A PSICANÁLISE E A REDENÇÃO DOS CONFLITOS

Há quem faça pouco caso sobre as premissas básicas da psicanálise, principalmente, no que diz respeito às repetições de modelos dos pais. Até aí, nada demais. Eu também devo ter incorrido nessa postura em algum momento da vida. Quem sabe acreditando ser exagerada a ideia de que os filhos buscam ‘repetir’ os exemplos dos pais?

Contudo, quanto mais a gente vive, mais consegue perceber o valor dessa premissa. E não estou aqui fazendo nenhuma contestação ao modelo paterno que herdei. Não! Como dizia Caetano – ‘cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Por isso mesmo, cada criatura deve dar conta do seu legado: tanto das heranças quanto das pendências inerentes. Até porque, esse legado será carregado nas costas por muito tempo, uma vez que essa estrada pode ser longa. E até traiçoeira. Afinal, durante o percurso, ela chega a ‘tramar’ contra o nosso destino. Vai entender?

O que importa, na realidade, é que não há nada de errado nesse processo. É preciso, tão somente, aprender a separar o ‘joio do trigo’. E assim, tornar o percurso mais ameno e proveitoso. Alguns poderão dizer: “aí é que mora o problema, Carlos!” Sim, sei disso. Aliás, nesse quesito, quando a gente não consegue mais dar conta da contabilidade emocional, o jeito, então, é apelar para ajuda externa. Ou seja, a psicanálise. Com isso, delega-se ao indefectível ‘divã’ o poder de nos conceder o salvo-conduto. Paciência, minha gente!

Também é verdade que essa escolha nos cobrará um alto preço a pagar. O diabo é que o preço cobrado não pode ser lançado em nenhuma planilha, pois a moeda contábil é outra. Céus! A partir daí, embarcado nessa nau redentora, ah, ninguém escapa ileso dos embates da terapia. Porquanto a prestação de contas se arrasta por um longo tempo. Somente depois disso é que receberemos o ‘alvará de soltura’. Ou a ‘carta de alforria’, como preferem alguns amigos do ramo.

Por fim, vejam vocês, foi assistindo ao belíssimo filme italiano, “Já era hora”, que eu pude realizar alguns aspectos concernentes ao tema. De fato, o filme é surpreendente. E nos arrebata desde o início da história. É que ao mesclar fantasia e realidade em prol de uma história diferente, o espectador é seduzido a se deixar levar pelo enredo. Sendo assim, quando menos espera, ele acaba sendo ‘raptado’. Inteiramente. Raptado pelo delírio da proposta. Raptado pelo desempenho dos atores. Até mesmo pelo final do filme que a gente até consegue prever, mas que ainda assim acolhe com todo endosso… Vida que segue!

(Ilustração da internet)

BERIMBAU E A PEQUENA CRUZADA

Naquela esquina imperava um rigoroso código de silêncio, minha gente. Aliás, não somente silêncio mas também de anuência explícita. Até porque, os que discordavam eram sumariamente discriminados pela turma da Zamenhof. Paciência. Assim era o Estácio nas décadas de 60, 70 e o início dos anos 80.

O fato é que havia ‘anuência’ da parte de todos. E o sujeito que quisesse ‘aparecer’, por certo, tinha que ser muito corajoso. Sim! Uma vez que a fiscalização era disseminada de modo intenso e invasivo. Desse modo, ninguém se arriscava a cometer qualquer deslise, sob pena de ser ‘banido’ do Estácio.

Há relatos de casos de insubordinação aos ‘combinados’ que apontam até para morte, como foi o caso do “Antônio Cabeleira”. Segundo consta, ele havia se enrabichado pela mulher do delegado do bairro. Daí, já viram, né? Um determinado dia ele foi cercado por alguns capangas e tomou uma tremenda surra. Só que dias depois ele foi visto entrando no Edifício Esperanto, bem na esquina da Zamenhof. Ainda que tentasse disfarçar com óculos escuros e chapéu Panamá, sempre há alguém que comenta e passa o serviço.

