A RODA-GIGANTE DA VIDA

Há quem faça pouco caso sobre as premissas básicas da psicanálise. Principalmente, no que diz respeito às repetições de modelos dos pais. Até aí, nada demais. Eu também devo ter incorrido nessa postura em algum momento da vida. Quem sabe acreditando ser exagerada a ideia de que os filhos buscam repetir a figura dos pais?

Contudo, quanto mais a gente vive, mais consegue perceber o valor dessa premissa. E não estou aqui fazendo nenhuma contestação ao modelo paterno que herdei. Não! Como já nos disse Caetano – ‘cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Por isso mesmo, deve dar conta das suas heranças e pendências. Até porque, esse legado será carregado nas costas por muito tempo. Porquanto essa estrada, para alguns, pode ser longa. E algumas vezes, até traiçoeira. Afinal, ela consegue ‘tramar’ contra o nosso destino. Vai saber…

No fim das contas, a verdade é que não há nada errado nesse processo. O que é preciso é aprender a separar o ‘joio do trigo’. Assim, podemos tornar o percurso mais ameno e proveitoso. E nesse quesito, quando a gente não consegue mais dar conta dessa contabilidade, o jeito é apelar para a psicanálise. Sim! Somente o indefectível ‘divã’ poderá nos conceder o salvo conduto. Fazer o quê?!

É bem verdade que essa escolha nos cobrará um alto preço a pagar. O diabo é que a moeda utilizada não pode ser lançada em nenhuma planilha contábil. A partir daí, embarcado nessa nau redentora, ah, ninguém escapa ileso dos embates da terapia.  Pois a prestação de contas se arrasta por um longo tempo. Só depois disso é que receberemos o alvará de soltura. Ou a ‘carta de alforria’, como preferem alguns amigos.

Aliás, vejam vocês, foi assistindo ao belíssimo filme italiano, intitulado “Já era hora”, que eu pude compreender algumas questões desse tema. O filme é surpreendente e nos arrebata desde o início da história, minha gente. É que ao mesclar fantasia e realidade em prol de uma história diferente, o espectador é convidado a se deixar levar pelo enredo. Então, seduzido por isso, quando menos espera, ele acaba sendo raptado. Raptado pelo delírio da proposta do filme. Raptado pelo desempenho dos atores. Até mesmo pelo final da história, que a gente consegue prever, mas que, ainda assim, endossa sem reclamar…

No final do filme, devo confessar que me senti bastante emocionado. Sim! Fiquei tocado pela história habilmente narrada, porque me dei conta de que a minha relação com meu pai viveu situações parecidas. De fato, houve época em que eu admirava profundamente os pensamentos dele. Por outro lado, também houve momentos em que eu o contestei dos pés à cabeça. Tudo bem que isso não é algo inédito. Muitos outros filhos trilharam estradas semelhantes. Porém, eu me refiro a intensidade dos nossos movimentos. É que a nossa relação de pai e filho ainda hoje encontra dificuldades, apesar das nossas idades. Por certo, há muito amor presente, bem como lealdade. Porém, vivemos alguns períodos de afastamentos por conta dos nossos temperamentos.

O que eu posso dizer é que meu pai completará, em junho próximo, o seu centenário de vida… Céus, 100 anos é para poucos. Muito poucos! E em julho, eu completarei 72 anos. Com isso, seguramente alguém perguntará: “Carlos, com toda essa idade em pauta, ainda há tempo para desavenças?”

Pois é. Não devia. É claro que não devia. De minha parte, eu asseguro: não haverá mais!

Toda essa trajetória me fez lembrar a primeira vez que subi em uma roda-gigante. Na época, eu devia ter uns doze ou treze anos de idade. Foi no Tívole Park, que ficava na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. Lembro bem que eu estava muito receoso, com mãos trêmulas e o coração disparado. No entanto, cada vez que a roda-gigante subia mais um pouquinho, apesar do medo, ah, mais feliz eu ficava. Até que cheguei ao topo e descobri que a vista era deslumbrante. Descobri também que o meu olhar sobre o ‘mundo’ podia mudar a cada momento. E essa percepção foi absolutamente arrebatadora. Já que, no fim das contas, assim é a vida!

Foto: A famosa roda-gigante de Londres, “London Eye”.

BAÚ DE MEMÓRIAS

Holdemar Menezes, meu querido tio, deixou muitas saudades. E, de quebra, deixou também memoráveis histórias. Lembro que certa vez o ‘nego velho’ sentou-se na confortável poltrona que existia no escritório de sua casa para me contar como o poeta Manuel Bandeira criou o antológico poema “Pasárgada”. Aliás, Holdemar era uma dessas criaturas de voz serena e pausada, sempre disposto a um gostoso papo literário. Falava como se tivesse a absoluta certeza de que eu me emocionaria com a história. O pior é que ele tinha razão. Sempre! Contou-me, então, que Manuel Bandeira ainda era adolescente e aluno de grego no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, quando o ‘tema’ surgiu. Numa determinada aula, o poeta ficou encantado em saber que Ciro, fundador do Império Persa, possuía uma cidadezinha onde passava os verões. Daí, o imaginário do poeta iniciou a construção… Bem, eu não asseguro se foi exatamente assim que ocorreu a criação, mas, convenhamos, isso pouco importa. O certo é que até hoje eu acredito nessa ‘bela história’ e repassei esse legado aos meus alunos. Então, quem quiser que conte outra!

