Memórias: crônica “O TEMPERO DE DONA MARIA”

Sabe como são aqueles aromas especiais, que de algum modo nos remetem às lembranças de criança? Pois é. Hoje eu acordei um pouco mais cedo e fui preparar o meu café da manhã, procurando não fazer barulhos, já que minha mulher e o meu filho ainda dormiam. Sentei-me no sofá da sala, acompanhado pela caneca de café e um punhado de bolachas Maria. Curiosamente, parei para observar o desenho em relevo da deliciosa bolacha. Foi quando me deu vontade de saber a origem dela com a ajuda do Professor Google: “A bolacha Maria foi criada em 1874 por um padeiro inglês para comemorar o casamento da grã-duquesa Maria Alexandrovna da Rússia com o Duque de Edinburgo. Foi muito popular na Guerra Civil Espanhola, durante a qual foi considerada símbolo da prosperidade da economia ao ser produzida com os excedentes de trigo…”

Fechei os olhos por um instante, sentindo o aroma delicioso do café. Aí, juro a vocês, foi a vez de eu receber uma inesperada visita: as lembranças de Dona Maria de Piabetá, a cozinheira da minha infância distante. Meu Deus do Céu! Que saudade me bateu no peito ao lembrar daquele sorriso largo, estampado em um rosto mais largo ainda. Dona Maria, meus amigos, mais parecia uma baiana, daquelas que vendem acarajé em frente à igreja do Nosso Senhor do Bonfim. Com um invejável senso de humor, Dona Maria chegava a nossa casa bem antes das sete da manhã, embora morasse em outro município: Piabetá, próximo a Magé, no Rio de Janeiro.

Bem… já se passaram mais cinquenta anos desde que aprendi a saborear as melhores “especiarias” de Dona Maria de Piabetá. Seu rosto, confesso, eu já tenho dificuldades para resgatar da memória. Mas os aromas que ela esparramou ao meu redor, estes, ah!, jamais esqueci.

Abençoada seja, Dona Maria.

 

Biscoito Maria

Disco: “Reunión cumbre”, com Gerry Mulligan e Astor Piazzolla.

Eu bem sei que o tempo voa mais rápido que a história. Por vezes, nem mesmo os pensamentos conseguem acompanhar o ritmo dele. Contudo, ainda que isso faça parte da trajetória da gente, a verdade é que algumas vezes dói… Deixe-me, então, contar um “causo”.

Eu estava remexendo no diretório de fotos no meu computador e, de repente, acabei me deparando com algumas que não me lembrava mais… Eram fotografias de quando eu cheguei a Floripa, em 1997. Ao observar uma delas, no apartamento na Lagoa da Conceição, lembrei-me do período que ela representava. Eu havia recém-chegado do Rio de Janeiro, após a aposentadoria especial de 25 anos de magistério e, além disso, eu acabara de sair de um equivocado casamento. Como é comum nessas horas, eu estava doído e bastante fragilizado. Talvez por isso, Florianópolis representasse uma espécie de “Terra Prometida”, onde encontraria o meu paraíso e a minha bem-aventurança…

O que sei dizer é aquele foi o período que mais escutei jazz na vida. Pudera! A necessidade e o desejo de reclusão eram tão fortes que, por conta disso, requeriam sons mais intimistas, mais contemplativos. Daí a minha escolha ter recaído em alguns “especialistas” do gênero, como o foi o caso de Gerry Mulligan. Sorte a minha, pois fui tremendamente acalentado por esse baita músico!

Sem dúvida, minha gente, Mulligan é um virtuose no sax barítono, instrumento no qual tornou-se, talvez, a maior referência mundial. Afinal, como ele, são poucos os que conseguem extrair um timbre riquíssimo do sax barítono, fazendo uso de improvisações extremamente melódicas. O sopro de Mulligan está quase sempre impregnado por atmosfera intimista e melancólica. Por isso, foi um dos principais expoentes do “cool jazz”, participando das gravações do célebre disco do trompetista Miles Davis, “Birth of the Cool”.

