HISTÓRIAS DE PROFESSORES – Parte 1

O que eu posso dizer é que aquele período dos anos 70 e 80, no Rio de Janeiro, foi de muita efervescência para os professores que trabalhavam nos cursinhos pré-vestibulares. Sim! É que havia uma ferrenha disputa entre os inúmeros cursinhos para ver quem aprovava mais no vestibular. Verdade é que eles gastavam verdadeiras fortunas em propagandas nos jornais e TV, cada um afirmando que possuía a melhor equipe de professores, as maiores salas de aula e o material didático mais adequado possível. Naquela época valia qualquer esforço para conseguir o disputado aluno, desde concurso de bolsas de estudo aos treinamentos de provas simuladas no próprio Maracanã, local onde aconteciam as provas do vestibular unificado.
Lembro bem que em 1973 eu era o novato na equipe de quinze professores de química, com apenas 22 anos de idade. E evidentemente, por ser novato, peguei as últimas 13 aulas da grade no período noturno, sendo 8 em Madureira e 5 em Niterói. Ou seja, era o que cabia a um “soldado raso” naquele batalhão de professores com capitães, majores, coronéis e até generais.
Contudo, como dizem por aí, o “tempo” é o melhor aliado do homem. Por isso, passados apenas três anos, eu já tinha a patente de coronel e era respeitado na equipe. Porquanto na hora que a equipe se reunia para resolver as questões e divulgar o gabarito da prova do vestibular, sim, o “bicho pegava” e muitos majores, coronéis e até generais sumiam do quartel pois, no fundo, tinham mais fama do que competência…
No entanto, o que eu gostaria de contar era o caso ocorrido com o Reinaldo, o melhor professor de matemática do cursinho. Ainda que o tratassem como capitão ou major, por ser autodidata, sem ter finalizado nenhum curso superior, Reinaldo era, antes de tudo, “auleiro”. E dos melhores, meus amigos!
O antológico “causo” se passou em um outro cursinho, onde Reinaldo dava aulas. Certo dia o coordenador geral do curso procurou o Reinaldo para solicitar a indicação de um professor de inglês. Reinaldo, imediatamente, disse que conhecia o melhor professor de inglês com quem trabalhara.
– Ótimo, Reinaldo. Peça para que venha falar comigo!
– Tudo bem. Eu encontro com ele hoje e transmito o seu recado. Só tem um pequeno problema: é que ele usa aparelho para surdez e teve que trocar as pilhas e só chegam depois de amanhã. Portanto, amanhã, quando ele vier para a entrevista estará sem o aparelho. Desse modo, para não o constranger sugiro que o senhor fale bem alto com ele.
– Combinado!
Quando chegou a noite, a primeira coisa que o Reinaldo fez foi acertar o encontro com o Miranda, professor de inglês.
– Miranda, é o seguinte: o coordenador geral do curso é surdinho. Portanto, quando você for para a entrevista, não se esqueça de falar bem alto. Ele fica “pau da vida” quando alguém fala baixo com ele… sabe como é?!
-Tranquilo. Deixa comigo!
A partir daí, meus amigos, o relato dos funcionários do cursinho foi bastante rico em detalhes. Segundo eles, o Miranda, professor de inglês, foi conduzido até a sala do coordenador geral. Lá, chegando, deu-se o seguinte diálogo:

– BOM DIA, PROFESSOR!
– BOM DIA…
– O SENHOR RECEBEU AS MELHORES REFERÊNCIAS… SABE QUE SÃO APENAS DEZ AULAS?!
– SEM PROBLEMAS!
O coordenador, já incomodado com a gritaria, perguntou?
– O SENHOR ESTÁ GRITANDO POR QUÊ?!
– FALO ALTO PORQUE SOUBE QUE O SENHOR É SURDO…
– SURDO, PORRA NENHUMA! QUEM LHE DISSE ISSO?