Verdade é que eu não tenho uma “Ciropédia” nem uma “Pasárgada” para passar os verões da minha vida, mas possuo Florianópolis, que suplanta muitas cidades do mundo. Ah, lá, isso é verdade! Isto aqui, meus amigos, é um paraíso abençoado, capaz de saciar os olhos de qualquer criatura ávida pelos verdes das encostas e do azul profundo do mar. Esta ilha, tão cantada em verso e prosa, tornou-se o meu ‘porto seguro’. Mais do que isso: tornou-se o meu “Farol de Alexandria” e a “Pasárgada” que tanto sonhei. Floripa mantém igual encantamento e magia narradas pelo poeta, e recebe a todos com um brilho inigualável estampado no ar. Ilha feiticeira, imponente e orgulhosa. Ilha da mulher rendeira e do pescador solitário de hábitos simples. Por onde quer que se ande, encontra-se uma gente feliz e sorridente. Indiferentes ao progresso, à agitação dos grandes centros, mas nem por isso menos sábios no ‘sentir’. Oxalá eu possa viver cem anos, feito o meu pai, só para acompanhar a sua indisfarçável beleza! Ao menos, tomara que a vida conserve minhas pernas sempre saudáveis para que eu possa tomar a orla da Lagoa da Conceição e me deliciar com poente ensanguentado, tombando logo após as dunas…

Manuel Bandeira nos mostrou, com orgulho, a sua imaginária cidade: “Vou-me embora pra Pasárgada / Lá sou amigo do rei / Lá tenho a mulher que eu quero / Na cama que escolherei / Em Pasárgada tem tudo / É outra civilização / Tem um processo seguro / De impedir a concepção / Tem telefone automático / Tem alcaloide à vontade / Tem prostitutas bonitas / Para a gente namorar”.

É, meu querido poeta, sorte a sua. E sorte a minha, pois também tenho ao meu lado a mulher que eu quero… Isso é bom demais! Talvez, para ser mais fiel e justo, eu devesse festejar ao seu estilo: “Montarei em burro brabo / Subirei no pau-de-sebo / Tomarei banhos de mar! / E quando estiver cansado / Deito na beira do rio / Mando chamar a mãe-d’água / Pra me contar as histórias / Que no tempo de eu menino / Rosa vinha me contar… / E quando eu estiver mais triste / Mas triste de não ter jeito / Quando de noite me der / Vontade de me matar / Vou-me embora pra Pasárgada / Lá sou amigo do Rei”.

Por tudo isso, meus amigos, eu festejo a lembrança desse maravilhoso tio Holdemar, bem como desses versos eternos do nosso poeta maior. Abençoados sejam!

Manuel Bandeira (RECIFE, abril de 1886 — RIO DE JANEIRO, outubro de 1968)

Holdemar Menezes (ARACATI, dezembro de 1921 – FLORIANÓPOLIS, agosto de 1996)

UMA VELHA HISTÓRIA

A ordem foi bem clara: aguardar a chegada da Kombi na esquina da Rio Branco com a Presidente Vargas, em frente ao prédio do Banco do Brasil. E mais: impreterivelmente, às 19 horas. A senha para o reconhecimento seria: “ONDE FICA SÃO CRISTÓVÃO?” E a resposta deveria ser: “BASTA SEGUIR EM FRENTE!”

Como Amaral trabalhava ali perto, teve tempo de tomar um café com leite e comer um pão com manteiga, pois sabia que a empreitada seria longa. Muita longa. Assim, por precaução, ele comprou um maço de Continental e uma revista de palavras cruzadas. Afinal, nunca se sabe o tempo de espera. Além disso, Amaral conhecia muito bem os ‘ritos’ que o Partido determinava em encontros clandestinos. E esse, convenhamos, não era um encontro qualquer. Ah, não! Por certo, era o encontro mais importante de sua vida!

Às 19 horas, pontualmente, ele ouviu a discreta buzina da Kombi. Logo a seguir, vieram os protocolos de identificação e, ao confirmarem as senhas, ele entrou rapidamente no veículo. Abriu a porta traseira e sentou-se no último banco. Dali, eles pegaram a avenida Presidente Vargas em direção ao Gasômetro, via Francisco Bicalho. Foi quando o motorista avisou que ele devia vendar os olhos, tão logo entrassem na Avenida Brasil.

Dito e feito. Amaral era uma criatura muito disciplinada e seguia todas as regras de segurança. Além do mais, ele sabia que a viagem seria longa e sem conversas. Apenas o rádio da Kombi quebraria o silêncio, transmitindo o hilário programa “Balança mas não cai”. O motorista, de codinome ‘Serjão’, era de pouca conversa, embora soltasse discretos sorrisos por conta do programa do rádio.