Ah, meus amigos, ao ver outra foto da mesma época, 1997, lembrei-me também de outro disco de Gerry Mulligan, intitulado “Summit” ou “Reunión cumbre”, que foi gravado em 1974, ao lado do genial Astor Piazzolla. O que aqueles dois conseguiram fazer não está nesse plano… Coisa linda!

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Cinema: filme “O caminho para casa”, de Zhang Yimou.

Muito além da paixão!

O filme de hoje é o belíssimo “O caminho para casa”, de Zhang Yimou, produzido em 1999, como uma verdadeira declaração de amor, bem ao estilo chinês.
O enredo se passa em um pequeno vilarejo no interior da China e narra a história de Zhao Di, a inocente camponesa, que entregou o seu amor ao professor Luo Changyu. É uma coisa linda, meus amigos! A relação que ela estabelece com o professor é tocante e delicada. Durante todo o filme, a linda história de amor é narrada pelo filho Yusheng. É que ao receber a notícia da morte do pai, Yusheng retorna à sua antiga aldeia e relembra o decantado romance dos pais, enquanto providencia o enterro. E ao narrar a história de amor deles, com orgulho e admiração, Yusheng consegue nos enfeitiçar. Inteiramente. Sem sombra de dúvida, não há criatura alguma nesse mundo que ao final do filme não se sinta melhor, visto que ele nos emociona e nos engrandece. Pudera! Como um bom filme oriental, ele herdou a sabedoria de não ter pressa. Com isso, as cenas se sucedem com uma impressionante placidez. Lindas. Irretocáveis. E amparado em magnífica fotografia, o enredo vai lentamente arrebatando as nossas almas sedentas de humanismo. Principalmente quando aborda o polêmico tema: a morte.

É, minha gente, o povo ocidental tem muito que aprender com os orientais no que diz respeito à forma de encarar a morte. Chega a ser comovente o diálogo entre Yusheng e o marceneiro, quando ele diz: “Carregar os mortos é um costume antigo. E nós gritamos com ele no caminho. Sabe o que dizemos? Dizemos que aquele é o caminho para casa. Assim, ele sempre se lembrará do caminho!” Ou então, na própria voz de Yusheng, que após relutar, acaba compreendendo o pedido da mãe e justifica o sacrifício de conduzir o corpo do pai pela longa estrada: “Esta estrada faz parte da história de amor de meu pai e minha mãe: o caminho que vai da cidade até a nossa aldeia. Talvez, por causa da esperança que representava quando ela esperava a volta de meu pai, ela queira percorrê-lo ao lado dele uma última vez…” E ele tinha razão, uma vez que um amor feito aquele merecia qualquer homenagem. Até mesmo sacrifício.

Yusheng nos diz mais sobre o amor deles: “Papai me contou que a primeira vez em que visitou minha mãe, ela ficou esperando na porta. Apoiada no batente, parecia uma pintura num quadro: uma imagem que ele jamais esqueceria!” Ou ainda: “Alguém me contou que no dia em que meu pai finalmente voltou, mamãe vestiu o casaco vermelho, o preferido de papai, e ficou esperando por ele no caminho. Desde aquele dia, meu pai nunca mais deixou a minha mãe…”

O que sei dizer é que a história de Zhao Di e do professor Luo Changyu não é apenas uma bela história de amor. Bem mais do que isso, ela revela tudo o que fica em nossa volta: amor, paixão, dignidade e respeito. E nada mais tem importância.

Zhao Di compreendeu tudo isso quando quis prestar ao marido a derradeira homenagem, reiterando o seu amor em meio a longa caminhada. No fundo, talvez fosse a caminhada para a grande morada espiritual: a imortalidade do amor que viveu.

Então, só nos resta torcer para que a vida nos ensine a encarar a morte com o mesmo respeito e dignidade que o filme aponta. Com sorte, poderemos até guardar na memória onde estão os nossos caminhos. E se isso ocorrer ainda em vida, melhor ainda, pois assim evitaremos ouvir os gritos dos que nos amam!

