“A PRINCESA DO MEU LUGAR”

O nosso abençoado poeta-cantador, Belchior, já nos disse em verso e prosa que “Se me der vontade de ir embora / vida adentro, mundo a fora / meu amor, não vá chorar / ao ver que o cajueiro anda florindo / Saiba que estarei voltando, princesa do meu lugar…”

Pois é, meu querido poeta. Eu precisei viver mais de setenta anos para me dar conta dessa incrível verdade, tão singular. E mais ainda: foi preciso voltar ao nosso velho Ceará para que eu pudesse fazer as pazes com a minha infância extraviada. Não que eu tenha rompido com ela. Decerto que não! Mas, saiba: eu precisava rever velhas paisagens que, com o tempo, foram desbotando insípidas memórias… Sei bem que, de algum modo, eu corri o risco de sofrer intensa dor, semelhante a de Belchior, quando cantou: “…E eu inda sou bem moço / pra tanta tristeza. / Deixemos de coisas, / cuidemos da vida, / senão chega a morte / ou coisa parecida, e nos arrasta moço / sem ter visto a vida / ou coisa parecida…”

Por sinal, nessa viagem, eu ainda tive a sorte de poder contar com a presença do meu centenário pai e do primo Robson, nosso anfitrião. Ao lado deles, nós fomos ao Aracati rever a casa da infância dos Menezes. Chegando lá, vimos que a região foi tombada pelo Patrimônio Histórico e, restaurada, adquiriu uma beleza sem par. Além disso, pude rever o maior rio do Ceará, o icônico Jaguaribe. E emocionado com a deslumbrante visão do rio e com a presença do meu pai, eu lancei naquelas águas a minha gratidão e o orgulho de ser nordestino. Talvez, eu devesse cantar: “Nunca mais meu pai falou: “She’s leaving home” / E meteu o pé na estrada, “like a rolling stone” / Nunca mais eu convidei minha menina / Para correr no meu carro, loucura, chiclete e som / Nunca mais você saiu à rua em grupo reunido / O dedo em V, cabelo ao vento, amor e flor, quede o cartaz?”

Então, por tudo que foi vivido, que foi celebrado e também pelo que deixou de ser, eu solto o meu grito: Viva o Nordeste! Viva o Ceará! Viva o meu centenário pai!

Papai, Robson, eu e o maravilhoso rio Jaguaribe, na foz do Aracati.

A ‘FORÇA’ QUE EXISTE EM CADA UM

Meus amigos, pode ser que para muitos ‘isso’ não constitua surpresa. Mas que é algo intrigante, lá, é verdade. Sim! Eu me refiro às mudanças que ocorrem na trajetória de algumas pessoas. Porquanto é incrível perceber as guinadas que o ‘volante da vida’ apronta. Talvez, seja pura magia do universo. Acontecimentos que surpreendem e conspiram contra os destinos de muitas criaturas. Aliás, eu poderia começar essa crônica até mesmo por mim, pois já experimentei algumas vezes esse ‘toque mágico’ do universo. Então, deixem-me contar.

Quando eu era adolescente, ainda no curso ginasial, não possuía em mente nenhuma profissão a adotar. Acredito até que somente no último ano do ensino médio é que me bateu o desejo de ser ‘bioquímico’. Provavelmente, era influência da brilhante carreira que minha cunhada empunhava. Por conta disso, eu sonhava com aqueles incríveis laboratórios, cheios de vidros e bugigangas e me imaginava como um verdadeiro ‘cientista maluco’. Contudo, o sonho não suportou mais do que dois anos, uma vez que no segundo ano do curso de Bioquímica, da UFRJ, eu comecei a dar aulas de química no cursinho que havia estudado. E foi assim que eu dei início a uma longa carreira no magistério.

Do cursinho aos grandes colégios do Rio de Janeiro, ah, bastaram apenas cinco anos, meus amigos. Dali para frente, eu me senti verdadeiramente ‘professor’. Com mais um tempo, tornei-me um ‘educador’, e também fui coordenador de diversas escolas. Além disso, tenho a certeza de que ‘aprendi’ muito mais do que ‘ensinei’.

Nessa esteira do tempo, vieram o fim de um casamento, a aposentadoria especial e a grande chance de dar outra ‘guinada’ no volante da vida. Enfim, estava na hora de buscar novos ares. Daí, veio o desejo de vir para Florianópolis. E nessa terra abençoada, eu descobri que era capaz de encarar outras atividades. Foi quando me tornei ‘coordenador editorial’ de uma importante revista de São Paulo. E isso deu início ao gosto pela escrita. Comecei assim a escrever os primeiros textos sobre cinema e jazz. Passados dez anos, veio o primeiro livro publicado, “Jazz, Cinema & Utopia”. E mais treze anos anos para o segundo livro, “Os esconderijos da memória”.