Foram quase cinco horas de viagem e Amaral percebeu que o motorista deu muitas voltas em estradas esburacadas, o que tornou o trajeto mais cansativo e tenso. Somente por volta da meia-noite eles chegaram ao destino. Desceu da Kombi e, relaxando a musculatura, pode tirar a venda dos olhos. Mas pouco adiantou, pois o pequeno sítio era muito escuro, quase sem lâmpadas. Entrou na casa e recebeu a instrução de que aguardasse a chegada do ‘chefe’. Isso, porém, só ocorreu às três da madrugada, quando as portas do escritório se abriram e Amaral foi avisado de que deveria entrar no gabinete. Caminhou lentamente, sentindo forte pressão no peito. Mal disfarçava a tremedeira nas pernas…

No entanto, esse intervalo de tempo foi proveitoso, já que permitiu a Amaral o ajuste do raciocínio, Com isso, ele conseguiu pôr em ordem os argumentos que iria abordar. Por ser um homem metódico, Amaral anotava no pequeno caderno de bolso os principais tópicos. “O resto vai ser no improviso!”, pensou aliviado.

O fato é que toda essa espera gerava uma tremenda aflição, justificada, uma vez que a figura de Prestes era idolatrada dentro do Partido. Qualquer um daria tudo para estar frente a frente com o Secretário Geral. E para muitos, isso representava uma condecoração de alto valor: poder, enfim, participar dos ‘rumos’ do Partido.

É bem verdade que ele nunca havia se encontrado com o ‘camarada chefe’. Conhecia a figura apenas pelas fotos dos jornais e pelas informações nos bastidores. Luís Carlos Prestes, ao cumprimentá-lo, parecia não saber sobre o papel que o companheiro desempenhava no Partido. Tanto é que iniciou a conversa indagando sobre as movimentações e manobras na ‘célula’ do sindicato. Amaral, por sua vez, estranhou o equívoco e identificou-se como elemento que atuava no Banco do Brasil, vindo prestar contas sobre os processos de sua ‘célula’. Conforme ia narrando as estratégias que eram usadas, percebia que o ‘chefe’ estava desinformado. Pior ainda: de quando em quando, Prestes perguntava alguma coisa aos seus assessores a respeito do que estava sendo relatado.

Naquele momento, Amaral se lembrou da piada que circulava nos bastidores: “só levam ao conhecimento do ‘chefe’ os assuntos que são do interesse do escalão superior”. Até porque, assessor que se preza, espertamente, fornece apenas as ‘boas notícias’.

Passados cinquenta minutos de conversa, Amaral já se sentia bastante decepcionado com o encontro. Isso porque, ele foi se dando conta de que as ‘velhas leis’ que regem os estatutos do Partido, no fundo, são apenas discursos retóricos. Algo que não funciona mais. Ou, quem sabe, nunca funcionou?! Fazem parte do ‘manual’. Tão somente.

Talvez, por conta disso, Amaral tenha se ‘encorajado’ a cobrar mais transparência do Comitê Central, na figura do Secretário-Geral Luís Carlos Prestes. Foi daí que ele iniciou uma longa exposição de motivos baseados nos mais de vinte anos de militância dentro do Partido. Apontou enganos, salientou desvios, traçou estratégias, enfim, expôs as ‘ideias’ da turma do baixo clero… Ao final da argumentação, ele ouviu do secretário que estava coberto de razões. Que mudanças deveriam ocorrer imediatamente, para o bem da causa e do Partido. Prestes, aproveitou o ‘palanque’ e determinou novas orientações para os assessores que, evidentemente, concordaram em gênero, número e grau com o chefe. Até mesmo o parabenizaram pelas soluções criadas…

Amaral saiu de lá exultante, sentindo-se vitorioso. Ao mesmo tempo, durante o percurso da volta, sentia uma pontada de descrença fustigando os pensamentos. Mesmo assim, tentando se convencer da vitória, pensou: “agora sim, as coisas vão mudar!”

Contudo, decorridos seis meses após o encontro, o bravo camarada Amaral percebeu que nada havia mudado e que os equívocos do velho “Partidão” continuavam iguais… ou piores!

Sim! Foi um duro golpe para ele. Principalmente, por entender que os companheiros da turma de baixo acreditavam profundamente nessas mudanças. E ‘esperança’, meus amigos, é algo que não se posterga. Tampouco se negocia.

Foi assim que o companheiro Amaral, descrente e desestimulado, abandonou o Partido. Saiu com a certeza de que até mesmo o secretário-geral tinha se tornado vítima da ‘burocracia interna’. Paciência. Pelo visto, a ‘engrenagem emperrou’! Fazer o quê?!

AS CURVAS DA ESTRADA

Dizem que o homem é um ser altamente saudosista. Porquanto basta um pequeno palanque e lá estará ele se desdobrando em reminiscências. Pois, agora… Será isso verdade ou é mais uma das consequências da era moderna?

