Disco: CD “Affinity”, com Toots Thielemans e Bill Evans.

A primeira vez que ouvi Toots Thielemans tocando harmônica (gaita), confesso: tomei um baita susto. Parecia até que um “anjo” havia me erguido e sussurrado alguma coisa que eu não era capaz de entender…

Atordoado, procurei relaxar meus músculos e deixar a gaita de Toots e o piano de Bill Evans penetrarem no silêncio da sala, criando uma atmosfera de pura fantasia. Aí, então, fechei os olhos e sonhei. Sonhei e sonhei. Meu Deus, que delícias de sonhos e melodias!
É bem verdade que a garrafa de vinho vazia ao lado justificara o brinde a esse encontro. Não o de Toots com Evans, cujo universo já se encarregara de conspirar, mas o meu com eles. “Affinity” é o título do CD. Portanto, bendita seja a “afinidade”!

Aliás, ficaram belíssimas as interpretações em “I do it for you” e “This is all I ask”. E emocionante foi a sinergia alcançada em “The days of wine and roses”.
No entanto, meus amigos, tudo ia bem até a sexta faixa do disco. Logo a seguir vêm “The other side of midnight”, “Blue and Green” e “Body & Soul”. Nesse momento, meus amigos, tudo explodiu. Sinos tocando sem parar. Cheiro de lança-perfume. Gritos de pega-ladrão. Fantasmas rondando a longa noite… O afago esquecido. O beijo adiado. O choro incontido. A súplica espreitando a madrugada, drenando meu coração. Pois é… vida que segue. Amanhã será um novo dia. E daí, que diferença isso faz?!

https://www.youtube.com/watch?v=I4f2c4O8I1Y

 

Toots Thielemans

Memórias: o destino de cada um!

Eu tinha apenas cinco anos de idade e era uma criança franzina, como tantas outras nordestinas. Nem sequer imaginava qual futuro estava reservado para mim. Sabia, ao menos, que o mundo rico e civilizado ficava no “sul maravilha” (Henfil que o diga!). E que o meu bom e velho Ceará seria, doravante, “apenas um retrato na parede”. Talvez, por não conhecer o poeta Carlos Drummond, eu não atinasse para a dor: a imensa dor que um “retrato” pode conter. E pode, creiam-me… pode!

O mundo, então, girou mais um bocado. Seguiu a roda do seu caminho e me apontou alguns para escolher. Agora, se as minhas escolhas foram boas ou não… aí, são outros quinhentos. O certo é que venho pelejando nessa vida. Tentando fazer o meu melhor. Sabendo que tanto posso errar aqui, quanto ter medos, acolá. Aceitando que o destino é algo mágico e individual, por mais coletiva que seja a nossa trajetória.
Verdade é que durante muitos anos eu arrastei, feito bola de prisioneiro, muitas culpas por conta daquela “prematura saída” do Ceará. Ainda que as culpas fossem indevidas, eu me sentia um traidor, uma vez que virara às costas ao meu povo, à minha cultura e, dessa forma, estabelecera a minha “herança vacante”.

É bem provável que algumas pessoas corram em minha defesa e digam: “isso não é motivo de culpa, Carlos. Quando muito, destino”. É até possível que afirmem que essa viagem não foi exclusividade minha, pois muitos outros retirantes seguiram o mesmo rumo. Cada um com o seu motivo. Cada um com seu legado… E uma diferente “sentença” para cumprir!

Pois é, minha gente…  Eu sempre soube disso. Mesmo assim, devo confessar: tais pensamentos não me redimiam. Ao contrário, doíam, isso sim. Doíam. Intensamente!

Foram necessários incontáveis anos para drenar a dor e aprender como a transformar. Para tanto, eu precisei de muita ajuda e, por sorte, vieram de todos os lados. Vieram das angustiadas sessões de análise com o Alexandre Kahtalian, solidário e competente terapeuta. Vieram das maravilhosas pessoas que fui encontrando pela vida e que, de alguma forma, depositaram generosas “esperanças” no meu coração. Criaturas que se tornaram verdadeiros “irmãos” e, ao atravessarem o meu destino, deixaram marcas em minha alma.

Somente a partir daí é que eu comecei a “realizar” o inventário afetivo. Ainda bem. Pois somente assim os episódios começaram a adquirir significado junto ao meu “patrimônio afetivo”. Convenhamos: não há nada mais belo nessa vida do que dar sentido a ela! Ingmar Bergman, o extraordinário diretor-cineasta, dizia que “a imaginação tece a sua teia e cria novos desenhos… e novos destinos”.

