Cinema: filme “Despedida em Las Vegas”, de Mike Figgis.

Esta semana eu revi o filme “Despedida em Las Vegas”, de Mike Figgis. Rever filmes é um hábito que sempre cultivei, quem sabe com a esperança de enxergar àquilo que as minhas emoções ainda não permitiram?!

O que sei dizer é que “Despedida em Las Vegas” é um desses impiedosos filmes que revela as nossas “doenças”, sem cerimônia, à medida que nos identificamos com cada um dos personagens, todos eles. Ainda assim (ou quem sabe por isso mesmo), nós preferimos “varrer os problemas para debaixo do tapete”. Cinicamente. Como se tal comportamento resolvesse alguma coisa…

Aliás, nessas horas, eu lembro que os dramas são sempre individuais e que a dor – impiedosa parceira – é solitária e particular. Somente a criatura envolvida no processo pode sentir o “real” espectro da angústia. Lá, isso é!

Quando eu leio Cecília Meireles, por exemplo, vejo alguém derramar em poesia a imensa dor de se ver envelhecendo: “Eu não tinha este rosto de hoje / assim calmo, assim triste, assim magro / nem estes olhos vazios / nem o lábio amargo. / Eu não tinha este coração que nem se mostra… / Eu não dei por esta mudança / tão simples, tão certa, tão fácil / Em que espelho ficou perdida a minha face?”

De fato, não é preciso muita acuidade para perceber que somos pessoas diferentes. E se pensarmos bem, é essa pluralidade que nos torna tão interessantes. Mais do que diferentes, somos contraditórios, assim como contraditória é a vida. E a vida de Bem, personagem de Nicolas Cage, com certeza não foi bem tratada por ele ou pelo “destino”. Uma pena! Contudo, isso não faz dele um perdedor. Quando muito, uma vítima. Sim, meus amigos, muitas vezes nós somos vítimas de processos que acontecem à nossa revelia: seja por circunstância, seja por inocência ou até mesmo ignorância. Também é verdade que, de uma forma ou de outra, nós “ajudamos” esses boicotes. Ademais, já se disse por aí que nessa vida ninguém é absolutamente santo ou carrasco. No fim das contas, somos todos portadores de impulsos generosos e destrutivos. E, cá entre nós, essa é apenas mais uma contradição humana. Tão somente!

Na longa história do homem, muitas injustiças já aconteceram. Ainda que elas sejam encaradas com “repúdio”, não cessarão aí. Seguramente, muitas outras virão. Paciência! O que é preciso, então, é aprender como drená-las. E assim, ao conquistar tal sabedoria, poderemos dar prosseguimento às belezas da vida. Quem sabe se não é essa a nossa “seleção natural”? Isto porque somente alguns de nós terão êxito e saberão colher o “néctar” que há na vida. Os outros, ah!, os outros irão “tropeçar” e pagarão um alto preço, onde a moeda contábil raramente é o dinheiro!

O nosso querido Manuel Bandeira pode lá ter sofrido muitas dores, que alimentam os poetas, mas, apesar disso, ele exclamava com orgulho: “Uns tomam éter, outros cocaína. / Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria. / Tenho todos os motivos menos um de ser triste”.

O filme Despedida em Las Vegas não pode ser visto apenas como a “crônica de uma morte anunciada”. De um modo irônico e cruel, ele acaba revelando uma das maiores contradições humanas. É que ao se relacionar com a “morte” de Ben, somente assim Sera, personagem de Elizabeth Shue, consegue retomar a “vida”. E dessa forma, ela recupera a autoestima que fora extraviada nos caminhos do mundo.
O que importa é que se por um lado o filme nos deprime com um enredo massacrante, por outro, ele nos oferta profundas reflexões, trazidas à baila por conta dessa linda história de amor. Com isso, quem sabe possamos nos aproximar de algumas questões que há tempo nos afligem? São perguntas que aguardam respostas e que, de alguma maneira, um dia precisaremos atender.

Foi Nietzsche que, diante do absurdo da vida e do mundo, escreveu: “o absurdo de uma coisa não é uma razão contra a sua existência. É mais uma condição!”
Pois é, minha gente. Talvez a resposta para tudo isso esteja, simplesmente, no verso cantado por Caetano Veloso: “…cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é!”

