Memórias: Ênio e o mundo cá fora.

Bem sei que os valores sofrem bruscas transformações. Muitas vezes, eles ficam por conta de certos modismos. Paciência. Outras vezes, no entanto, o que dita o ritmo é apenas o senso de oportunidade. Mas, calma, aí, minha gente… Eu explico.

Ênio era um rapaz especial, dotado de rara inteligência e senso de observação. Em nossas brincadeiras juvenis, lá pelos idos de 1965, Ênio sempre tinha uma solução inusitada, invariavelmente incomum. E algumas vezes, é verdade, isso causava irritação na gente, pois morríamos de inveja de sua criatividade.

Aliás, nesse particular, se pensarmos bem, veremos que o mundo continua o mesmo. Ou seja: alguns poucos “criam” e a grande maioria da galera apenas “copia”. É duro isso, minha gente. Injusto, até. Mas, fazer o quê? A mediocridade sempre será maioria em qualquer peleja que se tenha pela frente…

Lembro bem que um dia nós estávamos querendo abrir um “clubinho” no saguão de entrada do nosso prédio e não conseguíamos adesão suficiente dos proprietários dos apartamentos do edifício. Fazíamos o nosso “piquete” junto aos moradores, no “hall” que dava acesso aos elevadores, mas os resultados eram pífios…

Até que o Ênio chegou e, ao ver o nosso desespero, argumentou: não são os pais que vão definir os rumos da votação, pessoal. São os filhos, nossos colegas! Foi quando ele se sentou na cisterna da garagem e começou a fazer desenhos em várias folhas. Quando terminou, ele pediu que afixássemos as folhas no elevador, no “hall” de entrada, na lixeira e em todos os lugares de grande circulação. Eram desenhos de crianças brincando. Crianças nitidamente com semblantes felizes. Moral da história: no dia marcado para a votação, houve alto comparecimento dos pais e fortíssima adesão à nossa reivindicação…  Ganhamos de lavada, com 78% dos votos favoráveis. Agora, meus amigos, nós tínhamos um espaço só nosso: com mesa de totó, pingue-pongue e futebol de botão. Ênio se tornara o nosso herói!

O mundo, então, girou mais um bocado. E o tempo passou mais ligeiro que os nossos sonhos. Começamos a trilhar outros caminhos mais difíceis e complicados. Para mim, havia ainda um problema a enfrentar: a súbita ausência de Ênio, que resolver nos deixar. Com isso, a minha capacidade de ponderar junto ao mundo sofreu um forte abalo, pois não havia mais os maravilhosos e sensatos “argumentos” de Ênio a me posicionar com maior acerto… Pois é. A gente precisa aprender a crescer, de um jeito ou de outro. E foi Guimarães Rosa que nos disse: “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem…”

( Canelau, aos 11 anos de idade)

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Memórias: as armadilhas da vida!

Eu devo dizer que tenho pensado bastante nesse tema nos últimos tempos. É que, vira e mexe, a gente se depara com situações conflitantes ou delicadas. E se pensarmos bem, meus amigos, podemos perceber que nenhum de nós está livre de tais comportamentos.

Sim! Chega a impressionar o número de vezes que plantamos “minas” pela estrada que trilhamos. Sem nos darmos conta de que haveremos de percorrer aquele mesmo caminho pouco tempo depois. Ou seja: somos potencialmente vítimas de nossas próprias “armadilhas”. Pois é…  paciência! Fazer o quê?!

No entanto, ainda que esse processo seja impiedoso, uma vez que é “autoimune”, devemos reconhecer o “talento” que o homem tem em promover boicotes à sua ascensão e ao seu progresso afetivo ou material. Convenhamos: para muitos de nós, essa tendência parece não ter fim. Porquanto reiteradas vezes praticamos gestos e ações autodestrutivas e nem mesmo a lembrança da última ação repetida é capaz de nos dar a devida “percepção”.

É fácil constatar tais tendências em um número significativo de amigos ou colegas. E, com poucas variações nos processos, o observador atento pode até mesmo “antever” os passos desastrosos que efetuamos sem a devida percepção do momento vivido. Ah, minha gente… Isso dói. Dói muito! E o pior de tudo é que, ironicamente, iremos repetir exaustivamente as equivocadas posturas… Como se fosse irrefreável o desejo de chafurdar na lama!