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Cinema: filme “Antes da chuva”, de Milcho Manchevski.

“O mundo é um moinho!”

( Carta a Zamira )

É quase certo que você, Zamira (personagem de Labina Mitevska), nunca tenha ouvido falar do nosso querido mestre Cartola. Por isso mesmo, não teve a felicidade de conhecer os maravilhosos versos do grande sambista e poeta. Foi uma pena, amiga, porquanto você perdeu a oportunidade de se emocionar com essa belíssima canção: “Ainda é cedo, amor / Mal começaste a conhecer a vida / Já anuncias a hora da partida / Sem saber mesmo o rumo que irás tomar / Preste atenção, querida / Embora saiba que estás resolvida. / Em cada esquina cai um pouco a tua vida / E em pouco tempo não serás mais o que és. / Ouça-me bem, amor / Preste atenção, o mundo é um moinho / Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos / Vai reduzir as ilusões a pó…”

Pois é. Foi uma lástima você não ter ouvido esses versos. Saiba, então, Zamira: Cartola compôs essa música para demover o desejo da filha de sair de casa precocemente. E ele conseguiu! Se você tivesse sido acalentada por essa melodia, quem sabe pudesse compreender e perdoar o duro destino que a vida estava a lhe reservar? No entanto, a dor que Cartola sentiu não pode ser comparada à sua. Lá, isso não. Ainda que toda dor seja triste, pois dor é sempre dor, o certo é que o seu infortúnio bateu mais fundo. Como prova, basta assistir ao melancólico filme e perceberemos que esta dor sempre esteve presente em sua vida. Impiedosamente. Presente, também, no destino das tantas vítimas de guerras, como a do seu sofrido país. Convenhamos, tudo isso serve apenas para denunciar o lado mais obscuro da natureza humana: o sofrimento. Não há nada mais sombrio do que isso, esteja certa!

Bem, meus amigos, desculpem-me tê-los afastado da conversa que tive com a menina Zamira. É que essa conversa era urgente e necessária, além de muito pessoal. No fundo, há tempos eu me devia estas palavras. Agora, torço apenas para que tenham sido tolerantes comigo e entendido o momento especial.

Então, voltando a conversar um pouquinho sobre filmes marcantes, especiais, o filme que trago hoje é o maravilhoso “Antes da chuva”, dirigido por Milcho Manchevski e muito ajudado pelos talentosos Rade Serbedzija, Labina Mitevska, Katrin Cartlidge e Grégoire Colin.

Belíssimo. Comovente. Humano. Corajoso. Sei lá mais o quê!

Na construção do enredo, Milcho lança mão de três histórias de amor que se cruzam, em meio à guerra fratricida na Macedônia. “Palavras” é o título do primeiro episódio, que descreve a dor de Zamira e do jovem monge Kiril (personagem de Grégoire Colin). É quase certo que Zamira (personagem de Labina Mitevska) nunca tenha ouvido falar do nosso querido mestre Cartola. Por isso mesmo, não teve a felicidade de conhecer os maravilhosos versos do grande sambista e poeta. Foi uma pena! Porquanto ela perdeu a oportunidade de se emocionar com a belíssima canção: “Ainda é cedo, amor / Mal começaste a conhecer a vida / Já anuncias a hora da partida / Sem saber mesmo o rumo que irás tomar / Preste atenção, querida / Embora saiba que estás resolvida. / Em cada esquina cai um pouco a tua vida / E em pouco tempo não serás mais o que és. / Ouça-me bem, amor / Preste atenção, o mundo é um moinho / Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos / Vai reduzir as ilusões a pó…”

Em “Rostos”, o segundo episódio, surge o “fotógrafo de guerra”, Aleksandar (personagem de Rade Serbedzija). Envolvido numa difícil relação amorosa em Londres, ele não consegue permanecer distante e sofre com os duros acontecimentos desenrolados em seu país. “Imagens” é o terceiro episódio, que tem o pano de fundo no retorno de Aleksandar à sua terra natal, a Macedônia. Ironicamente, neste último episódio, os caminhos de Aleksandar se cruzam com os de Zamira e Kiril, desenhando de forma impiedosa a intolerância presente nos conflitos entre macedônios ortodoxos e muçulmanos albaneses. O retrato da dignidade daquela gente é, enfim, aviltado e revelado…

Sim, meus amigos, “Antes da chuva” é um filme impiedoso. Desafiador. E ao mesmo tempo, delicado. Um filme produzido com a nítida intenção de “impressionar”. E ele consegue!