O que se soube é que foram seis tiros certeiros, a maioria no rosto. E “Antônio Cabeleira” agonizou na Sampaio Ferraz, bem em frente ao Bar Três Amigos. Lá dentro, ninguém comentava nada, como se não tivesse ocorrido o delito. Tão-somente. A vida parecia continuar tudo igual, com acaloradas discussões sobre futebol e o Fla-Flu do domingo…

Mas o que queria contar é sobre o companheiro Berimbau. Afinal, pelo que eu sei, ele foi o primeiro daquela imensa turma que assumiu o vício do ‘cigarrinho do capeta’. Seus olhos estavam sempre marejados e a visão distante, muito longe, acompanhava o sorriso sem sentido. O certo é que havia na turma insistentes comentários sobre essa ‘fraqueza’ dele. Tinha gente que até propunha a expulsão dele do grupo, pois consideravam má influência.

No entanto, meus amigos, a vida tem lá os seus caminhos e a forma de acomodar os fatos de um jeito mais eficiente. Assim é que não tardou muito e Berimbau começou a sofrer ‘esculachos’ pela turma da 18ª Delegacia Policial, da Praça da Bandeira. Toda hora passava uma viatura que, ao avistar o Berimbau, encurralava o sujeito na parede e o revistava dos pés à cabeça. Tapas e ameaças sempre aconteciam nesses encontros. Por conta disso, Berimbau tomou um ‘chá de sumiço’ e durante mais de um ano ninguém teve notícias dele. Sumiu!

Contudo, por ironia do destino, não é que o irmão mais velho de Berimbau, comissário de polícia no Leblon, foi promovido a Delegado e assumiu a 18ª? E o pior de tudo é que coube ao Berimbau ‘demonstrar’ a mudança de postura que a nova direção policial queria imprimir. Berimbau passou a alardear os malefícios do ‘cigarrinho maldito’, declarando-se ‘convertido’. Andava até com uma Bíblia debaixo do braço, conclamando todos daquela esquina para comparecerem ao culto das 20 horas na Igreja São Joaquim…

ERA DIA DE SÃO BARTOLOMEU

Pode-se dizer que Antônio era um sujeito diferente, daqueles que todos costumam considerar como um homem esquisito. Não que ele tivesse uma aparência estranha, vá lá. Afinal, apesar de ser um cara bonito, verdade é que havia muita coisa ‘desengonçada’ nele. O jeito torto de andar. A forma exagerada de falar. Sei não. No fundo, todos diziam que ele não batia bem da cabeça, isso sim!

No entanto, Antônio era um dos poucos daquela rapaziada do Estácio que tinha emprego público. E federal. E como ganhava bem, o povo desconfiava de alguma coisa errada. Primeiro porque ele vivia perambulado pela redondeza em pleno horário comercial. Além disso, todos sabiam da ‘fraqueza’ que ele tinha por corridas de cavalos. Um verdadeiro ‘sócio’ do Hipódromo da Gávea.

Até que um dia Antônio arrumou uma bonita namorada, moça de boa família, e isso ajudou a melhorar a imagem dele. Porquanto ele passou a frequentar o portão da namorada todos os dias, angariando a confiança de todos da vizinhança. E, por algum motivo que eu nunca entendi, Antônio gostava de conversar comigo. Tanto é verdade que após algum tempo eu comecei a entender as razões das corridas de cavalo. No fundo, apesar de ser esquisito, Antônio era bastante religioso. E me dizia que era devoto de São Bartolomeu e que iria ganhar muito dinheiro nas patas de um cavalo…

Lembro que naquela manhã de 24 de agosto, um lindo sábado ensolarado, Antônio apareceu bem cedinho no prédio da namorada. Não para procurá-la e sim para me convidar para assistir ao “Grande Prêmio Brasil”, no Hipódromo da Gávea. Topei na hora, embora nunca tivesse ido a uma corrida de cavalos. Lá chegando, ele me disse que por ser o “dia de São Bartolomeu”, havia muita chance de ganhar dinheiro. Segundo ele, por ser alfaiate, mesmo sem exercer a profissão, ele estaria ungido de bons presságios, amparado por São Bartolomeu, seu protetor.