Sei não, meus amigos. Pelo sim ou pelo não, o fato é que de uns tempos para cá eu me vi enredado nessa inebriante ‘teia de recordações’. Algo que vai das lembranças dos bons momentos vividos aos os episódios mais aflitivos. No fundo, reconheço, está valendo tudo nessa espiral sem fim… Vai saber?!

Aliás, se observarmos bem, veremos que isso é mais comum do que se imagina. Até porque, nesses tempos bicudos, tem sobrado pouca coisa para comemorarmos, não é verdade? É um tal de sufoco aqui, encrenca acolá e, entre os dois, uma montoeira de problemas. Sim! Ao que tudo indica, o nosso mundo está verdadeiramente ‘enfermo’ e o diagnóstico, muitas vezes, só pode ser constatado pela soma de notícias ruins.

Também é verdade que muitos de nós não se deram conta dessa ‘assombrosa’ doença moderna. E o que é pior: à medida que não percebemos de onde vêm os vetores dessa ‘onda’, nós ficamos à mercê das manobras exercidas pelas redes e grandes organizações responsáveis por impulsionar tais movimentos. Por isso, é preciso ter muito cuidado!

No entanto, de nada adianta adotar o modelo do ‘avestruz’ e, compulsivamente, enfiar a cabeça no primeiro buraco que encontrar. Em contrapartida, há outros, mais açodados, que preferem se engajar em lutas variadas e acabam identificando ‘inimigos’ em todos os lados. Criando assim um enorme exército, cujo objetivo é ‘combater’ esses inimigos, tudo em nome da ‘teoria da conspiração’. Céus… haja peleja!

Além desses, é claro, há também quem prefira adotar um conveniente cinismo ou indiferença. Desse modo, eles não estão nem aí para ‘causa’ alguma. O mundo é que se exploda!

Então, minha gente, certo mesmo é que nós teremos que buscar o nosso lugar nesse complicado jogo de tabuleiro. Procurando, assim, manter a esperança de encontrar um ambiente mais adequado às nossas convicções. Com sorte, nós haveremos de conhecer outros parceiros que comungam ideias e sonhos semelhantes. E com eles, talvez, nós poderemos estabelecer a almejada ‘reciprocidade’ nos afetos. Afinal de contas, nós habitamos o mesmo ‘gueto’, não é verdade?!

Boa sorte a todos.

Pode ser uma imagem de ao ar livre e texto que diz "Na beira de um precipício só há uma maneira de seguir adiante: dar um passo atrás. G. Κ. Chesterton FraseseCitaeoes.com.br"

LEMBRANÇAS DO SEU VAVÁ

Era maio de 1958. Nessa época, eu tinha quase sete anos de idade. E da janela do meu quarto, só se ouvia o barulho das batidas nas portas do botequim do seu Manoel. Com o tempo, eu descobri que aquilo representava a comemoração de algum gol da seleção brasileira na Copa da Suécia. E como criança, confesso, eu me sentia ora excitado, ora assustado, pois nunca sabia o que poderia ocorrer a seguir…

Passaram-se quatro anos. Novamente começava o alvoroço da Copa do Mundo. Só que agora o país sede era o Chile. Pelo menos foi o que o seu Vavá me disse. Ela era o nosso motorista. Dirigia a Kombi com muita classe e segurança e eu me sentia orgulhoso de ser seu amigo.

Aliás, para mim, o seu Vavá era o homem mais esperto que eu conhecia. Porquanto ele sempre tinha uma resposta pronta na ponta da língua para qualquer indagação. Só vendo!

O que sei dizer é que naquela quinta-feira ele foi deixar o papai no trabalho, no Banco do Brasil do Centro. Aí, voltou rapidinho, pois levava menos de quinze minutos do Estácio ao Centro. Foi quando ele me ‘convocou’ para uma missão: acompanhá-lo até o Hotel das Paineiras, que ficava na parte mais alta do Cosme Velho.

Como passear de Kombi era minha diversão predileta, eu nem perguntei aonde iríamos. Além disso, o trajeto até lá valia qualquer sacrifício, uma vez que o percurso é lindo. E mais bonito ainda é a subida para a Estrada das Paineiras, repletas de jaqueiras gigantes.

Ao chegarmos lá, descemos da Kombi e nos dirigimos para a recepção do hotel. Embora eu fosse uma criança de 11 anos, percebi que havia um forte esquema de segurança ao redor do hotel. Soube, então, que a seleção brasileira estava concentrada ali e que a razão da visita era uma encomenda que o jogador Amarildo, compadre do seu Vavá, havia solicitado. Seu Vavá aproveitou a ocasião para ‘tietar’ outros jogadores. Como estava ao seu lado, fiquei extasiado em conhecer Nilton Santos, Didi, Garrincha e Zito. Porém, Amarildo guardou a melhor surpresa para o final: Pelé. Nossa! Que surpresa maravilhosa foi conhecer Pelé.

