Memórias: ANO  NOVO…  E VELHAS QUESTÕES.

Segundo o dicionário Houaiss,déjà-vu’ é “uma forma de ilusão da memória que leva o indivíduo a crer já ter visto (e, por extensão, já ter vivido) alguma coisa ou situação de fato desconhecida ou nova para si”. Pois é. Isso é algo tão comum, tão corriqueiro que parece que cada um de nós já se deparou com tais sensações, não é verdade?

Para a Wikipédia, déjà-vu” é “um galicismo que descreve a reação psicológica da transmissão de ideias de que já se esteve naquele lugar antes, já se viu aquelas pessoas, ou outro elemento externo. O termo é uma expressão da língua francesa que significa: ‘eu já vi’”.

Desse modo, clareados os conceitos e aspectos envolvidos, vamos ao que interessa. De fato, minha gente, assim como tantas outras criaturas, eu também atravessei esse rio de ‘fantasias’ e percepções recorrentes. É que ao ter vivido algumas paixões ao longo da vida, a gente desenvolve uma estranha ‘tendência’ de achar que já viu isso acontecer em outras relações. Pior ainda é quando a gente se ‘convence’ dessa suposta verdade e acaba criando teses e mais teses sobre as questões do amor. Ledo engano, meus amigos!

Na verdade, cada relação afetiva é individual e própria, não comportando ‘regras ou tutoriais’ sobre a experiência vivida. Simplesmente, cada uma é uma. Ou foi… como queiram! E sendo únicas, não se repetem igualmente. Quando muito, apresentam algumas semelhanças. Isto porque, é sabido que a raça humana apresenta inúmeros comportamentos e infindáveis variações. Aliás, é melhor que seja assim, uma vez que isso nos permite experimentar ‘surpresas’ e ‘encantamentos’. Pois, no mínimo, isso nos torna mais interessantes…

Contudo, também é verdade que temos o forte hábito de ver a história da humanidade narrada sob forma de ‘ciclos’. Como se não houvesse outra ‘visão de mundo’ capaz de observar outros ângulos. É um tal de ciclo de ‘pensamentos’, ciclo de ‘modas’, ciclo de ‘poder’ e por aí afora. De certo modo, tal comportamento se deve a nossa tendência de ‘sistematizar’ tudo que há no mundo… Muitas vezes isso dá certo, vá lá! Porém, em outras situações não cabe ou, quando muito, cabe apenas de modo parcial. Isso sim!

E se o objeto da ‘observação crítica’ é algo dotado de sentimentos ou emoções, xi! a coisa então se complica. Sim, minha gente! À medida que somos portadores de fortes contradições e teimosias, ao generalizarmos comportamentos, nós corremos o risco de nos tornarmos imprecisos. Superficiais e precipitados. Até mesmo, incoerentes. Afinal, o repertório de ‘idiossincrasias’ presentes na raça humana parece não ter fim. E em nome delas, muitas vezes varremos o ‘lixo’ para debaixo do tapete…

Portanto, o melhor a fazer é tratar estas questões com acuidade e atenção. Evitando, se possível, incorrer nos modelos e estereótipos já ‘consagrados’ nos divãs e terapias. Afinal, sabemos que eles estão por aí, sedentos. Esparramados nos quatro cantos do planeta, apenas aguardando os ‘incautos espíritos desarmados’…

Meus Deus do Céu, juro que “eu já vi”!

 

museu do amanhã

Memórias: CELEBRANDO CHICO BUARQUE – PARTE 1 / 3 (REPUBLICADO)

Verdade é que eu ainda me encontro sob a forte influência do show de Antônio Zambujo. Meu Deus do Céu, que coisa linda foi aquilo!