O que eu posso dizer a vocês é que Antônio estava certo. No terceiro páreo daquela manhã, Antônio apostou todo o salário em um cavalo. Na ponta e na trifeta, veja vocês. Com isso, saiu de lá com mais de um milhão. Ao me abraçar, comemorando o feito inédito, ele quis me ofertar um bom dinheiro, mas eu não aceitei, pois não saberia justificar isso em casa. Só sei que a partir dali ele sumiu do bairro e nunca mais se soube do paradeiro dele. Há quem diga que ele perdeu tudo em outras apostas e ficou nas mãos dos agiotas. Outros afirmam que ele se envolveu com uma mulher casada e o marido ciumento o fez mudar de cidade. Enfim, vai saber?!

(Imagem ilustrativa do Grande Prêmio Brasil de 1968)

OS ESPELHOS DE CADA CRIATURA

Ah, minha gente, eu só posso dizer que já faz muito tempo. Sim! Foi muito antes de eu nascer. E foi Cecília Meireles que escreveu o antológico poema “Retrato”. Nele, a fabulosa Cecília derrama toda sua indignação contra o implacável ‘esmeril’ do tempo. Vale a pena lembrar:

“Eu não tinha este rosto de hoje,

Assim calmo, assim triste, assim magro, / Nem estes olhos tão vazios,

Nem o lábio amargo. / Eu não tinha estas mãos sem força, / Tão paradas e frias e mortas;

Eu não tinha este coração / Que nem se mostra. / Eu não dei por esta mudança,

Tão simples, tão certa, tão fácil: — Em que espelho ficou perdida a minha face?”

Pois não é que eu acordei hoje lembrando desses versos? Quem sabe, por estar próximo ao aniversário de 72 anos, eu esteja experimentando as primeiras dores narradas no impiedoso poema? Vai saber? Afinal, as pernas já não são as mesmas de outras épocas e reclamam o tempo de serviço prestado. Tão pouco a visão consegue descortinar aquelas paisagens que em outros tempos eu me deliciava em apreciar. Pois é. Talvez, alguém corra para me dizer que “esse processo é natural e não pode ser evitado, Carlos”. Tudo bem, sei disso. Mas, ainda assim, não me sinto confortado, meus amigos.

Só para ilustrar, lembro que na tardinha de hoje, eu saí para comprar materiais de construção para a reforma do banheiro. E na volta para casa, ao fazer uso da Via Expressa, com seu movimentadíssimo trânsito de veículos, eu me dei conta de que não estou enxergando bem e tenho dificuldades em fixar a visão no veículo da frente. Por ser portador de glaucoma e pingar cinco gotas diárias de colírios há mais de quinze anos, eu percebo que meus olhos estão exauridos de tanta química. Chego a acreditar que os meus dias de condutor de automóvel estão se encerrando. Não quero correr riscos desnecessários e nem provocar acidentes!

Por outro lado, também é verdade que a ‘maior idade’ me trouxe coisas preciosas. Como a capacidade de deixar as emoções fluírem mais intensamente em meu coração. Sim! Isto porque, quando se é jovem, parece que colocamos uma enorme barreira à nossa frente. De tal maneira, que o direito de viver as emoções fica quase interditado…

No entanto, não estou aqui a lamentar o meu destino. Muito ao contrário, sinto-me um privilegiado nessa vida. E tenho procurado ‘ajudar’ a minha trajetória fazendo o que está a meu alcance. Boa alimentação. Exercícios diários na academia de ginástica. E aproveitar ao máximo as vantagens da bendita aposentadoria: viagens, bons livros, filmes e amigos ao redor. O resto…  bem…  o resto é com aquele senhor lá de cima. Afinal, se o meu pai completou 100 anos de vida, quem sabe a genética forneça aquela preciosa ‘ajudinha’?!

( Imagem: a inesquecível Corfú, na Grécia)

OUTROS TEMPOS

Dizem que as criaturas, por mais dóceis que sejam, já tiveram uma fase ‘carbonária’ em algum momento da vida. Depois disso, é claro, elas navegam por mares mais plácidos e a vida segue outro ritmo. Pois é. Talvez isso seja um processo natural de amadurecimento, visto que até mesmo no reino animal a gente verifica esse comportamento. Vai saber?!

