“A DOR DE NEM PODER CHORAR

Já fazia um bom tempo que eu não tinha notícias dele. Talvez, uns dez anos ou mais. De todo modo, certo mesmo é que o tempo das emoções é bem diferente do tempo real. E quando se trata de dor, então, céus, é imensurável. Eu vou explicar.

Roberto foi meu colega na faculdade de química, lá pelos anos 1973 a 1976. Era um sujeito inteligente, que aprendia os princípios da química muito mais rápido que todos nós. E aquilo me impressionava bastante, confesso: a sagacidade que ele tinha no trato das ciências exatas. No entanto, ao contrário disso, nas questões afetivas e emocionais, ah, ele era um zero à esquerda. É que nesse campo, por infortúnio, ele mal conseguia ‘soletrar a vida’. Pode-se dizer que as relações afetivas eram o seu ‘Calcanhar de Aquiles’. Afinal, ele vivia sempre enrolado. Sempre confuso. E em permanente crise. O que eu sei é que as suas escolhas eram equivocadas, impulsionadas por ímpetos autodestrutivos. Uma verdadeira lástima, meus amigos…

A vida, então, seguiu o rumo que pode e apresentou para cada um de nós alguns desafios. Para a maioria das pessoas, por certo, isso é normal e não constituía problema maior. Ainda que algumas vezes tropeçássemos aqui ou acolá. O fato é que logo a seguir percebíamos as dificuldades e aprendemos a dar as respostas adequadas. Pudera! Essa foi a grande peleja que travamos com a vida. Apesar das dificuldades, tudo indica que a gente aprendeu a decifrar os enigmas. E isso foi reconfortante. Encorajador!

Contudo, para um pequeno grupo de criaturas, meu Deus do Céu, essas questões se transformam em processos penosos. Foi o que eu percebi hoje, ao me encontrar casualmente com o Roberto. Aliás, no primeiro momento, nós festejamos o encontro. Perguntamos sobre a vida do outro, essas coisas que o destino apronta. Foi quando eu ouvi o angustiante relato dele. Falou-me com tristeza dos incontáveis ‘desencontros’ que teve na vida. O casamento e a separação. O emprego e a crise financeira. Os filhos e as doenças que nunca lhe deram trégua. Por algum motivo escondido nas minhas emoções, ah, eu me lembrei da melodia de Raimundo Sodré, “A Massa”:

“A dor da gente é dor de menino acanhado /
Menino-bezerro pisado no curral do mundo a penar /
Que salta aos olhos igual a um gemido calado /
A sombra do mal-assombrado é a dor de nem poder chorar.”

Sim! o mais difícil é perceber que a vida tem lá as suas manhas e seu jeito de encaixar. E se a gente demora a empreender isso, caramba… é uma encrenca só. O diabo é que a vida não fornece ‘salvo-conduto’ a ninguém. Ou a gente pega no ‘tranco’ ou, então, vai pagar o pedágio por muito tempo a fora. Paciência. Quem sabe não seja essa a mais difícil ‘seleção natural’?

Se for verdade, vixe, o jeito é aprender rapidinho o ‘dever de casa’. Para que o imposto cobrado não sangre demais as emoções da gente. Na dúvida, é bom lembrar os versos sofridos de Raimundo Sodré:

“A dor da gente é dor de menino acanhado /
Menino-bezerro pisado no curral do mundo a penar /
Que salta aos olhos igual a um gemido calado /
A sombra do mal-assombrado é a dor de nem poder chorar.”

Publicado por

Carlos Holbein

Professor de química por formação ou "sina" e escritor por "vocação" ou insistência...