Por tudo isso, eu imagino que a minha inserção nessa latinidade pode ser confirmada no testemunho do Gonzaguinha, em “Caminhos do Coração”. Vale a pena lembrar:

Há muito tempo que eu saí de casa

Há muito tempo que eu caí na estrada

Há muito tempo que eu estou na vida

Foi assim que eu quis, assim eu sou feliz.

Principalmente por poder voltar a todos os lugares aonde já cheguei

Pois lá deixei um prato de comida, um abraço amigo, um canto pra dormir e sonhar.

E aprendi que se depende sempre de tanta muita diferente gente

Toda pessoa sempre é as marcas das lições diárias de outras tantas pessoas…

É tão bonito quando a gente sente que nunca está sozinho por mais que pense estar.

Então, se me permitem, eu gostaria de finalizar este texto fazendo algumas saudações. Primeiramente, ao meu querido Ceará, sem o qual a grande América pouco me diria. Depois, ao poeta Gonzaguinha que nos deixou esse maravilhoso legado e de alguma forma permitiu essa “expiação nordestina”. Saúdo, também, aos irmãos nordestinos, na figura do simpático Ariano Suassuna, que encantadamente acrescentam voz à nossa alma. Mas saúdo, principalmente, os que se comovem com essas vozes… e as libertam. Como fez o Alexandre Kahtalian!

Destino

Foto  meramente  ilustrativa  (internet).

Disco: CD “White blues”, de Chet Baker.

Há quem afirme que o acidente ocorrido em maio de 1988 com Chet Baker, em Amsterdam, foi suicídio. Segundo esses, Chet se desencantara da vida há mais de uma década. Por isso mesmo, os seus últimos discos foram verdadeiras “mensagens do além”. Pois é, minha gente… Eu não sei o que vocês pensam a respeito, mas, de minha parte, eu declaro com convicção: isso pouco altera o meu estado de espírito. Porquanto eu sempre me emocionei com as interpretações de Chet, sejam elas antes ou após a sua morte. E digo mais: hoje em dia, por conta de uma visão mais espiritualizada, eu chego a acreditar que Chet Baker, de fato, já cumprira a sua “missão”, aqui nesse plano, bem antes de sua morte física. Como legado, ele nos deixou uma obra imortal e nos proporcionou verdadeiras “viagens”. Sim, meus amigos, quando conhecemos a música de Chet, percebemos que somente ele é capaz de nos pôr em contato com aqueles que já fizeram a “passagem”. Afortunadamente, ele nos revela em cada nota soprada a “presença” dos nossos entes, anjos e querubins… O que posso dizer é que após a “partida” de minha querida mãe, ouvir “Somewhere Over The Rainbow” passou a ter outro ritual, talvez mais “elevado”. Por vezes, creiam-me, Chet me faz mergulhar integralmente na atmosfera da música. E assim, embalado pela canção, eu passei a acreditar que realmente há algo especial além do arco-íris… Desse modo, quem sabe eu possa até mesmo acariciar as mãos e os lindos cabelos de Dona Jarina… minha querida mãe? Então, obrigado, Chet. Bendito seja!

https://www.youtube.com/watch?v=z4PKzz81m5c

CBaker_WhiteBlues

Memórias: o “sentido da vida” e os cabelos brancos!

Vejam como são as coisas. Certa vez ao assistir ao programa de entrevistas numa emissora de TV, eu percebi que o sentido da vida (da minha, ao menos) fora ali revelado. Deixem-me explicar. Era um consagrado programa de entrevistas e o convidado especial daquela noite era o ator Juca de Oliveira. Pois muito bem. A entrevista seguia morna, mas, em dado momento, ele foi indagado sobre a técnica que usava nos palcos para “driblar” as dificuldades cotidianas em favor da personagem. Com muita sabedoria, Juca declarou: “realmente, nós utilizamos certos truques quando percebemos que não “vestimos” por inteiro a personagem. Eu, por exemplo, quando me flagro nessa situação, sou tomado por um forte desassossego. Por conta disso, eu busco na plateia, desesperadamente, um rosto que me seja profundamente terno e familiar. Geralmente, eu acabo encontrando este rosto numa velhinha de “cabelos brancos”, sentada logo nas primeiras filas. Aí, então, começo a desempenhar os primeiros dez ou quinze minutos da peça com o olhar voltado apenas para “ela”. Invariavelmente, o que tem acontecido é que “ela” percebe e, com isso, me devolve sob a forma de um intenso brilho nos olhos ou um doce sorriso estampado no rosto toda a emoção vivida. Como consequência, eu fico tão comovido com a reação que, quando me dou conta, já incorporei “a personagem” e o restante da peça é, enfim, ofertado a todos”. Moral da história, minha gente: todos nós, de alguma maneira, precisamos encontrar em tudo o que fazemos “aquela” velhinha de cabelos brancos, para darmos sentido a vida. Irremediavelmente!

