A ÁRVORE GENEALÓGICA

De repente, eu comecei a me interessar sobre essa tal da ‘árvore genealógica’ da família. Talvez, com o propósito de entender um pouco mais sobre as características presentes em nossa ancestralidade. Do mesmo modo, também fui alertado que tal conhecimento poderia acarretar algumas complicações… mas, calma aí, que eu explico.

O fato é que eu tinha pouco mais de dezesseis anos quando fiz uma visita a um tio querido, em Santa Catarina. Até então, eu não o conhecia pessoalmente. Um ano antes, ele havia ido ao Rio de Janeiro participar de um Congresso de Ginecologia e Obstetrícia. Sendo assim, aproveitando a tarde de folga no Congresso, ele telefonou para o meu pai, irmão dele, combinando a visita. Lembro que fiquei bastante curioso em conhecer o tio médico e, ainda por cima, escritor.

Holdemar era alto e moreno e tinha um jeito manso de falar. No fundo, as palavras saíam mais pelos olhos do que pela boca. Foi quando eu o interrompi dizendo que tinha muita vontade de conhecer o sul. Ele, sorrindo para mim, convidou-me a passar as férias escolares em Florianópolis. “Compre apenas a passagem de ida, meu sobrinho. O resto é por minha conta, combinado?”

Dito e feito. Peguei um ônibus semi-leito e parti para a Ilha da Magia. A viagem era longa, mais de 20 horas, sendo que o asfalto terminava em Curitiba. Dali até Florianópolis, céus, seriam mais 6 horas de terra batida e buraco até enjoar…

Chegando em Floripa, a rodoviária era bem pertinho da casa do tio Holdemar. Dava até para ir a pé, arrastando a mala pelo caminho. No entanto, devo dizer: dentro daquela bagagem não havia apenas roupas e objetos pessoais. Claro que não! Lá dentro, ah, tinha um bocado de expectativas, sonhos juvenis e desafios a serem realizados… Isso, sem falar do frio que fazia na boca do estômago. Afinal, como seriam os próximos 20 dias?!

Então, eu conheci os primos e a prima, tia Hilda e o enorme pastor alemão, que ao invés de me dar as boas-vindas, preferiu mostrar os dentes afiados… Putz! Após o banho restaurador, eu desci as escadas da linda casa e adentrei no escritório do ‘tio velho de guerra’. Pois é. Bastaram poucos minutos ali para perceber que ele era bem mais querido do que eu supunha. Logo de início, ele colocou um disco de jazz no gravador Akai que ficava na estante, ao lado de centenas de livros. Perguntou-me: “Chau, você conhece as baladas de Coltrane?” Claro que não conhecia. Daí, escutei. Uma, duas, diversas vezes. Somente após ouvir aquelas baladas é que eu fui compreender o que era elegância e bom gosto. Confesso a vocês, no meu imaginário Coltrane tocava “Say it (over and over again)” vestido a rigor, tal era o “finesse” com que ele soprava aquele sax. Além de Coltrane, tio Holdemar me apresentou o talento de Miles Davis, cujo trompete soava como como se fosse soprado por um verdadeiro anjo… e era!

Ainda nessa manhã de domingo, no escritório da casa, no primeiro andar, o tio me presenteou com a novela de Gabriel Garcia Márquez, intitulada “Ninguém escreve ao Coronel”. Avidamente, eu li o livro em três dias. Que estilo, minha gente! Fiquei profundamente extasiado com a qualidade do texto. Depois disso, para minha sorte, eu conheci outras novelas: “O outono do patriarca”, “Crônica de uma morte anunciada” e também os magistrais romances: “O amor nos tempos do cólera” e “Cem anos de solidão”.

O que eu posso dizer é que vinte dias, de fato, podem transformar uma criatura. Como?! Magia. Sedução. Sei lá mais o quê. Tudo junto e misturado. O que sei dizer é a partir daquelas férias a minha vida mudou muito. E de alguma forma, ela continua mudando até hoje, passados mais de 60 anos daquele encontro.

E o que tem a ver a tal ‘árvore genealógica’, perguntarão alguns? Tudo, meus amigos. Absolutamente tudo. Foi por intermédio do tio Holdemar que eu fiquei sabendo um pouco sobre os nossos ancestrais. Soube, por exemplo que um distante antepassado, Karl Holbein, fora um exímio orador no exercício das palestras nas universidades europeias, na segunda metade do século 19. É que, segundo consta, Karl Holbein fazia parte da equipe de Sigmund Freud. Visitava as universidades com o objetivo de apresentar as teorias da psicanálise.

Além dele, o tio Holdemar me contou sobre outro antepassado que foi um consagrado alpinista. Disse-me que Ernest Holbein escalou o Everest dois meses após Edmund Hillary ter atingido o pico do monte, em 29 de maio de 1953. Segundo Holdemar, em face da forte tempestade de neve que atingiu a montanha, Ernest Holbein ficou imensamente famoso pelo feito alcançado.

Ah, meus amigos, há algo para ser confessado: no início, eu fiquei bastante ‘desconfiado’ sobre essas histórias. É o que tio, segundo o meu pai, era um ‘gozador de carteirinha’. Portanto, nunca se sabia quando ele falava sério. Porém, hoje eu posso assegurar que desde então nunca mais pude me separar de Coltrane. Nem de Miles Davis. Nem de Gabriel Garcia. E muito menos das lembranças que carrego do ‘nego velho’, o meu amado tio Holdemar e seus ‘ancestrais’…

Abençoados sejam!

Karl Holbein e Ernest Holbein

Publicado por

Carlos Holbein

Professor de química por formação ou "sina" e escritor por "vocação" ou insistência...