FÉRIAS!!!

Aos amigos,  eu  desejo  muita  paz  e  felicidades…
Vou  entrar  de  férias  e  retorno  no  final  de  janeiro.  Até  lá!

OS  NÁUFRAGOS:  EU,  JOHN  LEE  HOOKER  E  O  JACK  DANIEL’S ( crônica )

Verdade é que eu cheguei em casa já bastante esbaforido, irritado com o trânsito infernal  que consumira mais de uma hora de deslocamento. E aí, após o demorado banho ‘restaurador’, eu liguei o ar condicionado da sala que, embora barulhento, ainda soprava um bom ventinho… Bendita tecnologia de 1978!

Ao passar pela cozinha, vislumbrei a garrafa de ‘Jack Daniel’s’. Sim, porque não, pensei?! Afinal, aquele momento era bem apropriado e, por certo, merecia a dose redentora. Algumas pedras de gelo e o copo largo e baixo de cristal, presente de minha querida mãe, foram suficientes para iniciar os ‘trabalhos’. Ah! O primeiro gole foi precioso: céus! Parecia até ‘néctar dos deuses’, tal o relaxamento provocado. Além disso, como uma coisa leva a outra, do sofá eu divisei o CD adquirido na semana anterior, ainda lacrado… John Lee Hooker, “porque não”, perguntei-me mais vez?!

Contudo, covenhamos, tem coisas que precisam de ‘rito’. Porquanto não podem ser banalizadas. Por isso, fui até a cozinha, que ficava a quatro passos da sala, que também era o quarto de dormir… Sim!, um mundo pequeno ao meu redor, né? Paciência!

Então, cortei umas quatro fatias de queijo provolone e piquei em pequenos cubos, espetados por palitos. Após isso, deitei-me na rede cearense que atravessava o quarto, pus a banqueta ao meu lado e respirei profundamente, como se precisasse expelir aquela atmosfera de tensão e raiva para fora dos meus pulmões. Ufa!

Nessa altura do campeonato, meus amigos, a guitarra de John Lee Hooker já ecoava pelo ambiente, tornando a atmosfera contaminada pelo aroma do Gudan e do Jack Daniel’s mais íntima e convidativa. Afinal, tudo conspirava. De tal modo que não havia como evitar certas recordações…

Eram lembranças da última viagem pelos Cânions do Rio São Francisco, entre Alagoas e Sergipe, cujo passeio deixara marcas permanentes. O que ninguém sabia, por certo, é que dentro daquele barco vazavam muitas angústias represadas, envoltas em tácito silêncio.

Lembro apenas que me debrucei na grade do barco enquanto ele penetrava pelas barrancas do rio. No meu pensamento, somente o filho ou a filha que eu poderia ter se ela tivesse aceitado o momento. Hoje, minha gente, esse filho ou filha teria uns quarenta anos de idade…

Meus Deus, nem consigo imaginar o que isso representaria para minha vida!

 

 

 

HISTÓRIAS DE PROFESSORES – Parte 3

Uma das características mais interessantes de se ver em um professor, convenhamos, é a capacidade de antever as dificuldades dos alunos. De fato, isso é algo espetacular e na verdade são poucos que adquirem esta sensibilidade durante a carreira do magistério. Aliás, tal acuidade permite que o professor possa desenvolver as explanações fazendo uso do seu “termômetro de compreensão” do tema tratado. Sim! Quando bem utilizado, meus amigos, isto vira uma poderosa ferramenta junto à técnica de ensino-aprendizagem.

Nelson foi um desses fantásticos professores de Língua Portuguesa que tive o prazer de conviver no exercício da profissão. Era um extraordinário mestre, que deixou marcas na formação de milhares de estudantes cariocas.

Certa vez, ao finalizar uma longa explicação sobre regras gramaticais, Nelson foi interpelado por um aluno grosseiro. Disse o aluno: “não entendi nada!” E o professor, retrucou com um largo sorriso: “você deveria saber que negar a negativa é o mesmo que afirmar!” O aluno fez cara de paisagem… Então, Nelson voltou à carga: “o que eu quis dizer, meu jovem, é que se você afirma que “não entendeu nada”, é sinal que “entendeu tudo”, entendeu?”

