PARA SEMPRE NA MEMÓRIA

Foi no ano de 1978 que eu tive essa grande lição. E de lá para cá, reconheço, ela tem permanecido ao meu lado para lembrar sempre o que é acolhimento e solidariedade. Eu explico a vocês.

Na verdade, o início da minha carreira de professor de química foi quase acidental. Estávamos em 1971 e eu era aluno de um cursinho pré-vestibular. Ao final desse ano, eu obtive aprovação no exame vestibular, alcançando o sétimo lugar no Curso de Farmácia e Bioquímica da UFRJ. Na época, eu trabalhei em um banco privado no período da tarde e, à noite, frequentava as aulas no cursinho. Mas isso só ocorreu porque eu não queria que os meus pais pagassem o cursinho, uma vez que que todo o meu período escolar – fundamental e médio – havia sido feito em escolas gratuitas. Pois é, minha gente, o ensino público já teve qualidade. Sim! E muita!

No entanto, eu estava dizendo que acabei logrando uma vaga na Universidade Federal do Rio de Janeiro. E ao começar o curso superior, em 1972, eu logo me senti identificado com a química, principalmente, a química orgânica. É que no curso de Farmácia ela era ministrada pela professora Maria Alice, craque de primeira grandeza. Ah, meus amigos, que extraordinária criatura foi aquela! Além de ser profunda conhecedora da disciplina, ela possuía um enorme talento para nos cativar. Com isso, rapidamente, eu me senti apaixonado pelo modo como ela abordava a ciência.

No ano seguinte, eu já me destacava em química, obtendo boas avaliações. Por conta disso, ao comentar com um dos donos do cursinho, recebi dele muito incentivo, acenando até com a possibilidade de ser contratado para a equipe de professores. Embora descrente, vibrei com a ideia!

No entanto, dito e feito. Um ano mais e eu ingressava na numerosa e disputada equipe de professores do cursinho. No início, confesso, eu ‘apanhei’ um bocado, pois não possuía a ‘experiência’ que os outros colegas, mais antigos, tinham de sobra. Aliás, confiança, carisma e magnetismo, convenhamos, só o tempo se encarrega de desenvolver!

Assim, decorridos três anos dando mais de quarenta aulas por semana, eu já havia desenvolvido o controle das aulas e fazia parte do ‘primeiro time’ da química.

Contudo, é aquela tal história: de algum modo, o ‘destino’ faz questão de nos testar. E não é que após cinco anos como professor, acabei recebendo a primeira grande lição do magistério?!

É que havia naquele período uma forte concorrência entre os cursinhos. Com isso, todos os anos eles publicavam nos jornais qual era a equipe de professores para o ano seguinte, com o objetivo de atrair novos alunos. Além disso, os donos de cursos ‘exigiam’ exclusividade para alguns professores. E isso eu não concordava, pois me parecia ‘autoritário’.

Então, quando chegou o final de fevereiro de 1978, eu tive a surpresa de receber o ‘bilhete azul’, por não concordar com a exclusividade. Meus Deus do Céu, faltando uma semana para o início do ano letivo, como eu faria para arrumar aulas? Como iria sobreviver?

Lembro inclusive que cheguei em casa arrasado, completamente atônito com a notícia. Meu pai, ao ver naquele estado, perguntou: “o que houve, meu filho?” Com dificuldades, eu relatei a novidade, afirmando: “pai, eu estou ferrado. Literalmente!”

Ele me abraçou com carinho e pausadamente rebateu: “ferrado por quê? Você tem casa, comida e roupa lavada. Tem saúde e família ao seu lado… Portanto, por mais que seja chato, saiba, é só um emprego que perdeu, filho.”

Nesse momento, meus amigos, eu me dei conta da dimensão do acolhimento e da solidariedade que tanto necessitava. Daí, eu abracei o meu pai e agradeci pelo gesto e pelo incentivo. E precisei de apenas dois dias para conseguir, por intermédio dos amigos, a indicação para 24 aulas em diferentes escolas da zonal sul. A partir desse episódio, a minha carreira no magistério progrediu de vento em popa e, finalmente, eu me tornei um “professor”. Acima de tudo, graças ao meu pai!

