ESSE TAL DO ‘ROCK AND ROLL’

Eu ainda nem tinha completado quinze anos quando comecei a frequentar os ‘bailes’ da turma do Estácio. É bem verdade que a minha estreia ocorreu lá no ‘suspeitíssimo 199’, da Rua Senhor do Matozinho, perto da Salvador de Sá. Aliás, devo reconhecer, aquela região era bem ‘barra-pesada’ no final dos anos 60. E nem saberia explicar porque eu fui parar ali. Isso porque, minha gente, o que eles chamavam de ‘clube’ mais parecia um desses inferninhos de filmes de gangsteres, onde o ‘leão de chácara’, encarregado pela vigilância, cobra ‘senha’ para permitir a entrada dos malandros. E malandro, cá entre nós, era tudo que eu não era! No fundo, hoje eu acredito nisso, foi por pouco que eu escapei de virar bandido… quem sabe tenha sido coisa do destino, sei lá?!
O certo é que o dono do inferninho, que cobrava até mensalidade e fornecia carteira de ‘sócio’ do clube, era o tal de Carlinhos “Black”. Segundo rezava a lenda, o homem era o verdadeiro ‘bandidão’ do bairro e quando cismava com um, céus, sai de baixo!
Mas o fato é que o Carlinhos foi com minha cara e me tratava com muita cortesia e ‘distinção’, como se dizia naquela época. Eu nunca soube dizer se era por causa do meu nome, que também é Carlos, ou porque algum ‘espírito’ soprou no ouvido dele para me tratar bem… vai saber?! Até hoje eu guardo essa dúvida e continuo sem entender.
No entanto, existiam no bairro dois irmãos árabes que eram considerados os mais fortes brigões de toda a turma. Nitroglicerina pura! E um deles, o mais velho, tornou-se ‘empreendedor’ e contratava as melhores orquestras do Rio de Janeiro para tocar em grandes clubes da zona norte. Orfeão Portugal, Casa das Beiras, América, Clube Municipal e muitos outros lugares foram palcos dos melhores bailes dançantes dos anos 60 e 70. Bastava anunciar o baile com Ed Lincoln ou Orquestra Lafayette, The Fevers, Cry Baby’s e, também, Os incríveis, Renato & Seus Blue Caps ou Orquestra Tabajara. Esses grupos garantiam casa cheia e muito lucro.
Até que um dia aconteceu o esperado embate. E ocorreu no clube Casa dos Poveiros, lá na rua do Bispo, na Tijuca. O baile já rolava há algum tempo, sob os auspícios da fabulosa banda Renato & Seus Blue Caps. Lá pelo meio da madrugada, bastou alguém olhar para o outro de modo enviesado e pimba: começou a pancadaria. Inicialmente eram três ou quatro rapazes envolvidos. Mas a coisa foi tomando proporções fora do controle dos seguranças do clube. Passados poucos minutos, o clube inteiro estava em polvorosa: gritos, vidros quebrando, cadeiras voando feito passarinho, enfim, um verdadeiro caos!
E como eu era magrelo, procurei um canto para me proteger e aguardar a oportunidade de sair dali. Qual o quê! Nem mesmo a tropa de choque da polícia militar conseguia pôr ordem no clube. Foi quando eu avistei o Carlinhos ‘Black’ imobilizado por quatro soldados. Sem saber o que fazer, aproximei-me com indecisão e medo. Aí, o Carlinhos virou-se para os guardas e falou: “eu sou motorista do Carlos, aquele rapaz ali”, apontando para mim. Os guardas olharam para mim, aguardando uma confirmação. Mesmo com medo, eu confirmei a versão de Carlinhos Black e os soldados, então, o soltaram.
Ele me pegou pelo braço e me conduziu pela grande escada que dava acesso ao hall de saída. Descemos rapidamente a rua Haddock Lobo em direção ao Estácio sem trocarmos uma só palavra. Ao chegarmos na ladeira da Zamenhoff, a minha rua, ele parou e me disse: “Agora, você é dos meus. Nunca mais precisará pagar mensalidade no nosso clube. Virou sócio benemérito!”
Na época, confesso, eu apenas sorri para o Carlinhos Black. Talvez um pouco encabulado, principalmente, por não saber o que era ‘benemérito’…

Renato e seus Blue Caps

 

Publicado por

Carlos Holbein

Professor de química por formação ou "sina" e escritor por "vocação" ou insistência...