De certo modo, eu tenho a impressão de que ocorre situação semelhante na música. Porquanto a maturidade musical, muitas vezes, acaba sucedendo os ‘ímpetos juvenis’, criando assim interpretações mais serenas, intimistas e pessoais…

Portanto, para que não paire nenhuma dúvida sobre o meu gosto musical, eu trago hoje no cardápio, à guisa de ilustração, o exemplo do nosso extraordinário pianista Thelonious Monk. Ah, minha gente, como se diz lá no meu Ceará: vixe… eta cabra bom! Guerreiro!

É bem verdade que o disco em questão, intitulado “Underground”, possui dois aspectos que podem nos induzir ao erro. Primeiro pela capa do disco que, conforme pode ser vista, é a representação do pianista ‘guerrilheiro’. Literalmente. Depois, pelo disco em si: lindo, suave e harmonioso. Um verdadeiro contraste. Em algumas faixas, por exemplo, surge o sax tenor de Charlie Rouse com doces variações sobre os temas propostos por Monk. Além disso, temos uma faixa vocal bônus, com Jon Hendricks, “In Walked Bud”. Arrebatadoramente bela!

Então, pelo sim ou pelo não, meus amigos, aguerrido que fui em outros tempos, eu levanto um brinde ao ímpeto de Monk, que nunca fez concessões ao mundo comercial. Sim! Ele conseguiu se manter íntegro na linha musical escolhida, gostem ou não os senhores donos dos ‘estabelecimentos’.

De uma coisa eu tenho certeza: se ele vivesse em São Paulo ou Rio de Janeiro, ah, por certo nos diria sem medo: “é nóis, mano!”

HERANÇAS  COMPARTILHADAS

Lembro que em 2001 eu ainda fumava: céus, que maldição foi aquela?! E morava na bela Lagoa da Conceição, aqui em Florianópolis. Por sinal, tinham completados quatro anos que eu havia me mudado do Rio de Janeiro para essa ilha paradisíaca. Na bagagem, reconheço, além de muitas dores pelo fim do casamento, eu carregava também fortes esperanças em me redimir. Porquanto, no fundo, a gente sempre imagina que os caminhos serão alvissareiros e que atravessaremos todos eles com eficiência e galhardia.

Não é que passados dois anos, sem querer, eu encontrei o grande amor da minha vida?! E com ela pretendo viver o resto dos meus dias. Ah, não sem antes trazer ao mundo um lindo e desejado filho. O filho que tanta falta me fez nos dois casamentos anteriores. Pois é. O amor, pelo visto, resolveu me oferecer uma terceira chance e me presenteou com a chegada de Gabriel, ainda que não atinasse para o que isso representaria em minha vida. Somente aos poucos eu fui percebendo que aquela criança iria mudar o mundo. Ao menos, o meu mundo!

Logo de cara, ele me fez parar de fumar. Sim! Afinal, era perceptível que se eu quisesse acompanhar a vidinha dele por um longo tempo, por certo, não conseguiria sendo fumante. O que eu não sabia era que a força do amor por um filho fosse capaz de retirar de mim tamanho apego tabagista. Representou o primeiro sinal de uma nova vida…

O diabo é que a gente não recebe da cegonha o ‘manual de instruções’. Daí, então, apanha um bocado na criação dos filhos. Paciência. Mas, se por um lado a gente comete uma infinidade de enganos na educação deles, por outro, vale a pena deixar aflorar os sentimentos escondidos nos escaninhos da paternidade. Isso porque, a eterna luta entre o ‘discurso’ e ‘prática’ acabam encontrando as soluções para cada embate.

De fato, eu acredito que errei bem mais do que acertei na educação do Gabriel. É algo que eu consigo perceber agora. Contudo, também percebo que a natureza humana é generosa o suficiente para ‘perdoar’ os deslises cometidos. Tanto é verdade, que hoje em dia, no auge dos seus 20 anos de idade, constato que ele se tornou uma criatura muito interessante. Dessas que dão orgulho em participar na trajetória dele. Aliás, um velho amigo, certa vez me sentenciou: “os filhos não são nossos, Carlos. São do mundo! E não há muito o que fazer por eles. Basta apenas não atrapalhar o caminho escolhido…”

Sendo assim, meus amigos, de um jeito ou de outro, acertando aqui e errando acolá, o que eu posso dizer é que o conterrâneo Ednardo tinha razão. Na peleja dessa vida, Gabriel haverá de encontrar os parceiros certos para todas as empreitadas. E aprenderá a estabelecer com as relações a confiança para conduzir o seu valioso destino. “Não temas, minha donzela / Nossa sorte nessa guerra / Eles são muitos / Mas não podem voar…”   

Arrivederci, Roma!

