‘PASSARIM’ E A MORENA DO SORRISO TÍMIDO – crônica.

O ano era 1987. Devo reconhecer que até aquele mês de junho a vida corria sem grandes novidades. Talvez, até monótona! Quando muito, um tropeço aqui, uma celebraçãozinha ali ou uma expectativa acolá… Vida besta, corriqueira. Até que um maestro, de nome Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, lançou o seu mais novo álbum, intitulado “Passarim”. A partir daí, minha gente, tudo mudou! O mundo pode, então, contemplar a mais nova ‘obra-prima’ da música brasileira. Céus! O que foi aquilo?!

Lembro que eu morava no Leblon e dava aulas de química em cinco escolas: Colégio São Vicente de Paula, Colégio São Paulo, Colégio Sagrado Coração de Maria, Colégio Rio de Janeiro e no Colégio Brasileiro de Almeida.

Recordo-me também que em julho, mês do meu aniversário, eu estava de ‘namorada nova’: uma linda e sedutora morena! Assim, para comemorar o namoro, eu comprei entradas para assistir ao show de lançamento daquele disco no famoso Canecão, palco dos grandes eventos musicais do Rio de Janeiro dos anos 70, 80 e 90.

O fato é que eu tive que encarar uma fila de quarenta minutos para adquirir os ingressos, mas saí de lá exultante pela ‘conquista’. Afinal, meus amigos, eram dois lugares muito bem localizados, quase em frente ao piano que o nosso maestro ‘Tomzinho’ tocaria. Coisa linda!
Aprontei-me feito lorde, escolhendo a melhor roupa do armário. Deixei o carro na lavagem do posto, para não ‘pagar vexame’, e cheguei à casa da ‘nova paixão’ com a necessária antecedência, sem parecer ansioso…

Meu Deus, ela estava linda! Iluminada pelo batom vermelho escuro que realçava seus lábios carnudos. Ao me ver chegando, ela sorriu suavemente. Saímos dali e fomos para o Canecão. Sem pressa, pois o mundo era somente nosso… Estacionamos o carro e nos dirigimos para a mesa de número 76.

Antes de começar o anunciado show, nós pedimos ao garçom duas taças de ‘Kir Royal’ (uma adorável bebida preparada com o licor ‘Creme de Cassis’, acompanhado por vinho branco ‘Chardonnay’). Brindamos várias vezes seguidas. Primeiramente, ao nosso maravilhoso ‘encontro’. Depois, ao querido Tom Jobim que acabara de entrar e dedilhava os primeiros acordes de “Anos Dourados”. E por fim, pela incrível emoção de ‘estarmos juntos’ celebrando tudo aquilo.. Um verdadeiro delírio!

Por certo, minha gente, eu nem preciso dizer que eu jamais esquecerei aquela noite. Não somente pelo privilégio de ver e ouvir o amado Tom Jobim partilhando o enorme talento com todos nós. Nem pela incrível emoção de ter ao meu lado aquela morena de sorriso tímido. Tampouco pelo que se seguiu na longa e perfumada noite… Afinal, quem conseguiria esquecer?!

Sim! Por tudo que vivi, eu lhe agradeço imensamente, meu ‘maestro soberano’!

Passarim

 

O ESTILO DE CADA UM – crônica

Se há um estilo literário que me agrada muitíssimo, este, por certo, é o conto. Justifico: é que o conto tem em sua estrutura uma grande dose de complexidade. Isto porque, sendo mais curto que o romance, o conto precisa criar com dinamismo e em pouco tempo a atmosfera que pretende ensejar. Para isso, o começo, o meio e o fim da história têm que estar bem delineados desde o início, pois não haverá espaço para grandes devaneios, como ocorre nos romances. Aliás, há quem afirme que o conto nada mais é do que síntese do romance ou o compacto dos ‘melhores momentos’ do romance.
Bem… Na verdade, eu não concordo com essas afirmativas. Porquanto elas reduzem a importância do conto. Eu prefiro dizer que são gêneros literários diferentes. Tão somente! Até porque, ao querer enquadrar os estilos literários em fórmulas mágicas, convenhamos, corre-se o risco de produzir frágeis conceitos e definições. Além de empobrecer o entendimento, é óbvio.

Curiosamente, eu encontrei na internet um artigo assinado por Luiz Ruffato, que escreveu: “Ocorre com o conto um curioso fenômeno. Talvez, dos gêneros literários, seja o mais visitado por candidatos a escritor. Devido a pouca extensão e, por consequência, a falsa sensação de simplicidade, muitos se iniciam pela narrativa curta como uma espécie de exercício formal para o romance – o que configura um enorme equívoco, pois seria como alguém se preparar para correr 50 metros rasos acreditando habilitar-se para uma maratona. Narrativas curtas e longas pertencem a distintas naturezas.” Corretíssimo, meu caro, Luiz!