Por conta disso, resolvi revisitar a obra do mestre Chico para matar as saudades. O que sei é que em outro país, meus amigos, Chico Buarque já teria estátuas em todas as praças, tal a importância que tem para a literatura e para o cancioneiro nacional. Ao lado de Tom Jobim, Caetano Veloso e outros mais, Chico Buarque ocupa lugar de destaque nessa galeria que nos enche de orgulho…

“Pra mim, basta um dia / Não mais que um dia /… E eu faço desatar / A minha fantasia”.
Sim, sei disso, meu caro Chico. E sei também que “quando nasci veio um anjo safado / o chato dum querubim / e decretou que eu tava predestinado / a ser errado assim. / Já de saída a minha estrada entortou / mas vou até o fim!”

É certo que a vida da gente tem muitos caminhos. Por isso, “arrisquei muita braçada / na esperança de outro mar / hoje sou carta marcada / hoje sou jogo de azar…”
E pouco importa o juízo que fazem de mim… pois, afinal, quem sabe de mim sou eu. E “ninguém, ninguém vai me segurar / ninguém há de me fechar / as portas do coração / …Eu não / Eu não vou desesperar / Eu não vou renunciar… / Enquanto eu puder cantar / Enquanto eu puder sorrir…”

Aliás, se pensarmos bem, veremos que há tanta gente que passa por nossas vidas sem que a gente conheça a sua história e o que trazem no peito… “Uns vendem fumo / tem uns que viram Jesus! / Muito sanfoneiro, cego tocando “blues” / Uns têm saudade e dançam maracatus… / Mas, há milhões desses seres / que se disfarçam tão bem / que ninguém pergunta / de onde essa gente vem?!”

Há quem assegure que o melhor aliado do homem é a memória. Porquanto é o único patrimônio verdadeiramente intransferível. E se isso for verdade, eu lhe direi: “Não se afobe não / que nada é pra já / o amor não tem pressa / ele pode esperar / em silêncio / Num fundo de armário / na posta-restante / Milênios, milênios no ar…”

Entretanto, e se essa memória for apenas um sonho? “Um sonho em que eu era o rei / era o bedel e era também juiz / E pela minha lei / a gente era obrigado a ser feliz / E você era a princesa que eu fiz coroar / e era tão linda de se admirar / que andava nua pelo meu país…”
Sei apenas que “hoje eu acordei com saudades de você”, meu querido João Pedro!

 

Memórias: Celebrando Chico Buarque – Parte 2 / 3 (REPUBLICADO)

Sem nenhum constrangimento, eu devo confessar: ainda que eu seja um ‘errante’ e que a vida me diga que “na bagunça do teu coração / meu sangue errou de veia e se perdeu…”, ainda assim, continuarei acreditando que o afeto mora ao lado. Sim! Por mais que a realidade seja uma incômoda conselheira, por certo, algumas vezes é preciso ousar. Até porque, eu reconheço que em diversas vezes agi como na canção: “dei pra sonhar / fiz tantos desvarios / rompi com o mundo / queimei meus navios / me diz pra onde que inda posso ir…”

E se alguém me perguntar: Carlos, onde está a saída? Eu responderei: não sei! O que sei é que “nessas tortuosas trilhas / a viola me redime / Creia, ilustre cavalheiro: contra fel / moléstia, crime / use Dorival Caymmi / Vá de Jackson do Pandeiro”. Saibam que eu já “vi cidades, vi dinheiro / bandoleiros / vi hospícios! / Moças feito passarinho / avoando de edifícios…”

O mais importante, meus amigos, é que estamos aqui, nesta festa, celebrando este momento. E que cada um de vocês possa também dizer: “Foi bonita a festa, pá / Fiquei contente / e ainda guardo, renitente / um velho cravo para mim / Já murcharam a tua festa, pá / Mas, certamente, esqueceram uma semente / Nalgum canto do jardim! / Sei que há léguas a nos separar / tanto mar, tanto mar / Sei também quanto é preciso, pá / navegar, navegar…”