Por outro lado, como fui professor por tantos anos, eu aproveitei a embocadura e comecei a ministrar cursos sobre a “História do Jazz”. E estes cursos abriram outras portas.

Por fim, tudo isso me fez recordar os maravilhosos filmes “Star Wars”. Céus! Lembrei-me até do diálogo entre o Obi-Wan Kenobi e Luke Skywalker, no primeiro episódio da série (Star Wars IV), ao declarar a Luke que ‘a força’ estava com ele.

Pois é. Somente hoje é que eu percebo que a ‘força’ está dentro de todos nós. Sim! Basta apenas que aprendamos a confiar em nosso potencial. A partir daí, convenhamos, a vida vai nos dando coragem e ousadia para encarar novos desafios…

A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA (*)

Eu não sei dizer como ocorreu isso e por que aconteceu. O fato é que de um tempo para cá ficou muito importante a questão da memória. Melhor dizendo, das memórias, já que são muitas. A começar pelo extraordinário trabalho de Salvador Dali – “A persistência da memória” – que inadvertidamente eu esqueci no apartamento da praia que vendi no ano passado. Pois é. Tudo bem que era apenas uma reprodução da fabulosa obra do mestre Dali. Contudo, a verdade é que ela me acompanhou nos últimos cinquenta anos de vida. Ah! Lembro até que eu adquiri a reprodução ao visitar o simpático Museu da Chácara do Céu, na Fundação Raymundo Castro Maya, em Santa Tereza, no Rio de Janeiro.

Na época, eu tinha pouco mais de vinte anos e morava na casa da querida “Tante” Charlotte e do “Oncle” Ernest, um fantástico casal suíço que me alugou um quarto na envelhecida casa que eles tinham na ladeira da Aarão Reis. Eu morei na casa deles por apenas um ano, o suficiente para me deliciar com as incontáveis descobertas que experimentei. Sim! Elas iam do majestoso rito do brinde com “Kir Royal” que “Oncle” Ernest preparava com refinado requinte, passando pelas aulas de jardinagem e aos artesanatos criados por ele: pura arte. Bem perto da gente, na sala de jantar, “Tante” Charlotte nos observava com brilho intenso nos olhos. Além disso, foi ela que me confidenciou quando me despedi da casa que aquele ano havia sido o mais feliz que eles haviam vivido. E que eu era o ‘culpado’ por aquilo. Céus, que saudades sinto deles e daquele período mágico!

Ah, eu estava contando sobre a gravura do espanhol Salvador Dali. É que o Museu da Chácara do Céu possuía um grande acervo de Portinari e Debret e, de quebra, o milionário Raymundo de Castro Maya reuniu outras obras por conta de suas tantas viagens internacionais. Por ser um espaço destinado a apreciação de sua vasta obras de arte, a fundação vendia aos interessados um sem-número de gravuras dos renomados artistas. Foi nessa ocasião que eu me identifiquei com a icônica obra de Dali, “A persistência da memória”. Ela foi produzida em 1931 e é uma pintura surrealista em que relógios se derretem, aparentemente por nada…

Lembrei também de Picasso, que pintou “Guernica” alguns anos depois, em 1937. Acredito que essas duas obras surrealistas sejam as mais famosas e apreciadas no mundo.

Talvez, alguém possa indagar: “Carlos, o que essa obra de Dali tem a ver com a sua crônica?” E eu responderei: tudo, minha gente. Tudo. Na verdade, isso faz parte do surrealismo que, seja na literatura ou nas artes plásticas, não há lógica ou racionalidade. Porquanto dá lugar a tudo que a mente criadora de um artista possa tirar do seu imaginário. Aliás, muitos críticos até buscam explicações nas teorias da psicanálise. Quem sabe Salvador Dalí quisesse mesmo desafiar o próprio tempo? Afinal, os relógios derretidos parecem mostrar que o tempo pode ser outro em diferentes situações. A minha querida mãe, Jarina Menezes, foi profunda admiradora e praticante do surrealismo de Dali. E passou boa parte de sua vida questionando o mundo ao seu redor.

Como hoje eu acordei com essas imagens na cabeça, então, aproveitei para reverenciar essas grandes criaturas. Todas elas. Abençoadas, sejam!

