A FEIJOADA DO “PAIXÃO”

Há quem acredite que o sujeito mais inventivo desse mundo é o ‘pobre’. E que isso não se deve pelo talento inato e sim por conta da necessidade. Céus… Pode isso, Arnaldo?! Sei não. Talvez, por força das circunstâncias, desde cedo o pobre se vê obrigado a improvisar tudo na sua vida. E por conta disso, ele se torna capaz de desenvolver e até mesmo determinar o rumo das coisas… Mas, e agora, José?!

A bem da verdade, eu não estou convencido disso. No entanto, eu reconheço que tais aspectos são capazes de influir na trajetória de uma criatura. Isto porque, quando se nasce em berço ‘nada esplêndido’, convenhamos, a gente é obrigado a descobrir onde ficam os atalhos, não acham? E isso, de um jeito ou de outro, acaba desenvolvendo essa capacidade mais determinada, mais focada na realidade da vida. Lembro até que na minha infância, relativamente pobre, eu fui capaz de aprender certos ‘truques e artimanhas’, que para muitos colegas não tinham a menor importância. Hoje, sim, eu identifico as ‘vantagens’ que levei ao exercitar a minha criatividade para dar conta de situações. Lá, isso sim!

Aliás, foi no início da fase adulta que eu comecei a ver a cor do dinheiro. Eu tinha 22 anos de idade e havia me tornado professor de cursinho pré-vestibular. O meu primeiro salário, caramba, foi de dois mil cruzeiros. Podia não ser muito, mas, comparado aos outros professores do cursinho, um ‘pé-rapado’ como eu, caramba, parecia festa no arraial. E foi com esse dinheiro que eu comprei o primeiro carro… opa, melhor dizendo, o primeiro ‘fusca’.

Contudo, como um bom ‘retirante’ nordestino, a gente não perde a noção de humildade e tampouco ‘esbanja’ dinheiro à toa. Afinal, nunca se sabe o dia de amanhã, não é verdade? Quem sabe, por isso, eu passei a dar valor ao meu suado dinheirinho? Não aceitava ser passado para trás e nem cair no canto da sereia, sabe como é?

Foi quando eu descobri, perto de minha casa, um restaurante que praticava ‘preços módicos’. Sendo que, aos sábados, havia a tradicional feijoada, bem ao estilo mineiro. Daí, eu chamei o Carlinhos, meu xará, para vir almoçar comigo naquele restaurante. O combinado era que após a praia, iríamos comer a bendita feijoada, descansar um pedacinho e depois partirmos para o Maracanã para assistirmos ao grande Fla-Flu decisivo!

Dito e feito. Sentamos na única mesa disponível do restaurante, bem no canto. Conferimos o cardápio e, então, Carlinhos declarou: “Caracas, feijoada completa por ‘sete reais’! Não dá para acreditar, xará…”

Então, pedimos uma cerveja e os copos bem gelados. No entanto, os copos eram de geleia de mocotó e a cerveja não veio tão gelada assim. Paciência. O principal era comida, já que estávamos famintos. Carlinhos, bem animado, só falava do preço baixo. Foi quando chegaram as cumbucas e travessas: uma de arroz, uma de farofa, de couve e a de feijão.

– Porra, cadê a carne seca e o paio, perguntou Carlinhos.

– Por sete reais, convenhamos, dá para aceitar… respondi.

– E o torresmo, não tem também?!

– Oh, Carlinhos, o importante é o sabor… e a economia que faremos para ir ao Maraca, retruquei sem muita convicção.

– Mas está uma merda isso aqui, xará… O feijão é só caldo, não tem caroço, não tem linguiça, paio e o escambau… Além disso, esse garçom, o “Paixão”, é um cara de pau, isso sim!

Pois é. Só sei que saímos dali com a certeza de que tinha sido uma tremenda furada. E que somente o cachorro-quente do Maracanã poderia salvar a nossa persistente fome…

É tal negócio, meus amigos: você pode até deixar de ser pobre, mas a pobreza não sai de você! Fazer o quê?!

PS. O restaurante não era lá um primor… Mas está igualzinho!

“Galeto ao Primo Canto”

Foram muitas as pessoas que tiveram especial importância em minha infância e adolescência. De certo modo, isso comprova o quanto eu fui sortudo nessa vida, uma vez que outras criaturas não tiveram oportunidades semelhantes. Vem daí, talvez, o meu gosto por amizades sinceras, dessas que marcam a trajetória da gente. Amigos de verdade!

Orlando, o Cuca, foi um desses casos especiais, pois bem antes de se casar com minha irmã, ele já nutria simpatia por mim. Era um descendente de família italiana, calabreses de quatro costados. E pela tradição deles, meus amigos, ‘lealdade’ é algo irrenunciável, algo para se orgulhar feito uma condecoração de valor.

O mais interessante é que aquela família ‘calabresa’ era composta por muitos irmãos: quatro homens e uma mulher. E todos eles apresentavam como traço familiar o semblante carrancudo, herança do velho patriarca. Nessa época, eu tinha pouco mais de dez anos de idade e, devo reconhecer, morria de medo quando encontrava alguém daquela família pelo caminho. A exceção era Orlando, que era o caçula e o mais simpático da família. Orlando sempre me tratou com um carinho pra lá de especial. Quem sabe, ele já antevisse o grau de parentesco que teria comigo?!

O que sei dizer é que Orlando pertencia a uma família rica, muito rica mesmo para os padrões da época e do bairro. E os irmãos dele faziam questão de viver ‘abastadamente’, com carros de luxo, roupas caras e tudo aquilo que alguém como eu jamais teria acesso. Afinal, nossa família era de classe média baixa, embora meu pai tivesse um bom emprego. É que nós éramos oito: seis filhos e meu pai e minha mãe. Com isso, por melhor que fosse o emprego do pai, ainda assim, existiam muitas bocas para alimentar… Tempos difíceis!

