Literatura: crônica “Do fundo do baú”.

(AO MEU QUERIDO “CANELAU”, QUE BATEU ASAS E VOOU… VOOU, SIM!)

A verdade é que aquele objeto despertava a minha curiosidade já fazia um bom tempo. Além disso, convenhamos, para uma criança de quatro anos é pedir demais para que ela não mexa em algo tão cobiçado como aquele.

Mesmo assim, devo dizer que resisti por alguns meses, muito mais pelo medo que ele me despertava. Afinal, bastava ouvirmos na casa qualquer grito dele e todos sumiam num abrir e fechar de olhos. Uns se escondiam no banheiro, claro, o lugar mais próximo e que justificava toda e qualquer ação. Os irmãos mais velhos que eu corriam mais depressa e, por isso, eu nunca conseguia alcançar… Sendo assim, vez por outra, os “cascudos” me encontravam pelo caminho. E doíam, lembro bem, doíam!

Por outro lado, como dizem, a “necessidade faz o monge”. Então, com o tempo, eu me especializei em me esconder nos buracos menos prováveis daquela casa. Para a minha sorte, ninguém sabia dos meus “esconderijos prediletos”. Lá, isso não. E asseguro a vocês: foi o que aconteceu naquele dia. Eis o relato:

Eu estava na varanda, extasiado com a linda bicicleta, marca Raleigh, que possuía todos os acessórios que se pode imaginar. De repente, eu ouvi o barulho da enferrujada dobradiça do escritório dele anunciando alguma saída e, por isso, acabei me assustando a ponto de derrubar a “bendita” bicicleta… Céus! E agora?!

Corri o mais rápido que pude e me enfiei naquele baú que ficava na saída do banheiro, no fundo do corredor. Comecei a escutar os passos firmes pisando aquele assoalho e o alarido dos outros declarando-se “inocentes”. E eu ali, bem quietinho, quase sem respirar para não ser ouvido!

Até que adormeci e, horas depois, o baú foi aberto revelando-me para todos. Porém, como eu dormia tão profundamente e estava encharcado de suor, creio, por alguma razão que até hoje desconheço, eu não levei a maior de todas as surras… Ufa! Essa foi por pouco… Muito pouco, minha gente!

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Publicado por

Carlos Holbein

Professor de química por formação ou "sina" e escritor por "vocação" ou insistência...