MUITO  ALÉM DA FANTASIA

Já faz um tempinho que venho escrevendo sobre cinema. E, confesso a vocês: para mim esta tarefa tem sido muito prazerosa. Isto porque falar sobre cinema é falar sobre arte e, como se sabe, o cinema é reconhecido como a sétima arte. Aliás, com muita justiça. Afinal, foram muitos os atores e diretores que emprestaram seus talentos às filmadoras. Criaturas que buscaram ‘imitar a vida’ por intermédio da arte. Conseguindo retratá-la, recriá-la ou até mesmo subvertê-la. Porquanto assim é o cinema: aquela tela ‘encantada’ capaz de proporcionar a grande catarse coletiva. Seja para nos transportar no imaginário das histórias e nos emocionar com a fantasia, seja para denunciar a nossa recorrente dificuldade de sonhar. O que eu posso dizer é que o cinema nos oferece a rara possibilidade de lavar a nossa alma. Céus… Que maravilha!

Se uma pessoa é capaz de se modificar a partir de um bom filme ou livro fora do comum, é sinal de que ela possui sensibilidade necessária ao crescimento. E quando essa mesma criatura também é capaz de crescer a partir de um relacionamento marcante ou por conta de um acontecimento especial, então, é sinal que já foi ‘tocada’. Melhor ainda: deixou-se ‘tocar’. Sim! É preciso reconhecer que este é um momento mágico. Momento de apurado valor espiritual, uma vez que raramente deixamos acontecer, o que é uma pena. Pode-se dizer que foi estabelecido nesse momento o real processo da ‘purificação’. De fato! É que nessas horas, nós conseguimos harmonizar a nossa alma e, de alguma maneira, deixamos vazar o lado mais sensível que há nela. Por sinal, quantas pessoas conhecemos nessa vida que não permitem isso? Pior ainda: quantas nem sequer ‘atinam’ para a beleza desse movimento? Muitas, lamentavelmente. Tornam-se os verdadeiros errantes!

O nosso estimado poeta, Vinícius de Moraes, orgulhosamente nos dizia que “a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. Com certeza, meu poeta, uma vez que observamos que a grande ‘dificuldade’ dos homens é exatamente ‘viver’ e, com isso, se encontrar. Poucos conseguem. Desafortunadamente, a grande maioria se desencontra e apenas ‘sobrevive’…

Riobaldo, personagem icônico de Guimarães Rosa, dizia com extrema propriedade: “Viver é muito perigoso!” Pois é, companheiro… talvez seja. No entanto, assim como ele se atreveu no proibido afeto que sentia por Diadorim, nós também precisamos ‘ousar’. Só que para isso, nós precisamos nos ‘expor’ ante a vida, se desejamos nos emocionar com ela. Caso contrário, cumpriremos o percurso de forma previsível e enfadonha, sem jamais percebermos as belezas espalhadas nos caminhos que trilhamos.

Também é verdade que a grande sabedoria humana não está registrada em nenhuma enciclopédia, visto que é algo subjetivo e requer sensibilidade. É bem provável que a ‘sabedoria’ desta vida esteja em aprender a ler o livro, o ‘livro da vida’, de forma correta. O acesso a esse invisível livro é aparentemente fácil. Contudo, são raras as criaturas que alcançam esta capacidade e que desfrutam desse Nirvana. De modo geral, o que se percebe é que somente as pessoas iluminadas ou aqueles indivíduos ousados são capazes de decodificar o livro da vida. Com isso, ah, eles não só se deliciam com a mágica leitura como também nos proporcionam ‘mensagens especiais’. Então, deixo aqui um convite especial: que tal abrir o seu coração e se desarmar com as outras pessoas? Que tal modificar um pouco a sua rotina em favor de novas descobertas?! De minha parte, juro, eu torcerei pelo seu êxito. Basta que confie em você e no mar tranquilo que lhe aguarda pela frente!

Ao meu velho e querido pai (aonde estiver).

Meu pai,
dá-me os teus velhos sapatos
manchados de terra
dá-me o teu antigo paletó
sujo de ventos e de chuvas
dá-me o imemorial chapéu
com que cobrias a tua paciência
e os misteriosos papéis
em que teus versos inscreveste.
meu pai,
dá-me a tua pequena
chave das grandes portas
dá-me a tua lamparina de rolha,
estranha bailarina das insônias
meu pai, dá-me os teus
velhos sapatos.