O aluno, ainda sem compreender, preferiu partir para ofensiva e disse: “explica de novo!” E Nelson, sem perder a elegância, apontou: “depois do ‘por favor’, confesso, não ouvi direito o restante do seu pedido…” Foi quando o aluno, então, retrucou: “eu estou lhe pagando para me explicar!”

Aí, entra em cena o talento e senso de oportunidade do velho Nelson. Virou-se para o aluno e disse: “bem, você utilizou um argumento contundente. Então, vejamos: quanto é que você paga de mensalidade escolar?” O aluno respondeu, de bate-pronto: “eu pago R$ 1.350,00 de mensalidade. E daí?” Nelson pediu que ele viesse até o quadro-negro e ficasse a seu lado, o que ocorreu. Pegou um pedaço de giz e solicitou ao aluno que acompanhasse o raciocínio. “Vejamos, meu jovem: você tem seis aulas por dia e cinco dias na semana, certo? Isso dá um total de 30 aulas semanais, que multiplicadas por quatro semanas e meia, perfaz o montante de 135 aulas no mês, confere? Portanto, para cada aula os seus pais desembolsam o valor médio de dez reais, ou seja, o resultado da divisão de R$ 1.350,00 da mensalidade por 135 aulas do mês. Como nós já tivemos 40 minutos da aula, cuja duração é de 50 minutos, assim, já cumprimos 80% da aula e, consequentemente, eu devo aos seus pais somente 20% dessa aula, concorda?”

Nelson, calmamente, colocou a mão no bolso, puxou a carteira de dinheiro e pegou uma nota de dois reais. Virou-se para o aluno e completou: “por gentileza, queira pegar esse dinheiro que ainda lhe devo e me faça o favor de sair de sala. Estamos quites. Não lhe devo mais nada!!”

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MEU ENCONTRO COM ‘MILES DAVIS’ – crônica

Verdade é que naquela época o Boulevard de Magenta já era uma avenida bastante movimentada. Mesmo assim, curiosamente, quase todos se conheciam no charmoso bairro parisiense. Tudo bem que eu acabara de chegar de viagem e me movia com ‘aquele receio’ que o turista estrangeiro tem em não conhecer o lugar. Por isso, procurei logo me adaptar ao ritmo da região, principalmente, à noite. A exceção era o entorno da Gare du Nord, que estava sempre agitada: de dia ou de noite! É que turista adora uma estação de trem… Fazer o quê?!

Quanto ao hotel, sinceramente, não era lá essas coisas. Como é de costume naquelas bandas não há banheiro nos quartos e a lavanderia fica no subsolo, o que nos obriga a um tremendo ‘suadouro’. Paciência! O lado bom da estória é que o meu quarto ficava na última porta do corredor, e assim, não podia ouvir os latidos dos cachorros dos primeiros quartos. Eta! povinho para gostar de cachorro!

Uma semana depois da minha chegada, eu vislumbrei no primeiro quarto do corredor um jovem negro, bem-apessoado, deitado na cama com um trompete nas mãos. Fiquei curioso e atrasei meu passo na esperança de ouvir algum som. Foi quando surgiu o primeiro sopro. Céus! Aquilo parecia algo vindo dos anjos: melancólico e elegante…
Todos os dias de manhã, já bem cedo, com uma pequena sacola nas mãos eu fingia que ia às compras. Ao me aproximar do quarto, que mantinha sempre as portas abertas, eu sentia quase um calafrio de tanta emoção. E ele, como que percebendo, passou a me cumprimentar com a cabeça balançando e um enorme sorriso branco no rosto.
Contudo, sabe como é brasileiro, inda por cima cearense: não me contive e parei na porta do quarto daquele ‘santo’. Indiferente, ele continuou dedilhando o trompete como quem acaricia uma linda mulher. Perguntou-me se eu era músico e eu disse que não, que era apenas um iniciante professor de química. “Logo de química?”, respondeu-me com impecável sotaque francês.