Ademais, como grande admirador do conto, eu tive a oportunidade de ler alguns gênios na arte de construir curtas histórias. Cito alguns de minha predileção: Tchecov, Joyce, Julio Cortázar, Vargas Llosa, Machado de Assis, Rubem Fonseca e muitos outros. Verdadeiros mestres!

No entanto, eu peço licença a todos para lembrar o nome do meu querido tio, Holdemar Menezes. A meu ver, minha gente, Holdemar foi um baita contista! E com muita justiça ele mereceu o almejado prêmio Jabuti, em 1972, da Câmara Brasileira do Livro, como o melhor livro de contos, intitulado “A Coleira de Peggy”.

Por sinal, Holdemar publicou oito livros, sendo dois romances (A maçã triangular e Os residentes), três livros de contos (A coleira de Peggy, A sonda uretral e Os eleitos para o sacrifício), dois de crônicas (O barco naufragado e A vida vivida) e um ensaio (Kafka, o Outro). Contudo, foi no conto que o ‘nego velho’ se encontrou. Completamente! Pois era no conto que ele se sentia à vontade no processo de criação. E, como poucos, mantinha nas mãos as rédeas da história, trabalhando as palavras e o clima com profundo talento e arte. De certo modo, posso dizer que sempre me inspirei na literatura do meu tio. Além de ter sido o meu ‘guru’ intelectual, ele foi o grande incentivador do meu discreto percurso literário. Como prova disso, há na orelha do meu primeiro livro, “Jazz, Cinema & Utopia”, o seguinte texto: “Nas minhas crônicas há um aspecto bem marcado: opto sempre pela primeira pessoa do singular. Porquanto é mais íntimo e convidativo. Com isso, quebra-se o constrangimento, estabelece-se a tácita cumplicidade e o “rapto” é concedido afinal.”

Gabriel, meu filho, ao ler esse texto, sentenciou: “Fique tranquilo, pai… A ‘força’ está com você!”

ESSE TAL DO ‘ROCK AND ROLL’

Eu ainda nem tinha completado quinze anos quando comecei a frequentar os ‘bailes’ da turma do Estácio. É bem verdade que a minha estreia ocorreu lá no ‘suspeitíssimo 199’, da Rua Senhor do Matozinho, perto da Salvador de Sá. Aliás, devo reconhecer, aquela região era bem ‘barra-pesada’ no final dos anos 60. E nem saberia explicar porque eu fui parar ali. Isso porque, minha gente, o que eles chamavam de ‘clube’ mais parecia um desses inferninhos de filmes de gangsteres, onde o ‘leão de chácara’, encarregado pela vigilância, cobra ‘senha’ para permitir a entrada dos malandros. E malandro, cá entre nós, era tudo que eu não era! No fundo, hoje eu acredito nisso, foi por pouco que eu escapei de virar bandido… quem sabe tenha sido coisa do destino, sei lá?!
O certo é que o dono do inferninho, que cobrava até mensalidade e fornecia carteira de ‘sócio’ do clube, era o tal de Carlinhos “Black”. Segundo rezava a lenda, o homem era o verdadeiro ‘bandidão’ do bairro e quando cismava com um, céus, sai de baixo!
Mas o fato é que o Carlinhos foi com minha cara e me tratava com muita cortesia e ‘distinção’, como se dizia naquela época. Eu nunca soube dizer se era por causa do meu nome, que também é Carlos, ou porque algum ‘espírito’ soprou no ouvido dele para me tratar bem… vai saber?! Até hoje eu guardo essa dúvida e continuo sem entender.
No entanto, existiam no bairro dois irmãos árabes que eram considerados os mais fortes brigões de toda a turma. Nitroglicerina pura! E um deles, o mais velho, tornou-se ‘empreendedor’ e contratava as melhores orquestras do Rio de Janeiro para tocar em grandes clubes da zona norte. Orfeão Portugal, Casa das Beiras, América, Clube Municipal e muitos outros lugares foram palcos dos melhores bailes dançantes dos anos 60 e 70. Bastava anunciar o baile com Ed Lincoln ou Orquestra Lafayette, The Fevers, Cry Baby’s e, também, Os incríveis, Renato & Seus Blue Caps ou Orquestra Tabajara. Esses grupos garantiam casa cheia e muito lucro.
Até que um dia aconteceu o esperado embate. E ocorreu no clube Casa dos Poveiros, lá na rua do Bispo, na Tijuca. O baile já rolava há algum tempo, sob os auspícios da fabulosa banda Renato & Seus Blue Caps. Lá pelo meio da madrugada, bastou alguém olhar para o outro de modo enviesado e pimba: começou a pancadaria. Inicialmente eram três ou quatro rapazes envolvidos. Mas a coisa foi tomando proporções fora do controle dos seguranças do clube. Passados poucos minutos, o clube inteiro estava em polvorosa: gritos, vidros quebrando, cadeiras voando feito passarinho, enfim, um verdadeiro caos!
E como eu era magrelo, procurei um canto para me proteger e aguardar a oportunidade de sair dali. Qual o quê! Nem mesmo a tropa de choque da polícia militar conseguia pôr ordem no clube. Foi quando eu avistei o Carlinhos ‘Black’ imobilizado por quatro soldados. Sem saber o que fazer, aproximei-me com indecisão e medo. Aí, o Carlinhos virou-se para os guardas e falou: “eu sou motorista do Carlos, aquele rapaz ali”, apontando para mim. Os guardas olharam para mim, aguardando uma confirmação. Mesmo com medo, eu confirmei a versão de Carlinhos Black e os soldados, então, o soltaram.
Ele me pegou pelo braço e me conduziu pela grande escada que dava acesso ao hall de saída. Descemos rapidamente a rua Haddock Lobo em direção ao Estácio sem trocarmos uma só palavra. Ao chegarmos na ladeira da Zamenhoff, a minha rua, ele parou e me disse: “Agora, você é dos meus. Nunca mais precisará pagar mensalidade no nosso clube. Virou sócio benemérito!”
Na época, confesso, eu apenas sorri para o Carlinhos Black. Talvez um pouco encabulado, principalmente, por não saber o que era ‘benemérito’…