(Na foto: eu, meu pai e meu filho)

A PAIXÃO DE TOTÓ

Desde muito cedo eu entendi que a vida teria mais sentido se ela fosse regida pelo signo da paixão. Sim… Paixão, meus amigos! Aquela manifestação que alguns chamam de desvio, outros de obsessão e, por vezes, até de estado febril. Certo mesmo é que esse ‘comportamento’ tem propiciado profundas teses e estudos da psicanálise. Pois é. No entanto, uma coisa nós devemos reconhecer: sem paixão, o homem teria inventado a roda? A calça ‘jeans’? A música? A linguagem? Ou, para além disso, mergulharíamos tão fundo nas relações interpessoais? Seríamos seguidores de movimentos e ideologias, inda que utópicas? Sei não, minha gente… Quem pode assegurar?!

Os céticos, provavelmente, dirão: “é… mas pagamos um preço alto demais por tudo isso, meu caro Carlos”. É que segundo esses, o mundo prescindiria de muitos dessas manifestações. Porquanto foram movimentos que têm determinado o desenvolvimento da sociedade, sem dúvida alguma, porém de forma turbulenta. Os pessimistas proclamam que nós arrastamos, no bojo de tais criações, um sem número de idiossincrasias. Doenças essas que se incorporam às nossas personalidades hodiernas. É… pode ser.

“Mas, o que isso tudo tem a ver”, perguntarão os impacientes. O que tem a ver com o filme ‘Cinema Paradiso’? – indagarão alguns desconfiados leitores. Tudo bem. Mas, calma aí, companheiros! É que eu demoro a encontrar a minha linha de raciocínio, uma vez que ela também está impregnada de paixão.

O que eu gostaria de dizer, efetivamente, é que por trás da ‘criação’ nada mais há do que paixão. Sim, meus amigos, paixão! Esse doce e lindo sentimento que impulsiona a história, que arrebata espíritos empreendedores. E que nos faz acreditar em… em tudo!

A grande verdade é que na paixão se pode encontrar o talento da arte, dos místicos e dos inquietos. Com sorte, nós poderemos descobrir um pouquinho desse talento (paixão) até em nossas vidas. Ah, como isso faz bem!

Vejamos. O ser humano é capaz de se sensibilizar diante da arte. Mas, arte, convenhamos, é algo subjetivo. Algo que suscita diferentes reações para cada criatura e em cada momento da vida. É possível que, frente à arte, tenhamos diferentes comportamentos: o que para uns se traduz em desafio, para outros é motivo de certa resistência…

Quando eu assisti, pela primeira vez, ao filme ‘Cinema Paradiso’, confesso a vocês: eu fiquei profundamente comovido. Tão emocionado que me senti ‘paralisado’ diante de tamanha beleza. Meu Deus do Céu, como pode um simples mortal produzir tanta poesia em apenas 123 minutos de filme? Como pode alguém ser capaz de fazer o espectador ‘viajar’ na linguagem mais sensível da raça humana: o olhar para dentro? Talvez alguns possam responder: técnica e conhecimento! E eu refuto: não bastam!

Com toda certeza, meus amigos, é preciso bem mais do que um bom enquadramento, diálogos bem produzidos, interpretações corretas e uma trilha sonora comovente para se fazer um extraordinário filme. Pela singular razão de que é preciso tudo isso ‘junto’! E em dose perfeita!

De uma coisa eu estou convencido: no ‘Cinema Paradiso’, ocorre exatamente assim. É que a nostálgica atmosfera, criada desde os primeiros minutos, sugere sempre um contato íntimo com o espectador. E pelas mãos de Giuseppe Tornatore, diretor do filme, os personagens vão ganhando vida. Vão assumindo o espectro da dor, mas com profunda poesia. Revelando as frustrações presentes em cada um de nós, sim, mas com suavidade e encantamento. O sentimento desencadeado pelo toque de Alfredo na vida de Totó, por
exemplo, só pode ser comparado à linguagem materna, que é divina e universal.

Sabemos que o ‘conhecimento’ é o bem mais almejado na vida. De fato, ele é algo extraordinário e, muitas vezes, constitui o verdadeiro objeto de desejo. A verdade é que, por ele, temos sido capazes de buscar soluções, de criar um sem número de técnicas e, até mesmo, de pagar um bom preço para lográ-lo. Tudo isso para que tenhamos atendido a nossa ânsia de ‘desenvolvimento’.

