTRADA – crônica.

Que ele era um homem diferenciado, ah! disso ninguém duvidava. Mas o fato é que nem mesmo os filhos conheciam suas andanças, suas paixões e seus amores extraviados. Porquanto ele era uma criatura bastante reservada. Tímida, até. E o que eu posso dizer, meus amigos, é que reencontrá-lo na pacata e hospitaleira Petrópolis foi algo inusitado e emocionante. Aliás, somente após aquela tarde, ouvindo suas histórias, é que eu pude perceber o quanto a vida muitas vezes pode ser incompreensível ou até mesmo injusta… Lá, isso é verdade!

Afinal, ali ao meu lado estava uma das mais incríveis criaturas que eu conheci na vida. Por certo, um homem brilhante. Ético. Culto e generoso. No entanto, devo reconhecer, nem mesmo tais atributos são suficientes para tornar um homem feliz e realizado. E Luiz sabia disso. Tanto é verdade que ele não se surpreendeu quando Glória, sua companheira, mais uma vez reclamou sobre a desarrumação da sala de estar… Sem nada dizer, Luiz foi para o quarto, organizou as duas malas e, ao passar pela cozinha, anunciou: “eu estou indo embora. Vou para Jackson!”

– E por diabos, onde fica isso?, perguntou Glória.

– Tennessee!

– Tá bom… pode ir. Mas, ao menos, penteia o cabelo!

Pois é, meus amigos… já se passaram vinte anos desse episódio. E confesso a vocês que eu gostaria de ter notícias do amigo Luiz. Saber se a vida foi generosa com ele… essas coisas que o destino apronta. Mas quem consegue entender?! Talvez, somente bebendo um “Jack Daniel’s” e ouvindo um emocionado “country-blues”, Jackson, embalado pelas vozes de Johnny Cash e June Carter:

“Nós nos casamos numa febre, mais quente que um broto de pimenta,
Nós temos conversado sobre Jackson desde que o fogo se foi.
Estou indo para Jackson, eu vou arrasar,
Sim! Eu vou para Jackson,
Se cuida, cidade de Jackson.

Bem, vá para Jackson; vá em frente e acabe com a sua saúde.
Vá tentar a sua sorte, seu grande tagarela, faça um grande bobo de você mesmo,
Sim! Vá para Jackson, vá pentear seu cabelo!
Querida eu vou curtir em Jackson
Veja se eu me importo!

Quando eu chegar naquela cidade, as pessoas vão me reverenciar.
Todas as mulheres vão querer que eu as ensine o que elas não sabem,
Eu vou para Jackson, não tente me impedir.
Porque estou indo para Jackson.
‘Tchau’, foi tudo o que ela escreveu.

Mas elas vão rir de você em Jackson e eu vou estar curtindo um barril de cerveja.
Elas vão te levar pela cidade como um cão escaldado,
Com o seu rabo enfiado entre as pernas,
Sim, vá para Jackson, seu grande tagarela.
E eu vou estar esperando em Jackson, atrás do meu leque japonês.

Nós nos casamos numa febre, mais quente que um broto de pimenta,
Nós temos conversado sobre Jackson desde que o fogo se foi.
Estou indo para Jackson, e isto é um fato.
Sim, nós vamos para Jackson, para nunca mais voltar…”

JDaniels

ZAMENHOF FUTEBOL CLUBE E O DELEGADO DO BAIRRO – crônica.

Se havia um evento que ninguém queria perder, por certo, era o dia do divertido jogo dos ‘Casados X Solteiros’. Talvez ‘divertido’ não seja o adjetivo mais apropriado. Até porque eu era um moleque de pouco mais de dez anos de idade e não atinava para os ‘bastidores’ do jogo. É que segundo os adultos da época, havia muito mais coisas em disputa do que o mero resultado da partida. Com isso, todos faziam questão de acompanhar o ‘grande evento do ano’!

Para início de conversa, meus amigos, eu acho que havia muita expectativa quanto aos ‘desdobramentos’ do jogo, uma vez que a escalação de cada time era conhecida por todos. No lado dos casados, nem tanto, pois não contavam com muitos craques. O problema estava mais no time dos solteiros que, além de mais jogadores disponíveis, ainda contavam com duas grandes estrelas que ‘desequilibravam’ qualquer partida: Chiquinho e Valmir. O restante do time era formado por Frederico no gol, Luís ‘Maluco’ e Pezão formavam a dupla ‘carniceira’ de zagueiros. No meio de campo ficavam Berimbau e Pará. E o ataque contava com a habilidade de Chiquinho e Valmir!