Nem preciso dizer que passei a frequentar aquele quarto todos os dias, minha gente. E que, por algum motivo que nunca entendi, ele fazia questão de ouvir as minhas impressões sobre cada composição. Sugeriu até que eu fosse com ele ao encontro com o cineasta, para quem ele estava produzindo o álbum da trilha sonora do filme.
Voilà”, de repente, lá estávamos, Miles, Louis Malle e eu, em um apartamento na margem do rio Sena, em Montparnasse, bem próximo ao Observatório de Paris. Foi quando o fabuloso cineasta exibiu as primeiras cenas do seu filme para Miles, já com as melodias embalando a dramática estória. Foi algo impressionante, isso sim!

Segundo eu soube depois, por conta do seu talento, Miles conheceu Pablo Picasso, frequentou Cafés com Jean-Paul Sartre e teve um tórrido romance com Juliette Gréco, famosa cantora e atriz francesa.

O que sei dizer é que poucas semanas depois daquele memorável encontro, Miles Davis veio ao meu quarto para se despedir, trazendo nas mãos uma cópia prévia do disco. Na capa, além da dedicatória, havia uma foto de Jeanne Moreau caminhando pela avenida dos Champs-Élysées. Linda. Enigmática. Arrebatadora.

Selamos a nossa despedida com um forte e sentido abraço. Foi quando convidei Miles a conhecer o Brasil, em especial o Nordeste, aonde iria ouvir sons semelhantes aos dele… vindos de outros instrumentos também extraordinários: rabeca, sanfona e tantos mais.
Depois disso, durante quase quinze anos mantive correspondência com aquele gênio musical. Em sua última carta, que recebi no Natal de 1990, Miles declarou-me, com orgulho, que aquele curto tempo vivido em Paris tinha sido, para ele, os dias mais extraordinários de sua vida.

Meu Deus do Céu… acho que ninguém vai acreditar nessa história!

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OS NOSSOS DESTINOS NAS MÃOS DE DONA EFIGÊNIA

É o tal negócio: uma coisa sempre depende de outra. Talvez, por isso, a primeira coisa acertada a fazer era ganhar o famigerado ‘par ou ímpar’. No entanto, eu nunca tive sorte nessa disputa… Paciência, fazer o quê? Tem sempre gente ‘sortuda’ nesse mundo, não é verdade? Tem gente que ganha tudo: rifas, sorteios nas quermesses e acertam até na loteria com uma facilidade que me irrita… Como conseguem isso?!

Bem… Certo mesmo é que no futebol de rua o importante era ganhar o bendito par ou ímpar, já que assim podíamos escolher de cara o ‘Chiquinho’, o craque do nosso bairro. Desse modo, é verdade, nós começávamos com meio caminho andado. Afinal, Chiquinho só faltava fazer chover naquela ladeira da Zamenhof, no velho e bom Estácio dos anos 60. Já os meninos do outro time, irritados com o talento dele, procuravam derrubá-lo de uma forma ou de outra. Mesmo assim, Chiquinho aguentava tudo calado, sem reclamar do jogo desleal dos adversários. Preferia ‘responder’ na bola!

Quanto a mim, confesso, eu era apenas um coadjuvante sofrível, mas que se esforçava para não comprometer. Só não gostava de ir para o gol, pelo sistema de rodízio, uma vez que eu não era lá muito ‘corajoso’. Aliás, é preciso reconhecer, encarar as ‘bombas’ que vinham do lado de cima da ladeira não é para qualquer um não…

Também é verdade que a minha ‘carreira de jogador’ não durou muito. Porquanto havia na rua o tal do ‘Luisão-maluco’ que me intimidava em cada partida. Céus, bastava eu dar um drible bem dado e lá vinha a ‘cacetada’ por trás. Nem precisava me virar para saber que era a ‘praga’ do Luisão-maluco. Ele até anunciava em voz alta: “se tentar fazer gracinha aqui, meu chapa, vai levar porrada!” E para piorar a situação, ele tinha meio metro a mais do que eu, além dos quinze quilos a mais… de músculos! Aí, já viram, né?!

Foi quando eu resolvi que o melhor a fazer era jogar ‘golzinho’ com bola de meia. Era algo que exigia habilidade, concentração e não envolvia time algum, uma vez que era um esporte individual. Apenas um de cada lado da rua. E não é que eu me especializei no jogo e me tornei bom jogador?!