Eu nunca soube avaliar se Orlando fazia questão de nos presentear com toda sorte de ‘mimos’ para compensar o nosso sufoco ou se por outro motivo. Pouco importa. O fato é que ele sempre nos pareceu sincero e autêntico. Além disso, ‘gato escaldado’ não renega peixe. Só que, no nosso caso, o ‘peixe’ era o galeto do “Cantinho Baiano”, que ficava ali na Rua Pareto, no coração da Tijuca. Meu Deus do Céu! Quando ele chegava lá em casa e nos convidava para comermos o tal do “Galeto ao Primo Canto”, ah! minha gente, era uma verdadeira festa. Ou melhor: um legítimo banquete para estômagos tão sedentos.

Ao me lembrar desses episódios, confesso: imediatamente, eu senti saudades do Orlando. Sim! Que criatura boa foi aquele sujeito. E o que eu posso assegurar é que Orlando deixou ‘gravado’ em minha memória afetiva esse ‘desejo’ de retribuir. Retribuir ao meu filho e ao meu neto o maravilhoso gosto pelos “presentes”, sejam eles quais forem. Algo para vestir ou comer. Algo para ler ou observar. O importante é que consigam usufruir com o mesmo gosto que um bom chocolate é capaz de oferecer. E que possam ‘acalentar’ as nossas carências e nos propiciar, ainda que por alguns instantes, sentir o desejado ‘nirvana’…

Hoje, meus amigos, eu percebo que o prazer não tem preço e nem etiqueta de grife. Por certo, ele advém da nossa acuidade de sentir gostos, visões e sensações. Da nossa capacidade de resgatar antigos episódios e dar a eles novas oportunidades. No fundo, se pensarmos bem, veremos que a vida é bastante generosa com todos. Porquanto ela disponibiliza a cada criatura a possibilidade de bem cuidar da memória. Até porque, no fim das contas, é o bem mais precioso que podemos guardar, não acham?!

Abençoado seja, meu querido Orlando!

PS. Era nessa esquina que ficava o “Cantinho Baiano”: um lugar que eu jamais esquecerei…

“O MUNDO É UM MOINHO”

(CARTA A ZAMIRA)

É quase certo que você, Zamira (personagem de Labina Mitevska), nunca tenha ouvido falar do nosso querido mestre Cartola. Por isso mesmo, não teve a felicidade de conhecer os maravilhosos versos do grande sambista e poeta. Foi uma pena, amiga, porquanto você perdeu a oportunidade de se emocionar com essa belíssima canção:

“Ainda é cedo, amor / Mal começaste a conhecer a vida / Já anuncias a hora da partida / Sem saber mesmo o rumo que irás tomar / Preste atenção, querida / Embora saiba que estás resolvida. / Em cada esquina cai um pouco a tua vida / E em pouco tempo não serás mais o que és. / Ouça-me bem, amor / Preste atenção, o mundo é um moinho / Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos / Vai reduzir as ilusões a pó…”

Pois é. Sem dúvida alguma, foi uma lástima você não ter ouvido esses versos. Saiba, então, Zamira: Cartola compôs essa música para demover o desejo da filha de sair de casa precocemente. E ele conseguiu! Se você tivesse sido acalentada por essa melodia, quem sabe pudesse compreender e até perdoar o duro destino que a vida estava a lhe reservar? No entanto, a dor que Cartola sentiu não pode ser comparada à sua. Lá, isso não. Ainda que toda dor seja triste, pois dor é sempre dor, o certo é que o seu infortúnio bateu mais fundo. Como prova, basta assistir ao melancólico filme e perceberemos que esta dor sempre esteve presente em sua vida. Impiedosamente, é verdade. Presente, também, no destino das tantas vítimas de guerras, como a do seu sofrido país. Convenhamos, tudo isso serve apenas para denunciar o lado mais obscuro da natureza humana: o sofrimento. E não há nada mais sombrio do que isso, esteja certa!

O que posso dizer, minha menina, é que até mesmo os poetas se sentem impotentes diante da intolerância, da injustiça e da capacidade de destruição que há no homem. Até parece uma ‘vocação’ inata, não é verdade? Você talvez pudesse indagar com rancor: o que caberia a nós – pobres mortais – fazer diante de tudo isso? O que é preciso?

Olha, Zamira, eis aí uma questão antiga. E a despeito de tudo, ela ‘ainda’ nos aflige de forma insidiosa. Meu Deus, até quando?!

Se observarmos bem, perceberemos que o homem, desde que começou a habitar este controvertido planeta, desenvolveu uma destreza crescente. É bem verdade que, por vezes, tal capacidade serviu para a sua própria sobrevivência. Contudo, temos que reconhecer que na maioria das vezes o que falou mais alto foi o lado destrutivo e predador de nossa raça. Sim! Que infortúnio!

É sabido, também, que o ‘homem’ é portador de fortes instintos. Ao longo da sua passagem pela história da civilização, o homem empreendeu práticas que têm variado de acordo com as necessidades atreladas. Até aí, tudo bem. Afinal, foram muitos os momentos vividos por ele. Momentos de glórias e conquistas. Porém, por outro lado, nós tivemos momentos vergonhosos, Zamira. De pura insanidade. E não há como esconder isso… lamentavelmente.

Nos primórdios da era humana, por conta da seleção natural, nós fomos impelidos a desenvolver diversas ‘autodefesas’. Algumas delas foram imprescindíveis à manutenção do “homo sapiens”. Porquanto as condições eram difíceis e, sendo assim, somente os ‘mais fortes’ conseguiriam lidar com as adversidades.