O que eu posso dizer é que comigo não foi diferente. Como tantas outras criaturas, eu também plantei em mim inúmeras “minas”, sem me dar conta de que elas explodiriam a qualquer momento. Como, de fato, assim ocorreu! Por isso, sofri bastante. Sangrei pra valer. Até que um dia eu aceitei que precisava de ajuda. Céus… Talvez fosse o primeiro sinal de minha possível recuperação. Afinal, em algum lugar dentro de mim havia a crença de que eu podia me “restituir” e valia a pena o “risco”…

Foram necessários sete anos de ajuda terapêutica em busca das minhas extraviadas “verdades”. É uma etapa difícil, sem dúvida, pois além de tudo nós nos deparamos com os hábitos e vícios adquiridos no percurso. Até que se possa tornar-se livre das resistências ao tratamento, muita água há de passar por debaixo dessa ponte. Ou melhor, dessa vida!

Contudo, por certo, não é preciso considerar o processo terapêutico como o “outro lado do arco-íris”. Mas a verdade é que ele possibilita a gente enxergar o mundo real de modo mais confortável às nossas emoções. Com sorte, haveremos de reconhecer as “minas” que estão ao nosso redor e, com isso, aumentar a chance de não repetir os mesmos enganos de outrora…

O resto, creio, fica por conta do destino de cada um. Posso, ao menos, desejar muita sorte, determinação e um universo de possibilidades novas aos amigos que permitirem essa chance…

Que tenhamos dias melhores!

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CD: o suingue arrebatador de “Mighty Sam McClain”.

Henilton Menezes é meu primo, lá do querido e velho Ceará. É gente muita boa ou como dizem por aquelas bandas: um tremendo “cabra da peste”. Desses que se não fossem parentes, nós adotaríamos de qualquer jeito. Lembro-me de que não o conhecia pessoalmente quando recebi uma ligação dele, no Rio de Janeiro. Estava hospedado no antigo Hotel Nacional, palco dos Festivais de Jazz, onde nossa presença era garantida. Dali, então, ele me convidou para um chope, com direito a um gostoso papo sobre o jazz. Pois não é que ele me escreve agora, declarando-se meu leitor. Bem… não foi só por isso, é verdade… De fato, ele escreveu para me “esculhambar”. Com seu inconfundível senso de humor cearense, disse: “Pô, vê se escreve sobre gente nova, seu baitola! Não existe só essa velharia, feito você, no nosso jazz!”

Esquecendo os demais palavrões que disse, que cearense é bicho desbocado mesmo, eu sou obrigado a concordar com ele. Portanto, desculpe-me, Henilton, não foi por querer. Aliás, cá entre nós: estou tão velho assim, com 67 anos? É verdade que as moças nas ruas há tempos me chamam de “tio”. Paciência!

Muito bem, primo. Então, está aí o que você pediu. Só falta você não conhecer o “Mighty Sam McClain”, um negão com uma voz e um suingue de fazer sorrir a galera do velório! “Give it up to love” é o título do disco, gravado em 20 bits, que garante uma qualidade impecável. Agora, se você ouvir “Got to have your love” e não se emocionar, primo, é sinal que o velório acima deveria ser o seu! E já que estamos quites, aproveite e mande queijo de coalho, rapadura e muita tapioca…

 

Memórias: vida e arte de mãos dadas!

Eu acabara de acordar da soneca vespertina, quando ouvi a pergunta de minha esposa:

– Carlos, não quer assistir ao novo filme do Selton Mello?

Eu disse que sim e fui escovar os dentes e passar uma água no rosto amarrotado. Como fazia um friozinho incômodo, antes passei no escritório e peguei uma manta para nos aquecer no sofá.

O filme nem bem começara e logo nas primeiras cenas eu identifiquei que aquele seria um “belo filme”. Pois é, meus amigos: com o tempo a gente aprende a identificar um filme interessante, peculiar. Seja pelo cuidado com a fotografia ou com o impecável texto ou até com as cenas que acontecem sem pressa alguma de contar a história. Sim, tudo aquilo já apontava para um grande filme.

Ao fundo, os personagens iam se apresentando e conduzindo os seus papéis com suavidade e frescor. Ao mesmo tempo, o cantor se esforçava em declarar: “Se você pensa que o meu coração é de papel / Não vá pensado pois não é. / Ele é igualzinho ao seu / E sofre como eu / Porque fazer chorar assim a quem lhe ama?”

