UM  MAR DE ESPERANÇA

De vez em quando eu paro para observar o meu filho Gabriel. Não que eu deixe de observá-lo no dia a dia. Mas é que algumas vezes isso se impõe de modo mais intenso. Seja por algo diferente que ele apresenta, seja por intuição ‘paterna’ que sugere alguma intervenção.
Sabemos que os filhos têm a tendência de ‘copiar’ alguns modelos dos pais. Até aí, nada demais. Eu também já pratiquei isso. Por certo, inúmeras vezes. Também é verdade que muitas dessas tentativas não deram certo ou, quando muito, não serviram aos meus reais impulsos de vida. Paciência, fazer o quê?! Faz parte do caminho. Aliás, creio, esse parece ser o grande aprendizado da vida: perceber o que nos cabe e o que é indevido. De algum modo, tudo isto me remete ao poema de Drummond, “A flor e a náusea”, que destaca a preocupação com a solidão, ao apontar que as pessoas só tomam conhecimento de fatos trazidos pelo jornal. Como consequência, não há diálogo ou correspondências. Daí a metáfora do último verso do poema, que deixa claro que as notícias do mundo chegam lenta e friamente, sem maior envolvimento. Principalmente quando esquecemos de “soletrar” a vida…

“Quarenta anos e nenhum problema resolvido, sequer colocado. / Nenhuma carta escrita nem recebida. / Todos os homens voltam para casa. / Estão menos livres mas levam jornais / E soletram o mundo, sabendo que o perdem”.

Eu não sei dizer se aprendi a ler o livro da vida de modo correto. Tão pouco posso assegurar que consiga deixar ao Gabriel algum legado precioso nesse sentido. Isso porque, caberá a ele a ‘construção’ dos valores, assim como o uso que fará deles para que tenha uma ordenação mais proveitosa na vida. Oxalá, ele consiga isso, é o que posso desejar!
De todo modo, eu acredito que seja papel dos pais provocar ‘movimentos’ no percurso dos filhos. Obviamente, sem perder de vista que o patrimônio afetivo é algo individual, por mais coletiva que seja a nossa trajetória. Com sorte, poderemos desencadear algumas boas reflexões que, em última análise, promovem ‘crescimentos’. O resto… bem… o resto é com eles, não acham?!

Com o passar do tempo, eu acredito que eles descobrirão onde estão as fiéis amizades, bem como onde encontrar os ‘sócios’ certos para todo tipo de empreitada. Isto, no fundo, constitui a grande ‘peleja’ da vida…

Então, como um bom torcedor, eu irei aplaudir, reclamar e me emocionar com o desempenho do time. Mas sempre na esperança de poder gritar: é campeão… é campeão!!

(Imagens do Gabriel: aos 4 meses, 9 anos e 17 anos)

 