O fato é que a vida da gente não caminha em linha reta. E será que deveria?! Creio que não. Para a nossa sorte, os dias podem ser diferentes e, com isso, teremos mais oportunidades, não acham? Afinal, “tem dias que a gente se sente / como quem partiu ou morreu. / A gente estancou de repente / ou foi então o mundo que cresceu. / A gente que ter voz ativa / no nosso destino mandar / mas eis que chega a roda viva / e carrega o destino pra lá…”

Ah, meu caro Chico, eu te agradeço por toda poesia que nos presenteou. Ela jamais será esquecida, creia-me. Por justiça, nós te devemos essa capacidade de, muitas vezes, dar sentido àquilo que não tem… Aliás, após ‘beber’ na tua fonte, não importa nem mesmo se alguém disser: “diz que eu não sou de respeito. / Diz que não dá jeito / de jeito nenhum / Diz que eu sou subversivo / Um elemento ativo / Feroz e nocivo / ao bem-estar comum…”

 

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Jazz: OS PRIMEIROS ‘BLUES’

Pode-se dizer que os primeiros “blues” apresentavam um estilo rude e estridente, quase desagradável de se ouvir, porquanto se assemelhavam muito aos ‘gritos’ do tempo da escravidão. Eram melodias construídas em compassos de doze notas, estabelecendo um padrão, e contavam as aventuras e os infortúnios dos que perambulavam pelo Sul dos Estados Unidos. Os homens foram os primeiros a cantar blues. Com guitarras penduradas nos ombros, primitivos cantores utilizavam a matéria-prima que vinha do reservatório das canções populares afro-americanas. As letras das canções eram tristes e pesarosas e, quase sempre, expressavam forte estoicismo. Mas, até onde se sabe, a origem do “blues” veio da música branca, por conta da influência dos cânticos religiosos…

Quanto às mulheres, elas só começaram a realizar temporadas em teatros e espetáculos de rua no início da década de 1900. No entanto, curiosamente elas alteravam muitas letras e mudavam os temas para os ‘problemas do amor’. Ah, sorte a nossa, isso sim, pois essas almas femininas selaram de vez os destinos do “blues” e nos legaram verdadeiras pérolas. É que ao aliviarem as suas dores com os fortes ‘gritos’, as mulheres renovavam as esperanças. Esperanças de que seus homens voltassem ‘vivos’ após a dura jornada de trabalho. Esperanças de que os carinhos pudessem vir com eles. E, sobretudo, esperanças de que o mundo estendesse a mão caridosa e abençoasse o imenso amor que continham por seus homens…

O que sei dizer, meus amigos, é que de um jeito ou de outro nós temos que agradecer intensamente a essas mulheres. Afinal, cada uma delas nos deixou forte legado: seja por seu amor, seja por seu lindo canto… Coisa linda!

Filme: Bessie Smith – St. Louis Blues (1929)

JAZZ: Grover Washington Junior e o dentista…

“O tratamento será rápido e indolor, Carlos. Fique tranquilo. E de mais a mais, eu tenho aqui um novo disco que você vai adorar!”

Olha, minha gente, só assim eu criei coragem para me deitar naquela cadeira. Confesso a vocês: sou profundamente “covarde” na frente de um dentista. Fazer o quê?! Vai ver que em outras vidas eu “aprontei” alguma. Vai saber…

Verdade é que o Gilmar Moretto, meu dentista, deveria ser psicólogo, pois tem uma tremenda “lábia” e convence qualquer um a aceitar a dor. Só ele!

O resto ficou por conta do sax de ‘Grover Washington Junior’, que lentamente foi me anestesiando. A primeira dose foi em “I’m glad there is you”. Meu Deus, que maravilha de música. Um tremendo sopro: contido e intimista, como convém. E ele segura o clima “noir” até a entrada do belíssimo vocal de Freddy Cole. Por sinal, mais parece uma daquelas canções de baile de debutantes, com a orquestra e o “crooner” seduzindo a galera. Onde a gente dançava de rosto colado e fazia juras de amor à moça. E elas fingiam que acreditavam… Ah, foram bons tempos, aqueles!