Ainda bem que podemos fazer pequenas “expiações” enquanto o mundo não se ajuíza. Sorte a nossa que tivemos o querido Cartola para nos consolar e ainda temos, afortunadamente, o poeta Nei Duclós para nos dizer sem medo: “Estamos na mesma fogueira / na mesma lenha / usando a mesma coleira / pulando com a mesma raiva / sofrendo a mesma seca / plantando a mesma semente / esperando com a mesma demência / que ela cresça…”

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Memórias: “SOMOS APENAS PASSAGEIROS…” – Parte 3.

Para finalizar esta série de crônicas sobre viagens, eu quero evocar o meu lado nordestino. Afinal, sou um cearense “cabra-da-peste”! Ainda que tenha saído aos cinco anos de idade do meu querido Ceará e vivido quarenta anos no Rio de Janeiro e vinte anos em Florianpólis, na verdade, eu nunca deixei de ser “pau-de-arara”…

Talvez, por isso, eu tenha me identificado tanto com as viagens que fizemos a Fortaleza, Natal, João Pessoa, Recife, Maceió e até mesmo a Salvador, já que dizem que o baiano é o nordestino que deu certo!

Então, para começar a conversa eu me reporto a Fortaleza, que visitamos em 2012, 2015 e 2016. É bem verdade que a primeira viagem aconteceu por influência do maravilhoso filme, “Gonzaga, de pai pra filho”, que eu e a minha esposa fomos assistir com o nosso filho Gabriel. Ao acabar o filme, comovido pela bela história, eu chorei bastante. Foi quando a minha esposa sugeriu que viajássemos para “retomar” às minhas origens. Era, sem dúvida, uma excelente ideia, uma vez que fazia mais de trinta anos que eu não retornava ao meu velho Ceará.

Assim, em 2012, na primeira viagem, apenas eu e o Gabriel viajamos, já que a minha mulher não conseguiu tirar férias no trabalho. Pensamos até em adiar os planos, mas ela nos convenceu que seria uma grande oportunidade de rever as minhas raízes e, além disso, a chance de o Gabriel “compreender” a “ancestralidade” que herdara. E de quebra, eu poderia mostrar ao meu filho que há mais coisa nesse mundo além da internet e do celular…

Depois dessa viagem, para nossa alegria, vieram os “encontros” com Salvador, Natal, João Pessoa, Recife e, bem há pouco, Maceió. Meu Deus do Céu, que magníficos encontros foram esses! E em cada uma dessas cidades nós “descobrimos” o verdadeiro Brasil. Quanto orgulho nós sentimos em sermos brasileiros, nordestinos e amantes da cultura que eles preservam com tanto carinho.

Viva o povo brasileiro! Viva o nordestino!

Memórias: “SOMOS APENAS PASSAGEIROS…” – Parte 2.

Sim, eu estava contando as histórias das minhas viagens. Nessa altura da vida, já perto dos 25 anos, eu me tornara professor de química de cursinhos pré-vestibulares. O salário era bom e, diferentemente dos meus colegas professores que só queriam comprar roupas finas e ter carros esportivos, eu preferia ficar com o meu “fusca” e planejar viagens. Ah, poder “conhecer o mundo”, esse era o meu sonho de consumo!

Então, o universo se encarregou de conspirar e, sorrateiramente, alterou o meu destino. É que eu tinha uma namorada de faculdade que, ao se formar junto comigo, recebera uma irrecusável oferta de estágio na Basileia, Suíça. Vocês podem imaginar que a euforia do convite logo deu lugar ao “frio” na barriga. É que sabíamos o que representava quase um ano de separação… Timidamente, apoiei o projeto, mesmo intuindo os riscos.