No entanto, amigos, eu falo de paixão. Sim! Aquilo que nos dá a capacidade de sonhar, sonhar e sonhar. E, quem sabe, sonhando, possamos aplacar nossos recalcados desejos de imitar a vida por intermédio da arte?!

No filme, foram muitos os ‘beijos proibidos’ a que Totónão pode assistir na tela do ‘Cinema Paradiso’. Como consequência, quando ele se tornou um homem maduro e bem sucedido, passou a ser extremamente importante ‘recuperar’ aqueles beijos e ressuscitar ‘outras vidas’ dentro dele. Afinal, como representante de uma raça dotada de emoção, Totóseguidamente viu-se enredado por dolorosas lembranças. E ao se ver paralisado por essas memórias, ele percebeu que era preciso desatar os tantos ‘nós’ que a vida foi aprontando. Ao que tudo indica, ele conseguiu!

Quanto a nós, ‘desavisados náufragos’, quem sabe se um dia poderemos conquistar o conhecimento, sem perder de vista a paixão que nos domina? Sem que viremos às costas ao humanismo em nome do desenvolvimento! Com sorte, talvez possamos dar ao conhecimento novas formas e novos ambientes. E que consigam atender as individualidades de cada um. Com isso, devolveríamos a quem de direito o extraviado ‘selo de autoria’. Essa mesma autoria que fez Giuseppe Tornatore buscar em Ennio Morricone a trilha sonora perfeita para soltar o enredo dessa belíssima história. Ah! Tomara que isso aconteça, minha gente. Tomara!

O desempenho do menino Totó(Salvatore Cascio) é algo comovente e muito bem sucedido por Totóadolescente (Marco Leonardi) e melhor ainda na dramática expressão facial de Totóadulto (Jacques Perrin). A cena da demolição do ‘Cinema Paradiso’é, seguramente, digna de observação psicanalítica. Pode-se perceber que os alicerces da ‘memória afetiva’ de Totóvão caindo lentamente, um a um. Trágica e impiedosamente. Por outro lado, com muita sensibilidade, eles passam a ser reconstruídos na simbólica montagem dos trechos de filmes proibidos de sua infância distante. Desse modo, Totóconsegue finalmente ‘realizar’ a sua expiação e exorcizar para sempre os fantasmas que tanto incomodavam…

Aliás, segundo os irmãos Taviani (Paolo e Vittorio): “Este é o filme de um homem
dedicado ao cinema para aqueles que amamo cinema”. Romântico (mas não piegas), sentimental (mas não menos vigoroso), ‘Cinema Paradiso’traz de volta o sorriso nos lábios. Até mesmo nos homens taciturnos!





Cinema Paradiso

A VIDA VIVIDA

Eu devia ter pouco mais de treze anos quando fui apresentado ao poeta Fernando Pessoa. E a doce criatura que possibilitou esse encontro, devo reconhecer, foi a minha professora de Língua Portuguesa, Maria Aldina. Sabemos que o tempo é algo impessoal e, muitas vezes, injusto até. Por isso, eu acredito que ela não esteja mais entre nós, ao menos, nesse plano aqui. No entanto, minha gente, existem algumas criaturas, espalhadas pelo mundo, que fazem a diferença em nossas vidas. São os verdadeiros ‘anjos-da-guarda’, isso sim. Porquanto são capazes de nos guiar e determinar, em parte, o rumo dos nossos destinos. Ah! disso eu não tenho dúvida!

Lembro também que era a minha aula preferida e que eu torcia avidamente que chegasse a semana seguinte para desfrutar de mais uma ‘viagem’ no imaginário. Isso porque, Dona Maria Aldina possuía forte talento para nos ‘raptar’, sem que percebêssemos. Muito embora, ela contasse com a nossa tácita cumplicidade…

A partir daí, nós saíamos embarcados naquela ‘encantada caravela’, em busca de novas descobertas e aventuras. Os enredos eram criados com delicada tessitura. Assim como percebíamos o apurado bom gosto envolvendo o clima de cada história. Meu Deus do Céu, que coisa linda era aquilo?!