Centenas de anos se passaram para que o homem criasse o fogo e pudesse se aquecer. Dessa forma, mantinha-se a salvo das intempéries do clima e das possíveis ameaças. Logo a seguir, ele experimentou as suas primeiras habilidades manuais, confeccionando os instrumentos de caça. Foram bens extraordinários, sem dúvida, que favoreceram a alimentação e o vestuário. Propiciavam, também, mais oportunidades na formação das tribos, uma vez que a caça coletiva ensejava maior êxito. E com esse espírito gregário assumido, o homem pôde se locomover e ocupar diferentes regiões do planeta. Assim, surgiram os ‘amigos’. O diabo é que na esteira da disputa pela caça vieram, igualmente, os “inimigos”! É que no bojo das lutas por alimento (e mulheres) surgiu a ‘famigerada’ ganância. Como consequência, criou-se o gosto pela dominação e diversos conflitos foram estabelecidos. Tribos ‘irmãs’ tentando dominar os vizinhos. A partir daí, nunca mais cessaram os litígios. Nunca mais…

Até hoje nós estamos no mesmo ponto, apesar dos progressos alcançados em outras áreas. Desafortunadamente, nós empreendemos uma permanente luta para dominar o outro. Lutamos para subjugar o suposto oponente. Estupidamente, lutamos… Contra quem? Qualquer um! Contra o quê? Não importa! Em prol de quê? Não sabemos! Por quanto tempo? Só Deus sabe!

Ah, Zamira, você não sabe como dói acompanhar à sua história mostrada em um filme, mesmo que ela seja contada de modo belo e impecável. É que, irônica e cruelmente, a sua história denuncia as nossas ‘doenças’, revelando as atávicas dificuldades dos homens. Dificuldades essas que nenhuma diferença étnica pode justificar. Ou que religião alguma consegue atinar, porquanto está no nosso interior.

Sim, minha pobre criança, ao que tudo indica, nós introjetamos de tal maneira àquela antiga destreza, herdada dos nossos ancestrais, que não mais conseguimos nos livrar dela. Céus, quanta ironia!

Apesar disso, devo confessar, eu sou um otimista ‘incorrigível’. Sim, porquanto eu continuo acreditando no homem. Acredito porque percebo que a sua história consegue, como tantas outras, comover muitas criaturas. Então, é sinal de que há esperança. É sinal de que não morreu, de todo, o lado humano de nossa raça. Talvez, ainda tenhamos que pagar com muitas vidas, como em seu país, para descobrirmos a nossa real natureza e vocação. Ah, companheira… Decerto há um outro lado em nossa alma que não é apenas destruidor, e nós já demos provas disso. Deve haver, seguramente, mais solidariedade em nossos corações do que supõe a insensibilidade de muitos. Talvez ela esteja escondida em algum lugar pouco explorado por nós. Quem sabe, estejamos bem próximo de revelar o nosso lado generoso?! O que sei dizer é que é preciso acreditar nisso. Do contrário, tudo aqui perderia o sentido. Perderia, também, a importância e a razão da nossa existência.

Por tudo isso, eu quero deixar aqui um beijo bem carinhoso para você, Zamira. E se possível for, pedir-lhe que perdoe a nossa recorrente insanidade!

Bem, meus prezados leitores, desculpem-me tê-los afastado da conversa que tive com a menina Zamira. Emocionado, eu devo declarar: essa conversa era urgente e necessária, além de muito pessoal. No fundo, há tempos eu me devia esta conversa. Agora, torço apenas para que tenham sido tolerantes comigo e entendido o momento especial.

Voltando ao nosso encontro mensal, o filme em questão é “Antes da chuva”, dirigido por Milcho Manchevski e muito ajudado pelos talentosos Rade Serbedzija, Labina Mitevska, Katrin Cartlidge e Grégoire Colin.

Belíssimo. Comovente. Humano. Corajoso. Sei lá mais o quê!

São três histórias de amor que se cruzam, em meio à guerra fratricida na Macedônia. “Palavras” é o título do primeiro episódio, que descreve a dor de Zamira e do jovem monge Kiril (personagem de Grégoire Colin). Em “Rostos”, o segundo episódio, surge o ‘fotógrafo de guerra’, Aleksandar (personagem de Rade Serbedzija). Envolvido numa difícil relação amorosa em Londres, ele não consegue permanecer distante e sofre com os duros acontecimentos desenrolados em seu país. “Imagens” é o terceiro episódio, que tem o pano de fundo no retorno de Aleksandar à sua terra natal, a Macedônia. Ironicamente, neste último episódio, os caminhos de Aleksandar se cruzam com os de Zamira e Kiril, desenhando de forma impiedosa a intolerância presente nos conflitos entre macedônios ortodoxos e muçulmanos albaneses. O retrato da dignidade daquela gente é, enfim, aviltado e revelado…

Sim, meus amigos, “Antes da chuva” é um filme impiedoso. Desafiador. E ao mesmo tempo, delicado. Um filme produzido com a nítida intenção de ‘impressionar’. E ele consegue!

Ainda bem que podemos fazer pequenas expiações enquanto o mundo não se ajuíza. Sorte a nossa que tivemos o querido Cartola para nos consolar e ainda temos, afortunadamente, o poeta Nei Duclós para nos dizer sem medo:

“Estamos na mesma fogueira / na mesma lenha / usando a mesma coleira / pulando com a mesma raiva / sofrendo a mesma seca / plantando a mesma semente / esperando com a mesma demência / que ela cresça…”

A PROVA FINAL

Quando se é pequeno, pequeno mesmo, há um sem-número de provas que nós somos obrigados a prestar. Muitas delas, devemos reconhecer, são complicadas, difíceis ou mesmo indevidas. Por vezes, até humilhantes elas são. Mas, calma aí que eu explico.

O fato é que para fazer parte de uma ‘turma’ de bairro, convenhamos, são incontáveis as provas a que somos submetidos. E elas vão da coragem de enfrentar o cão brabo para reaver a bola de futebol ao perigo de subir no prédio vazio, ainda em construção, para soltar pipa na cobertura. Pois é. Tudo isso eu tive que encarar com coragem e determinação, minha gente. É bem da verdade que, no meu caso, foi mais determinação do que coragem!