Aí, os dois se olharam e só então perceberam que era uma ‘pegadinha’. Sem que combinassem, deram uma bela e sonora gargalhada.
– Ah, só podia ser coisa do Reinaldo… Um verdadeiro ‘caco’!

‘PASSARIM’ E A MORENA DO SORRISO TÍMIDO – crônica.

O ano era 1987. Devo reconhecer que até aquele mês de junho a vida corria sem grandes novidades. Talvez, até monótona! Quando muito, um tropeço aqui, uma celebraçãozinha ali ou uma expectativa acolá… Vida besta, corriqueira. Até que um maestro, de nome Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, lançou o seu mais novo álbum, intitulado “Passarim”. A partir daí, minha gente, tudo mudou! O mundo pode, então, contemplar a mais nova ‘obra-prima’ da música brasileira. Céus! O que foi aquilo?!

Lembro que eu morava no Leblon e dava aulas de química em cinco escolas: Colégio São Vicente de Paula, Colégio São Paulo, Colégio Sagrado Coração de Maria, Colégio Rio de Janeiro e no Colégio Brasileiro de Almeida.

Recordo-me também que em julho, mês do meu aniversário, eu estava de ‘namorada nova’: uma linda e sedutora morena! Assim, para comemorar o namoro, eu comprei entradas para assistir ao show de lançamento daquele disco no famoso Canecão, palco dos grandes eventos musicais do Rio de Janeiro dos anos 70, 80 e 90.

O fato é que eu tive que encarar uma fila de quarenta minutos para adquirir os ingressos, mas saí de lá exultante pela ‘conquista’. Afinal, meus amigos, eram dois lugares muito bem localizados, quase em frente ao piano que o nosso maestro ‘Tomzinho’ tocaria. Coisa linda!
Aprontei-me feito lorde, escolhendo a melhor roupa do armário. Deixei o carro na lavagem do posto, para não ‘pagar vexame’, e cheguei à casa da ‘nova paixão’ com a necessária antecedência, sem parecer ansioso…

Meu Deus, ela estava linda! Iluminada pelo batom vermelho escuro que realçava seus lábios carnudos. Ao me ver chegando, ela sorriu suavemente. Saímos dali e fomos para o Canecão. Sem pressa, pois o mundo era somente nosso… Estacionamos o carro e nos dirigimos para a mesa de número 76.

Antes de começar o anunciado show, nós pedimos ao garçom duas taças de ‘Kir Royal’ (uma adorável bebida preparada com o licor ‘Creme de Cassis’, acompanhado por vinho branco ‘Chardonnay’). Brindamos várias vezes seguidas. Primeiramente, ao nosso maravilhoso ‘encontro’. Depois, ao querido Tom Jobim que acabara de entrar e dedilhava os primeiros acordes de “Anos Dourados”. E por fim, pela incrível emoção de ‘estarmos juntos’ celebrando tudo aquilo.. Um verdadeiro delírio!

Por certo, minha gente, eu nem preciso dizer que eu jamais esquecerei aquela noite. Não somente pelo privilégio de ver e ouvir o amado Tom Jobim partilhando o enorme talento com todos nós. Nem pela incrível emoção de ter ao meu lado aquela morena de sorriso tímido. Tampouco pelo que se seguiu na longa e perfumada noite… Afinal, quem conseguiria esquecer?!

Sim! Por tudo que vivi, eu lhe agradeço imensamente, meu ‘maestro soberano’!