Um dos poemas que nunca esqueci e que ela recitava com maestria, intitulava-se “Aniversário”, escrito por Álvaro de Campos, um dos pseudônimos de Fernando Pessoa. “No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, / Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, / De ser inteligente para entre a família, / E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. / Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. / Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida…”
O fato é que a roda do mundo girou mais um bocado. Com isso, muitos sonhos foram perdidos, é verdade, mas outros tantos foram criados e até hoje alimentam esperanças. Além disso, por sorte, eles renovam os laços com a vida e nos fazem crer que outras escolhas estão à nossa frente…

Hoje eu completo mais um aniversário, de número 69, e comemoro o que a vida tem me oferecido. Na maior parte das vezes, reconheço, foram momentos de profunda alegria. Quase sempre partilhado com pessoas que deixaram marcas no percurso. E eu as agradeço. Todos os dias!

(Eu, Zelândia e Gabriel, em Amsterdam – Janeiro de 2020)

O GUARDADOR DE REBANHOS *

Tem vezes que a gente se depara com situações que nos parecem profundamente familiares. E desse modo, somos até capazes de acreditar que já conhecíamos ou, pelo menos, já tínhamos visto aquela pessoa ou situação em outro lugar…

Pois é. Isso parece incrível, o verdadeiro “déjà vu”. Mas foi o que me ocorreu quando escutei a voz de António Zambujo. É que ao ouvir, logo de início, ela me soava algo muito próximo, íntimo até. E mais feliz eu fiquei quando ouvi a canção “Ao sul”. Céus! Zambujo consegue acolher com profunda sensibilidade o solitário violão e, carinhosamente, canta a linda melodia: “Sob as águas desse rio / onde a barca dos sentidos / nunca partiu. / Lá longe / inventei o dia azul / pelo desejo de chegar ao sul…”
Como ato contínuo, eu me lembrei dos versos de Fernando Pessoa, em “O Guardador de Rebanhos”: “Não tenho ambições nem desejos / Ser poeta não é uma ambição minha / É a minha maneira de estar sozinho.”

O que sei dizer, meus amigos, é que ouvindo o CD, “Outro sentido”, eu fui tomado por muitas lembranças de Portugal e de um tempo que eu já não sabia mais que existia em minhas memórias. Porquanto eu tinha apenas vinte e cinco anos de idade e conheci sozinho aquele maravilhoso país. Sim! Perambulei um bocado pelas ruas de Lisboa. Ora fuçando a Livraria Bertrand, na Rua Garret, 72, bem atrás dos Armazéns do Chiado. Ora extasiado pelo passeio nas ruas e becos da Alfama, visitando o Museu do Fado e ouvindo toda sorte de canções de Amália Rodrigues e tantos outros.

“Eu não tenho filosofia: tenho sentidos… / Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, / Mas porque a amo, e amo-a por isso, / Porque quem ama nunca sabe o que ama / Nem sabe por que ama, nem o que é amar…”

É bem possível que hoje eu tenha recebido a visita do meu avô materno, João Antunes. Ah!, meus amigos, essa foi uma visita especial. Afinal de contas, eu mal conheci o meu avô. Ele faleceu quando eu tinha pouco mais de dois anos de idade. Contudo, em algum ponto do meu DNA ficou gravado o imenso amor que ele tinha por sua terra… e me repassou!
“O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério! / O único mistério é haver quem pense no mistério. / Quem está ao sol e fecha os olhos, / Começa a não saber o que é o sol / E a pensar muitas cousas cheias de calor.”

Então, por tudo isso é que nesse ensolarado sábado de frio, após a caminhada matinal pela Beira-mar, eu acabei pegando na estante um disco para ouvir, enquanto me acomodava na rede do escritório. Não por acaso, o disco escolhido foi esse de António Zambujo, intitulado “Outro sentido”. Belíssimo. Comovente! E tem os ingredientes necessários para o deleite de todos: lindas melodias, belas interpretações e um imenso amor ao canto português!
“Mas abre os olhos e vê o sol, / E já não pode pensar em nada, / Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos / De todos os filósofos e de todos os poetas. / A luz do sol não sabe o que faz / E por isso não erra e é comum e boa.”