Ai, chegou a vez de “Overjoyed”. Céus, até parei de pedir guardanapo, pois já estava “babando” de todo jeito. E eu ali, literalmente de boca aberta. “Arrebatado” por aquela melodia e, já anestesiado, sonhava à vontade! Nos meus sonhos, ah! que delícia, ela me oferecia carícias maravilhosas, dessas que parecem não ter fim…

O que posso dizer, minha gente, é que até hoje não sei qual foi o dente que tratei o canal. O Gilmar jura que foi o último molar. Mas, agora… pouco importa, não acham?!
https://www.youtube.com/watch?v=GBmUgLvVtPY

https://www.youtube.com/watch?v=x5vkXoAa7ic

 

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JAZZ: E  AFINAL, O  QUE  É O JAZZ?

Quando uma criatura ouve música, convenhamos, é bem possível de que ela já esteja sob o domínio do ‘encantamento’. Sim! Eu chego a acreditar que neste exato momento ela esteja sendo ‘tocada’. Pudera! Uma coisa é certa: é um momento muito especial, raro e de apurada felicidade. Isto porque, minha gente, a música sempre arrebatou os ‘espíritos desarmados’. E, por sorte, nós temos uma boa quantidade deles pairando por aí. Eles estão em todos os cantos. Estão em todos os ritmos. No entanto, creio, é no jazz que esses espíritos ficam completamente à vontade. Soltinhos! Não que os outros ritmos deixem de oferecer deleite, mas é que o jazz parece encarnar todos eles, isso sim… Talvez por conta do seu sofrido ‘nascimento’. Talvez porque carregue nas notas um sem número de dores acumuladas. E dor, minha gente, é o signo que mais atesta a condição humana. De um jeito ou de outro, o que sei é que no jazz eu encontro o meu ‘porto seguro’. Pois lá estão os meus anjos e os meus demônios. Lá está a minha salvação e a minha perdição. Por isso, toda vez que eu me sinto triste ou desassossegado, penso logo em ir pra casa. Aí, então, é só botar um ‘puro jazz’ saindo dos falantes, relaxar na poltrona e a vida toma um outro rumo. Coisa linda! E desse modo, acolhido e reconfortado, eu recebo todos os espíritos do universo com a mais profunda paz celestial.

Abençoados sejam!

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Memórias: A utopia nordestina! (republicado)

Eu tinha apenas cinco anos de idade e era uma criança franzina, como tantas outras nordestinas. Nem sequer imaginava qual futuro estava reservado para mim. Sabia, ao menos, que o mundo rico e civilizado ficava no ‘sul maravilha’ (Henfil que o diga!). E que o meu bom e velho Ceará seria, doravante, “apenas um retrato na parede”. Talvez, por não conhecer o poeta Carlos Drummond, eu não atinasse para a dor: a imensa dor que um ‘retrato’ pode conter. E pode, creiam-me… pode!

O mundo, então, girou mais um bocado. Seguiu a roda do seu caminho e me apontou alguns para escolher. Agora, se as minhas escolhas foram boas ou não… aí, são outros quinhentos. O certo é que venho pelejando nessa vida. Tentando fazer o meu melhor. Sabendo que tanto posso errar aqui, quanto ter medos, acolá. Aceitando que o destino é algo mágico e individual, por mais coletiva que seja a nossa trajetória.

A verdade, meus amigos, é que durante muitos anos eu arrastei, feito bola de prisioneiro, muitas culpas por conta daquela ‘prematura saída’ do Ceará. Ainda que as culpas fossem indevidas, no fundo, eu me sentia um traidor, uma vez que virara às costas ao meu povo, à minha cultura e, dessa forma, estabelecera a minha ‘herança vacante’.