Passarim

 

O ESTILO DE CADA UM – crônica

Se há um estilo literário que me agrada muitíssimo, este, por certo, é o conto. Justifico: é que o conto tem em sua estrutura uma grande dose de complexidade. Isto porque, sendo mais curto que o romance, o conto precisa criar com dinamismo e em pouco tempo a atmosfera que pretende ensejar. Para isso, o começo, o meio e o fim da história têm que estar bem delineados desde o início, pois não haverá espaço para grandes devaneios, como ocorre nos romances. Aliás, há quem afirme que o conto nada mais é do que síntese do romance ou o compacto dos ‘melhores momentos’ do romance.
Bem… Na verdade, eu não concordo com essas afirmativas. Porquanto elas reduzem a importância do conto. Eu prefiro dizer que são gêneros literários diferentes. Tão somente! Até porque, ao querer enquadrar os estilos literários em fórmulas mágicas, convenhamos, corre-se o risco de produzir frágeis conceitos e definições. Além de empobrecer o entendimento, é óbvio.

Curiosamente, eu encontrei na internet um artigo assinado por Luiz Ruffato, que escreveu: “Ocorre com o conto um curioso fenômeno. Talvez, dos gêneros literários, seja o mais visitado por candidatos a escritor. Devido a pouca extensão e, por consequência, a falsa sensação de simplicidade, muitos se iniciam pela narrativa curta como uma espécie de exercício formal para o romance – o que configura um enorme equívoco, pois seria como alguém se preparar para correr 50 metros rasos acreditando habilitar-se para uma maratona. Narrativas curtas e longas pertencem a distintas naturezas.” Corretíssimo, meu caro, Luiz!

Ademais, como grande admirador do conto, eu tive a oportunidade de ler alguns gênios na arte de construir curtas histórias. Cito alguns de minha predileção: Tchecov, Joyce, Julio Cortázar, Vargas Llosa, Machado de Assis, Rubem Fonseca e muitos outros. Verdadeiros mestres!

No entanto, eu peço licença a todos para lembrar o nome do meu querido tio, Holdemar Menezes. A meu ver, minha gente, Holdemar foi um baita contista! E com muita justiça ele mereceu o almejado prêmio Jabuti, em 1972, da Câmara Brasileira do Livro, como o melhor livro de contos, intitulado “A Coleira de Peggy”.

Por sinal, Holdemar publicou oito livros, sendo dois romances (A maçã triangular e Os residentes), três livros de contos (A coleira de Peggy, A sonda uretral e Os eleitos para o sacrifício), dois de crônicas (O barco naufragado e A vida vivida) e um ensaio (Kafka, o Outro). Contudo, foi no conto que o ‘nego velho’ se encontrou. Completamente! Pois era no conto que ele se sentia à vontade no processo de criação. E, como poucos, mantinha nas mãos as rédeas da história, trabalhando as palavras e o clima com profundo talento e arte. De certo modo, posso dizer que sempre me inspirei na literatura do meu tio. Além de ter sido o meu ‘guru’ intelectual, ele foi o grande incentivador do meu discreto percurso literário. Como prova disso, há na orelha do meu primeiro livro, “Jazz, Cinema & Utopia”, o seguinte texto: “Nas minhas crônicas há um aspecto bem marcado: opto sempre pela primeira pessoa do singular. Porquanto é mais íntimo e convidativo. Com isso, quebra-se o constrangimento, estabelece-se a tácita cumplicidade e o “rapto” é concedido afinal.”

Gabriel, meu filho, ao ler esse texto, sentenciou: “Fique tranquilo, pai… A ‘força’ está com você!”

ESSE TAL DO ‘ROCK AND ROLL’

Eu ainda nem tinha completado os quinze anos quando comecei a frequentar os ‘bailes’ da turma do Estácio. É bem verdade que a minha estreia ocorreu lá na ‘suspeitíssima casa 199’, da Rua Senhor do Matozinho, perto da Salvador de Sá. Aliás, devo reconhecer, aquela região era bem barra-pesada no final dos anos 60. E nem saberia explicar porque eu fui parar ali. Isso porque, minha gente, o clube mais parecia um desses inferninhos de filmes de gângsteres, onde o ‘leão de chácara’, encarregado pela vigilância, cobra ‘senha’ para permitir a entrada dos malandros. E malandro, cá entre nós, era tudo que eu não era! No fundo, hoje eu acredito nisso, foi por pouco que eu escapei de virar bandido… coisa de destino, sei lá!