No dia da partida, meus amigos, o coração de Bárbara, tanto quanto o meu, estava superdividido. No entanto, não se pode abrir mão dos “sonhos” e nós sabíamos disso. Aliás, no caminho até o aeroporto, uma melodia “martelou” a minha cabeça, impiedosamente: “Ne me quitte pas”. Talvez eu devesse cantar essa canção para ela… Mas, apenas um longo abraço, envolto em silêncio, selou aquele momento de despedida.

Após seis meses, veio a trágica notícia: o estágio seria prorrogado por mais um ano. Imediatamente, entramos em pânico. “Por que você não vem para cá?” – Bárbara indagou-me com sofreguidão. “Como, se eu já estou dando um monte de aulas no cursinho?” – respondi, atônito e indignado.

Todavia, dizem por aí que o “diabo” é mais ligeiro que os “anjos”, porquanto é determinado. Sim, pode bem ser verdade. O certo é que em menos de um mês eu vendi o carro, a linha telefônica e raspei a poupança que possuía. Com a passagem na mão, embarquei para a Suíça. Extasiado!

A chegada ao aeroporto de Zurich foi um verdadeiro sufoco. E se ela não estivesse lá?! Sem saber uma só palavra em alemão, como eu me safaria?

Contudo, lá estava Bárbara: linda e sorridente! Tão ou mais nervosa do que eu, cujo coração mal cabia no peito. Verdade é que o ardente beijo no saguão do aeroporto constrangeu alguns suíços, mas nunca fora tão sentido e desejado quanto aquele.

Para custear a minha estada, trabalhei como garçom, cuidei de crianças e até uva, meus amigos, eu colhi nos campos da França. Ah, foram ricas e preciosas experiências, isso sim. E até hoje, decorridos quarenta anos, até hoje, eu tiro proveito daquela incrível viagem…

Memórias: “Somos apenas passageiros…”

Eu estava pensando sobre as tantas viagens que já fiz e as muitas que ainda quero fazer. Inevitavelmente, ocorreram-me algumas dúvidas: o que exatamente que eu estou a procurar? O que pretendo encontrar? E afinal, qual a importância dessas viagens?
Bem… verdade é que eu não precisei de muito tempo para responder esses questionamentos. Porquanto, no fundo, creio, é um processo voluntário e consciente. Sim, meus amigos, eu acredito que a minha busca esteja amparada no prazer que tenho em “observar” os outros. Sabe como é? Ao me aproximar deles, respeitando o espaço e o tempo de cada um, minha intenção é tão somente captar a “visão de mundo” dessas maravilhosas criaturas. E o que a gente aprende com elas, por certo, não está no gibi.

Quando eu era bem jovem e comecei a perceber que viajar trazia imensa satisfação, acabei estabelecendo um pacto com a vida: eu iria acolher essas preciosas “observações” que as viagens propiciam e, em contrapartida, iria deixar em cada lugar um registro pessoal do meu contentamento.

Assim aconteceu, quando tinha 15 anos e fiz a minha primeira viagem de “mochileiro” do Rio de Janeiro para Florianópolis, para conhecer um tio ainda distante e estranho para mim. Céus! Foram quinze dias na casa do tio Holdemar, médico e escritor, que me “abduziu” completamente, apresentando-me a um universo ainda desconhecido: a literatura e o jazz! E imediatamente eu passei a amar esse belíssimo universo, minha gente. Obrigado, meu tio!