Têm vezes que sair de um lugar ou de uma relação é algo muito difícil, meus amigos. Isto porque o ‘rompimento’ encerra emoções muito profundas, vindas de lugares pouco explorados por nós… Por isso, creio que seja bem o meu caso. Afinal, eu já havia conhecido ‘Roma’ por duas vezes. Mas nunca foi igual a essa vez. Nem sei porquê. Ao que parece, eu me apaixonei profundamente, feito um adolescente. Sim! Uma desenfreada paixão por aquela jovem morena, que me pegou de um jeito ‘inesperado’. E ela, talvez respondendo aos meus acenos, aceitou o meu assédio e o namoro de modo incontido. Pimba! Grudamos um no outro de forma que não conseguíamos mais nos largar. Fazer o quê?!

Talvez, por isso, eu intua que a separação vai ser doída… Daí, no fim das contas, restarão apenas as memórias dos ‘encontros’ nada soturnos. E desse modo, celebraremos cada qual ao seu jeito os simbólicos brindes de despedida, ocorridos nas lindas noites de lua cheia…

Ciao, amore mio. Arrivederci!

HORÓSCOPO

Como dizem por aí: não está fácil pra ninguém! Pois é. O que sei é que tem vezes que o cara anda tão azarado que se jogar a moeda para o alto, ao cair, em vez do ‘cara ou coroa’, não é que a famigerada cai em pé?! Céus, pode isso?!

Então, pelo sim ou pelo não, é recomendado ter um pouco mais de prudência em determinadas horas ou períodos da vida. Isto porque, para muitas criaturas o que vale é a famigerada “Lei de Murphy”, ou seja, se há alguma possibilidade de algo dar errado, por certo, dará!

Meu Deus…  O que é isso, pessoal? Acho que está havendo exagero no trato dessas questões. Além do mais, não estou aqui para trazer agouros para ninguém e tampouco quero alarmar os amigos com notícias trágicas… Não! Calma aí, minha gente. Na verdade, o que eu gostaria era apenas trazer à baila, como reflexão, que a gente é responsável por tudo que nos ocorre, direta ou indiretamente. Ah, lá, isso sim. Pois não adianta ficar varrendo para debaixo do tapete as nossas idiossincrasias. Afinal, mais dia menos dia a coisa estoura e a conta vem pesada, não é assim?

Portanto, o melhor a fazer é ficar atento aos caminhos que trilhamos e procurar perceber como estamos conduzindo o nosso destino. No fim das contas, com um pouco mais de atenção e zelo, seguramente, podemos evitar a ‘repetição’ de pequenos erros. Desses que, com o tempo, se acumulam perigosamente. É o tal negócio: a maior ameaça ocorre devido ao empilhamento desses pequenos e cotidianos enganos… Quando desabam, é um verdadeiro sai de baixo!

O diabo é que não existe ‘receita de bolo’ para as nossas emoções. Certo mesmo é que cada um “sabe a dor e a delícia de ser o que é”, como bem disse Caetano Veloso. Céus… Que verdade!

O jeito, então, é aprender a desenhar os nossos limites. E acreditem: todos nós temos limites. Ao aceitarmos essa verdade, quem sabe possamos tirar melhor proveito da vida? Sim! De fato, poderemos até mesmo conquistarmos a tão sonhada ‘felicidade”. E assim, espalharemos pelo mundo um espectro de energia mais positiva e produtiva. Ah, tomara, minha gente… o mundo bem carece dessa possibilidade.

O que sei é que ao ler o jornal de hoje, após tantas notícias complicadas, eu acabei na página de horóscopo, vejam vocês. Lá, estava escrito a ‘previsão’ para o meu signo, leão: “Suas certezas são sagradas, mas é preciso admitir que são divindades temporárias. Você já teve certezas que perderam a validade, mas, enquanto eram vigentes, você as tratava com a mesma reverência como que trata as atuais.”

