CARA OU COROA

Sim. Eu sei que tem vezes que as nossas escolhas na vida seguem um minucioso critério de avaliação. Outras vezes, porém, a gente acaba optando pelo caminho mais fácil ou menos arriscado, não é verdade? Pois é. Há, também, a questão da sorte ou da pura escolha aleatória, sem passar por nenhum filtro interno. O certo mesmo, como dizem por aí, é que ‘quando tem que ser, não adianta remar contra’. A coisa simplesmente acontece.

O fato é que sem considerar esses aspectos que foram explicitados acima, eu e Marquinhos sempre nos acertamos na hora de escolher o banco do automóvel. Fosse ao lado do motorista como copiloto ou mesmo no banco de trás. Mas, calma aí que explico.

É que na nossa adolescência, nas caronas que pegávamos para ir à praia, o ‘acordo’ tinha que ser rápido. Caso contrário, nós perderíamos aquele sinal fechado e o condutor do veículo arrancaria sem a nossa companhia. Por isso, então, quando o semáforo luminoso anunciava o amarelo e a seguir o vermelho, nós já saíamos pelo meio dos automóveis perguntando: “amigo, pode nos sar uma carona para Laranjeiras, Botafogo ou Copacabana?”

Lembro que esse processo costumava levar, normalmente, de vinte a quarenta minutos, dependendo do movimento de carros. E também da nossa sorte! Tinha dia, por exemplo, que mal chegávamos na sinaleira e logo aparecia um carro. Outras vezes, céus, a gente mofava ali no sol escaldante. No entanto, o importante era se mostrar simpático na pergunta e estar sempre com um sorriso preparado. E nesse aspecto, reconheço, o Marquinhos era mais talentoso. Ou falso. Porquanto vencia 70% das disputas comigo para ver quem conseguiria o bendito transporte…

Havia ocasiões que nós nos dávamos ao ‘requinte’ de escolher o automóvel, optando por modelos mais espaçosos ou aqueles com ar-condicionado. Aí, já viram, né? Quando isso acontecia, era festa no parquinho. Afinal, nós chegávamos em Copacabana exultantes, como verdadeiros vitoriosos!

Mas o diabo é que o Marquinhos era mais liso que sabonete e, se eu bobeasse, ele aplicava algum golpe para cima de mim. Foi bem o que ocorreu naquela quinta-feira ensolarada. Ao se aproximar da caminhonete de luxo, Marquinhos perguntou para o motorista se podia nos dar carona. O rapaz disse que sim. Rapidamente, Marquinhos entrou e se sentou no banco da frente, ao lado do jovem motorista. Eu nem liguei para a escolha dele e me dirigi para a porta de trás da caminhonete novinha. Abri a porta e me sentei rapidamente para não atrasar a partida, uma vez que o semáforo acabara de piscar o verde.

Nem bem eu me ajeitei no banco, senti a presença daquele ‘bicho enorme’ ao meu lado. Caramba! Era um baita pastor-alemão que me cheirava de cima a baixo, de minuto em minuto. E eu, impávido e quase borrado de medo, nem olhava para o cão feroz com medo dele cismar comigo. Sabe como é?!

Lá na frente, conversando animadamente, Marquinhos era só risadas. O pilantra tinha percebido a presença do cachorro quando pediu carona. Por isso, ele entrou bem ligeiro na frente e me deixou na maior ‘encrenca’. Tanto é que ao chegarmos em Copacabana, já refeito do susto, eu disse para ele: “a partir de agora vai ter que ser no ‘cara ou coroa’. Senão, eu estou fora, companheiro”.

O que eu sei dizer é que isso ocorreu há mais de cinquenta anos. Mas até hoje, confesso, eu não consigo olhar para um pastor-alemão sem me lembrar do pilantra do Marquinhos!