Bastaram poucos minutos conversando com ele para perceber que tinha algo diferente. Recebeu-me com um sorriso largo e fácil que logo me cativou. Definitivamente. Com uma natural simplicidade, ele me chamou e perguntou se eu queria jogar ping-pong. Disse que sim. Então, ele pediu licença a rapaziada que estava jogando e anunciou que eu era ‘fera’ no ping-pong e que se tratava de um desafio.

Contudo, Pelé não sabia era que eu era bom no tênis de mesa, uma vez que já era ‘federado’ e treinava diariamente no Clube Municipal. Com isso, bastaram umas três ou quatro ‘cortadas’ para que ele se assustasse com o volume do jogo…

Depois disso, nós interrompemos a partida, pois os jogadores iriam treinar no campo do Fluminense. Contudo, Pelé me deu um forte abraço e me convidou para assistir a uma partida do Santos quando viessem ao Maracanã. Bastante emocionado, aceitei o convite e desejei boa sorte para a seleção no Campeonato Mundial.

A partir daí, meus amigos, de quando em quando eu recebia algum contato dele. Algumas vezes por telefone, outras por telegramas e quase sempre eram recados trazidos pelo seu Vavá. Torci freneticamente pelo sucesso dele, ainda que a contusão no segundo jogo o tenha tirado da Copa. Por certo que vibrei com o resultado, mas sem a presença do Pelé, o título não teve o mesmo brilho…

A vida, então, seguiu o rumo que pode e cada um de nós procurou caminhar de modo correto. Muito embora não tivéssemos mais contato, no fundo, eu jamais esqueci aquele homem de sorriso largo, que serviu de exemplo para tantos brasileiros. Somente tempos depois é que eu soube o seu verdadeiro nome: Edson Arantes do Nascimento, o extraordinário Pelé.

Hotel das Paineiras, no Cosme Velho, Rio de Janeiro.

Amarildo e Pelé, em 1962.

OS ELEITOS PARA O SACRIFÍCIO (*)

Ah, meus amigos, essa vida é mesmo interessante. Vejam vocês: o meu querido tio, Holdemar Menezes, publicou em 1983 aquele que eu considero o melhor dos seus livros de contos. Intitulado “Os eleitos para o sacrifício”, o livro é uma coletânea de nove primorosos contos, sendo que um deles, “O anjo Gabriel”, foi tão marcante que serviu até de inspiração para o nome do meu querido filho.

Aliás, o enredo desse conto é sensacional, pois atesta o lado mais habilidoso do escritor, onde ele cria um pano de fundo para que a história se revele aos poucos. Sem pressa de apresentar o começo, meio e fim, Holdemar se apresenta como um bom artesão a confeccionar a sua obra de arte. O resultado é espetacular… Coisa linda!

“De repente, tive uma imperiosa vontade de chorar. Chorar com saudades da Sueli, pois lá de cima da torre da igreja, eu podia ver parte da Vila Palmira, e numa daquelas casas estava Sueli, a Sueli que tinha sido, e ainda era, meu único amor”.

Ao reler o conto esta semana, quem sabe pela décima vez, eu me dei conta de que a vida da gente é, de fato, intrigante. Surpreendente, até. E se observarmos bem, veremos que os fatos vão acontecendo, como que tecendo uma enorme colcha de retalhos. Pois é. No fim das contas, convenhamos, o que nos cabe é tão somente enxergar os desenhos como algo íntimo e familiar. Com isso, em qualquer momento da vida, nós poderemos declarar que tudo valeu a pena ser vivido. De modo tal que, ao olharmos para trás, não tenhamos vergonha ou arrependimentos profundos. Assim como Édith Piaf, também podemos entoar o mesmo canto que ela nos brindou: “Non, rien de rien / Non, je ne regrette rien / Ni le bien qu’on m’a fait / Ni le mal, tout ça m’est bien égal!” E ela tinha ela razão, meus amigos. Afinal, vivemos tudo como soubemos ou pudemos…

“Aí eu peguei o pistom, passei vaselina nos lábios e comecei a tocar. O som saindo embriagado de tanto vinho de laranja do Santo Padre, os olhos do Onofre brilhando no escuro. Aquela melodia eu havia memorizado de um velho disco do “MaioDeives”, que o mister tinha me presenteado”.

Ao mesmo tempo em que relia o conto, ao fundo, eu ouvia o solo lamentoso de Miles Davis, na extraordinária trilha sonora do filme de Louis Male, o “Ascenseur pour l’échafaud”. Além disso, eu sentia algo mágico se passando. Sim! Nas minhas fantasias, confesso, era como se eu estivesse conversando com meu avô Ezequiel, meu tio Holdemar, meu pai e o meu filho. Porém, nessa conversa, eu falava com orgulho desse traço familiar de inventividade e o apurado gosto pelas letras e pela música…

“Era uma melodia mais para o grave, um sopro de percussão, como se a língua partisse a frase em pedaços, como se os lábios esculpissem as notas em madeira de cheiro, perfumada e macia”.

Deitado naquela rede cearense, no aconchego do escritório, ah!, eu repassava a vida em meus pensamentos. Recortando alguns episódios, para que pudesse ordená-los de uma forma mais confortável às minhas emoções.