O certo é que o dono do inferninho, que cobrava até mensalidade e fornecia carteira de sócio do clube, era o tal de Carlinhos “Black”. Segundo rezava a lenda, o homem era o verdadeiro ‘bandidão’ do bairro e quando cismava com um, céus, sai de baixo!

Mas o fato é que o Carlinhos foi com minha cara e me tratava com muita cortesia e ‘distinção’, como se dizia naquela época. Eu nunca soube dizer se era por causa do meu nome, que também é Carlos, ou porque algum ‘espírito’ soprou no ouvido dele para me tratar bem… vai saber?! Até hoje eu guardo essa dúvida e continuo sem entender.

No entanto, existiam no bairro dois irmãos árabes que eram considerados os mais fortes brigões de toda a turma. Nitroglicerina pura! E um deles, o mais velho, tornou-se ‘empreendedor’ e contratava as melhores orquestras do Rio de Janeiro para tocar em grandes clubes da zona norte. Orfeão Portugal, Casa das Beiras, América, Clube Municipal e muitos outros lugares foram palcos dos melhores bailes dançantes dos anos 60 e 70. Bastava anunciar o baile com Ed Lincoln ou Orquestra Lafayette, The Fevers, Cry Baby’s e, também, Os incríveis, Renato & Seus Blue Caps ou Orquestra Tabajara. Esses grupos garantiam casa cheia e muito lucro.

Até que um dia aconteceu o esperado embate. E ocorreu no clube Casa dos Poveiros, lá na rua do Bispo, na Tijuca. O baile já rolava há algum tempo, sob os auspícios da fabulosa banda Renato & Seus Blue Caps. Lá pelo meio da madrugada, bastou alguém olhar para o outro de modo enviesado e pimba: começou a pancadaria. Inicialmente eram três ou quatro rapazes envolvidos. Mas a coisa foi tomando proporções fora do controle dos seguranças do clube. Passados poucos minutos, o clube inteiro estava em polvorosa: gritos, vidros quebrando, cadeiras voando feito passarinho, enfim, um verdadeiro caos!

E como eu era magrelo, procurei um canto para me proteger e aguardar a oportunidade de sair dali. Qual o quê! Nem mesmo a tropa de choque da polícia militar conseguia pôr ordem no clube. Foi quando eu avistei o Carlinhos ‘Black’ imobilizado por quatro soldados. Sem saber o que fazer, aproximei-me com indecisão e medo. Aí, o Carlinhos virou-se para os guardas e falou: “eu sou motorista do Carlos, aquele rapaz ali”, apontando para mim. Os guardas olharam para mim, aguardando uma confirmação. Mesmo com medo, eu confirmei a versão de Carlinhos Black e os soldados, então, o soltaram.

Daí, ele me pegou pelo braço e me conduziu pela grande escada que dava acesso ao hall de saída. Descemos rapidamente a rua Haddock Lobo em direção ao Estácio sem trocarmos uma só palavra. Só ao chegarmos na ladeira da Zamenhoff, a minha rua, foi que ele parou e me disse: “Agora, você é um dos meus. Nunca mais precisará pagar mensalidade no nosso clube. Virou sócio benemérito!”

Na época, confesso, eu apenas sorri para o Carlinhos ‘Black’. Talvez um pouco encabulado, principalmente, por não saber o que era ‘benemérito’…