Assim, como não há nada mais a dizer, eu quero apenas deixar o meu registro de gratidão por esse Portugal que me acolheu tão bem. De quebra, eu presto uma homenagem ao meu avô João Antunes. Decerto, ele plantou nas terras brasileiras a marca de sua brava trajetória. Abençoado seja, vô!

“Mas se Deus é as flores e as árvores / E os montes e sol e o luar, / Então acredito nele, / Então acredito nele a toda a hora, / E a minha vida é toda uma oração e uma missa, / E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos…”

(*) “O Guardador de Rebanhos”, de Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

Fernando Pessoa
Meu avô materno, João Antunes

O  GRITO DO IPIRANGA

Canelau sempre foi um moleque voluntarioso, devemos reconhecer. E sabia buscar soluções sensatas para todo tipo de problema que surgia. Na idade dele, convenhamos, problemas e desafios não faltavam, minha gente. Ora ele sentia raiva por não poder usufruir dos ‘bens de consumo’ que alguns vizinhos faziam questão de esnobar sem medida. Ora se sentia impotente por não poder ‘encarar’ algumas pendengas familiares… Paciência, fazer o quê?!

É bem verdade que a vida era difícil para quase todos daquele prédio. Afinal, o Estácio era um bairro de classe baixa. Poucos ali possuíam bons recursos. E a família de Canelau, não fosse muito numerosa, até seria ‘abastada’, uma vez que o seu pai era funcionário público de uma grande empresa estatal. Mas, cá entre nós: sustentar oito bocas famintas não é fácil não! E, ainda por cima, tem roupas para comprar, dentes pra cuidar e toda sorte de despesas que filhos pequenos apresentam…

Talvez, por isso, Canelau desejasse ‘crescer’ o mais rápido possível. Porquanto, somente assim, ele poderia dar o “grito do Ipiranga” tão sonhado. Mas, para tanto, ele ainda deveria atravessar um sem números de problemas e desafios. Segundo consta, o primeiro desafio foi subir na marquise do Colégio para pegar a bola que havia chutado. É que a bola ficou presa no telhado e para subir até lá, meus amigos, a ‘empreitada’ era árdua, já que o muro que dava acesso tinha mais de três metros de altura. E Canelau visivelmente não se sentia confortável. Isso para não dizer que ele morria de medo de altura.

Foi Roberto que deu ‘cadeirinha’ para que Canelau segurasse no muro e pudesse iniciar a escalada. Depois disso, sem poder olhar para baixo, ele colocou a primeira perna na pilastra e alavancou o corpo para cima. É bem verdade que muitos colegas faziam isso de olho fechado, numa rapidez que nem se pode imaginar. Porém, Canelau sofria de ‘vertigem’ e vocês podem imaginar o que isso representa. Pânico, era o sentimento mais suave que se abatia nele!

Finalmente, ele atingiu o telhado e partir dali, bastava pisar entre as telhas para não as quebrar com o peso e provocar um tombo perigoso. Então, ele foi indo bem devagar, quase engatinhando pelo íngreme telhado, até vislumbrar a maldita bola que insistia em não se mover com as pedras que Canelau arremessava, tentando deslocá-la. Tudo em vão. Foi necessário subir mais uns dois metros, telhado adentro, para finalmente pegar a bola e arremessar para a rua.

Agora, uma coisa é certa: se a subida foi um problema, imaginem a volta. Pois é. Lá de cima, ele lembrou da antológica frase de Millôr Fernandes: “O pior do alpinismo é a volta!” Porquanto existe apenas o risco de cair, já que o prazer de poder ‘apreciar’ a vista desaparece por completo!

No entanto, aos trancos e barrancos, o nosso ‘destemido’ Canelau foi obrigado a descer do telhado, inaugurando uma nova modalidade de técnica: “salto no escuro”. O resultado já era esperado: arranhões, ferimentos e entorses nas mais variadas articulações.

A partir daí, Canelau encerrou a promissora carreira de jogador, preferindo esportes mais amenos, que não exigissem escaladas ou algo assim…

 

telhado

CHET BAKER: CRIME E CASTIGO

É sabido que a vida de Chet Baker foi bastante conturbada. Nela, sempre houve um complicado dualismo: ou aparecia o doce e terno Chet Baker, com seu maravilhoso trompete e delicada voz, ou surgia o ‘dependente químico’ da heroína que, a partir daí, desencadeava uma sucessão de brigas, confusões e violências. Talvez, alguns leitores poderão perguntar: “mas, como pode isso acontecer, Carlos?!”