“Quando terminei o solo, que era uma variação sobre o tema do “MaioDeives”, o Onofre estava chorando, eu acho que de tão mamado que estava. Ele me tomou o rosto, beijou com força e falou:

– Isso não existe! – Igualzinho ao Anjo Gabriel…”

Nesse momento, a porta do escritório foi aberta e Gabriel ficou me olhando, longamente. Sem nada dizer, fiz apenas um gesto de convite. Ele, então, deitou-se na rede comigo e ficamos nós dois em profundo e conveniente silêncio. Ao redor, apenas o sopro suave e melancólico de Miles Davis permanecia ao nosso lado, renovando os laços de afeto…

(*) Capa do livro do tio Holdemar com a ilustração de um trabalho de minha mãe, Jarina Menezes.

ou

OS ‘NAMORADOS’ DA MODERNIDADE

Há quem afirme que os relacionamentos afetivos ‘aprisionam’ as pessoas. Pudera! Eles proclamam que a natureza dessas relações subverte, tacitamente, o instinto de liberdade presente no ser humano. Olha, isso pode até ser verdade, mas desconfio de que constitua mero discurso retórico. Digo isso, meus amigos, porque percebo que temos o hábito de buscar explicações, muitas vezes, solidamente ‘elaboradas’. No fundo, eu acredito que tal comportamento serve apenas para justificar as nossas descontroladas emoções. Afinal, ao que tudo indica, a capacidade de ‘racionalização’ de o homem parece ser inesgotável. No entanto, creiam-me: apesar das heroicas resistências que oferecemos, bastam algumas sessões deitados no ‘divã’ e vai tudo por água abaixo. Meu Deus do Céu, que incrível desperdício…

Quando eu tinha os meus vinte e poucos anos de idade, também pensava em levar a vida amorosa na flauta. Na época, devo confessar, eu não queria me sentir ‘ligado’ a uma pessoa em especial. Preferia me manter como um franco atirador, desses que se imaginam imunes a qualquer relação mais contínua e profunda. Como se isso fosse possível… “Mas o tempo passa muito rápido”, vaticinavam os mais velhos. Sim, é verdade, devo admitir.

Hoje, confesso, eu acho que isso é uma dádiva e não um pesar. Aliás, sem medo de errar, eu acredito que não há nada mais belo nessa vida do que a maturidade. Sim, somente quando atingimos esta fase na vida é que nos damos conta de como é maravilhoso estar ligado a alguém. E mais: que extraordinárias emoções podemos sentir quando estamos sob os auspícios da ‘cumplicidade’!

O nosso saudoso Lupicínio Rodrigues já cantou em verso e prosa: “Estes moços, pobres moços / Ah! Se soubessem o que eu sei / Não amavam, não passavam / Por tudo que eu já passei / Por meus olhos, por meus sonhos, / por meu sangue, tudo enfim… / É que eu peço a esses moços / que acreditem em mim. / Se eles julgam que há um lindo futuro / Só o amor nessa vida conduz / Saibam que deixam o céu por ser escuro / E vão ao inferno a procura de luz. / Eu também tive nos meus belos dias / essa mania que muito me custou / E só as marcas que trago em meu peito / São essas rugas que o amor me deixou…”


Ah, como essa canção é maravilhosa, ainda que o amor cantado por ele soe tão doído! Mas, se observarmos bem, o que Lupicínio sentiu foi uma tremenda ‘dor-de-cotovelo’. Nada mais do que isso. E cá entre nós: quem não sofreu desse mal? Afinal de contas, a dor-de-cotovelo é um sentimento intimamente ligado ao amor e pertinente à vida de qualquer criatura. Além disso, convenhamos, Lupicínio teve esse direito. Isto porque, acostumado à boemia, ele deve ter experimentado muitas paixões, grandes amores e, de quebra, algumas ‘dores’. Algo que só quem está pulsando pode sentir. Quem não viveu um grande amor, jamais saberá como é a dor da perda. Isto sim, meus amigos, é bem triste, muito embora seja passageiro. É algo que alimenta a inspiração dos músicos e poetas. Tão somente. No entanto, para nós, ‘pobres mortais’, é bem ao contrário, à medida que evitamos, desesperadamente, sentir a dor e vivenciar o processo do luto amoroso. Geralmente, o que se verifica é uma brutal dissimulação. E para tanto, nós lançamos mão do enorme arsenal de ‘racionalizações’ de que somos portadores. É impressionante o ‘malabarismo’ emocional empreendido.

Com tudo isso, apesar das dificuldades, o importante é acreditar que o amor é possível nas relações afetivas. Sim! É preciso acreditar que ele pode ser duradouro. Com sorte, pode até ser para sempre!