Crônica: Ópios de emergência

Alexandre, meu querido amigo, eu devo lhe pedir desculpas. É que falhei algumas vezes e você sabe disso. Não que eu não possa falhar, meu parceiro. Mas é que falhei por desejar mudar de faixa, por não querer continuar falando apenas de cinema e jazz, sabe como é? No entanto, eu sei que isso é algo difícil. Mesmo assim, confesso: eu desejei romper com o passado, apresentar novas faces, procurar novos caminhos, enfim, encontrar a satisfação interior!
Mas hoje, não, Alexandre. Hoje eu acordei modificado, entende?!. Talvez, por isso, eu necessite esquecer que fui professor de química durante boa parte da vida. Só que eu extraviei os meus ‘carbonos’… Pus todos eles de lado. Para sempre… Sem remorsos!
Ainda assim, hoje, eu necessito urgentemente de ópios de emergência. Porquanto eu me lembrei de que há 51 anos atrás morreu “John William Coltrane”. Sim, meu amigo… Foi em 17 de julho de 1967. Nesse dia, que já vai distante, eu estava bem perto de completar 16 anos de idade e era um adolescente ainda em flor, sem conhecer as maldades do mundo. E mais do que isso: sem conhecer a beleza da arte de Coltrane. Se eu a conhecesse, ah! Alexandre, por certo teria aliviado um sem número de dores, não acha? Afinal, ninguém tocará “Someday My Prince Will Come” como ele e Miles Davis alcançaram aquelas notas… E até mesmo o poeta Thomas Guthrie escreveu: “Who will lead the way towards truth? I turn around and see… nobody”.
Pois é, Alexandre, Thomas Guthrie não foi o único a se render ao talento de Coltrane. Muitos outros beberam nessa fonte e se deliciaram. Por isso, então, eu lhe proponho um brinde ao nosso mestre Coltrane. E para completar a cerimônia, meu velho companheiro, eu trago para você os versos de Drummond, retirados do poema “Edifício Esplendor”:
“…O copo de uísque e o blue / destilam ópios de emergência. / Há um retrato na parede, / um espinho no coração / uma fruta sobre o piano / e um vento marítimo com cheiro / de peixe, tristeza, viagens… / Era bom amar, desamar, / morder, uivar, desesperar / era bom mentir e sofrer / Que importa a chuva no mar? / a chuva no mundo? o fogo? / Os pés andando, que importa? / Os móveis riam, vinha a noite, / o mundo murchava e brotava / a cada espiral de abraço…”

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( Mural feito por Emel Martinez, na Filadélfia – USA )

JAZZ: O jazz nosso de cada dia…

Boa parte das raízes do jazz surgiu na religião. Talvez por ser uma música reveladora da alma. Ou, quem sabe, por ter nascido na aspereza da dor?! O certo é que o jazz sempre andou de braços dados com a espiritualidade e, por isso mesmo, ele cativa e acalenta nossas esperanças. E esperança, meus amigos, é algo ‘mágico’. Algo que somente as criaturas dotadas de imaginação e sensibilidade são capazes de perpetuar. Então, sorte a nossa termos recebido esse fabuloso legado. Assim, podemos dar sentido àquilo que acreditamos e, em última análise, às nossas vidas!

Muitas pessoas consideram o “blues” uma espécie de música triste, marcada pela sofreguidão. É bem possível que seja. Afinal, os autores dos memoráveis “blues” viveram ‘tempos difíceis’ em suas vidas. O cego Lemon Jefferson, por exemplo, foi um típico representante dos primitivos cantores de blues, que ‘erravam’ pelo Sul dos EUA na primeira metade do século passado. Filho de lavrador, nascido no Texas, em 1897, Lemon aprendeu desde cedo que a música era a única esperança capaz de fazê-lo escapar da amarga pobreza e conformar-se com a cegueira. Por isso, aprendeu sozinho a tocar guitarra e cantar nas ruas de Dallas para ganhar alguns poucos “cents”. Uma dura realidade, isso sim! Muitos outros exemplos, como esse, poderiam ser lembrados. Provariam apenas que o jazz, assim como a religião, só adquire ‘significado’ se consegue libertar almas. Portanto, bendito seja o jazz. Bendita seja a esperança. Benditas sejam todas as libertações!

Memórias: a fértil imaginação de John Lennon.

