O TEMPO E A ALMA

Hoje, ao tomar meu café da manhã, fui surpreendido por uma lembrança da infância. Não sei bem o que a trouxe, talvez o cheiro do pão fresco ou a luz que entrava pela janela de um jeito diferente.

Lembrei-me do velho relógio de parede da casa do seu Amaral, no Estácio. Ele ficava na sala de visitas, com seu pêndulo balançando vagarosa e constantemente, como se fosse o coração da casa. Para mim, aquele relógio era uma criatura viva. Eu passava horas observando o movimento, fascinado pela ideia de que o tempo podia ser visto, ouvido e sentido. O tic-tac preenchia os silêncios, marcava as visitas, anunciava as refeições. Era a metronomia da vida.

E o que fica de tudo isso? Ficam as pessoas. Ficam os olhos da minha mãe, a risada do meu pai, os conselhos do seu Amaral. A casa já não existe mais, o relógio se perdeu em alguma mudança, mas a alma guarda cada detalhe com uma nitidez que o tempo não consegue apagar.

O tempo passa, isso todos sabemos. Mas o que fazemos com ele? O que fica guardado na alma? “O tempo é a minha matéria, do tempo presente, dos homens presentes, a minha matéria é o presente.”, já dizia o poeta. E é verdade. Vivemos tão preocupados com o futuro ou lamentando o passado que esquecemos de habitar o agora. Esquecemos que a alma se alimenta do instante.

Tenho pensado muito nisso ultimamente, especialmente ao ver meu filho Gabriel crescendo. Certa noite, enquanto conversávamos, ele me perguntou sobre o que sobra de nós quando o tempo passa. Respondi que fica a alma, essa substância misteriosa que tece os nossos dias com fios de amor e esquecimento. Ele sorriu, como quem entendia perfeitamente. Talvez os jovens saibam dessas coisas melhor do que nós.

Cazuza, com sua lucidez brutal, cantou: “O tempo não para”. E junto com ele, levamos a alma, essa substância misteriosa que tece os nossos dias com fios de alegria, tristeza, amor e saudade.

No fim, meus amigos, o que guardamos na alma é o que verdadeiramente nos pertence. O resto, o tempo leva.

Um abraço a todos e que os bons ventos do destino nos guiem.