O pior de tudo é que esses ciclos de ‘provações’ parecem não ter fim, uma vez que emendam um com outro, conforme a nossa idade vai avançando. Se aos dez anos de idade foi difícil dar o primeiro ‘trago’ naquele cigarro, medonho de forte, o “Caporal Amarelinho”, imaginem o frio na barriga que senti quando, aos treze anos, tomei o primeiro gole de o “Conhaque de Alcatrão de São João da Barra”?!

Bem… paciência! Fazer o quê?! Afinal, isso era parte integrante do percurso de qualquer moleque da zona norte do Rio de Janeiro, nos anos 60 e 70. E, apesar de magrelo, até que eu dava conta desses ‘vestibulares’ da vida. Também é verdade que ‘algumas vezes’ eu procurei me esquivar de determinadas empreitadas… Mas, quem poderia saltar de um bonde em movimento, ainda por cima de costas?! Céus, isso era missão para maluco e maluco eu não era!

Aí, veio a fase dos 15 e 16 anos e os desafios se renovaram. Nessa época, a ordem do dia ficava por conta dos bailes de carnaval. E o ‘objeto do desejo’, sem dúvida, era o baile do Clube Municipal, que ficava ali na Haddock Lobo, na Tijuca. Ah, minha gente, todos nós sonhávamos o ano inteiro com as lindas moças que frequentavam aquele clube. E, como não éramos sócios, o jeito era apelar para o alto muro que existia na lateral. O esquema era entrar pela rua Maestro Villa Lobos, que ficava ao lado esquerdo do clube. Logo no início, havia uma vila de antigas casas. Daí, nós tínhamos que checar qual delas estava vazia ou sem os moradores, uma vez que muita gente preferia viajar durante o carnaval.

Feita a escolha, a gente começava a escalada, procurando não fazer barulho e chamar a atenção dos ‘seguranças’ do clube. O diabo era sair ‘ileso’ daquela cerca de arame farpado. Por ser alta, tínhamos que passar pelo meio dos fios e, muitas vezes, a nossa roupa ficava presa e acabava rasgando, o que ‘denunciava’ a nossa chegada triunfal.

Mas, como eu já disse: por ser magrelo, isso me dava alguma vantagem, uma vez que eu conseguia passar por entre os fios mais rapidamente. Já o coitado do Roberto, gordo que só vendo, sempre era “apreendido” pelos seguranças. Tadinho! Passou a juventude toda sem ir aos bailes…

Naquele ano de 1966, eu fui o primeiro a pular para dentro do clube. A seguir, vieram Edinho e Luiz Henrique. E na sequência, vinham Isaac e o Waltinho. No entanto, como dizem por aí, “Deus não dá asas à cobra”. Nem bem o Waltinho pulou no jardim lateral, apareceram mais de cinco seguranças do clube e três PMs. Fomos cercados e colocados contra a parede do muro. Foi triste, meus amigos. Passar a primeira noite de carnaval das dependências da 18ª Delegacia de Polícia, na Praça da Bandeira, não é mole. Ainda por cima, ter que aturar os comissários de plantão, zombando da gente o tempo todo e ‘ameaçando’ de nos colocar nas celas, junto com os ‘bandidões da pesada’… Que sufoco!