O diabo era quando eu estava do outro lado da rua e tinha que arremessar para o lado do prédio. Já viram, né?! De vez em quando, a gente errava a mira e acertava a vidraça do segundo andar. Putz… Aí, era um salve-se quem puder! Eu corria o mais rápido que podia para não ser pego pela D. Efigênia… Isso porque, minha gente, além do ‘esculacho’ pelo prejuízo da vidraça e o castigo que levaríamos dos pais, o mais doloroso era ter que frequentar as aulas de violino que a D. Efigênia impunha. Isto porque, após várias vidraças quebradas, essa foi a forma que ela encontrou para que demonstrássemos ‘arrependimento’ pelo ‘delito’ cometido. Ou seja: tínhamos que assistir as aulas de violino durante mais de um mês. E, convenhamos, naquela época não havia o Supremo Tribunal Federal para nos conceder “habeas corpus” e nos libertar da fatídica sentença!

 

bola de meia

LEMBRANÇAS DO ‘BOM VELHINHO’ – crônica

Fizesse chuva ou sol escaldante, o que sei é que todos os anos ele aparecia em nossa casa. Para tanto, bastava o mês de novembro anunciar os últimos dias. Daí, nós até fazíamos apostas para ver o dia da chegada do ‘baixinho mal-humorado’. Geralmente, quem tirava o segundo fim de semana de dezembro, na bolsa de aposta, tinha o ‘bilhete premiado’.
É bem verdade que os mais novos dessa numerosa família, como eu e minha irmã caçula, nutríamos sempre a esperança de que receberíamos algum presente dele. Qual nada… o ‘homem’ era duro na queda e nunca trazia ‘lembrancinhas’ para os netos! O jeito, então, era torcer para que a temporada de férias dele, no ‘sul maravilha’, fosse curta ou que ele tivesse vontade de visitar o outro filho, em Florianópolis. “Céus, até quando nós seremos os ‘escolhidos’ do vovô”, eu perguntava para minha irmã caçula. Coisa de criança!

O fato é que o meu dia começava muito cedo – na banca de jornal do seu Chico -, para pagar pelo jornal que o vovô pedira “emprestado” para consultar algo, sabe como é?! E para piorar, quase sempre eu era o neto ‘premiado’ para acompanhar o ‘vovô Ezequiel’ nas andanças pelo centro do Rio de Janeiro. Meu Deus do Céu, o velhinho tinha uma disposição incrível e me dava uma tremenda canseira. Era um tal de entrar e sair de lojas para ver o preço das coisas que vocês não podem imaginar. Eu chegava morto em casa, no final da manhã, varado de fome e louco para deitar no beliche do quarto.
Passados alguns dias, nós já estávamos acostumados ao ritmo dele e conseguíamos antever as futuras ‘missões’. Ir para a Cinelândia, por exemplo, era tarefa certa. Porquanto o vovô adorava se sentar no Bar Amarelinho e ficar ‘espiando’ as moças passarem. Ele nem conseguia disfarçar… Chegava até a rodar a cadeira para poder acompanhar o rebolado delas!

No entanto, havia um ritual que ele praticava e que muito nos intrigava: ensaiar o ‘discurso de improviso’ que faria na ceia de Natal. Ah, minha gente, nisso ele era mestre. Ficava horas a fio balbuciando frases ou palavras que iria empregar no seu longo discurso. E pelo jeito, ele media cuidadosamente as palavras, ordenando-as de modo a provocar reações previsíveis nos ‘ouvintes’.

Sendo assim, quando os preparativos para a montagem da mesa do jantar começavam, aí, ninguém mais encontrava o vovô. Ele se enclausurava de um jeito, que mais parecia um fantasma escondido. Somente quando mamãe chamava os filhos para circundarem a mesa, tendo na cabeceira o papai, é que o vovô aparecia demonstrando ‘surpresa’…
O diabo é que nenhum dos seis filhos tinha autorização de pegar algo na mesa da ceia, sem que houvesse antes as boas-vindas do papai ao vovô e o ‘improvisado’ discurso do seu Ezequiel Menezes. Com sorte, isso demorava cerca de trinta minutos, dependendo do ano… E naquele Natal, em especial, o velho Ezequiel estava afiado e resolveu contar a saga dos Menezes, de Messejana a Aracati, passando por Sobral e Fortaleza. Foi de lascar, minha gente… uma hora e dezoito minutos contados pelo meu desesperado estômago!