Sim! Ao que tudo indica, meus amigos, a natureza humana revela mais contradições do que somos capazes de atinar. Se por um lado isso representa grande lástima, por outro, também é verdade que essas ‘almas conflitadas’ têm nos ofertado momentos de raro prazer. Talvez por isso, nós nos tornamos benevolentes e, muitas vezes, ‘perdoamos os deslizes’ desses monstros sagrados.

No fundo, essa é uma questão antiga. Pois de algum modo, todos nós possuímos impulsos feito o de “Ramanovich Raskolnikov”, de Dostoiévski, em “Crime e Castigo”.
É que na obra de Dostoiévski, uma questão moral é colocada, desde cedo: o assassinato de uma pessoa reles seria moralmente errado se o objetivo fosse nobre? Afinal, no antológico romance, Raskolnikov acredita que todas as pessoas superiores acabam cometendo assassinatos para atingir os seus objetivos. E que, no final, são até justificáveis, pois representam grandes ‘serviços’ para a humanidade…

O que sei dizer é que o nosso Chet Baker, nascido em Oklahoma e criado em um subúrbio de Los Angeles, Califórnia, também sofreu bastante na infância. Ainda muito jovem, ele perdeu um dente em uma brincadeira de rua com outros meninos. Anos depois, ele perderia quase todos em brigas, supostamente com traficantes que vinham lhe cobrar dívidas.
Aos dezessete anos, ele sai da escola e entra para o exército e, em pouco tempo, é transferido para Berlim, para tocar na banda. Aos 22 anos de idade, Chet já se apresentava regularmente por toda Los Angeles. Soube, então, que Charlie Parker estava à procura de um trompetista para acompanhá-lo em sua turnê pela costa oeste dos Estados Unidos e Canadá, iniciando ali uma nova etapa em sua vida.

Por certo, o grande reconhecimento ao talento de Chet só surgiu em 1952, quando Gerry Mulligan começou a formar seu famoso quarteto sem piano e escolheu Baker, com quem já havia tocado em algumas “jam sessions”. O sucesso foi extraordinário e ele se apresentou em diversos clubes por cerca de um ano, antes de Mulligan pegar noventa dias na prisão (por posse de heroína). Depois disso, Chet viajou para a Europa e começou a ganhar prêmios e aplausos.

De volta aos EUA, começou a consumir heroína e a ser preso frequentemente. Sem a autorização para tocar em lugares que servissem bebidas, Chet resolveu voltar para a Europa. Viveu na Itália por quatro anos, onde também foi preso por drogas. Lá, casou-se e teve um filho.

Em 1964, novamente voltou aos EUA, agora dominados pelo “rock” dos Beatles. Daí, como restava pouco espaço para os músicos de jazz, passou a gravar discos comerciais de baixo valor artístico. Nessa mesma época, ele perdeu diversos dentes em consequência de uma briga envolvendo a negociação de heroína. Praticamente, foi obrigado a abandonar o instrumento de 1970 a 1973, quando tentou retomar sua carreira. Em viagem pelo Colorado para visitar um velho amigo, ouviu Dizzy Gillespie tocar em um clube. Foi o início do seu retorno. Quando Gillespie ficou sabendo do esforço de Baker para voltar à cena, ligou para o gerente do famoso “Half Note Club”, arrumando-lhe uma temporada de três semanas em Nova Iorque.

No Brasil, ao se apresentar na primeira edição do “Free Jazz”, em 1985, Baker sofreu uma “overdose” no quarto do hotel e quase morreu. De certo, era o prenúncio. Três anos depois, em um pequeno hotel de Amsterdã, Chet ‘caiu’ do segundo andar do prédio… Nunca se soube, ao certo, se ele cometeu suicídio ou se foi uma queda acidental. Desafortunadamente, essa perda representou para nós tanto o ‘crime quanto o castigo’. E por conta disso, todos nós ficamos órfãos!

