UMA ESTRANHA FOGUEIRA

Ah, meus amigos, muitas vezes me pego pensando sobre os mistérios escondidos nas brumas do tempo. Há lembranças que teimam em voltar, não como fatos nítidos, mas como sensações. Uma delas é a de uma fogueira.

Não uma fogueira de festa junina, daquelas que aquecem o corpo e alegram a alma. Esta era uma fogueira estranha, silenciosa, quase furtiva. O cheiro de papel queimado tomou conta do ar. Livros. Muitos livros sendo consumidos pelas chamas. Para uma criança, aquilo era um paradoxo doloroso. Os livros não eram nossos amigos, guardiões de histórias e saberes? Por que estavam sendo destruídos?

O cenário era confuso. Havia um ar de urgência e medo entre os adultos. Pilhas de obras de arte, de filosofia, de política eram levadas para o fogo. A fumaça subia, densa e cinzenta, carregando consigo vozes, ideias, sonhos.

No meio daquela devastação, um pequeno milagre aconteceu. Um pedaço de papel chamuscado, com um verso que o vento se recusou a levar para a fogueira. Era de um poeta russo, Maiakóvski. "Se quiserem, serei impecavelmente delicado, não serei homem, mas uma nuvem de calças!"

Aqueles versos, nascidos em outra língua, em outro tempo, encontraram abrigo em minhas mãos naquela manhã. Eles falavam de liberdade, de metamorfose, de resistência. Naquele instante, compreendi que a verdadeira força não está nos exércitos ou nos decretos, mas nas palavras. As palavras são indomáveis.

A fogueira pode queimar o papel, mas não a poesia. O fogo pode destruir o livro, mas não a ideia. A ideia, meus amigos, voa como aqueles versos, encontra novos corações, novas mentes, e nunca, jamais morre.

Aquela estranha fogueira foi minha primeira lição sobre censura, sobre o poder do pensamento livre e sobre a resiliência da arte. Foi a fogueira que me ensinou a amar ainda mais os livros, a protegê-los, a defendê-los. Porque um mundo sem livros é um mundo sem nuvens de calças, sem poesia, sem a leveza do sonho.

O tempo passou, mas o cheiro de papel queimado ainda me visita nos dias de silêncio. Não como um lamento, mas como uma afirmação: a beleza sempre encontra um jeito de sobreviver. E é por isso que continuamos a escrever, a ler, a recordar.

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