Disco: “Ballads – Remembering John Coltrane”, com Karrin Allyson.

Devo reconhecer que na época eu não compreendia o significado daquele encontro. Sabia, ao menos, que as pessoas que estavam ali eram importantes e só por isso já representava muito para mim. É que criança é bicho ingênuo e se alegra com qualquer coisa, não é verdade?
O lado bom da história era poder tomar sorvete à vontade, sem cerimônia ou economia. O lado ruim, no fundo, era a persistente dor de garganta, que me proibia de falar. E eu era um tremendo tagarela, meus amigos. Fazer o quê?!
No entanto, só bem mais tarde é que eu fui entender que não havia necessidade de operar as minhas amídalas. Afinal, eu era um menino de apenas oito anos. E só porque a garganta inflamava de vez em quando, foram arrancar a pobre coitada?
O que sei é que o mundo, então, girou mais um bocado. Talvez, por ironia, ele me colocou frente aos melhores cantores e cantoras. Ainda mais no jazz, que desde a adolescência eu já apreciava, vejam vocês. De lá para cá, eu tenho escutado muitas preciosidades e verdadeiras pérolas, sorte a minha. E também algumas coisas ruins… Paciência!
Também é verdade que eu tenho escutado de alguns amigos e leitores que o meu gosto musical é bastante ortodoxo, uma vez que pouco me abro para as “novidades” que vivem surgindo no cenário musical. Sei não. Pode até ser que as minhas preferências no jazz sejam conservadoras. Mas, por certo, não sou teimoso. Tenho procurado ouvir uma coisinha nova aqui e outra acolá. É bem o caso dessa norte-americana do Kansas, Karrin Allyson. Confesso que nunca escutara nada dela e olha que já é “cinquentona”. Mas, enfim, topei a parada e adquiri dois álbuns. Este primeiro, intitulado “Ballads – Remembering John Coltrane” deixou-me intrigado à medida que homenageia um monstro sagrado do jazz.
Após ouvir algumas faixas, eu cheguei a conclusão de que Karrin é boa cantora sim, mas nada excepcional. Canta com suavidade e quase sempre opta pelos médios sonoros, região em que se sente visivelmente mais confortável. Os arranjos e os acompanhamentos, por sua vez, são muito bons. Principalmente o sax tenor de James Carter, que passeia nas melodias homenageando o estilo Coltrane de tocar. Coisa linda!
Agora, pelo sim ou pelo não, após as audições, a única dúvida que ainda permanece em mim é se Karrin Allyson fez cirurgia da garganta. Sei lá… De repente me bateu uma saudade de sorvete de flocos… Hummmm!