Do lado dos ‘casados’ o bicho pegava. Afinal, a escalação só saía minutos antes da partida. Não que houvesse dúvida quanto à ‘qualidade técnica’ de qualquer um deles, pois eram muito fracos e ‘apelavam’ de todas as formas, permitidas ou não. O que eles tinham de sobra era ‘malandragem’, isso sim, na arte de impressionar o adversário…  e até o juiz!

Com relação à torcida, bem, essa era francamente favorável aos ‘solteiros’, ainda que se manifestassem com muita discrição, evitando assim qualquer atrito com os ‘casados’.
A partida estava calma demais para os padrões. Nenhuma falta grosseira havia sido praticada e nenhum xingamento ao juiz até a hora em que Chiquinho entrou na área, driblou dois beques e deslocando o goleiro, bateu de chapa no canto esquerdo: um golaço! E como era do feitio dele, pouco comemorou. Abraçou os companheiros comedidamente. No entanto, isso não evitou o aviso sinistro do Ronaldo: “na próxima vez que entrar aqui na área fazendo gracinha, eu quebro a sua perna!”

Daí, então, o clima esquentou e já sabíamos que ia dar ‘zebra’ no final da partida. Para tanto, bastou o quarto gol dos ‘solteiros’, um gol contra do Espinelli. A partir daí, minha gente, a pancadaria começou na parte alta da ladeira da Zamenhof. A briga começou entre Ronaldo e Espinelli, irmãos de sangue. E eles brigavam sem que ninguém apartasse. Até porque, eram do mesmo time dos ‘casados’!

A coisa ficou tão feia que para conter os ânimos exaltados, foi preciso chamar a ‘Rádio Patrulha’. E por ser morador da rua, o delegado Bezerra se encarregou de comandar as ações, requisitando cinco ‘camburões’ para levar os ‘meliantes’ para a delegacia. Daí, começaram os interrogatórios. Concomitantes. Em três salas separadas. Quando tudo parecia que seriam dispensados com, no máximo, uma advertência pela ‘autoridade local’, eis que surge alguém gritando lá de trás: “tudo isso é para impressionar a ‘loura’ do quinto andar! Se ela não estivesse na janela observando tudo, nem aparecia polícia na área. Mas o delegado Bezerra, que anda ‘frequentando’ outros apartamentos, além do seu, quer mostrar ‘serviço’ e aprontou essa palhaçada…”

Céus! O que sei dizer é que mais de vinte marmanjos dormiram aquela memorável noite nos ‘aposentos’ da 18ª Delegacia de Polícia Civil, da Praça da Bandeira. E sem direito a água, comida e a visita de advogado ou parente. Um sufoco, isso sim!

No dia seguinte, bem cedinho, já havia uma caravana de pessoas na porta da ‘loura’. Tocaram a campainha nervosamente. Nisso, ao abrir a porta, aparece ela com cara de sono. Imediatamente, começou a lamúria, com todos falando ao mesmo tempo. A ‘loura fatal’, após dez minutos do choro das ‘viúvas’, apenas disse: “eu resolvo isso em dois tempos!”
E foi o que de fato aconteceu. Contudo, por algum motivo que nunca foi revelado, nenhuma palavra foi dita pelos ‘alforriados’. Simplesmente imperou o verdadeiro ‘código de silêncio’. Absoluto!

Até hoje, há quem pergunte: o que foi aquilo, afinal? Impressionante…

 

canelau3

(  ‘Canelau’ foi uma das testemunhas da ‘fatídica’ partida de futebol )

OS SONS DO CORAÇÃO – crônica.

Existe a crença de que somente crianças bem pequenas são capazes de se comunicar com os espíritos. E ao fazerem uso dessa capacidade, elas conseguem estabelecer a mais pura ‘troca de impressões’. Talvez, por isso, elas sejam tão felizes, risonhas e espontâneas. Quem sabe não seja assim?! Quem sabe nós extraviamos esse dom ao longo do percurso da vida?