PARA ‘ADOÇAR’ MEU CORAÇÃO

Foi o nosso querido Carlos Drummond de Andrade que afirmou em seu extraordinário poema, “Resíduo”, que “de tudo fica um pouco”. Pois é. Tinha ele razão, meus amigos. Aliás, muitas razões! Vale a pena lembrar:

“De tudo ficou um pouco / Do meu medo. Do teu asco. / Dos gritos gagos. Da rosa / ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz / captada no chapéu. / Nos olhos do rufião / de ternura ficou um pouco (muito pouco).

Pouco ficou deste pó / de que teu branco sapato se cobriu. / Ficaram poucas roupas, / poucos véus rotos / pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco. / Da ponte bombardeada, / de duas folhas de grama, / do maço – vazio – de cigarros, ficou um pouco.

De tudo fica um pouco. / Não muito: de uma torneira / pinga esta gota absurda, / meio sal e meio álcool… / este vidro de relógio / partido em mil esperanças… / este segredo infantil…

…Oh! abre os vidros de loção / e abafa / o insuportável mau cheiro da memória…”

O mais interessante de tudo é que ao reler este poema nesta ensolarada manhã, eu tinha, ao fundo, a suave e inebriante companhia de Ana Caram, interpretando as canções de Tom Jobim. O CD se intitula “The other side of Jobim” e o encontrei, após a mudança, no fundo da estante, indesculpavelmente esquecido por mim. Ah, meu maestro soberano, queira me perdoar. Saiba, contudo, que isso não foi intencional. De maneira alguma! Porquanto o dia a dia da gente, muitas vezes, acaba nos infringindo alguns ‘esquecimentos’ imperdoáveis. E eu lamento por esse, creia-me.

Assim, para me redimir, eu coloquei o disco a tocar enquanto folheava a antologia de poemas de Drummond. Desse modo, a deslumbrante voz de Ana Caram acabou acalentando os meus pensamentos, fazendo-me lembrar das belezas que ele escreveu. Sim! Desde muito cedo eu fui ‘tocado’ por Drummond, já no “Poema de Sete Faces”, quando eu ainda nem atinava para as dores do mundo. Vejam:

“Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

… Mundo mundo vasto mundo, / se eu me chamasse Raimundo / seria uma rima, não seria uma solução. / Mundo mundo vasto mundo, / mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer / mas essa lua / mas esse conhaque / botam a gente comovido como o diabo.”

Portanto, minha gente, eu prefiro ficar com as melodias que estão esparramadas pelo universo. No fundo, elas são sábias. E me embalam nesta manhã de sexta-feira. Só que agora, na voz de António Zambujo, todos os anjos sussurram em meus ouvidos o testemunho deixado por Chico Buarque, em “Futuros amantes”:

“Não se afobe, não / que nada é pra já / o amor não tem pressa / ele pode esperar / em silêncio, num fundo de armário / na posta restante / milênios, milênios ao ar…

…Sábios em vão / Tentarão decifrar / O eco de antigas palavras / Fragmentos de cartas, poemas / Mentiras, retratos / Vestígios de estranha civilização.”

HERANÇAS DE FAMÍLIA

Dizem que nessa vida nós herdamos muitas coisas dos nossos antepassados. Coisas boas e outras nem tanto. E que a partir daí, cabe a cada indivíduo efetuar um apurado ‘pente fino’ do patrimônio recebido, seja ele material ou afetivo. Até aí, tudo bem. Faz parte da nossa trajetória, não é mesmo?

No entanto, se isso não for feito em tempo hábil, corre-se o risco de incorporar ‘tralhas’ indesejadas. E é aí que mora o perigo, minha gente. Porquanto uma vez que essas ‘heranças’ sejam anexadas, torna-se difícil livrar-se daquilo que não nos serve.

Eu não sei dizer quanto a vocês, amigos leitores. Mas, no meu caso, confesso: foi um processo penoso e arrastado. Demorei muito tempo para separar o ‘joio do trigo’. Afinal, saber o que de fato me cabia e o que era indevido, convenhamos, era uma tarefa complicada. Por isso, demorei décadas a fio efetuando esse ‘inventário’. Até que um dia eu percebi que havia me livrado da ‘tralha excedente’. E, assim, eu me senti mais livre, leve e solto. Ou seja: havia conquistado a minha verdadeira ‘carta de alforria’!

Também é verdade que eu não culpo ninguém por isso. É da vida! Até porque esse processo é algo que cabe somente a criatura envolvida dar conta. Sequer pode ser ‘delegado ou transferido’.