“Acho que o tempo não existe… E as pessoas envelhecem quando precisam envelhecer!”, dizia a jovem amiga, talvez sem compreender a extensão desse drama.

O personagem principal, já envolto em suas incontáveis dúvidas, tentava extrair da mãe algum sentido, alguma resposta. “Onde é que ele está, mãe? Por que ele foi embora? Ele tem saudades da gente?”

Contudo, as respostas não vinham. E ele teria que reter as perguntas no coração.

Na parede do quarto, um antigo relógio insistia em permanecer contando um tempo que não fazia mais sentido. “Meu querido pai, essa é uma carta de despedida. Talvez, nunca chegue em suas mãos… Nenhuma ausência é tão cara como a tua. Nas costas da memória, seguirei virando as suas lembranças… E ali, no meu sonho, talvez esteja você. Ali, talvez esteja o meu sonho roubado. Por que foi embora? Por que sem explicações?”

“O tempo passado embaralha o meu tempo presente!”, dizia o jovem rapaz. E logo a seguir, ele mesmo sentenciava: “Eu preciso encontrar o meu tempo futuro…”

Então, é isso, meus amigos… Não posso contar mais nada, pois retiraria dos leitores o prazer de assistir ao filme. E, convenhamos: ele vale a pena ser assistido!

Confesso a vocês que muitos diálogos do filme me bateram fundo e imediatamente me transportaram nas memórias…

É que eu acabei de chegar de uma bela viagem ao Rio de Janeiro, cidade que me acolheu dos cinco aos quarenta e sete anos de idade. Ao rever os lugares por onde andei e por onde vivi experiências marcantes, guardei a impressão de que muitas coisas ficaram perdidas no tempo, em compasso de espera por algo que nem sei dizer. Ficaram ao meu redor, resíduos de lembranças, de sonhos e imaginações. Como se muitas situações estivessem aguardando o meu “toque” para terem, enfim, o destino que lhes cabem.

“Você sempre me disse que as coisas mais importantes do mundo são os olhos e os pés. Os olhos para ver o mundo e os pés para ir ao encontro do mundo!”, reafirmou o personagem, em meio ao turbilhão de dúvidas e esperanças que vivia.

“E é isso que farei, meu pai. É hora de encontrar o mundo!”, reconheceu o personagem, sentindo-se vitoriosamente desimpedido.

O que sei dizer é que terminado o filme, minha gente, eu chorei bastante. Primeiro pela belíssima história, contada com profunda sensibilidade. Depois, porque me dei conta de que essa história, de algum modo, também me pertencia. A única diferença, talvez, é que eu não disse tudo isso ao meu pai.

Portanto, faço agora, após ter completado os meus 67 anos: “Pai, saiba que eu ainda estou pelejando… Com sorte, quem sabe, eu possa ainda lhe dizer um dia: finalmente, eu encontrei os meus caminhos. Obrigado por tudo!”

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Disco: CD “Swing  brasileiro”, com Jorginho do Trompete.

Eu mal acabara de estacionar o carro e ainda estava na entrada do bar. Foi quando o amigo Cássio Moura, guitarrista de primeira grandeza, sem perder tempo, foi logo me avisando: “Carlos, preste toda a atenção no “pretinho” do trompete. Amanhã, lá no shopping, você me dirá o que achou. Certo?!” Eu respondi sim, enquanto procurava um bom lugar para me sentar e apreciar mais uma “jam session” do Quarteto. Ao microfone, Cássio anunciava o convidado especial daquela noite: Jorginho do Trompete!

No entanto, no que me diz respeito, o anúncio fora equivocado, uma vez que pelo corpo abastado do trompetista, ele estava mais para “Jorjão” ou coisa assim. Quanto ao sorriso largo, céus!, eu até pensei que era filho de Louis Armstrong ou ele “reencarnado”! Na dúvida, convenhamos, o melhor a fazer era pedir ao garçom para trazer o balde com cervejas. Muitas. E o mais rápido possível, já que a noite prometia!