MUITO ALÉM DA PAIXÃO

Muito já foi dito sobre o amor. Sei bem. Pode até ser que o tema não careça mais abordagem. Mas, convenhamos: há amores de todos os tipos, minha gente!Não obstante toda forma de amor ser bela e comovente, no fundo, sempre haverá uma ‘especial’. Marcante. Inusitada. Isso porque a capacidade de o homem estabelecer diferentes afetos parece ser inesgotável. Ainda bem, pois assim, quando menos se espera, eis que surge uma outra maneira de ‘ver’ e ‘viver’ o amor. Quem sabe não resida aí a grande beleza dessa vida? Sim, na incrível diversidade do amor!A bem da verdade, devemos reconhecer, o uso da palavra amor acabou sendo banalizado. Lamentavelmente. Porquanto a frequência com que a palavra é utilizada, muitas vezes torna o amor um aparente despropósito. Seja pela fugacidade com que ele, repentinamente, vem e se vai. Seja pela ausência de compromisso com o real sentimento presente, uma vez que seguidamente se confunde amor com ‘posse’. O que sei dizer, amigos, é que parece que estamos tratando o amor de forma indevida. Descuidada. Confusa, até.É sabido que diversas gerações atravessaram fortes correntezas em busca da cara-metade. Por conta disso, desafios tiveram que ser vencidos com uma coragem ímpar. E o que se viu, afortunadamente, é que a determinação sempre foi a mola propulsora dos amantes. Quem sabe seja ela a única aliada da paixão?!Em nome do ‘amor’, impérios foram sacrificados, revoluções foram deflagradas e muitos mártires surgiram na história da humanidade. Algumas vezes, é verdade, estiveram escondidos em ideologias ou ‘utopias’ sem fronteiras. Não importa. O certo é os exemplos estão aí: construídos com profunda garra e esparramados pelos caminhos do universo. São contundentes dramas que lutaram por um final feliz, nem sempre logrado. Quem não se lembra, por exemplo, do velho “Iona” do conto Kusmá Iônitch, de Tchecov? Depois de contar a sua tristeza pela morte do filho a várias pessoas, sem resultado, passou a falar com a sua velha égua, única companheira de todas as horas: “Assim é, meu irmão, minha eguinha… Não existe mais Kusmá Iônitch. Foi-se para o outro mundo… Morreu assim, por nada… Dá pena, não é verdade?”Ou no intenso e absurdo monólogo do Coronel com o seu galo, na novela de Gabriel Garcia Márquez (Ninguém escreve ao Coronel). Ao se ver acuado pela fome e pela falta de perspectiva, o Coronel encontra no galo a força necessária para permanecer lutando: “A vida é dura, camarada!”, sentenciou o exaurido homem ao galo.Por certo, eu ainda poderia citar dezenas de outros comoventes exemplos de amor. Só serviriam para atestar a grandeza desse sentimento que, por vezes, é cego. Outras tantas, surdo. E até mudo já foi. Bem mais do que isso, o amor já foi herói e foi bandido. Foi perseguido e celebrado. Ultrajado e invejado. Ah, o amor… Essa fantástica caixinha de surpresas que arrebata espíritos desavisados. Bendito, seja!É interessante perceber que o mito do amor tem sido mais forte do que a imaginação humana. E até mesmo Bernard Shaw, um mago na criação, preferiu homenageá-lo às avessas. Em seu antológico romance, Pigmalião, ele recria livremente o mito – o lendário rei de Chipre que se apaixona por uma estátua de marfim que ele próprio esculpira e que a Deusa do Amor acaba por dar vida. Pigmalião Higgins, no fundo, idealiza a própria mãe em vez de Eliza Doolittle. Esta, por sua vez, vê-se aprisionada diante da escolha: casar-se com o atraente Higgins para quem passaria a vida toda a procurar os chinelos ou com o repugnante Freddy que, bem ao contrário, a vida toda estaria a lhe procurar os chinelos? A escolha foi dura e muitas complicações se seguiram…Vimos, também, quando o velho Santiago, o pescador solitário de Hemingway (O velho e o mar) – que durante 84 dias não apanhara um só peixe – novamente põe-se no mar. O que o velho carregava no peito, meus amigos, era mais do que coragem. Dentro dele e daquela solitária canoa, tinha amor. Muito amor! Sim, somente um homem com seus sonhos e suas tristezas profundas pode amar com tanta ternura um peixe. E, por conta desse amor, ele empreende bem mais do que uma luta de sobrevivência. Ao travar a longa batalha, o pescador jamais perdeu o respeito ao peixe. “Vou pôr os dois remos cruzados na proa e o peixe terá que abrandar a velocidade durante a noite”, disse o velho. “Ele deve querer descansar e eu também!”Tudo isso me faz crer que o verdadeiro amor é assim mesmo: respeitoso, ainda que sem cerimônias e indulgente, mas sem se culpar. Por certo, em nome da preservação, o amor é até capaz de ferir. No entanto, o perigo que sempre rondou as nossas casas está nos excessos. É que, por vezes, a ‘paixão’ é traiçoeira e manhosa. E não poupa ninguém! Basta olhar para os lados e veremos: quando estamos distraídos e somos tomados pelo inadvertido sentimento, tudo pode ocorrer. E a dor, inescrupulosa parceira da paixão, acaba mostrando as garras e, de alguma maneira, fazendo vítimas. É… São os ‘pedágios’ da vida e nada pode ser feito. Tampouco se adquire imunidades quanto a isso.Não, meus amigos, não estou aqui a repudiar a paixão! Muito ao contrário: dela, sempre fui cúmplice e dependente. Raptado por ela? Inúmeras vezes. Arrependido? Jamais! Disposto a mais uma? Sempre!O que posso afirmar, sem medo, é que a grande sabedoria dessa vida talvez consista em aprender a lidar com a paixão. Permitindo que ela nos subverta, sim, mas, atento aos caminhos que trilhamos. Com isso, podemos desenvolver a capacidade necessária para ‘cicatrizar’ antigas feridas. Com sorte, poderemos experimentar no percurso os mais belos dias de nossas vidas.Foi assim que Zhao Di, a inocente camponesa do belíssimo filme, “O caminho para casa”, entregou o seu amor ao professor Luo Changyu. Coisa linda! A relação que ela estabelece com o professor é tocante. Durante todo o filme, a linda história de amor é narrada pelo filho Yusheng. É que ao receber a notícia da morte do pai, Yusheng retorna à sua antiga aldeia e relembra o decantado romance dos pais, enquanto providencia o enterro. E ao narrar a história de amor deles, com orgulho e admiração, Yusheng consegue nos enfeitiçar. Inteiramente. Sem sobra de dúvida, não há criatura alguma nesse mundo que ao final do filme não se sinta melhor, visto que ele nos emociona e nos engrandece. Pudera! Como um bom filme oriental, ele herdou a sabedoria de não ter pressa. Com isso, as cenas se sucedem com uma impressionante placidez. Lindas. Irretocáveis. E amparado em magnífica fotografia, o enredo vai lentamente arrebatando as nossas almas sedentas de humanismo. Principalmente quando aborda o polêmico tema: a morte.Pois é, minha gente. O povo ocidental tem muito que aprender com os orientais no que diz respeito à forma de encarar a morte. Chega a ser comovente o diálogo entre Yusheng e o marceneiro, quando ele diz: “Carregar os mortos é um costume antigo. E nós gritamos com ele no caminho. Sabe o que dizemos? Dizemos que aquele é o caminho para casa. Assim, ele sempre se lembrará do caminho!” Ou então, na própria voz de Yusheng, que após relutar, acaba compreendendo o pedido da mãe e justifica o sacrifício de conduzir o corpo do pai pela longa estrada: “Esta estrada faz parte da história de amor de meu pai e minha mãe: o caminho que vai da cidade até a nossa aldeia. Talvez, por causa da esperança que representava quando ela esperava a volta de meu pai, ela queira percorrê-lo ao lado dele uma última vez…” E ele tinha razão, uma vez que um amor feito aquele merecia qualquer homenagem. Até mesmo sacrifício.Yusheng nos diz mais sobre o amor deles: “Papai me contou que a primeira vez em que visitou minha mãe, ela ficou esperando na porta. Apoiada no batente, parecia uma pintura num quadro: uma imagem que ele jamais esqueceria!” Ou ainda: “Alguém me contou que no dia em que meu pai finalmente voltou, mamãe vestiu o casaco vermelho, o preferido de papai, e ficou esperando por ele no caminho. Desde aquele dia, meu pai nunca mais deixou a minha mãe…”O que sei dizer é que a história de Zhao Di e do professor Luo Changyu não é apenas uma bela história de amor. Bem mais do que isso, ela revela tudo de melhor que fica em nossa volta: amor, paixão, dignidade e respeito. E nada mais tem importância!Zhao Di compreendeu tudo isso quando quis prestar ao marido a derradeira homenagem, reiterando o seu amor em meio a longa caminhada. No fundo, talvez fosse a caminhada para a grande morada espiritual: a imortalidade do amor que viveu.Portanto, só nos resta torcer para que a vida nos ensine a encarar a morte com o mesmo respeito e dignidade que o filme aponta. Quem sabe, poderemos até guardar na memória onde estão os nossos caminhos? E se isso ocorrer ainda em vida, melhor ainda, pois assim evitaremos ouvir os gritos dos que nos amam!