(Charge do Chantecler)

A RODA-GIGANTE DA VIDA

Há quem faça pouco caso sobre as premissas básicas da psicanálise. Principalmente, no que diz respeito às repetições de modelos dos pais. Até aí, nada demais. Eu também devo ter incorrido nessa postura em algum momento da vida. Quem sabe acreditando ser exagerada a ideia de que os filhos buscam repetir a figura dos pais?

Contudo, quanto mais a gente vive, mais consegue perceber o valor dessa premissa. E não estou aqui fazendo nenhuma contestação ao modelo paterno que herdei. Não! Como já nos disse Caetano – ‘cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Por isso mesmo, deve dar conta das suas heranças e pendências. Até porque, esse legado será carregado nas costas por muito tempo. Porquanto essa estrada, para alguns, pode ser longa. E algumas vezes, até traiçoeira. Afinal, ela consegue ‘tramar’ contra o nosso destino. Vai saber…

No fim das contas, a verdade é que não há nada errado nesse processo. O que é preciso é aprender a separar o ‘joio do trigo’. Assim, podemos tornar o percurso mais ameno e proveitoso. E nesse quesito, quando a gente não consegue mais dar conta dessa contabilidade, o jeito é apelar para a psicanálise. Sim! Somente o indefectível ‘divã’ poderá nos conceder o salvo conduto. Fazer o quê?!

É bem verdade que essa escolha nos cobrará um alto preço a pagar. O diabo é que a moeda utilizada não pode ser lançada em nenhuma planilha contábil. A partir daí, embarcado nessa nau redentora, ah, ninguém escapa ileso dos embates da terapia.  Pois a prestação de contas se arrasta por um longo tempo. Só depois disso é que receberemos o alvará de soltura. Ou a ‘carta de alforria’, como preferem alguns amigos.

Aliás, vejam vocês, foi assistindo ao belíssimo filme italiano, intitulado “Já era hora”, que eu pude compreender algumas questões desse tema. O filme é surpreendente e nos arrebata desde o início da história, minha gente. É que ao mesclar fantasia e realidade em prol de uma história diferente, o espectador é convidado a se deixar levar pelo enredo. Então, seduzido por isso, quando menos espera, ele acaba sendo raptado. Raptado pelo delírio da proposta do filme. Raptado pelo desempenho dos atores. Até mesmo pelo final da história, que a gente consegue prever, mas que, ainda assim, endossa sem reclamar…

No final do filme, devo confessar que me senti bastante emocionado. Sim! Fiquei tocado pela história habilmente narrada, porque me dei conta de que a minha relação com meu pai viveu situações parecidas. De fato, houve época em que eu admirava profundamente os pensamentos dele. Por outro lado, também houve momentos em que eu o contestei dos pés à cabeça. Tudo bem que isso não é algo inédito. Muitos outros filhos trilharam estradas semelhantes. Porém, eu me refiro a intensidade dos nossos movimentos. É que a nossa relação de pai e filho ainda hoje encontra dificuldades, apesar das nossas idades. Por certo, há muito amor presente, bem como lealdade. Porém, vivemos alguns períodos de afastamentos por conta dos nossos temperamentos.

O que eu posso dizer é que meu pai completará, em junho próximo, o seu centenário de vida… Céus, 100 anos é para poucos. Muito poucos! E em julho, eu completarei 72 anos. Com isso, seguramente alguém perguntará: “Carlos, com toda essa idade em pauta, ainda há tempo para desavenças?”

Pois é. Não devia. É claro que não devia. De minha parte, eu asseguro: não haverá mais!

Toda essa trajetória me fez lembrar a primeira vez que subi em uma roda-gigante. Na época, eu devia ter uns doze ou treze anos de idade. Foi no Tívole Park, que ficava na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. Lembro bem que eu estava muito receoso, com mãos trêmulas e o coração disparado. No entanto, cada vez que a roda-gigante subia mais um pouquinho, apesar do medo, ah, mais feliz eu ficava. Até que cheguei ao topo e descobri que a vista era deslumbrante. Descobri também que o meu olhar sobre o ‘mundo’ podia mudar a cada momento. E essa percepção foi absolutamente arrebatadora. Já que, no fim das contas, assim é a vida!

