Notícias do Mundo

Ah, meus amigos, as notícias do mundo chegam até mim, invariavelmente, pelo rádio da cozinha. É um hábito antigo, uma espécie de ritual matinal que herdei de meu pai. Enquanto o café passa lentamente no coador de pano, a locutora da manhã vai elencando os acontecimentos da noite. Guerras, descobertas científicas, crises políticas, pequenas tragédias locais e grandes feitos humanos. Tudo se mistura numa sonora colagem que vai, aos poucos, me trazendo de volta ao mundo.

Isso me faz lembrar, com uma nitidez que emociona, do rádio de válvulas do meu pai, na Rua do Estácio. Era um móvel imponente, de madeira escura e lustrosa, de onde saíam vozes graves e solenes. Lembro que ele acompanhava com atenção os noticiários da época. A morte de Getúlio, as copas do mundo, a chegada do homem à lua… O mundo, naquela época, parecia maior e mais distante. Ou talvez fosse apenas a minha percepção de menino, que achava que tudo aquilo cabia dentro daquela caixa mágica.

Hoje o mundo está na palma da mão. As notícias nos perseguem, vibram a todo instante nos pequenos retângulos de luz. É difícil escapar. E, muitas vezes, confesso, eu gostaria de ter um botão de pausa para o noticiário. A overdose de más notícias cansa a alma e fere o espírito. A gente se sente um grão de areia jogado ao vento, impotente diante de tanta informação.

O difícil, meus caros, é manter a sanidade. Certa vez, li uma frase de Carlos Drummond de Andrade que me acompanha: "O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar". A minha janela não dá para o mar, mas para a Lagoa da Conceição. O verde da vegetação, o movimento dos barcos de pesca, o voo das garças… É neste pequeno universo que encontro o meu equilíbrio. As grandes notícias do mundo, os conflitos geopolíticos, as mudanças climáticas… tudo isso ecoa, mas é aqui, no meu cotidiano, que a vida realmente acontece.

Quando o peso do mundo aperta o meu peito, eu recorro à música. Bill Evans, Chet Baker, Ella Fitzgerald. Coloco um vinil na vitrola e o som do piano ou da trompete vai, suavemente, reordenando os pensamentos dentro de mim. O jazz tem essa capacidade de nos transportar para um lugar seguro. Como se o mundo, por alguns minutos, pudesse ser resumido a uma bela melodia que toca direto na alma. As notícias ruins perdem a urgência quando o sax de Stan Getz começa a soar.

A literatura também é um porto seguro para dias turbulentos. Guimarães Rosa, meu mestre maior, já dizia: "O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem." É a coragem de enfrentar as notícias do mundo, sejam elas boas ou más, sem perder a ternura. É a coragem de acreditar que, apesar de tudo, há beleza no meio do caos.

Foi pensando nisso que me lembrei de uma crônica que escrevi sobre a "estranha fogueira" de 1964. As notícias daquela época eram carregadas de tensão e medo. Hoje, as tensões são outras, mas o medo e a esperança continuam dançando a mesma valsa. O noticiário muda, os personagens se alternam, mas a essência da condição humana — com suas luzes e sombras — permanece a mesma.

Saio para caminhar pela beira da lagoa. O sol da manhã reflete na água calma. Encontro um vizinho que me conta sobre a última obra no centro da cidade. Uma amiga manda uma mensagem sobre a exposição de um artista local na Udesc. O mundo globalizado envia sinais de guerra e discórdia, mas o mundo local me dá notícias de resistência, de criação e de beleza. É um contraponto necessário, um lembrete de que a vida insiste em florescer.

No fim das contas, as melhores notícias do mundo são aquelas que vêm de perto. O sorriso do meu neto João Pedro, um abraço apertado da minha esposa Zê, uma conversa longa sobre o futuro com o meu filho Gabriel. É nessas pequenas notícias do coração que reside a verdadeira esperança. Elas nos ancoram na realidade afetiva e nos lembram do que realmente importa.

As notícias do mundo continuarão a chegar, implacáveis e incessantes. Mas eu, sentado na minha poltrona especial, aprendi a filtrá-las com o coração. Entre o rádio da manhã e o silêncio da noite, há espaço para a reflexão, para o afeto e para a arte. E acreditem, meus amigos: descobrir que ainda somos capazes de nos emocionar com uma canção, de nos indignar com uma injustiça e de amar profundamente os nossos… isso, sem dúvida alguma, já é uma grande notícia.