Las Vegas

Disco: CD “Amoroso / Brasil”, com João Gilberto.

O nosso saudoso Nelson Rodrigues costumava dizer, em tom quase profético, que toda unanimidade é burra!. Será?! João Gilberto, pelo visto, não atestaria tal sentença, uma vez que ele carrega diversos títulos: de “encrenqueiro” a gênio, de “impostor” a símbolo da bossa-nova! E aí, o que vale, então? Sei lá. O que sei é que ele é o maior talento da música brasileira, isso sim! Canta feito passarinho: suave e “amoroso”. Aliás, esse é título do CD. Por sinal, muito feliz. Se não acredita, então, ouça o nosso João interpretar “‘S wonderful”. É de tirar o chapéu, minha gente! Isso sem falar da comovida “Estate”, em que ele é capaz de nos provar que o mais difícil nessa vida é ser simples. “Besame mucho”, por exemplo, adquiriu com ele uma ternura jamais encontrada por aí, nem mesmo naquela maravilhosa loura, a canadense Diana Krall.

Portanto, meus amigos, de nada adianta torcer o nariz para o baianinho e achar que ele é pernóstico. O melhor a fazer, creiam-me, é pôr de lado as implicâncias e os preconceitos. Afinal, João Gilberto não está aqui para agradar a gregos ou troianos e sim para cantar. E isso, cá para nós, ele faz muito bem. Como poucos são capazes!

 

https://www.youtube.com/watch?v=b81ywX5cUmQ

 

João Gilberto_Amoroso

Disco: CD “Será Una Noche”.

É intrigante o que ocorre todos os anos aqui em Florianópolis. Vejam vocês: por um lado há uma turma que fica torcendo para a chegada da “temporada de argentinos”. Sabe como é? Eles alugam tudo, até bicicleta velha ou rádio de pilha para os incautos “hermanos”… uma loucura, só vendo! Por outro lado, há um número bem maior que torce para que a temporada acabe logo e, assim, ter de volta a bela “Ilha da Magia”. Serena e segura. Livre dos turistas encrenqueiros. Bem, exageros à parte, a verdade é que nem todos os turistas são “fios desencapados”, justiça seja feita. É que alguns poucos, segundo os nativos daqui, não são fáceis… Reclamam os “ilhéus” que argentino é encrenqueiro por natureza. Ao chegarem aqui, desandam a tumultuar a nossa pacata ilha. Olha, eu não sei se concordo com tais pensamentos. No fundo, o que acho é que turista é assim em qualquer parte do mundo, minha gente!

Já que falei dos portenhos, então, quero apresentar esse belíssimo CD: “Será una noche”. O que aquela rapaziada toca bem, não está no mapa. É o tango mais jazzístico que ouvi, após Astor Piazzolla. Comovente, isso sim. Basta ouvir “Nublado”, que é uma verdadeira obra-prima! Piazzolla, seguramente, deve bater palmas para “los hermanos”, lá do andar de cima. E ao ouvir o disco, confesso, senti saudades das viagens que fiz a Buenos Aires. Como “turista”, é bom dizer: sempre fui muito bem acolhido!

https://www.youtube.com/watch?v=qObUnXis4mw

SeraUNaNoche

Memórias: a maravilhosa Salvador!

Ao arrumar o catálogo de fotos no computador, eu me deparei com algumas imagens preciosas, marcantes e que me trazem boas memórias. Então, pensei em dividir com os amigos um pouco dessa felicidade… Hoje, vou postar duas fotos de Salvador, Bahia, que é o estado brasileiro com o maior humor “per capita”. A primeira foto é da Ilha dos Frades, imperdível passeio pela Baía de Todos os Santos. Já a segunda imagem, convenhamos, nem seria preciso dizer que é o magnífico Pelourinho, no Centro Histórico de Salvador.

Salvador 1Ilha  dos  Frades,  na  Baía  de Todos os Santos.

 

Salvador 2Pelourinho, no  Centro  Histórico  de  Salvador.

JAZZ: Ornette Coleman, John Coltrane e Miles Davis, três grandes mitos do jazz!