Então, o tal do Jorginho, que eu desconfio que é filho do Louis Armstrong, começou a soltar o verbo. Ou melhor: soltar o som! Sempre sonoro, melodioso. Até que chegou a vez de “Conceição da Barra”. Meu Deus, que belíssima composição. Puro lirismo, isso sim, arremessado do trompete daquele “pretinho”. E ele, virtuoso e compenetrado, passeava pelo salão do bar cumprimentando cada espectador com um par de olhos arregalados. Aí, sem nenhuma cerimônia, eu acabei abraçando o músico e beijando sua enorme bochecha. Afinal de contas, as cervejas já circulavam na corrente das emoções…

Do outro lado do bar, Cássio me observava e, também com o olhar exultante, confirmava a sua sentença: “eu não disse que o “pretinho” era danado de bom?!”

https://www.youtube.com/watch?v=Hp5K6-bnoyc

Jorginho do Trompete

Disco: CD – “Friends for Schuur”, com Diane Shuur.

Tudo bem. É provável que eu vá cometer mais uma “sandice”. Mas, deixe-me explicar, antes que algum “fiscal” de plantão decrete a minha penitência. A verdade é que não gosto do estilo da “Diane Shuur”. Sinceramente, acho que ela “grita” demais. E anotem aí: eu disse que não gosto do estilo dela e não da voz, que possui muitos recursos. Então, para preservar a minha integridade física (a gente nunca sabe do que é capaz um fã ardoroso!), eu também declaro que considero “razoável” a escolha do repertório. De fato, o que se percebe é que são raras as canções bem interpretadas, isso sim. E eu já procurei um bocado, minha gente!

“Ô, Carlos, então, por que escolheu esse disco?!”, perguntarão os leitores. Céus! Queiram me desculpar, mas é que esse é o “meu ofício” aqui neste “espaço”, certo? Se quiserem posso justificar de outro modo mais contundente: paguei mais de quarenta reais por esse CD – “Friends for Schuur” – na esperança de ser “surpreendido”. Tá bom assim para vocês?!

Além do mais, a turma que integrou o disco é de primeira grandeza. Afinal, temos Dave Grusin, Stan Getz, Ray Charles e Herbie Hancock, entre outros. No entanto, foi um desperdício de talentos! Apesar de todo o esforço, não conseguiram evitar o “naufrágio” do disco… um verdadeiro Titanic fonográfico!

https://www.youtube.com/watch?v=RsOybkKT61U

Diane Shuur

Jazz: o saxofone e o jazz.

É interessante perceber algumas mudanças na história do jazz. Vejam só o exemplo do saxofone. Hoje, ele talvez seja o instrumento mais representativo e mais associado ao jazz, não é verdade? Mas, curiosamente, nem sempre foi assim. Na realidade, o saxofone foi introduzido de forma muito lenta na música norte-americana. Muito embora ele exista desde a metade do século 19, até meados da década de 20 do século passado o sax era considerado um instrumento impróprio para o jazz. Para se ter uma ideia dessas dificuldades, até 1923, Coleman Hawkins era o único saxofonista-tenor que tocava jazz, ano em que gravou com Fletcher Henderson (um dos responsáveis pelo surgimento do “swing” e das primeiras bandas). Até então, o saxofone era bastante comum somente nas “charangas” (pequenos grupos ou orquestras não muito “afinadas”). Todavia, ele era malvisto pelos músicos de jazz… Com o passar do tempo, o sax “reivindicou seu espaço” e passou a ocupar um lugar de destaque. E assim, fabulosos músicos abraçaram esse instrumento e extraíram dele um som fenomenal. Ufa… sorte a nossa!

( Fotos:  John Coltrane,  Coleman Hawkins  e  Charlie Parker )

Disco: CD “Woman”, com Diana Krall, Shirley Horn, Helen Merril, Anita O’Day, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Abbey Lincoln, Carmen MacRae e muitas mais.