Visivelmente emocionado, papai ainda pretendia agradecer pelas palavras do vovô. Mamãe, porém, sorrindo para todos, sugeriu que ele nos autorizasse iniciar a ceia. Ufa!
O “gran finale”, com certeza, era a entrega dos presentes. E aí, meus amigos, todos nós éramos obrigados a agradecer ao vovô. É que ele, costumeiramente, tirava do bolso da calça a velha carteira de dinheiro e retirava uma nota de cinco cruzeiros para cada neto. Mal dava para comprar um pirulito.

De todo modo, aí de nós se esquecêssemos de agradecer ao ‘bom velhinho’ pelo generoso presente…

( Canelau posando no Natal de 1960 )

Natal

DO FUNDO DO BAÚ – crônica

(Ao meu querido ‘Canelau’, que bateu asas e voou… Voou!)

O que sei é que aquele objeto despertara a minha curiosidade há um bom tempo. Além disso, é preciso reconhecer que para uma criança de quatro anos de idade é demais exigir que ela não mexa em algo tão cobiçado como aquele. O verdadeiro ‘objeto do desejo’!

Mesmo assim, devo dizer, eu resisti à tentação por alguns meses. Muito mais pelo medo de que ele me despertava. Afinal, bastava ouvirmos na casa qualquer grito dele e todos sumiam num abrir e fechar de olhos. Tinham uns que se escondiam no banheiro, claro, o lugar mais próximo da sala. Os irmãos mais velhos, evidentemente, corriam mais depressa e, por isso, eu nunca conseguia alcançar… Sendo assim, vez por outra, os “cascudos” me encontravam pelo caminho. E doíam, lembro bem, doíam um bocado!

Por outro lado, como dizem, a ‘necessidade faz o monge’. Então, com o tempo, eu me especializei em me esconder nos buracos menos prováveis daquela imensa casa. Para a minha sorte, ninguém sabia dos meus “esconderijos prediletos”. Lá, isso não. E asseguro a vocês: foi o que aconteceu naquele dia. Eis o relato:

Eu estava na varanda, extasiado com a linda bicicleta, marca Raleigh, que possuía todos os acessórios que se pode imaginar. De repente, eu ouvi o barulho da enferrujada dobradiça do escritório ‘dele’, anunciando alguma saída. Com isso, eu acabei me assustando a ponto de derrubar a “bendita” bicicleta… Céus! E agora?!

Corri o mais rápido que pude e me enfiei naquele baú que ficava na saída do banheiro, logo após o corredor. Daí, eu comecei a escutar os passos firmes pisando aquele assoalho e o alarido dos irmãos declarando-se ‘inocentes’. Tremendo de medo, eu permanecia estático, bem quietinho, quase sem respirar para não ser ouvido!

Até que adormeci e, horas depois, o baú foi aberto revelando-me para todos. Porém, como eu dormia tão profundamente e estava encharcado de suor, creio, por alguma razão que até hoje desconheço, eu não levei a maior das ‘surras’…

Ufa! Essa foi por pouco, minha gente… Muito pouco!

bike

bau

 

DORI CAYMMI E A ‘HARLEY-DAVIDSON’ – crônica

Outono de 1988. Nessa época, eu ainda morava no Rio de Janeiro, lá no Arpoador. E como era um jovem professor de apenas 27 anos de idade, eu descobrira a paixão pela motocicleta. Por coincidência, a ‘Cagiva-Harley-Davidson’ acabara de ser lançada no mercado brasileiro, com um modelo de 125 cilindradas, quadro alto e um ‘nervoso’ motor de dois tempos. Nossa! Era uma baita moto, que me proporcionou muito prazer durante quase uma década…