Pois é, meus amigos. O que eu posso dizer é que eu tenho um filho, hoje com dezessete anos, e pude acompanhar algumas dessas manifestações quando ele era criança. Muitas vezes, é verdade, eu observava o comportamento dele nas mais variadas situações e me surpreendia inúmeras vezes.

Hoje eu tenho um lindo netinho, João Pedro, que é filho do irmão mais velho do meu querido Gabriel, e percebo que ele repete semelhantes manifestações. Céus! Lembro até da primeira vez que ele entrou no meu escritório, ainda engatinhando, e ao se deparar com os quadros pintados pela minha falecida mãe, Jarina Menezes, parecia estabelecer uma longa ‘conversação’ com eles. Além disso, João Pedro gostava imensamente de tocar naquelas pinturas, balbuciando incompreensíveis sons. O que ele desejava comunicar, eu não sei dizer. Sei apenas que eram fortes os laços estabelecidos…

Aí, alguém perguntará: o que isso tem a ver, Carlos? Eu, então, responderei: tudo, minha gente! Deixem-me justificar. Eu percebi isso quando eu fui a Curitiba, assistir ao “1º Festival de Jazz Manouche”, a convite do meu amigo Mauro Albert. Foram três maravilhosos dias de profundo deleite. Afinal, eu ouvi melodias que se inspiravam nos melhores sons do jazz cigano. Era como se eu retornasse ao convívio dos ‘sons naturais’, lindos e arrebatadores. Dignos da pureza dos anjos!

Mauro me presenteou com o mais recente álbum, fruto do encontro que teve com o extraordinário músico, Louis Plessier, falecido em 2014. Intitulado “La musique toujours vivant de Louis Plessier”, o CD é composto por treze magníficas faixas, entre as quais eu destaco a primeira, “La peinture” e a de número 11, “Pour un monde meilleur”. Sim! Ao ouvir as canções, eu fiquei com a certeza de que Gabriel e João Pedro tinham razão: nós precisamos ‘de um mundo melhor’, minha gente. Precisamos das pinturas… e das melodias que emanam delas!

(Dedicado ao meu querido amigo Mauro Albert e ao ‘inspirador’ Louis Plessier)

ANJOS, SOPROS E CORNETAS – PARTE 2

“Há noites em que os músicos tocam tão bem, individual e coletivamente, que parecem ter simultaneamente uma experiência fora do corpo. Em 12 de fevereiro de 1964, no Lincoln Center’s Philharmonic Hall, em Nova York, foi uma daquelas abençoadas noites em que o grande quinteto do trompetista Miles Davis tocou com uma beleza incandescente, mesmo para um conjunto tão brilhante quanto o dele…”
Pois é, meus amigos… Essa é a primeira parte do texto que vem escrito na contracapa do disco “My Funny Valentine”, de Miles Davis. Lançado em 1965, o disco original saiu pela Legacy/Columbia e, para nossa sorte, ele atravessou mais de cinco décadas com justo reconhecimento pelos amantes do jazz. Afinal, é uma dessas preciosidades que deveriam passar de geração em geração com o selo de “tesouro” ou “raridade”.
E não é que eu estava arrumando as prateleiras da minha nova estante para CDs e LPs e bati os olhos neste disco. Meu Deus do Céu, que alegria! Que coisa linda foi ouvir o disco mais uma vez…
Para que você, leitor amigo, tenha ideia do que foi aquele encontro memorável, saiba que o quinteto era formado por Miles Davis no trompete, George Coleman no sax tenor, Ron Carter no contrabaixo, o mágico Herbie Hancock no piano e o fenômeno da bateria, Tony Williams, com apenas 18 anos!
O que sei dizer é que a interpretação alcançada pelo quinteto em “My funny Valentine” revela de modo definitivo como músicos de alta qualidade podem nos conduzir “para fora do corpo” quando estão sob o domínio do “encantamento”. Tudo isso, é claro, só acontece quando nos permitimos efetuar esta ‘abduzida’ viagem. No fundo, creio, são os nossos verdadeiros anjos a nos guiar por caminhos celestiais!