A LONGA ESPERA

Eu nem precisei ouvir o relato do companheiro Ênio para saber que o ‘cerco’ havia se intensificado. Tudo bem. É preciso aceitar que isso faz parte do jogo. Porquanto o papel ‘deles’ é de nos procurar e o nosso é de se esconder. Aliás, a vida da gente é assim mesmo, não acham? Uma coisa é certa: em tudo que observamos no mundo, tem sempre o lado avesso. Tem o forte e o fraco. O bom caráter e o mau caráter e outras coisas mais que não vêm ao caso… Por isso, nós nunca ligamos para o estardalhaço que faziam. Preferíamos permanecer reservados, com poucas conversas. Até porque, nesse ramo de negócio, a ‘discrição’ é algo fundamental, meus amigos.
Ainda assim, por precaução, nós resolvemos adotar algumas medidas, sabe como é?! Nunca se deve pôr em dúvida do que são capazes esses ‘pilantras’. Lembro até quando foi a vez do ‘Berimbau’. Eles foram para as rádios e falaram um monte de sandices. Disseram até que foi a mãe do coitado do Berimbau que havia dado o serviço, fornecendo informações sobre o paradeiro do filho. Caracas! Uma tremenda injustiça, isso sim. Qual mãe deseja ‘entregar’ o filho? Ainda mais um filho carinhoso como ele? Conversa fiada! Dona Odete era de total confiança e jamais denunciaria o filho. No fundo, o que eles queriam era provocar a discórdia entre nós. A velha técnica de nos dividir, semeando desconfianças. Mas, pra cima da gente, não. Somos ‘escolados’!
Por sinal, foi Ênio que lembrou o pensamento do livro de Sun Tzu, “A arte da guerra”. Segundo o livro: “A guerra é um dos assuntos mais importantes do Estado. É o campo onde, a vida e a morte são determinadas. É o caminho da sobrevivência ou da desgraça de um Estado. Assim, o Estado deve examinar com muita atenção este assunto antes de buscar a guerra.”
De certo modo, devo reconhecer, essa questão é até muito simples e não requisita ‘criar planos mirabolantes’, uma vez que a vida em comunidade exige certas posturas. E quem topa viver aqui sabe muito bem quais regras deve seguir. De mais a mais, essa guinada que a vida deu não é culpa de ninguém. No caso do Chau, foi ele que escolheu viver assim… Antes disso tudo acontecer, é verdade, ele era um bem-comportado professor de química, que dava quarenta aulas por semana em cinco escolas diferentes. Mesmo assim, vivia endividado, encalacrado até o pescoço! Cheio de empréstimos para pagar…
Mas não estou aqui ‘chorando pitangas’. É da vida, seu moço! O diabo é que a gente não pode relaxar um minuto sequer. E foi o que aconteceu. Eu conto a vocês.
Depois daquele último assalto ao Banco Boavista, ali no Estácio, ele jurou que iria dar um tempo. Afinal, a grana arrecadada foi boa, mais de duzentos mil cruzeiros. No entanto, os ‘filhos da mãe’ divulgaram que os assaltantes levaram mais de quinhentos mil cruzeiros. Miseráveis. Eles se aproveitam de tudo. Até do roubo alheio, vejam vocês… Por certo, algum gerente pilantra aproveitou para tirar o dele!!
Sim. Eu estava contando sobre o cerco que eles fizeram. Sei que eram mais de dez ‘camburões’ nas imediações do São Carlos. Até aí, tudo bem: nós já estávamos acostumados. Sempre tivemos sangue-frio e não nos impressionávamos com isso. Porém, o que não contávamos era com a ‘deduragem’ de antigos parceiros. E o desgraçado do ‘Pará’ nunca inspirou confiança…
Os primeiros tiros vieram da região da pedreira. Não revidamos, pois não queríamos confirmar a nossa localização para os ‘meganhas’. Havia um pequeno intervalo e a seguir se ouvia outra série de tiros. Foi quando o Chau cometeu o grande erro. Resolveu pular o muro e ir para a rua de trás para facilitar a fuga. Contudo, veio a rajada certeira e duas ou três balas atingiram o peito dele. Caiu do muro, já com o olhar perdido. Talvez pensando na mãe e na tristeza que ela iria sentir. Caramba! Ela não merecia passar por isso, minha gente…

 

(Imagem:  Morro do São Carlos – Rio de Janeiro)

São Carlos

AS  RECORRENTES  ARMADILHAS

Eu tenho pensado bastante nesse tema nos últimos tempos. Sim, meus amigos! É que, vira e mexe, a gente se depara com situações conflitantes ou delicadas. E se pensarmos bem, podemos perceber que nenhum de nós está livre de tais situações ou comportamentos. É da vida… paciência!

De fato, chega a impressionar o número de vezes que plantamos ‘minas’ pela estrada que trilhamos. Sem sequer nos darmos conta que haveremos de percorrer aquele percurso pouco tempo depois. Ou seja: nós somos potencialmente vítimas de nossas próprias ‘armadilhas’…

No entanto, ainda que esse processo seja impiedoso, uma vez que é ‘autoimune’, devemos reconhecer a ‘vocação’ que o homem tem em promover boicotes à sua ascensão e ao seu progresso afetivo ou material. Para muitos de nós, essa tendência parece não ter fim. Porquanto praticamos gestos e ações autodestrutivas reiteradas vezes. E nem mesmo a lembrança do último ‘boicote’ é capaz de nos propiciar salvaguardas.

Basta olharmos para os lados e constataremos um significativo grupo de amigos ou colegas patinando nas ‘peculiaridades’. Com poucas variações nos processos. De tal forma que o observador atento pode até mesmo “antever” os passos desastrosos que serão efetuados por nós ou pelos outros, sem a devida percepção do momento vivido. Ah, minha gente… Isso dói. Dói muito! E o pior de tudo é que iremos repetir exaustivamente as equivocadas posturas. Ironicamente. Como se fosse ‘irrefreável’ o desejo de chafurdar na lama!