Poucos anos depois, eu novamente botei o pé na estrada e parti para Buenos Aires, de ônibus, encarando 48 horas de viagem, sozinho no inverno. Ao chegar na capital portenha, eu me encantei por “Mercedes Sosa”, apaixonei-me pelo tango estilizado de Astor Piazzolla e conheci uma família de suíços que moravam em um simpático subúrbio de Buenos Aires, hoje município, chamado “Ramos Mejia”. Naquela bela casa moravam três pessoas: Dona Arlete, seu marido Emílio, um chefe- confeiteiro, e a linda filha Heide, universitária de engenharia. Eu confesso a vocês: poucas vezes na vida eu tinha visto uma família tão harmoniosa quanto aquela. Parecia uma dessas famílias saídas das telas do cinema, que nos comovem pelo intenso amor compartilhado entre eles…

(continua amanhã)

Ponte HL

confeitaria

(Fotos: Ponte Hercílio Luz, em Floripa de 1970 e a Confeitaria Moritz, em Retiro, Buenos Aires).

 

Literatura: crônica “Envelhecer”.

Sei que é difícil admitir. Por isso, tenho sofrido silenciosamente. Sem dividir a preocupação com quem quer seja. No entanto, chega uma hora que a coisa arrebenta. Daí em diante, não tem mais volta, minha gente. Mas calma aí que eu explico tudo.
É que eu fui professor por mais de três décadas e não me recordo de ter passado por tamanho “constrangimento”, mesmo em situações complicadas ou adversas que sempre acontecem aos professores. Feito aquela que vivi em 1986, no Colégio São Pedro, no Rio de Janeiro. Eu estava dando minha aula na maior tranquilidade, quando um estudante soltou um enorme grito no meio da sala: “independência ou morte!”. Vocês podem imaginar o susto que levei. Imediatamente, virei para a turma e perguntei ao grupo: quem foi que deu esse grito? Aí, o sem-vergonha do aluno respondeu sorrindo: “professor, francamente! Não acredito que o senhor não saiba que foi D. Pedro I…”

Bem… paciência… Melhor deixar pra lá!

Mas o que eu queria dizer, meus amigos, é que o processo de envelhecimento é duro e aviltante. Impiedoso, até. Por mais que a pessoa tenha “fair play” e muita sabedoria emocional para aceitar o envelhecimento, convenhamos, tem vezes que a coisa bate fundo. Talvez seja o meu caso… Aliás, se pensarmos bem, é fácil observar os primeiros sinais da velhice. Começam pela dificuldade de enxergar aquela placa de rua que outrora parecia ter letras bem maiores. E insistem em nos mostrar a flagrante falta de fôlego ao brincar com o neto que exige de nós a rapidez não mais presente. Tudo isso sem falar, é claro, daquelas famosas dores que proliferam aqui e acolá em nossas articulações… Céus, o que que é isso, Meu Deus?!

Sendo assim, meus amigos, eu peço a vocês um pouco mais de paciência comigo. Afinal, conforme é sabido, trata-se de um ciclo inevitável e não há nada que possa impedir o processo. Para amenizar a “lenta descida”, dizem os sábios, o melhor jeito é desenvolver o bom humor. Sim! De modo suficiente para lidar com o percurso, não é verdade? Então, “Eureka”! Que assim seja!

(Fotos: eu e Gabriel, duas vezes. Na terceira, eu, Gabriel e João Pedro, meu adotado neto)

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Disco: “Take Love Easy”, com Ella Fitzgerald e Joe Pass.

Se há algo que me espanta nessa vida é ver a facilidade que algumas criaturas têm para determinadas atividades. E quando eu digo facilidade, meus amigos, refiro-me muito mais àquela capacidade de fazer “o belo” acontecer, sem muito esforço. Ou seja, construir verdadeiras obras-primas de modo simples e natural. Como podem?!

Confesso a vocês: no fundo, eu morro de inveja dessa gente. Porquanto eles produzem preciosidades, aos olhos de todos, mas que aparentemente parecem tão banais, tão corriqueiras…
Só para ilustrar, eu trago aqui o exemplo do disco da Ella Fitzgerald e do Joe Pass, intitulado “Take Love Easy”. Meu Deus do Céu, como pode alguém cantar de modo tão simples e, ao mesmo tempo, tão arrebatador?! Sem falar que o nosso Joe Pass nos passa a sensação que o violão é o mais fácil dos instrumentos, tal a fluência com que ele executa os brilhantes acompanhamentos. Só ouvindo!