Na década de 1960 nós tivemos três artistas que se destacaram como importantes influências no jazz: Ornette Coleman, John Coltrane e o extraordinário Miles Davis. John Coltrane era um saxofonista de apurado talento. Tocava solos de surpreendente extensão e, como poucos, ele improvisava com sons de “gaitas-de-fole”. Pode-se dizer que a música de Coltrane foi admiravelmente profética com relação aos futuros acontecimentos e dominou o cenário do novo jazz até a sua morte, em 1967, com apenas quarenta anos. A morte de Coltrane deixou Miles Davis como o grande e inconteste líder do mundo do jazz. Miles já estivera explorando um novo campo musical, bem à sua maneira, altamente individualista. No entanto, estivera também ouvindo muito “rock” com ouvidos abertos e mente receptiva. No fim desta década, ele misturaria instrumentos elétricos e ritmos de rock com sua própria marca de jazz avançado, surgindo daí o “jazz-rock”. Quanto a Ornette Colemam, passada a primeira excitação de seu “debut”, em 1959, ele encontrou muitas dificuldades em arranjar contratos, face ao alto ordenado que desejava. Por isso mesmo, Colemam “retirou-se” do cenário do jazz, em 1962, com trinta e dois anos de idade. Durante dois anos trabalhou em suas teorias musicais, estudou violino e se exercitava no saxofone e no trompete. Quando voltou de seu “exílio voluntário”, as coisas começaram a melhorar. E assim, ele fundou um fabuloso trio e foi para a Europa em busca de novos adeptos do “free jazz”…

Jazz12_OrnetteOrnette Coleman (1930 – 2015)

 

jazz12_ColtraneJohn Coltrane (1926 – 1967)

 

jazz12_MilesMiles Davis (1926 – 1991).

 

Memórias: em algum lugar do passado…

Eu devo reconhecer que o meu olhar, ultimamente, tem se voltado muito para o “porão” da memória. Mas, justifico: é que de lá eu venho extraindo lembranças e lições do que já vivi. Tentando, com isso, dar mais significado aos inúmeros episódios e, em última análise, sentido a vida!

O que sei dizer é que se a gente pudesse incorporar um pouco mais o que as músicas dizem, ah!, como seria bom… Por certo, elas nos diriam com orgulho: “Se eu pudesse por um dia / esse amor, essa alegria / eu te juro, te daria / se eu pudesse esse amor todo dia. / Chega perto, vem sem medo. / Chega mais, meu coração. / Vem ouvir esse segredo / escondido num choro-canção”.

Também sei que em diversas ocasiões eu agi como na canção: “…dei pra sonhar / fiz tantos desvarios / rompi com o mundo / queimei meus navios”. Tudo bem… Faz parte do jogo da vida. Afinal, são os esconderijos da memória. São os nossos sonhos brincando no labirinto. Daí, então, eu reafirmar: que maravilha é viver! Mesmo que o amor, por vezes, se desencontre, ainda assim ele sempre será bem acolhido. Mesmo que a mulher amada proclame sem piedade que “na bagunça do teu coração / meu sangue errou de veia e se perdeu…” – eu continuarei acreditando que o afeto mora ao lado.

Pois é. De um jeito ou de outro, o fato é que eu tenho me perguntado: que “fotografias” levarei desta vida? Que histórias terei para contar ainda “desse lado”? Isso porque o percurso da gente é tão repleto de causos que, no fim das contas, o que nos cabe mesmo é ser bons contadores de histórias. Apenas isso!

Eu não posso dizer se terei sucesso ou não, uma vez que ainda estou plantando os acontecimentos. O certo é que tenho procurado não deixar que as fotografias adquiram um insípido “amarelado” e se “desgarrem” do meu álbum. Se eu conseguir isso, meus amigos, já será uma vitória!

Por tudo isso, então, eu prefiro ficar com as melodias que estão esparramadas pelo universo. No fundo, elas são sábias. E me embalam nesta linda manhã de sol. Na voz da Ana Caram, todos os anjos sussurram em meus ouvidos: “Não se afobe, não / que nada é pra já / o amor não tem pressa / ele pode esperar / em silêncio, num fundo de armário / na posta restante / milênios, milênios ao ar…”

Olhar o mundo

Olhar o mundo 2

Memórias: “Colina Joan Miró”, um lugar para se guardar na memória!