Guardo na memória os incríveis passeios que costumava fazer aos domingos de tarde. Bastava o sol baixar um pouco, eu pegava a moto e subia a Vieira Souto em direção ao Leblon. Na sequência, vinha a Delfim Moreira e, ao final dela, eu sempre optava pela Avenida Niemeyer que nos brinda com um visual maravilhoso. Depois, vinha São Conrado e eu tomava a direção da Estrada do Joá, que naquela época era bastante segura. Dali até o topo da Estrada da Pedra Bonita era bem rapidinho, ainda mais naquela moto ‘nervosa’! E o ‘gran finale’, meus amigos, era a subida até o local em que os ‘malucos’ pulavam de asa delta. Céus! ‘adrenalina pura’, isso sim! Eu permanecia ali por horas, apenas observando as pessoas e os voos…

Por ser outono, havia um toque especial: é que as folhas das amendoeiras estavam bem amareladas e começavam a cair dos galhos, proporcionando uma visão espetacular durante o trajeto. Outro detalhe, também extraordinário, é que eu fazia este percurso com um fone de ouvido ligado ao “walkman”. E naquele outono de 1988, adivinhem qual era a fita de minha preferência? Sim! Era o recém-lançado álbum de Dori Caymmi. Meu Deus do Céu, quando eu acelerava a moto e subia o volume de ‘Gabriela’s song’, parecia que eu flutuava nas nuvens. ‘Porto’ era a melodia que eu reservava para a lenta descida de volta. Porquanto ela me remetia ao encantado mundo de ‘Gabriela’, na primeira versão da novela, de 1975, com o grupo vocal MPB4 deslumbrando a todos…

O que posso dizer é que a minha vida sempre esteve atrelada aos Caymmis. De um jeito ou de outro. Sorte a minha!

“DÉJÀ-VU” – crônica

Segundo o dicionário Houaiss, déjà-vu’ é “uma forma de ilusão da memória que leva o indivíduo a crer já ter visto (e, por extensão, já ter vivido) alguma coisa ou situação de fato desconhecida ou nova para si”. Pois então… Isso é algo tão comum, tão corriqueiro que parece que cada um de nós já se deparou com tais sensações algumas vezes, não é verdade?

Para a Wikipédia, déjà-vu” é “um galicismo que descreve a reação psicológica da transmissão de ideias de que já se esteve naquele lugar antes, já se viu aquelas pessoas ou até mesmo outro elemento externo. E o termo, é bom que se diga, é uma expressão da língua francesa que significa: ‘eu já vi’”.

Desse modo, clareados os conceitos e aspectos envolvidos, vamos ao que interessa. De fato, assim como tantas outras criaturas, eu também atravessei esse rio de ‘sensações’ e percepções recorrentes. É que ao ter vivido algumas paixões ao longo da vida, a gente acaba desenvolvendo uma estranha ‘tendência’ de achar que já viu isso acontecer em outras relações. Pior ainda é quando a gente se ‘convence’ dessa suposta verdade e acaba criando teses e mais teses sobre as questões do amor. Céus… Ledo engano, meus amigos!

Ao que parece, cada relação afetiva é individual e própria, não comportando ‘regras ou tutoriais’ sobre as experiências já vividas. Simplesmente, cada uma é uma. Ou foi… como queiram! E sendo únicas, por conseguinte, não se repetem. Quando muito, apresentam algumas semelhanças. Isto porque, é sabido que a raça humana apresenta inúmeros comportamentos e infindáveis variações. Aliás, é melhor que seja assim, uma vez que isso nos permite experimentar ‘surpresas’ e ‘encantamentos’. Pois, no mínimo, isso nos torna mais interessantes, não acham?!

Contudo, também é verdade que temos o forte hábito de ver a história da humanidade narrada sob forma de ‘ciclos’. Como se não houvesse ‘visão de mundo’ capaz de observar outros ângulos. É um tal de ciclo de ‘pensamentos’, ciclo de ‘modas’, ciclo de ‘poder’ e por aí afora. Tudo bem, eu acredito que isso ocorra por conta da nossa tendência de ‘sistematizar’ tudo que há no mundo. Muitas vezes isso dá certo, vá lá! Porém, em outras situações não cabe ou, quando muito, cabe apenas de modo parcial. Isso sim!