PARA ‘ADOÇAR’ MEU CORAÇÃO

Foi o nosso querido Carlos Drummond de Andrade que afirmou em seu extraordinário poema, “Resíduo”, que “de tudo fica um pouco”. Pois é: tinha ele razão, meus amigos. Aliás, muitas razões! Vale a pena lembrar:

“De tudo ficou um pouco / Do meu medo. Do teu asco. / Dos gritos gagos. Da rosa / ficou um pouco. Ficou um pouco de luz / captada no chapéu. / Nos olhos do rufião / de ternura ficou um pouco (muito pouco).Pouco ficou deste pó / de que teu branco sapato se cobriu. / Ficaram poucas roupas, / poucos véus rotos / pouco, pouco, muito pouco.Mas de tudo fica um pouco. / Da ponte bombardeada, / de duas folhas de grama, / do maço – vazio – de cigarros, ficou um pouco.De tudo fica um pouco. / Não muito: de uma torneira / pinga esta gota absurda, / meio sal e meio álcool… / este vidro de relógio / partido em mil esperanças… / este segredo infantil……Oh! abre os vidros de loção / e abafa / o insuportável mau cheiro da memória…”

O mais interessante de tudo é que ao reler este poema, nesta chuvosa manhã de domingo, eu tinha, ao fundo, a suave e inebriante companhia de Ana Caram, interpretando canções de Tom Jobim. O CD se intitula “The other side of Jobim” e o encontrei, por acaso, no fundo da estante, indesculpavelmente esquecido por mim. Ah, meu maestro soberano, queira me perdoar. Saiba, contudo, que isso não foi intencional. Porquanto o dia a dia da gente, muitas vezes, acaba nos infringindo alguns ‘esquecimentos’. E eu lamento por isso, pode acreditar.

Então, para me redimir, eu coloquei o disco a tocar enquanto folheava a antologia de poemas de Drummond. Dessa forma, a deliciosa voz de Ana Caram acabou acalentando os meus pensamentos, fazendo-me lembrar das belezas que ele escreveu. Sim! Desde muito cedo eu fui ‘tocado’ por Drummond, já no “Poema de Sete Faces”, quando eu ainda nem atinava para as dores do mundo. Vejam:

“Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida…. Mundo mundo vasto mundo, / se eu me chamasse Raimundo / seria uma rima, não seria uma solução. / Mundo mundo vasto mundo, / mais vasto é meu coração.Eu não devia te dizer / mas essa lua / mas esse conhaque / botam a gente comovido como o diabo.”

Assim, minha gente, eu prefiro ficar com as melodias que estão esparramadas pelo universo. No fundo, elas são sábias. E me embalam nesta chuvosa manhã de domingo. E a partir de agora, na voz de António Zambujo, todos os anjos sussurram em meus ouvidos o testemunho deixado por Chico Buarque, em “Futuros amantes”:

“Não se afobe, não / que nada é pra já / o amor não tem pressa / ele pode esperar / em silêncio, num fundo de armário / na posta restante / milênios, milênios ao ar……Sábios em vão / Tentarão decifrar / O eco de antigas palavras / Fragmentos de cartas, poemas / Mentiras, retratos / Vestígios de estranha civilização.”

“DEU RUIM…”

Tem gente que é sortuda nessa vida. Meu Deus do Céu, os homens conseguem toda sorte de proezas, aqui e acolá. Já o Marquinhos não! Ele sempre foi ‘perseguido’ pelo azar. Muito embora procurasse não reclamar, talvez, como forma de não chamar a atenção da ‘urucubaca’ que colara nele desde criança. É o tal negócio: se havia alguma chance de algo dar errado, por certo, ocorreria com o Marquinhos. Eta ‘pé-frio’ danado!

Lembro que um dia, quando ainda éramos adolescentes de quinze anos, Luiz Henrique, Marquinhos e eu planejamos dar ‘um beiço’ no Divino Bar. Ficava ali no início da Haddock Lobo, perto da Rua do Matoso, na Tijuca, bem ao lado do Cinema Madrid. O plano era cada um escolher um sorvete da primeira linha. Podia ser “sundae”, “banana split” ou mesmo a taça imperial, que continha sorvete de creme, morango e chocolate. Tudo isso, é claro, regado com chantili e castanhas de caju. Um verdadeiro banquete de sobremesas.

Como parte do planejamento, a gente procurou se sentar na mesa mais externa que havia, já pensando na fuga. E aí, então, nós fizemos o pedido para o garçom. Contudo, parece até que as nossas risadas nervosas ‘denunciaram’ a intenção do golpe. Uma vez que, logo a seguir, o garçom trouxe os sorvetes e não saiu mais do nosso lado. Plantou feito uma árvore, observando cada gesto nosso. Impávido!

Foi quando eu pedi licença ao grupo e avisei que iria ao banheiro. E fui. Mas na volta, passando por trás do garçom, saí sem chamar a atenção. Atravessei a rua e fiquei observando tudo de longe. Luiz Henrique, por sua vez, ao perceber que eu estava demorando, levantou-se e falou em voz alta para que o garçom pudesse ouvir: “vou ver se o Chau está passando mal no banheiro, uma vez que está demorando!” Saiu da mesa e usou a mesma estratégia que eu: quando retornou, deu a volta no salão e tomou o rumo da rua numa fuga silenciosa…

Conclusão: só restou o Marquinhos naquela mesa e o garçom prevendo o golpe, colou no único remanescente, sem dar trégua. Nesse momento, em pânico, Marquinhos tentou a última cartada: pediu a conta. Sua esperança era de que o garçom, ao sair para ir ao Caixa pedir a nota, pudesse dar a oportunidade para ele correr feito um louco.