A essa altura, é bem provável que algumas pessoas corram em minha defesa e digam: “isso não é motivo de culpa, Carlos. Quando muito, destino”. É possível até que afirmem que essa viagem não foi exclusividade minha, pois muitos outros ‘retirantes’ seguiram o mesmo rumo. Cada um com o seu motivo. Cada um com seu legado… E uma diferente ‘sentença’ a cumprir!

Pois é, minha gente… Eu sempre soube disso. Mesmo assim, devo confessar: tais pensamentos não me redimiam. Ao contrário, doíam, isso sim. Doíam. Intensamente!
Foram necessários incontáveis anos para drenar a dor e aprender como a transformar. Para tanto, eu precisei de muita ajuda e, por sorte, vieram de todos os lados. Vieram das angustiadas sessões de análise com o Alexandre Kahtalian, solidário e competente terapeuta. Vieram das maravilhosas pessoas que fui encontrando pela vida e que, de alguma forma, depositaram generosas ‘esperanças’ no meu coração. Criaturas que se tornaram verdadeiros ‘irmãos’ e, ao atravessarem o meu destino, deixaram marcas permanentes em minha alma.

Somente a partir daí é que eu comecei a ‘realizar’ o inventário afetivo. Ainda bem. Pois somente assim os episódios começaram a adquirir significado junto ao meu ‘patrimônio afetivo’. Convenhamos: não há nada mais belo nessa vida do que dar sentido a ela! Ingmar Bergman, o extraordinário diretor-cineasta, dizia que “a imaginação tece a sua teia e cria novos desenhos… e novos destinos”.

Por tudo isso, eu imagino que a minha inserção nessa latinidade pode ser confirmada no testemunho do Gonzaguinha, em “Caminhos do Coração”. Vale a pena lembrar:

“Há muito tempo que eu saí de casa

Há muito tempo que eu caí na estrada

Há muito tempo que eu estou na vida

Foi assim que eu quis, assim eu sou feliz.

Principalmente por poder voltar a todos os lugares aonde já cheguei

Pois lá deixei um prato de comida, um abraço amigo, um canto pra dormir e sonhar.

E aprendi que se depende sempre de tanta muita diferente gente

Toda pessoa sempre é as marcas das lições diárias de outras tantas pessoas…

É tão bonito quando a gente sente que nunca está sozinho por mais que pense estar”.

Então, se me permitem, eu gostaria de finalizar este texto fazendo algumas saudações. Primeiramente, ao meu querido Ceará, sem o qual a grande América pouco me diria. Depois, ao poeta Gonzaguinha que nos deixou esse maravilhoso legado e de alguma forma permitiu essa ‘expiação nordestina’. Saúdo, também, aos irmãos nordestinos, na figura do simpático Ariano Suassuna, que encantadamente acrescentam voz à nossa alma. Mas saúdo, principalmente, os que se comovem com essas vozes… e as libertam. Como fez o competente Alexandre Kahtalian!

https://www.youtube.com/watch?v=NnNPZX8i8RE

sertão

Disco: “O melhor de Belchior”

EU TENHO MEDO DE ABRIR A PORTA / QUE DÁ PRO SERTÃO DA MINHA SOLIDÃO”  ( Belchior )

Decerto que não sou uma pessoa mística. Pelo menos, eu não ‘viajo na maionese’ como alguns que eu conheço, que constroem ‘ligações celestiais’ em tudo que ocorre ao redor…

De fato, reconheço, eu tenho as minhas crendices, a minha fé e o meu jeito de ver o mundo sob o prisma mais espiritual. Porém, a verdade é que esse olhar não me empurra a aceitar teorias mirabolantes de ‘causas e efeitos’, de determinismos implacáveis ou irremovíveis. Ah, lá isso não!