Renato e seus Blue Caps

 

Crônica: Ópios de emergência

Alexandre, meu querido amigo, eu devo lhe pedir desculpas. É que falhei algumas vezes e você sabe disso. Não que eu não possa falhar, meu parceiro. Mas é que falhei por desejar mudar de faixa, por não querer continuar falando apenas de cinema e jazz, sabe como é? No entanto, eu sei que isso é algo difícil. Mesmo assim, confesso: eu desejei romper com o passado, apresentar novas faces, procurar novos caminhos, enfim, encontrar a satisfação interior!
Mas hoje, não, Alexandre. Hoje eu acordei modificado, entende?!. Talvez, por isso, eu necessite esquecer que fui professor de química durante boa parte da vida. Só que eu extraviei os meus ‘carbonos’… Pus todos eles de lado. Para sempre… Sem remorsos!
Ainda assim, hoje, eu necessito urgentemente de ópios de emergência. Porquanto eu me lembrei de que há 51 anos atrás morreu “John William Coltrane”. Sim, meu amigo… Foi em 17 de julho de 1967. Nesse dia, que já vai distante, eu estava bem perto de completar 16 anos de idade e era um adolescente ainda em flor, sem conhecer as maldades do mundo. E mais do que isso: sem conhecer a beleza da arte de Coltrane. Se eu a conhecesse, ah! Alexandre, por certo teria aliviado um sem número de dores, não acha? Afinal, ninguém tocará “Someday My Prince Will Come” como ele e Miles Davis alcançaram aquelas notas… E até mesmo o poeta Thomas Guthrie escreveu: “Who will lead the way towards truth? I turn around and see… nobody”.
Pois é, Alexandre, Thomas Guthrie não foi o único a se render ao talento de Coltrane. Muitos outros beberam nessa fonte e se deliciaram. Por isso, então, eu lhe proponho um brinde ao nosso mestre Coltrane. E para completar a cerimônia, meu velho companheiro, eu trago para você os versos de Drummond, retirados do poema “Edifício Esplendor”:
“…O copo de uísque e o blue / destilam ópios de emergência. / Há um retrato na parede, / um espinho no coração / uma fruta sobre o piano / e um vento marítimo com cheiro / de peixe, tristeza, viagens… / Era bom amar, desamar, / morder, uivar, desesperar / era bom mentir e sofrer / Que importa a chuva no mar? / a chuva no mundo? o fogo? / Os pés andando, que importa? / Os móveis riam, vinha a noite, / o mundo murchava e brotava / a cada espiral de abraço…”

coltrane_mural
( Mural feito por Emel Martinez, na Filadélfia – USA )