“Coletânea”, meus amigos, é a mais bem inventada “armadilha” da indústria fonográfica. Isto porque, via de regra, os produtores recorrem a esse expediente para surpreender os incautos, “empurrando” assim produtos de discutida qualidade. Sim! Isso parece ser a mais pura verdade. No entanto, convenhamos, vez por outra o tiro também sai pela culatra. É bem o caso deste disco, “Women”. Meu Deus do Céu, que maravilha de álbum! Por isso, então, benditas sejam as mulheres. Porquanto somente elas conseguiriam essa proeza!
O que eu sei é que para calar a boca de alguns “machistas” renitentes, vejam vocês, a produtora colocou em campo um time de primeira: Diana Krall, Shirley Horn, Helen Merril, Anita O’Day, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Abbey Lincoln, Carmen MacRae e muitas mais. Por ser um álbum duplo, o disco nos possibilita ouvir diversas vocalistas, com diferentes estilos e personalidades. O resultado foi excelente, porquanto o disco ficou harmonioso e, o que melhor, variado. Como resultado, o álbum tem “crooner” pra todo gosto, minha gente. O importante é que eu me deliciei um bocado ouvindo Abbey Lincoln interpretar a sentida canção “Brother, can you spare a dime?” Tive até vontade de levantar um empréstimo e oferecer “algum”… Sabe como é: eu sempre tive um coração mole mesmo… fazer o quê?!

 

Women

JAZZ:  as primeiras gravações!

As primeiras gravações de discos de jazz foram feitas em 1917. O grupo pioneiro foi a “Original Dixieland Jazz Band”, uma orquestra composta por músicos “brancos”. Ainda que fossem bons músicos, não conseguiam desenvolver o gingado e a atmosfera tão comuns nos grupos negros. Com maior poder de improvisação, os negros só iriam gravar quatro anos depois, em 1921, graças ao talento da orquestra de “Kid Ory”. No entanto, boa parte dessas gravações foi realizada com processos acústicos rudimentares, que tornavam sua reprodução bem precária. Valem muito mais como “documentos” históricos. Um legado que as gerações seguintes abraçaram sempre com o mesmo espírito inovador e criativo. Aliás, o período foi pródigo e diversos músicos se lançaram, alcançando muito sucesso, alguma fama e pouco dinheiro… Eram tempos difíceis, minha gente! Tempos em que não havia “mídia”, empresários, agendas, e os “shows” eram quase sempre gratuitos. Há quem diga que foi o grande momento do jazz. Momento de desenfreada “criação”. Pode ser. Afinal, hoje conhecemos obras-primas que foram interpretadas por King Oliver, Jelly Roll Morton, Bessie Smith e Scott Joplin, entre outros. Uma seleção de primeira!

Se a “América” estava em depressão, atolada até o gargalo nas dificuldades financeiras, os músicos sublimavam tudo e criavam o “Ragtime”. Isto porque a música, como expressão extraordinária de arte, não conhece cifrões, disputas ou autoritarismos. Pelas mãos de talentosos músicos, o jazz – sempre irreverente e audacioso – foi até capaz de “aceitar” a súbita ausência do seu grande combustível: o bom e velho “uísque”…
Mas, pelo amor de Deus, não façam isso novamente!

 

original diexeland jazz band

Disco: CD “That old feeling”, com Cleo Laine.

Ainda que eu esteja encabulado, devo confessar uma fraqueza a vocês: não posso ouvir uma mulher com voz “rouca” que as minhas pernas logo, logo amolecem. É impressionante, minha gente! E digo mais: não faz diferença se ela é mocinha ou “balzaquiana”. O importante é o tom da voz… e o jeitinho de falar. E aí? Será que eu estou ficando louco ou, por conta da idade avançada, estou me tornando um daqueles “velhos babões” que não podem ver um “rabo de saia”? Será, minha gente?!
O que sei dizer é que fico todo retorcido na poltrona quando escuto a voz de Cleo Laine. Ah, é uma delícia para os meus ouvidos sonhadores! Basta tocar a primeira faixa, que recebe o mesmo título do CD – “That old feeling” – e o mundo fica completamente azul. Coisa linda! Mas, para acabar de vez com essa minha dúvida, fiz um teste definitivo. Liguei para o meu amigo Celso Coelho, especialista em cantoras de jazz e perguntei: “ô, Celso, qual foi a primeira coisa que lhe chamou a atenção quando conheceu a sua esposa?” E ele, de bate pronto, juramentou: “amigo Carlos, sem sombra de dúvida, foi a voz da “fofinha”. Ah! Uma delícia!”
Ufa, que bom ter escutado isso. Afinal, eu já estava me considerando “tarado” ou coisa assim. Só falta agora você, amigo leitor, fazer o julgamento. Mas, por favor, primeiro ouça o disco e somente depois me escreva para dar o veredicto. Combinado?!

https://www.youtube.com/watch?v=bnM5ulD9OPs

https://www.youtube.com/watch?v=9R_ueNpnrRE

Cleo Laine