Por outro lado, também é verdade, eu acredito que o ‘destino’ de uma criatura pode estar sujeito a bruscas mudanças, muitas vezes difíceis de se entender. E na base dessas questões, quase sempre, está a mão do próprio indivíduo promovendo ou boicotando possibilidades. Sei que é brabo aceitar, minha gente, mas nós somos ‘conspiradores’ de primeira ordem e não poupamos ninguém… Céus, quanta ironia!

Contudo, há um punhado de gente que ao observarmos a trajetória ficaremos intrigados ou, quem sabe, perplexos com o caminho que destino seguiu… Pois é. A grande questão é: o que fez delas se tornarem tão diferentes ou inusitadas ou até mesmo ‘iluminadas’?

Vejam o exemplo do meu conterrâneo Belchior. Meu Deus, que sequência foi essa que a vida aprontou para ele? Que força misteriosa foi essa que o destino pôs em suas mãos e de que forma ele a conduziu? Sim, meus amigos, se pensarmos que ainda durante sua infância, no velho e querido Ceará, ele foi cantador de feira e poeta repentista. Que estudou música coral e piano. Que seu pai tocava flauta e saxofone e sua mãe cantava no coral da igreja. Que em 1962 ele se mudou de Sobral para Fortaleza dando início aos estudos em Filosofia e Humanidades e, posteriormente, Medicina, abandonando o curso no quarto ano, em 1971, para dedicar-se à carreira artística. Depois disso, ligou-se a um grupo de jovens compositores e músicos, como Fagner, Ednardo, Teti, Cirino, entre outros, conhecidos como o ‘Pessoal do Ceará’.

Quis o destino que ele viesse, em 1971, para o Rio de Janeiro e se encontrasse com a ‘sorte grande’ e com ela estabelecesse um pacto de sucesso. O que se seguiu virou história. Afinal, ver o seu nome aparecer na posição 58 da lista das ‘100 Maiores Vozes da Música Brasileira’ pela especializada revista Rolling Stone Brasil, foi apenas um passo a mais na vida desse talentoso nordestino!

Explicação para tudo isso? Tenho não. Ou, quem sabe, o próprio Belchior nos responda sob a forma de melodia?!

“Quando eu não tinha o olhar lacrimoso  /  Que hoje eu trago e tenho  /  Quando adoçava meu pranto e meu sono  /  No bagaço de cana do engenho  /  Quando eu ganhava esse mundo de meu Deus  /  Fazendo eu mesmo o meu caminho  /  Por entre as fileiras do milho verde  /  Que ondeia, com saudade do verde marinho.

Eu era alegre como um rio  /  Um bicho, um bando de pardais  /  Como um galo, quando havia  /  Quando havia galos, noites e quintais  /  Mas veio o tempo negro e, à força, fez comigo  /  O mal que a força sempre faz  /  Não sou feliz, mas não sou mudo  /  Hoje eu canto muito mais!”

https://www.youtube.com/watch?v=dGzXuHr9uf0

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Memórias: “DORI  CAYMMI  E  A  HARLEY-DAVIDSON”

Outono de 1988. Eu ainda morava no Rio de Janeiro, no Arpoador. Como era um jovem professor, de apenas 27 anos de idade, eu descobrira a paixão pela motocicleta. Porquanto a ‘Cagiva-Harley-Davidson’ acabara de ser lançada no mercado brasileiro, com 125 cilindradas, quadro alto e motor de dois tempos. Nossa! Era uma baita moto e me proporcionou momentos de raro prazer, minha gente.