Durante mais de trinta anos esta casa abrigou os meus pais. Por isso, de algum modo, ela acabou se tornando a minha “Macondo” ou o meu “porto seguro”. Digo isso, porquanto além dos meus pais, eu entendo que ali residiram também muitas esperanças, alguns temores, sonhos a serem realizados e o que mais fizer parte da cota de afeto que um filho consegue construir ao visitar os seus pais.

Hoje, por certo, a “Colina Joan Miró” existe apenas no imaginário dos filhos e amigos. Contudo, resistindo a toda sorte de “desconstrução” que a vida impiedosamente prega, eu continuo fiel às lembranças que guardei daquela casa. Mais do que isso, sinto-me grato por tudo que aprendi com os meus pais!

Colina Joan Miró

Disco: CD “How long has this been going on?”, com Sarah Vaughan.

O seu nome bem que poderia ser Sarah “Virtuose” Vaughan, tal a capacidade de interpretação. Meu Deus do Céu, que maravilha é viver! Só em ter escutado a minha querida Sarah cantando “Misty” no palco do Hotel Nacional, no Rio de Janeiro, valeu-me a “passagem de ida”. Seu carisma é algo impressionante: a plateia ficou simplesmente siderada. E Sarah na dela, com um largo sorriso estampado na cara, passeando pelas “oitavas” como quem passeia nos Jardins do Éden. Talvez por isso a apelidaram de “Divine”. Por mim, tudo bem: a justiça foi feita e a nossa Sassy para sempre será divina!

Neste imperdível disco, Sarah Vaughan está acompanhada pelo talentoso Oscar Peterson (piano), pelo “mágico” Joe Pass (guitarra), Ray Brown (contra-baixo) e Louie Bellson (bateria). Convenhamos: é muito mais que uma “reunião”, minha gente, é uma verdadeira assembleia musical…

“My old flame”, “Body and soul”, “You´re blasé”, “Easy living” e “More than you know” são algumas das pérolas presentes no disco. Ora acompanhada por todos os músicos, ora só com um único instrumento, e lá vai Sarah brincando com as notas. Na verdade, com todas elas!

“Nota dez! Nota dez!”, daria aquele exultante jurado para este disco. Então, basta apenas confirmar, meus amigos.

 

Sarah_Vaughan

JAZZ: minha doce e eterna Billie Holiday!

Billie Holiday não foi apenas a grande dama do “blues”, meus amigos. Na verdade, ela foi a mais importante cantora de jazz… de todos os tempos. É inegável que a sua voz não era tecnicamente perfeita. Tampouco ela sabia fazer uso das oitavas, como Sarah Vaughan conseguia. E não possuía sequer uma voz aveludada que “abraçasse” os maravilhosos “blues” com a devida correção. Apesar de tudo isso, Billie Holiday brilhou e encantou gerações de admiradores. Por quê?! Ah, minha gente, eu acredito que foi pelo fato de que ela foi capaz de nos fazer sentir “humanos”. Sim! Quando se escuta a voz lamentosa de Billie, imediatamente os nossos “instintos” se descontraem e nos convidam para uma interminável sessão de “levitação emocional”. Ah! Minha doce e eterna Billie… que falta você nos faz!

Hoje, minha doce Billie, ao ligar o som da vitrola e ouvir os primeiros acordes de “Stormy blues”, eu percebo que o mundo foi, de fato, “padrasto” com você. Então, para nos redimir desse pecado, eu lhe peço desculpas pelos infortúnios que passou. Por certo, eles foram injustos e aviltantes!

Memórias: Dia das mães… e do João Pedro, também!

Ah, esta vida é mesmo surpreendente. Mágica, até. Isto porque quando a gente menos espera, eis que ela nos enfeitiça mais uma vez e nos convida a uma irrecusável oferta de afeto. Aliás, cá entre nós: quem pode recusar amor a uma “coisinha” como essa? Quem, minha gente?!

Abençoado seja, João Pedro!

JP e o vovô