Foto: A famosa roda-gigante de Londres, “London Eye”.

BAÚ DE MEMÓRIAS

Holdemar Menezes, meu querido tio, deixou muitas saudades. E, de quebra, deixou também memoráveis histórias. Lembro que certa vez o ‘nego velho’ sentou-se na confortável poltrona que existia no escritório de sua casa para me contar como o poeta Manuel Bandeira criou o antológico poema “Pasárgada”. Aliás, Holdemar era uma dessas criaturas de voz serena e pausada, sempre disposto a um gostoso papo literário. Falava como se tivesse a absoluta certeza de que eu me emocionaria com a história. O pior é que ele tinha razão. Sempre! Contou-me, então, que Manuel Bandeira ainda era adolescente e aluno de grego no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, quando o ‘tema’ surgiu. Numa determinada aula, o poeta ficou encantado em saber que Ciro, fundador do Império Persa, possuía uma cidadezinha onde passava os verões. Daí, o imaginário do poeta iniciou a construção… Bem, eu não asseguro se foi exatamente assim que ocorreu a criação, mas, convenhamos, isso pouco importa. O certo é que até hoje eu acredito nessa ‘bela história’ e repassei esse legado aos meus alunos. Então, quem quiser que conte outra!

Verdade é que eu não tenho uma “Ciropédia” nem uma “Pasárgada” para passar os verões da minha vida, mas possuo Florianópolis, que suplanta muitas cidades do mundo. Ah, lá, isso é verdade! Isto aqui, meus amigos, é um paraíso abençoado, capaz de saciar os olhos de qualquer criatura ávida pelos verdes das encostas e do azul profundo do mar. Esta ilha, tão cantada em verso e prosa, tornou-se o meu ‘porto seguro’. Mais do que isso: tornou-se o meu “Farol de Alexandria” e a “Pasárgada” que tanto sonhei. Floripa mantém igual encantamento e magia narradas pelo poeta, e recebe a todos com um brilho inigualável estampado no ar. Ilha feiticeira, imponente e orgulhosa. Ilha da mulher rendeira e do pescador solitário de hábitos simples. Por onde quer que se ande, encontra-se uma gente feliz e sorridente. Indiferentes ao progresso, à agitação dos grandes centros, mas nem por isso menos sábios no ‘sentir’. Oxalá eu possa viver cem anos, feito o meu pai, só para acompanhar a sua indisfarçável beleza! Ao menos, tomara que a vida conserve minhas pernas sempre saudáveis para que eu possa tomar a orla da Lagoa da Conceição e me deliciar com poente ensanguentado, tombando logo após as dunas…

Manuel Bandeira nos mostrou, com orgulho, a sua imaginária cidade: “Vou-me embora pra Pasárgada / Lá sou amigo do rei / Lá tenho a mulher que eu quero / Na cama que escolherei / Em Pasárgada tem tudo / É outra civilização / Tem um processo seguro / De impedir a concepção / Tem telefone automático / Tem alcaloide à vontade / Tem prostitutas bonitas / Para a gente namorar”.

É, meu querido poeta, sorte a sua. E sorte a minha, pois também tenho ao meu lado a mulher que eu quero… Isso é bom demais! Talvez, para ser mais fiel e justo, eu devesse festejar ao seu estilo: “Montarei em burro brabo / Subirei no pau-de-sebo / Tomarei banhos de mar! / E quando estiver cansado / Deito na beira do rio / Mando chamar a mãe-d’água / Pra me contar as histórias / Que no tempo de eu menino / Rosa vinha me contar… / E quando eu estiver mais triste / Mas triste de não ter jeito / Quando de noite me der / Vontade de me matar / Vou-me embora pra Pasárgada / Lá sou amigo do Rei”.

Por tudo isso, meus amigos, eu festejo a lembrança desse maravilhoso tio Holdemar, bem como desses versos eternos do nosso poeta maior. Abençoados sejam!

Manuel Bandeira (RECIFE, abril de 1886 — RIO DE JANEIRO, outubro de 1968)

Holdemar Menezes (ARACATI, dezembro de 1921 – FLORIANÓPOLIS, agosto de 1996)