Mas, como eu disse acima, o diabo é que o Marquinhos não havia feito pacto com a sorte. E para seu infortúnio, meus amigos, o garçom foi mais esperto e pediu a outro colega que trouxesse a conta daquela mesa. Com isso, ele ficou aguardando bem pertinho do pobre coitado do Marquinhos. Já viram, né? A conta veio e, como não havia outro jeito, Marquinhos puxou as únicas cédulas que tinha no bolso. No entanto, elas só quitavam o sorvete dele, não resolvendo a grande ‘questão’. Ele ainda tentou argumentar que estaria pagando a parte que consumiu e, portanto, não podia se responsabilizar pelos outros. Mas, o fato é que o gerente foi convocado e avisou que iria chamar a polícia…

O que sei dizer é que o ‘azarado’ do Marquinhos teve que ficar lavando as louças do restaurante até o fim do expediente, lá pelas duas da madrugada. Pois é: ‘deu ruim’ para ele. Fazer o quê?!

Nota: o bom e velho “Divino Bar’ (toldo vermelho) não existe mais… Como tantos outros, ele sucumbiu juntamente com o sofrido Rio de Janeiro.

PRESTANDO CONTAS A “ZEO”

Zeo foi meu irmão. Mas somente até os sete anos de idade. Porquanto ele quis partir mais cedo, talvez em busca de outros acolhimentos, vai saber?! Certo mesmo é que nós tivemos muitas conversas interrompidas. Sim! Conversas que poderiam me propiciar uma visão de mundo mais ajustada. No entanto, não ocorreram… Foi uma pena!

Por conta disso, eu fui obrigado a desbravar as estradas sem saber muito bem como agir, como adequar as rotas. Buscando tornar a travessia mais confortável. Por outro lado, sem os conselhos de Zeo, eu tive que desenvolver métodos intuitivos, bem como a capacidade de avaliação conforme o momento vivido. E isso, meus amigos, nem sempre a gente acerta a mão, não é verdade?

Daí, então, o mundo girou mais um bocado. E pôs à minha frente um sem-número de dúvidas e aflições. Assim, o processo de ‘crescimento’ aconteceu de modo forçado, sem o necessário tempo para depurar pequenas contradições. O me cabia, quando muito, era ter algumas conversas ‘ocultas’ com Zeo, tentando imaginar quais seriam os argumentos dele para cada episódio enfrentado. Algumas vezes isso dava certo. Mas, nem sempre!

O tempo foi passando e eu cresci de tamanho e de vontade de acertar. O diabo é que quanto mais se deseja acertar, ansiosamente, mais a gente acaba errando… Ah, meu prezado doutor Freud, por quê?! Por que é que a vida não facilita as coisas para os ‘necessitados’ de primeira hora? Por que o mundo não é capaz de ser ‘generoso’ com aqueles que pelejam feito doido em busca de rumos mais suaves?

Bem… O que eu posso dizer, minha gente, é que o processo de crescimento é difícil. Doloroso, até. Tem vezes que dá vontade de desistir e de pedir o ‘colo materno’, na esperança do acalento. Porém, logo a seguir, nós percebemos que “navegar é preciso”! E que temos que pagar o irremediável pedágio para descobrir como conduzir esse aprendizado. Com ou sem medos, com ou sem angústias, o fato é que temos que ‘tocar a vida’. Não há outra maneira!

Contudo, curiosamente, a vida vai nos empurrando pelos becos e esquinas. E de algum modo, ela acaba nos dando a chance de aprender a “soletrar o mundo”. Para que o infortúnio de Drummond não nos bata de forma tão dura: “Quarenta anos e nenhum problema resolvido / sequer colocado. / nenhuma carta escrita nem recebida. / Todos os homens voltam para casa. / Estão menos livres, mas levam jornais / e soletram o mundo, sabendo que o perdem.”

A verdade é que faz muito tempo que Zeo nos deixou. Com ele, foram-se também muitos sonhos e desejos de uma vida mais amena. Paciência, fazer o quê?! O jeito foi encarar a vida e ir à luta. Do melhor jeito que eu pudesse. Agora, se deu certo ou não, aí, são outros quinhentos. O importante foi continuar a caminhada tentando manter o coração íntegro. No fundo, eu acredito que obtive algum êxito, à medida que consigo olhar para trás e não sentir arrependimentos profundos. O que restou foi essa a sensação de que ‘toquei a vida’ com bastante amor e determinação. E isso já me basta, creiam-me.

O que ainda vem pela frente, ah, eu não sei dizer. Sei apenas que o tempo se encarregou de dissipar as lembranças de Zeo. Ao mesmo tempo, eu guardo a certeza de que tenho a meu lado dois solidários ‘escudeiros’: minha esposa e meu filho. Afinal de contas, eles têm sido a razão dessa caminhada de desafios em busca de novos sentidos, descobertas e alguns prazeres…

Abençoados sejam!