E ao ouvir novamente o CD neste domingo chuvoso, eu comecei a me dar conta de que isso é bem maior do que parece. Eu explico.

Vocês já perceberam que todas as vezes que a gente tentar “sofisticar” qualquer coisa que seja, ela acaba perdendo a graça, a naturalidade e até mesmo a beleza? Pois é. Isso se aplica a quase tudo ao nosso redor. É que a gente possui uma irremediável tendência de tornar as coisas mais complicadas. De querer, muitas vezes, “reinventar a roda”, buscando explicações mirabolantes para aquilo que poderia ser apenas simples e comum. Tão somente.
Aliás, já faz um bom tempinho que um matemático greco, de nome Arquimedes, precisou empreender profundas elucubrações para resolver um complexo dilema apresentado pelo rei. Segundo reza a lenda, o rei Hierão queria saber se uma coroa encomendada ao ourives era de ouro puro ou se haveria material de qualidade inferior na sua composição. O competente Arquimedes sabia que para isso deveria determinar a densidade da coroa e comparar com a densidade do ouro. A questão se complicava à medida que para medir o volume, seria necessário derreter a dita cuja. Arquimedes só descobriu a solução quando entrou numa banheira com água e, então, observou que o nível da água subia quando ele entrava. Com isso ele concluiu que para medir o volume da coroa bastava mergulhar a coroa em água e calcular o volume de água deslocado, que deveria ser equivalente. Segundo a história, ele saiu nu, correndo pelas ruas e gritando eufórico: “Eureka! Eureka!” (Achei! Achei!). Assim, foi criado o famoso “Princípio de Arquimedes”, como ficou conhecida a “solução” descoberta pelo grande cientista grego.

Moral da história: já que não somos Arquimedes, nós não precisamos ficar nus para provar os nossos valores. Ao mesmo tempo, creio que vale a pena nos desnudarmos de alguns bem “desnecessários”… Lá, isso sim!

https://www.youtube.com/watch?v=9Fx5mNCqMUc

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Disco: “The Bessie Smith Songbook”, com Dinah Washington.

Esta vida é mesmo intrigante, meus amigos. Tem vezes que eu chego a acreditar que a gente já vem com o passaporte carimbado para toda e qualquer “viagem”. Não importa se desejamos isso ou aquilo. No fundo, o que vale mesmo é a escolha do “homem” lá de cima…
Então, vejamos. Vocês já se imaginaram vivendo um outro tipo de vida, bem diferente das que possuem? Pois é… eu pensei nisso outro dia. E me fiz a seguinte pergunta: se não tivesse sido professor de química, o que gostaria de ser? É claro, minha gente, que fiquei engasgado, apelando até para aquele famigerado “bem…” que parece nunca acabar. Mas, no fim, veio a resposta: ah, eu desejaria ser músico, isso sim! Pouco importa que passaria a vida na maior “pindaíba”, pois músico é raça que está sempre “fuzilado”. Paciência, professor inda é pior! São as injustiças desse mundo… Fazer o quê?! Pelo menos, no meu imaginário, eu tocaria feliz o meu trompete ou saxofone, indiferente aos problemas da vida. Sem estar nem aí para o mundo! Com sorte, quem sabe, eu faria parte do grupo de músicos que acompanhou a fabulosa Dinah Washington no disco “The Bessie Smith songbook”. Ah, minha gente, que moçada infernal! Sabiam tudo! E a grande dama passeando impoluta pelo “blues”, soltando seu inconfundível fraseado. Ouçam “After you’ve gone”, “Me and my gin”, “Jailhouse blues”, “Fine Fat Daddy” e confiram a qualidade da “cozinha”. Só ouvindo para acreditar!

Quanto às demais questões que nos afligem, do tipo “se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias”… bem, agora pouco importam. Não acham?!

https://www.youtube.com/watch?v=hBG6cfFs75k

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