O que eu posso dizer é que comigo não foi diferente. Como tantas outras criaturas, eu também plantei em mim inúmeras ‘minas’, sem me dar conta de que elas explodiriam a qualquer momento. Por isso, sangrei pra valer. E sofri bastante… Até que um dia eu aceitei que precisava de ajuda. Céus… Talvez fosse o primeiro sinal de minha possível recuperação. Afinal, em algum lugar dentro de mim havia a crença de que eu podia me ‘restituir’ e que valia a pena o ‘risco’ nessa longa travessia…

Foram necessários sete anos de ajuda terapêutica em busca das minhas extraviadas ‘verdades’. É uma etapa difícil, sem dúvida, pois além de tudo nós nos deparamos com os hábitos e vícios adquiridos durante a trajetória. Afinal, até que a gente consiga se desvencilhar das ‘resistências’ ao tratamento, muita água há de passar por debaixo dessa ponte. Ou melhor, dessa vida!

Além disso, o processo terapêutico não promete nos levar para o “outro lado do arco-íris”. O que ele possibilita, isso sim, é que a gente possa enxergar o mundo de modo mais confortável às nossas emoções. Com sorte, aprenderemos a evitar aquelas conhecidas ‘minas’ que surgem ao nosso redor. E, com isso, aumentaremos a chance de não repetir os mesmos enganos de outrora.

O resto, creio, ficará por conta do destino de cada um. Posso, ao menos, desejar muita sorte, determinação e um universo de possibilidades novas aos amigos que permitirem essa chance.

Quem sabe assim poderemos viver dias melhores?!

HISTÓRIAS NÃO CONTADAS

Nem bem ele terminou a palestra que veio dar no SESC-Cacupé, aqui de Florianópolis, já se via a longa fila de admiradores para os cumprimentos e autógrafos. E Ariano, sempre paciente, atendeu a todos com a habitual gentileza nordestina. Além do tímido sorriso, ele fazia questão de agradecer a presença na palestra. Isso rendeu mais de uma hora e a fome já batia fundo nele, tenho certeza.
Saímos dali e fomos para a minha casa no Rio Vermelho, que é um bairro quase rural, distante mais de 30 km do centro da cidade. Ao entrarmos na garagem, minha esposa veio abrir a porta do carro para Ariano e o abraçou com extrema alegria. Anunciou que o almoço sairia em cinco minutos e que bastaria que lavassem as mãos e se sentassem na sala de jantar.
Como eu previra, Ariano confirmou que adorava camarão. Assim, iria experimentar o bobó feito pela minha mulher. Céus! Eu nunca vi o homem tão feliz como naquele dia, meus amigos. E após o almoço, ele se refestelou na rede da sala e, aproveitando o silêncio, tirou uma ‘pestana’ de meia hora.
Ao acordar, passeou pelo jardim, observando as árvores e o canto dos pássaros. Disse-me que não trocaria Recife por Florianópolis por dois motivos: primeiro pelo nome da cidade, que era indevido, pois homenageia um ‘cabra tirano’. E depois, por causa do frio que faz no sul, do qual foge feito ‘cão ressabiado’.
Fomos para a varanda da frente e nos acomodamos nas espreguiçadeiras. Eu, ele e minha mulher. Foi quando eu lembrei do ‘causo’ que contou na palestra. Segundo ele, toda cidade pequena que visita tem o ‘maluco-beleza’ bastante conhecido do povo. Numa dessas cidades, Ariano percebeu que havia um homem com o ouvido encostado na parede do muro. Vez por outra a criatura tirava e voltava a pôr o ouvido no muro. Foi quando se aproximou, sem nada dizer, e encostou também o ouvido no muro, na esperança de alguma ‘revelação’. Passados alguns instantes, virou-se para o cidadão e comentou: “não estou ouvindo nada!” Prontamente, o cabra respondeu: “Pois é. Está assim desde ontem!”
Ele sorriu com a lembrança e declarou que sente uma enorme identificação com os doidos. Isso porque, tanto os doidos quanto os escritores veem o mundo por uma ótica original, particular. Ao ouvir o seu argumento, acabei concordando com ele. De fato, ambos experimentam sensações diferentes, mas com semelhante olhar alternativo.
Passamos algumas horas proseando a valer e eu nunca mais esquecerei do jeito dele, quando calmamente anunciou: “Carlos, meu amigo, não quero que se assuste… mas, Gabriel subiu no telhado!”
Já acostumados a isso, eu e minha mulher demos uma longa gargalhada. É que já imaginávamos que o inquieto Gabriel iria ‘aprontar alguma’ para cima de Ariano Suassuna!

– “Não sei. Só sei que foi assim!”