 

 

ANJOS, SOPROS E CORNETAS – PARTE 1

 

“Há noites em que os músicos tocam tão bem, individual e coletivamente, que parecem ter simultaneamente uma experiência fora do corpo. Em 12 de fevereiro de 1964, no Lincoln Center’s Philharmonic Hall, em Nova York, foi uma daquelas abençoadas noites em que o grande quinteto do trompetista Miles Davis tocou com uma beleza incandescente, mesmo para um conjunto tão brilhante quanto o dele…”

Pois é, meus amigos… Essa é a primeira parte do texto que vem escrito na contracapa do disco “My Funny Valentine”, de Miles Davis. Lançado em 1965, o disco original saiu pela Legacy/Columbia e, para nossa sorte, ele atravessou mais de cinco décadas com justo reconhecimento pelos amantes do jazz. Afinal, é uma dessas preciosidades que deveriam passar de geração em geração com o selo de “tesouro” ou “raridade”.

E não é que eu estava arrumando as prateleiras da minha nova estante para CDs e LPs e bati os olhos neste disco. Meu Deus do Céu, que alegria! Que coisa linda foi ouvir o disco mais uma vez…

Para que você, leitor amigo, tenha ideia do que foi aquele encontro memorável, saiba que o quinteto era formado por Miles Davis no trompete, George Coleman no sax tenor, Ron Carter no contrabaixo, o mágico Herbie Hancock no piano e o fenômeno da bateria, Tony Williams, com apenas 18 anos!

O que sei dizer é que a interpretação alcançada pelo quinteto em “My funny Valentine” revela de modo definitivo como músicos de alta qualidade podem nos conduzir “para fora do corpo” quando estão sob o domínio do “encantamento”. Tudo isso, é claro, só acontece quando nos permitimos efetuar esta ‘abduzida’ viagem. No fundo, creio, são os nossos verdadeiros anjos a nos guiar por caminhos celestiais!

 

MENSAGEM PARA ALEXANDRE (crônica)

“Vivemos de beleza, de silêncio e belezas. / Trilhamos uma estrada incerta e traiçoeira. / A estrada perfumada por um crime.” (“Aparência”, de Marcos José Konder Reis)

Pois é, Alexandre. Você bem sabe o quanto eu lhe sou grato pela ajuda recebida. Algo que transcende a relação profissional entre o médico e o paciente. Afinal de contas, você foi o artesão responsável por esta ‘reconstrução’. Por isso mesmo, tornou-se muito importante saber que você me lê. Aliás, é bom que se diga, foi você que me incentivou a botar a mão nessa ‘caixa-preta’ e extrair de lá o que pudesse… Como as coisas que tenho escrito, por exemplo. Sim! Você tem agido como um ‘catalisador’, compreende? Além do mais, nós temos em comum o gosto pelas letras, pelas memórias e, sobretudo, pelas emoções que elas desencadeiam…
Também sei, amigo Alexandre, que os tempos andam bicudos. E que, por isso mesmo, nós temos tido poucos motivos para comemorar, não é verdade? Ainda assim, eu insisto: foi você que abriu as comportas da velha represa. Portanto, tornou-se ‘cúmplice’ pelo que ainda está para vazar.
Toda essa introdução, Alexandre, serve apenas para lhe dizer que estou às portas da minha merecida aposentadoria e, com isso, quero me dedicar com mais corpo e alma ao ofício da escrita. Já tenho prontos dois livros: sendo mais um de crônicas e outro de contos. E planos para um romance, se fôlego eu tiver para essa longa e difícil empreitada.
Por sinal, certa vez assisti a uma entrevista com o ‘mestre’ Jorge Amado e lá pelas tantas ele falou do pânico que sentia toda vez que escrevia um novo romance. Ainda que ele já tivesse escrito dezenas de bons livros, mesmo assim, sempre sentia ‘pânico’. Da mesma forma, o meu querido tio Holdemar vivia momentos de profundo ‘sofrimento’ quando criava um livro novo. Tadinho… O homem penava feito um órfão abandonado!
Quanto a mim, não sei dizer como será o processo. Por ora, percebo apenas que eu me sinto ‘revigorado’ toda vez que produzo um texto novo. É como se eu estivesse ‘quitando’ antigas dívidas, Alexandre. De certo modo, creio, acho que isso é verdadeiro e que, de fato, eu estou ‘quitando’ antigas dívidas. Desse modo, eu consigo fazer as pazes com o meu passado, ‘suavizando’ algumas passagens.
Então, sigamos a vida…

Em tempo: há três anos, João Pedro estava sendo apresentado ao mar dos Ingleses. Ele, por certo, ficou tremendamente encantado… E eu, mais ainda!

 

JP e o vovo