E se o objeto da ‘observação crítica’ é algo dotado de sentimentos ou emoções, xi! a coisa se complica… Sim, minha gente! À medida que somos portadores de fortes contradições (e teimosias!), ao generalizarmos comportamentos, nós corremos o risco de nos tornarmos imprecisos, superficiais ou precipitados. Ufa! Complicado, não?! Até porque, o repertório de ‘idiossincrasias’ presentes na raça humana parece não ter fim. E em nome delas, nós temos o hábito de varrer o ‘lixo’ para debaixo do tapete. E agora, José?

Portanto, o melhor a fazer é tratar essas questões com acuidade e atenção. Evitando, se possível, incorrer nos modelos e estereótipos já ‘consagrados’ nos divãs de terapias. Afinal, sabemos que eles estão por aí, ávidos por histórias emaranhadas. Esparramados nos quatro cantos do planeta, apenas aguardando os desavisados ‘espíritos conflitados’!

Meus Deus do Céu… eu juro que “eu já vi”!

 

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HISTÓRIAS DE PROFESSORES – Parte 2 (crônica)

Aquele seria o quinto sábado do semestre que o Mendonça chegava atrasado para suas aulas no Colégio Modelo, um dos melhores, senão o melhor, do Rio de Janeiro. E o diretor já havia avisado que não toleraria mais nenhum atraso. Disso o nosso Mendonça sabia muito bem. Sabia também que um novo atraso implicaria em demissão sumária. “Irreversível”, diria o irritado diretor.

Ocorre que a noite carioca tem lá as suas manhas e o seu fascínio. Para piorar a situação, Mendonça era um boêmio inveterado. E a noitada de sexta-feira começava com os colegas do cursinho onde dava as últimas aulas da semana. Habitualmente eles elegiam o Catete ou o Flamengo para dar início aos “serviços”. Naquela noite, lembro bem, o grupo optou pelo Café Lamas que, antes das obras do Metrô, ficava no Largo do Machado. Depois, mudou-se para a Marquês de Abrantes, mantendo o mesmo clima. Lá, o grupo de professores era conhecido como os “4 mosqueteiros das exatas”, pois dois eram mestres de matemática, um de química e o último era de física. Invariavelmente, meus amigos, a noitada era aberta com uma rodada de chope, acompanhado por “Steinhaeger” e uma porção de salaminho.

Dali, o grupo fazia uma verdadeira peregrinação: iam para o Bar Luiz, na Rua da Carioca ou para o Bar Lagoa, com o tradicional estilo “art déco” e o mau humor dos garçons, mas, que ainda assim, era o melhor ponto de encontro da turma da “esquerda”.

Algumas vezes, o escolhido era o Bar Nova Capela, na Lapa, onde comiam a melhor paleta de cabrito com arroz de brócolis. E, claro, mais algumas rodadas de chope ou caipirinhas de lima da Pérsia, para não dar “ressaca”…

O pior de tudo, minha gente, é que somente às três da madrugada Mendonça se lembrou das aulas do sábado, que começavam às sete horas. Sem pestanejar, pediu desculpas ao grupo e pegou um táxi para o Colégio Modelo. Lá chegando, gritou pelo nome do vigia da escola por um bom tempinho. Lá pelas tantas, assustado, ele chegou ao portão e perguntou de quem eram os gritos. “Sou eu, seu Chico, o professor Mendonça, de matemática”. O vigia, então, perguntou: “E o que o senhor quer a essas horas da madrugada, professor?”

Para disfarçar, Mendonça explicou que fora a um casamento e que após a recepção ficou em dúvida se iria para casa ou para a escola. Preferiu vir direto e pedia para dormir aquelas poucas horas que restavam ali mesmo na guarita do vigia. O seu Chico coçou a cabeça e acabou permitindo a entrada do professor, não sem antes advertir que se tratava de uma exceção à regra!

O fim da história é triste, minha gente. Mendonça só acordou às dez e meia da manhã, com o sol batendo em seu rosto na guarita. Lavado de suor. Por conta disso, foi demitido na segunda-feira pelo motivo já anunciado.

Ao receber o aviso de demissão, Mendonça ainda tentou explicar ao irritado diretor: “o senhor acredita que eu fui o primeiro professor a chegar ao colégio no sábado… bem cedinho… acredita, diretor?!”

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