PS. Sim, ia esquecendo: o belíssimo quadro é de minha querida mãe, Jarina Menezes, uma baita artista plástica que resolveu pintar em outras paragens…

O sentido da vida

Disco: CD “You won’t forget me”, com Shirley Horn.

Tudo bem. No fundo, eu sei que não deveria escrever sob certas condições. Mas, fazer o quê? Quem consegue ouvir Shirley Horn soltar represadas emoções e ainda permanecer incólume? Se você duvida disso, amigo leitor, então deixe tocar “Don’t let the sun catch you cryin’”. Como ato contínuo, você perceberá que a melodia penetrará em sua alma e, lentamente, libertará antigas questões. Sim! Pode acreditar nisso. É que a voz da nossa Shirley possui “poderes especiais”, minha gente, capazes de denunciar os mais recônditos desejos. Foi o que me aconteceu. Juro a vocês!

Eu estava quieto, escutando minha música e observando meu filho jogar no seu “notebook” deitado na rede. Aí, veio a mãe dele e o pediu para fazer algumas compras no supermercado aqui do bairro. Aumentei o som e ao ouvir a canção, ela imediatamente declarou: “nossa!, que linda melodia!” Daí, não demorou muito e ela, então, trancou a porta da sala e começou a sussurrar um monte de “fantasias” em meus ouvidos… Céus, nem posso repetir o que ela disse. Eu só me lembro que o nosso filho reclamou um bocado de termos demorado a abrir a porta. Foi quando nós olhamos um para outro e soltamos uma baita gargalhada!

Paciência… São coisas da vida. Mas, cá entre nós: foi uma tremenda “adrenalina”, não acham?!

https://www.youtube.com/watch?v=ZdHVw4HGAHA

ShirleyHorn

Jazz: a “Era das Big Bands”

É sabido que o jazz, muitas vezes, andou atrelado à contravenção. No apogeu do ragtime (1897 – 1917), por exemplo, os famosos “gângsteres” de Chicago, New Orleans e Nova Iorque mandavam e desmandavam nos destinos da música americana. E nos cabarés, quase todos controlados pelos mafiosos, somente os músicos apadrinhados podiam tocar ou cantar. Pouca coisa se podia fazer sem a permissão dos “donos” das cidades. Os conhecidos “vaudevilles” – shows musicais com a participação de dançarinos – imperavam em todos os cantos. Era a “febre” da dança e de intensa produção musical, como no caso das “Dixieland Bands”. Foi um período muito fértil musicalmente e grandes nomes foram lançados: Jelly Roll Morton, King Oliver, Scott Joplin, Buddy Bolden, Fats Waller e tantos mais. É bem verdade que muitos músicos dessa época sobreviveram às custas do “dinheiro sujo”. Eram tempos difíceis!

De certa forma, a Primeira Grande Guerra serviu como marco divisório na história do jazz, pois, logo a seguir, ressurgiu fortemente o “blues”. No entanto, se antes o “blues” exortava à dor e às dificuldades dos “errantes” negros do Sul, passou, depois disso, a expressar temas voltados para os problemas do amor. A década de 1920 viria a ser a “idade de ouro” dos “blues” vocais, que dominaram o país e influenciaram definitivamente o jazz!

 

A Era das Big Bands.

 

Memórias: quando é preciso ser grato!

Dizem que a “gratidão” é um dos sentimentos mais evoluídos que um ser humano pode apresentar. Sim, é bem possível. E se isso realmente for verdade, meus amigos, então, torço para que os “espíritos hospedeiros” tenham esta compreensão quando chegar a minha hora…

Por enquanto, creio eu, ainda há muito o que fazer por aqui. Muitos projetos de vida. Muitas descobertas e, acima de tudo, muito o que aprender, isso sim!

Sua bênção, Senhor.

Gratidão