 

LAÇOS  &  ENTRELAÇOS

 

Certamente esse é um assunto bastante delicado, difícil até. Isto porque, quase sempre a gente esbarra em suscetibilidades. Vindas de todas as formas. E com isso, o tema acaba virando um verdadeiro tabu. Cheio de ‘não-me-toques’, melindres e outras coisas mais…

De fato, eu me refiro aos aspectos familiares, cujo protagonismo envolve as relações com os pais e os irmãos. Alguém poderá dizer: “Carlos, pelo amor de Deus, isso é ‘casa de marimbondos’, então, é melhor não mexer!”  Sei bem disso, minha gente. E tampouco pretendo levantar o dedo em riste para qualquer familiar. Longe de mim essa intenção!

Na verdade, o tema surgiu nesse período de confinamento, por conta da pandemia. É que para preencher o tempo, obrigatoriamente, nós temos assistido a muitos filmes. Alguns deles, devo reconhecer, foram maravilhosos e nos fizeram refletir sobre o entorno da história. Filmes que nos emocionaram, que apontaram a mira na direção dos tantos ‘nós’ que existem por aí.

Como é habitual, nessas horas, a gente para pra pensar e avalia os ‘ecos’ provenientes. Ecos dos enredos das histórias que, de algum modo, refletem na gente. No fundo, isso é algo bastante interessante, e sadio, à medida que desenvolve a nossa capacidade de observação.

Como pano de fundo dessa nossa conversa, meus amigos, eu irei evocar o belíssimo texto escrito pela blogueira Ivi Kuchpil, do site “Biarticulando”.

Segundo ela, “ao ler à sinopse do filme sul-africano, “Buraco na Parede”, pode-se concluir – precipitadamente, diga-se de passagem -, que estamos diante de mais uma história de ressignificação, quando o personagem principal descobre que tem poucos meses de vida e resolve aproveitá-los de forma intensa e reconciliadora.

Porém, “Buraco na Parede” vai além disso: consegue ser intimista, sensível, engraçado, tudo sem flertar com o dramalhão ou a pieguice.

No centro da história, temos Riaan, sujeito independente, de espírito livre e hedonista que descobre ter um câncer de cólon no estágio quatro.

Com poucos meses de vida pela frente, Riaan, durante um de seus mergulhos diários no mar, conhece Ava e propõe a ela um emprego/aventura: o acompanhar na sua última viagem pela África do Sul, revendo amigos, amores e lugares.

Para isso, Riaan convoca o filho único, Ben, a quem não vê há três anos e que vive no exterior, para ser o terceiro elemento nesta jornada.

Nem tudo serão flores nesta pequena odisseia pessoal: ressentimentos e conflitos também vêm à tona, o que deixa a história ainda mais humana e sem idealizações.

Totalmente falado no idioma africâner e tendo como cenário as estonteantes paisagens de Transkei e KwaZulu-Natal, incluindo a fazenda de café do protagonista, o longa-metragem é um deleite para os olhos. Mas acima disso, deixa uma mensagem que vai além dos créditos finais: a vida é curta e inesperada.

Filme belo e que pode nos levar a uma breve autoavaliação… Recomendo.”

Que bom ter pedido emprestado a Ivi Kuchpil um pouco do seu olhar talentoso. Poupou-me tempo e a agudeza de observação. Com isso, eu criei coragem para empunhar o tema central: família. Peço desculpas a quem se sentir melindrado. Mas meu desejo não é apontar falha ou culpa de alguém. Muito pelo contrário. Se houve enganos na relação familiar, quem sabe, caiba a mim a parcela maior dos movimentos ocorridos? Afinal, fui eu que me afastei dos entes, por motivos que nem vêm ao caso aqui. Simplesmente, foram movimentos espontâneos, quase naturais, como as ondas do mar que criam diferentes desenhos a cada dia.

Todos eles, familiares, foram e continuarão sendo importantes na minha vida. No entanto, chega um momento em que é preciso ‘desatrelar’, quebrar viciados laços que não respondem mais pelos afetos presentes. Prescreveram com o tempo, isso sim. E não cabe nenhum desejo de ‘futucar’ antigas feridas ou episódios distantes…

Talvez seja o caso de apenas sugerir aos interessados que assistam ao filme e extraiam dele o que for conveniente e verdadeiro para cada um. O resto, meus amigos, é tão somente história e imaginação!