O lado bom dessa história, minha gente, é que podemos receber alguns ‘presentes interessantes’, vindos de parentes que nem imaginávamos. Vejam só o que me ocorreu:

Foi na casa do tio Holdemar, irmão de papai, que eu fui apresentado à literatura de Gabriel Garcia Márquez. Estávamos em 1968, eu tinha 17 anos e vivíamos tempos difíceis, pois boa parte da América Latina sofria com os regimes autoritários. No pequeno escritório da casa, no primeiro andar, ele me presenteou com a novela de Gabriel, intitulada “Ninguém escreve ao Coronel”. Céus, que estilo! Fiquei extasiado com o texto. Tempos depois, para minha sorte, eu conheci “Cem anos de solidão”, “O outono do patriarca”, “Crônica de uma morte anunciada” e tantos outros livros, incluindo o magistral romance “O amor nos tempos do cólera”. Ao mesmo tempo, conheci também John Coltrane e as incríveis baladas. “Carlos, você conhece as baladas do Coltrane?”, perguntou-me Holdemar. Claro que não “conhecia”. Então, escutei. Uma, duas, diversas vezes. Incríveis! Somente após ouvir aquelas baladas é que fui “compreender” o que era elegância e bom gosto no jazz. No meu imaginário, Coltrane tocava “Say it (over and over again)” vestido a rigor, tal era o finesse com que ele soprava o sax. Desde então, nunca mais pude me separar de Coltrane, de Gabriel Garcia e nem das lembranças que carrego do nego velho Holdemar…

OS CAMINHOS DESSA VIDA

Eu tinha apenas cinco anos de idade e era uma criança franzina, como tantas outras nordestinas. Nem sequer imaginava qual futuro estava reservado para mim. Sabia, ao menos, que o mundo rico e civilizado ficava no ‘sul maravilha’ (Henfil que o diga!). E que o meu bom e velho Ceará seria, doravante, apenas um ‘retrato na parede’. Talvez, por não conhecer o poeta Carlos Drummond, eu não atinasse para a dor: a imensa dor que um ‘retrato’ pode conter. E pode, creiam-me… pode!

O mundo, então, girou mais um bocado. Seguiu a roda do seu caminho e me apontou alguns para escolher. Agora, se as minhas escolhas foram boas ou não… aí, são outros quinhentos. O certo é que venho pelejando nessa vida. Tentando fazer o meu melhor. Sabendo que tanto posso errar aqui, quanto ter medos, acolá. Aceitando que o destino é algo mágico e individual, por mais coletiva que seja a nossa trajetória.

Verdade é que durante muitos anos eu arrastei, feito bola de prisioneiro, muitas culpas por conta daquela ‘prematura saída’ do Ceará. Ainda que as culpas fossem indevidas, eu me sentia um traidor, uma vez que virara às costas ao meu povo, à minha cultura e, dessa forma, estabelecera a minha ‘herança vacante’.

É bem provável que algumas pessoas corram em minha defesa e digam: “isso não é motivo de culpa, Carlos. Quando muito, destino”. É até possível que afirmem que essa viagem não foi exclusividade minha, pois muitos outros retirantes seguiram o mesmo rumo. Cada um com o seu motivo. Cada um com seu legado… E uma diferente ‘sentença’ para cumprir!

Pois é, minha gente… Eu sempre soube disso. Mesmo assim, devo confessar: tais pensamentos não me redimiam. Ao contrário, doíam, isso sim. Doíam. Intensamente!

Foram necessários incontáveis anos para drenar a dor e aprender como a transformar. Para tanto, eu precisei de muita ajuda e, por sorte, vieram de todos os lados. Vieram das angustiadas sessões de análise com o Alexandre Kahtalian, solidário e competente terapeuta. Vieram das maravilhosas pessoas que fui encontrando pela vida e que, de alguma forma, depositaram generosas ‘esperanças’ no meu coração. Criaturas que se tornaram verdadeiros ‘irmãos’ e, ao atravessarem o meu destino, deixaram marcas em minha alma.

Somente a partir daí é que eu comecei a realizar o inventário afetivo. Ainda bem. Pois somente assim os episódios começaram a adquirir significado junto ao meu patrimônio afetivo. Convenhamos: não há nada mais belo nessa vida do que dar sentido a ela! Ingmar Bergman, o extraordinário diretor-cineasta, dizia que “a imaginação tece a sua teia e cria novos desenhos… e novos destinos”.

Por tudo isso, eu imagino que a minha inserção nessa latinidade pode ser confirmada no testemunho do Gonzaguinha, em “Caminhos do Coração”. Vale a pena lembrar:

“Há muito tempo que eu saí de casa

Há muito tempo que eu caí na estrada

Há muito tempo que eu estou na vida

Foi assim que eu quis, assim eu sou feliz.

Principalmente por poder voltar a todos os lugares aonde já cheguei

Pois lá deixei um prato de comida, um abraço amigo, um canto pra dormir e sonhar.

E aprendi que se depende sempre de tanta muita diferente gente

Toda pessoa sempre é as marcas das lições diárias de outras tantas pessoas…

É tão bonito quando a gente sente que nunca está sozinho por mais que pense estar.”

Então, se me permitem, eu gostaria de finalizar este texto fazendo algumas saudações. Primeiramente, ao meu querido Ceará, sem o qual a grande América pouco me diria. Depois, ao poeta Gonzaguinha que nos deixou esse maravilhoso legado e de alguma forma permitiu essa ‘expiação nordestina’. Saúdo, também, aos irmãos nordestinos, na figura do simpático Ariano Suassuna, que encantadamente acrescentam voz à nossa alma. Mas saúdo, principalmente, os que se comovem com essas vozes… e as libertam. Como fez o Alexandre Kahtalian!