Guardo na memória incríveis passeios e aventuras que eu costumava fazer aos domingos de tarde. Bastava o sol baixar um pouco e, aí, eu pegava a moto e subia a Vieira Souto em direção ao Leblon. Na sequência, vinha a Delfim Moreira e, ao final dela, eu sempre optava pela Avenida Niemeyer, que nos brinda com um visual maravilhoso. Então, vinha São Conrado e eu tomava a direção da Estrada do Joá, que naquela época era confiável e segura. Pronto. Dali até o topo da Estrada da Pedra Bonita era bem rapidinho, ainda mais de moto, não é verdade?! E o ‘gran finale’, meus amigos, era a subida até o local em que os ‘malucos’ pulavam de asa delta… Céus…‘adrenalina pura’, isso sim! Eu permanecia ali por horas, apenas observando as pessoas e os voos…

Mas havia um toque especial nesse outono. É que as folhas das amendoeiras estavam bem amareladas e começavam a cair dos galhos, proporcionando uma visão espetacular durante o trajeto. Outro detalhe, também extraordinário, é que eu fazia este percurso com um fone de ouvido ligado ao “walkman”. E naquele outono de 1988, meus amigos, adivinhem qual era a fita de minha preferência? Sim! Era o recém-lançado álbum de Dori Caymmi. Meu Deus do Céu, quando eu acelerava a moto e subia o volume ‘Gabriela’s song’, parecia que eu flutuava nas nuvens. ‘Porto’, então, era outra melodia que eu reservava para a lenta volta, já que ela me remetia ao encantado mundo de ‘Gabriela’, na primeira versão da novela, de 1975, com o grupo vocal MPB4 deslumbrando a todos…

De um jeito ou de outro, o que eu posso dizer é que a minha vida sempre esteve atrelada aos Caymmis, seja Nana, Dori, Danilo ou mesmo ao velho e saudoso Dorival.

Abençoados, sejam!

https://www.youtube.com/watch?v=7W5r47snXhY

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Disco: “Baião Erudito”, com Nonato Luiz.

SUA BÊNÇÃO, MEU PADIM PADI ‘CIÇO’…

Foi Nonato Luiz que me confirmou a regra. Segundo ele, para se conhecer um cearense de verdade bastam apenas duas perguntas. A primeira é: você gosta de mulher? Se ele disser que sim, então, você volta à carga e arremata a segunda: e de farinha? Se ele soltar um retumbante ‘vixe!’, pronto: é sinal que você estará em frente a um legítimo pau-de-arara!

Pois é. O que sei dizer é que tenho muito orgulho das minhas raízes cearenses, isso sim. E eu já encontrei pau-de-arara em todo canto desse mundão de Deus. Só vendo como cearense é bicho nômade. Aparece em tudo que é lugar e em todas as atividades humanas…

Certa vez eu estava na fila dos correios na Basiléia, Suíça, em 1976, quando alguém começou a ‘mangar’ (no dicionário cearês é o mesmo que zombar!) da atendente que parecia mal-humorada pra ‘dedéu’.

– Olha só a cara dessa bichinha. Parece ‘abestada’!

Eu nem precisei falar nada. Apenas uma discreta risada demonstrou a minha cumplicidade ao conterrâneo…

O fato é que tudo isso me lembrou o amigo Nonato Luiz, que há tempos não aparece por essas bandas. Para minha sorte, eu tenho aqui em casa uma bela coleção de CDs do Nonato, alguns deles enviados pelo meu primo Henilton, como esse maravilhoso “Baião Erudito”. Meu Deus do Céu, que coisa linda!

O disco é em homenagem a Humberto Teixeira e Luís Gonzaga, que produziram uma obra extraordinária e perene. Afinal, quem consegue ouvir o ‘pot-pourri’ de “Juazeiro – Assum Preto – Algodão” e não se emocionar com as ricas melodias? Isso sem falar de “Légua tirana”, que na interpretação de Nonato adquire profunda dramaticidade. Algo incrível, meus amigos!

No entanto, a música que mais me comoveu foi a faixa “Vida de viajante”. Sim! Além da beleza da melodia, minha gente, ela também me remete ao apurado gosto que o cearense tem de viajar, viajar e viajar. O resultado não poderia ser outro: chorei um bocado com saudades do meu Ceará!!

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https://www.youtube.com/watch?v=Virzk-XBcMw

https://www.youtube.com/watch?v=AsMnjyjXUiU