Dizem que a ‘gratidão’ é um dos sentimentos mais evoluídos que um ser humano pode apresentar. Sim! É bem provável. E se isso for verdade, meus amigos, eu torço apenas para que os ‘espíritos hospedeiros’ tenham esta compreensão quando chegar a minha hora… Por enquanto, creio eu, ainda há muito o que fazer por aqui. Muitos projetos de vida. Muitas descobertas e muito o que aprender… isso sim!

Asseguram também que não devemos criar expectativas a cerca do que está para vir. Tudo bem, posso até compreender tal sugestão. Mas, convenhamos: nós somos humanos. Por conseguinte, ‘fantasiar’ e ‘projetar’ são verbos nitidamente emocionais e não há ‘freio’ que os segure, não é verdade?

Quando eu era menino e alguém abordava o tema ‘futuro’, confesso, bastava o som dessa palavra para me mobilizar, como uma espécie de ‘senha’ para dar início aos devaneios. Não sei quanto a vocês, mas eu era o primeiro a ‘viajar na maionese’. Porquanto a minha imaginação sempre foi fértil. Daí, eu desandava a sonhar com um mundo especial, harmônico e humanizado, em que as pessoas realmente se importassem com os outros.

O que sei dizer é que uns poucos anos depois, minha gente, um talentoso homem de fértil imaginação nos presenteou com uma pérola, intitulada “Imagine”. Foi em 1971 que John Lennon entoou os maravilhosos versos: “Você pode dizer que eu sou um sonhador /  Mas eu não sou o único  /  Eu espero que um dia você se junte a nós  /  E o mundo viverá como um!”

Abençoado seja!

https://www.youtube.com/watch?v=YkgkThdzX-8

 

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DISCO e FILME: “Sweet and Lowdown”, de Woody Allen.

NO  DIVà DE  WOODY  ALLEN

O meu primeiro contato com ele foi em 1967. De lá para cá, confesso: nunca mais pude me separar de suas histórias, sejam elas hilárias ou dramáticas. O que sei dizer é que Woody Allen responde, de certo modo, pelo “inconsciente coletivo” da galera. Sim, meus amigos, ele é o cara! Pelo menos é o cara que aceitou encarnar os mais variados papéis do “desajeitado”, incapaz de lidar com os mais simples afazeres cotidianos, pois estará sempre questionando a todos e, principalmente, a si próprio. Por isso mesmo, ficou consagrado como o “neurótico de carteirinha”. Afinal, após uma sequência de filmes maravilhosos, alguns até geniais, Woody Allen se tornou o nosso anti-herói preferido. Decerto, ele é o meu!

Este CD traz a trilha sonora original do impecável filme produzido em 1999, intitulado “Sweet and Lowdown” e que aqui no Brasil foi convertido (argh!) para ‘Poucas e boas’. Aliás, o título original do filme é baseado na canção “Sweet and Low-Down”, do genial compositor George Gershwin. E curiosamente, vejam vocês, esta música esteve presente em outro filme de Woody Allen: uma das obras-primas dele, “Manhattan”, de 1979.
Quanto ao disco, são 15 excelentes canções, escolhidas a dedo, para homenagear os “mestres do jazz”. Tanto é verdade que no filme ‘Poucas e boas’ o personagem de Sean Penn (Emmet Ray) toca um violão Selmer Maccaferri, modelo 1932. Por sinal, é o mesmo tipo de instrumento que o lendário Django Reinhardt costumava usar. Daí porque o enredo do filme gira em torno dessa bela homenagem ao músico belga. Coisa linda!
Portanto, minha gente, são duas dicas que estou sugerindo: o filme e o CD. E tenho certeza de que tanto um quanto o outro serão capazes de emocionar e promover um verdadeiro deleite. Então, mãos à obra!

 
https://www.youtube.com/watch?v=hhQGTOnzMWs&list=PL21E4C7162DFE0C23
https://www.youtube.com/watch?v=oMFx7rn7PhQ

 

sweet and lowdown

Disco: “Copacabana”, com Sarah Vaughan e Hélio Delmiro.