DROPS DE HORTELÃ

Entrar naquele recinto até que era bem fácil. Fácil mesmo. E chegando lá dentro, é verdade, havia um mundaréu de escolhas para fazer. Escolhas que dependiam do tamanho, por certo, uma vez que não se podia chamar a ‘atenção’ dos outros. Principalmente do guarda que ficava na entrada da loja.No entanto, devo reconhecer que por ser ‘calouro’, evidentemente, eu não possuía a manha adequada e nem a prática desse exercício. Afinal, segundo os mais velhos, “essa malandragem só se pega com o tempo!” Pois é… Tempo era o que eu mais tinha pela frente, meus amigos. Isto porque, convenhamos, sendo criança, todas as tardes da minha vida estavam disponíveis…Naquela tarde, em especial, eu havia programado assistir a sessão das quatro do Metro-Tijuca, com o Festival “Johnny Weissmuller”, interpretando o grande Tarzan. Céus, eu estava em êxtase, só imaginando aqueles gritos ecoando na sala: “ôôuuôôôôuuôôêêê!Empurrado pelos pensamentos, aprontei-me rapidamente e peguei o bonde que ia até a Muda da Tijuca. Esse bonde passava pela Praça Saens Peña que, na época, era a nossa “Broadway” tupiniquim. O fato é que nós tínhamos muito orgulho disso. Aliás, se não estou enganado, só ao redor da praça tinham mais de dez cinemas e outros dois ou três em ruas próximas. Havia filme para todo gosto. Lá, isso sim!Mas… Como eu ia dizendo, naquela tarde eu, Luiz Henrique e Edinho fomos para a praça com a intenção de receber aquela ‘adrenalina’ do Tarzan. Antes, porém, passamos nas “Lojas Americanas” para comprar guloseimas. Na verdade, era o Edinho que iria comprar, pois não lhe faltava dinheiro para isso. Luiz Henrique, como era comedido, sempre juntava ‘algum’. E eu, cá entre nós, andava mais ‘liso’ que retirante cearense. Paciência!Então, escolhemos as guloseimas e fomos em direção ao caixa. Luiz Henrique colocou o chocolate e a caixa de Mentex na esteira e pagou. Edinho, mais abastado, comprou chocolate, balas de goma e roscas de polvilho. E eu passei batido, alegando que não comprara nada. A moça do caixa disse ‘tudo bem’. Foi quando nos dirigíamos para a porta principal e o guarda me chamou: ‘ei, moleque, espere aí!”Eu fiz ‘cara de paisagem’ e continuei andando. No entanto, nem dei dois passos e senti aquela mão forte me segurando pelo punho. Puxou-me com força para o canto e disse: “não vai pagar pelo drops?!” Não deu nem tempo para eu responder e ele botou a mão no meu bolso e retirou o Dulcora de hortelã que havia. Minha gente, eu fiquei profundamente encabulado. Mais ainda quando o Edinho disse ao guarda que ele havia me dado de presente e que esquecera de acrescentar quando passou pelo caixa. Daí, tirou uma nota de cinco cruzeiros do bolso e entregou ao guarda para que ele pagasse no caixa, ao mesmo tempo em que se desculpava pelo esquecimento…Seguramente, essa foi a maior ‘lição’ que eu tive na infância. Confesso que nunca mais me senti tentado a pegar o que não me pertencia. Grande Edinho… Até hoje eu não havia agradecido a ele pelo gesto e, sobretudo, pela lição de vida!!

AS HERANÇAS DE CADA UM

É interessante observar como as coisas acontecem em nossas vidas. E, sempre que for possível, é ainda melhor perceber os efeitos e as consequências dessas passagens. Sim! Eu digo isso porque adquiri o hábito de ‘desentranhar’ velhas histórias, acontecimentos que passaram ao largo e não demos a devida importância.

Por sinal, foi com o seu Rodrigo, sargento aposentado da Marinha de Guerra, nos idos dos anos sessenta, que eu descobri essa capacidade de desembaralhar fatos, ‘causos’ e lembranças. É que o seu Rodrigo, apesar da idade avançada, possuía profunda paciência comigo e, assim, ajudou-me a desenvolver o caráter, bem como o meu imaginário. Nossas incontáveis conversas, ao pé da marquise da velha Zamenhof, no Estácio, foram determinantes nas minhas escolhas. Porquanto propiciaram reflexões e acolhimentos aos episódios da vida. Ah, minha gente, de uma coisa eu estou seguro: sempre serei grato aos ensinamentos que seu Rodrigo me oportunizou.

Aliás, por conta disso, de algum modo, eu passei parte da vida tentando entender as heranças que recebi dos ‘Antunes’ e dos ‘Menezes’, responsáveis por minha formação. É o tal negócio: em cada ‘pacote’ herdado, no fundo, há sempre a necessidade de se ‘inventariar’. Cuidadosamente. Para que a nossa cota desse latifúndio seja, de fato, bem-vinda e legitimada, não é mesmo?! Caso contrário, céus, haveremos de carregar, feito bolas de prisioneiros, alguns quilos de indesejáveis ‘presentes’ ou heranças indevidas.

O que posso dizer a vocês, meus amigos, é que esse processo é bastante demorado e, quem sabe, não termine nunca?! Pois é. Até porque, quando acreditamos que um determinado episódio foi encerrado, logo a seguir, percebemos que as memórias envolvidas estão ‘contaminadas’. Por isso mesmo, elas disseminam dúvidas sobre o ‘real’. Paciência! Por sorte, isso é algo que, com o tempo, aprendemos a aceitar: conviver com a dúvida!

É bem verdade que diversas vezes eu constatei, pelas reações de amigos e parentes, que as minhas memórias sofreram influências das minhas emoções. Sim… mas, e daí? São minhas as memórias (ou fantasias, como queiram!). Além do mais, elas não são expostas com o objetivo de ‘denigrir’ a imagem de quem quer que seja. Convenhamos, quando essas ‘lembranças’ são tomadas como textos literários elas adquirem o selo da liberdade de expressão. Sendo assim, as ‘criaturas’ envolvidas nos textos, por ato contínuo, acabam se tornando meros ‘personagens’ a serviço da ficção.

Entretanto, se for o caso, eu pedirei antecipadas desculpas aos que se sentirem referenciados nas minhas histórias. Saibam que eu respeito a todos, sejam amigos, parentes ou mesmo personagens. Enfim, tudo isso me fez lembrar de Cora Coralina. Certa vez, ela nos disse: “Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é decidir.”

( Foto: o meu velho e querido “Canelau” que, ao que tudo indica, apredeu a ‘soletrar o mundo’.)