Outro dia eu estava fazendo uma caminhada pela orla da Lagoa da Conceição e no retorno para casa, parei para beber água de coco. Foi quando ouvi um lindo som de guitarra. Logo a seguir, surgiu uma voz manhosa e “enfeitiçada”. Era Sarah Vaughan, acompanhada por Hélio Delmiro. Ah, minha gente, aqueles dois conseguiram recuperar todo o fôlego que eu havia perdido na longa caminhada, isso sim! A milagrosa faixa era, na verdade, a famosíssima “Dindi”. Meu Deus, que coisa linda! Até parece que Helinho e “Sassy” foram criados juntos, tal a intimidade alcançada.

Pois muito bem: movido por um forte impulso, eu fui para casa disposto a escutar o CD “Copacabana”. Deitei-me no sofá, fechei os olhos e comecei a escutar o álbum. Quando chegou a vez de “Bonita”, argh, tocou o telefone. Caracas, podia ser até o governador me convidando para ser o futuro secretário de cultura, mas nem quis saber… Despluguei o telefone e desabei novamente no sofá. Não demorou muito e me pus a sonhar, sonhar e sonhar com aquelas melodias…

Sei apenas que após algum tempo aquela mão feminina insistia em me cutucar. E eu, com um largo sorriso estampado na cara, imaginando mil coisas, demorei a abrir os olhos. Quando abri, vejam vocês: era a faxineira querendo passar o aspirador na sala.

Céus… Pode isso, meus amigos?!

https://www.youtube.com/watch?v=kgHS91JvWg0

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Jazz: “Quando a vida imita a arte!”

Esta semana, ah, que delícia, eu revi o belíssimo filme de Bertrand Tavernier, intitulado de “Por volta da meia-noite”. O filme narra a história de ‘Dale Turner’, um saxofonista maravilhoso que luta contra o alcoolismo, algo bastante comum na década de 1950. Por conta dessa difícil peleja, Dale deixa a perigosa Nova York e se muda para Paris em busca de reconhecimento, afeto e, com sorte, a cura da doença que tanto o maltrata…

Na glamorosa Paris de 1959, o nosso querido Dale Turner encontra um público ávido pelo bom jazz. E encontra, também, um fervoroso admirador da sua obra que resolve ajudá-lo no combate ao alcoolismo. O final dessa bela história pode ser vista assistindo ao filme, que recebeu o Oscar de melhor trilha sonora, assinada por Herbie Hancock. Além disso, tivemos a reveladora participação de Dexter Gordon e outros grandes músicos de jazz como ‘intérpretes’ da memorável música norte-americana.

O mais interessante é que somente depois que ele participou do cultuado filme é que os amantes do jazz acordaram para o talento de Dexter Gordon. E, para surpresa geral, ele se saiu muito bem como ator. Ainda assim, eta músico de primeira, minha gente! Dexter toca um sax tão puro que é capaz de emocionar até os anjos… Lá, isso sim!

Após rever o filme, eu fui ouvir os CDs de Dexter Gordon. No disco “Ballads”, por exemplo, Dexter põe para fora todos os anjos… Prontos para serem acolhidos. ”I´m fool to want you” quase me fez cair da poltrona. Uma maravilha! Ele consegue mesclar a intimidade de Ben Webster com a elegância de Coltrane. Resultado: Dexter Gordon!

Para finalizar, eu tenho que confessar algo a vocês: este disco sempre foi a minha ‘arma secreta’ contra a ‘resistência’ de algumas namoradas. Eu explico. A fórmula era quase infalível: bastavam vinte minutos desse sax intimista, um bom vinho “Bordeaux” e por último, sim, as ‘sinceras’ juras de amor. Daí, então, podem acreditar: a noite se tornava longa, macia e perfumada… Huummm… Coisa mais linda desse mundo!

 

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