( Vinicius de Moraes )

OS RIOS DE OUTRAS ALDEIAS

Após muitos anos de uma vida acelerada, muitas vezes de modo bastante frenético, boa parte vivida no Rio de Janeiro, eu acabei me mudando para Florianópolis em busca de sossego e qualidade de vida.

Ainda assim, foi preciso perambular por algumas moradias nessa encantada ilha. Inicialmente, foi na Lagoa da Conceição que ancorei o meu barco. E ali eu tirei a sorte grande e conheci o amor de minha vida. Casamos e tivemos um lindo filho que vem nos acompanhando nessa estrada.

Depois disso, construímos uma bela casa que nos abrigou por mais de uma década. No entanto, por ser um lugar bastante calmo e ermo, atraiu a atenção de quem não devia: os famosos “amigos do alheio”. A ponto de preferirmos morar em um apartamento em outro bairro. Assim, perdemos o espaço e beleza da casa mas ganhamos praticidade e segurança, ainda que a um preço elevado…

Porém, o que eu queria contar é que nesse fim de semana, animados pelo convite de um casal de amigos, fomos conhecer a casa de campo que possuem no município de São Bonifácio, a 90 km de Florianópolis. Meu Deus do Céu, que maravilhosa sensação foi conhecer aquele cantinho sossegado, com direito ao canto dos pássaros e ao som das águas do rio que passa em frente à casa de madeira. Com isso, podíamos apreciar essa beleza de todos os cantos da casa. Até do nosso quarto de dormir. Sim! Um contato pleno com a natureza: a imensa floresta de eucaliptos, o rio da cachoeira e as duas nascentes de águas cristalinas bem aos nossos pés. Quem pode querer mais?!

Aliás, ainda havia um outro motivo para nos deleitar: ao passarmos o fim de semana na casa do Édson e da Renata, que são avós maternos do nosso neto, tivemos a companhia do João Pedro, no auge dos seus sete anos, e do irmão do Édson, o Cristiano, que nos acolheu com profundo carinho.

Ocorre que lá, na casa de campo, não tem Internet e tão pouco rede de telefonia celular ou de televisão. Desse modo, nós ficamos dois dias incomunicáveis. Sendo que, para muitos, poderia ser considerado uma tortura. Contudo, para nós, ah, foi motivo de comemoração essa desintoxicação digital. Porquanto nos ‘obrigou’ a exercer um hábito antigo e agradável: conversar!!

Pois é. O que percebemos é que de quando em quando o ser humano precisa dessa ‘trégua’. Foi bem-vindo o tempo para as conversas, os jogos de bocha e ping-pong e dos desenhos que o João Pedro produziu.

Pudera! Eu e a minha mulher nos alimentamos, durante dois maravilhosos dias, com os sabores e aromas da mãe terra. Portanto, o nosso muito obrigado ao casal Edson e Renata e o sócio (e irmão do Edson), o querido Cristiano. Eles foram os grandes anfitriões dessa jornada…

BOM DE BRIGA

Todas as vezes que íamos jogar bola na ladeira da Zamenhof, sempre havia o risco de alguma briga. Isto porque, como todos os jogadores tinham entre 13 e 16 anos de idade, já viu, né? Os tais ‘hormônios masculinos’ apareciam em qualquer disputa de bola. Por conta disso, mais da metade dos jogos não terminavam bem, ou seja, o ‘pau comia’ antes da partida acabar.

Como eu era bem franzino, para não dizer ‘magrelo’, procurava não entrar em disputa ‘dividida’, daquelas cujo tornozelo quase sempre arca com as consequências. Mas, é o tal negócio: não adianta se esconder, pois quando chega o dia certo, ah, você pode jogar uma moeda para o alto e dizer que ao cair no chão dará cara ou coroa. Porém, não é que a maldita moeda é capaz de cair em pé?!

O que eu posso dizer a vocês é que o Durval já andava na minha ‘cola’ a algum tempo, louco para jogar contra o meu time e me acertar uma cacetada daquelas. E foi o que aconteceu naquela tarde de sábado. O jogo mal começara e logo na primeira disputa de bola Durval acertou um pontapé na batata da minha perna. Eu caí no chão me contorcendo de dor e um grande calombo se formou na hora. Ele, sorrindo cinicamente, apenas levantou o polegar e seguiu em frente.

Um detalhe importante é que quase todos da rua sabiam que eu tinha um irmão mais velho, bastante forte. Assim, para minha sorte, esse ‘detalhe’ me blindou por longo período das confusões na Zamenhof. Só que Durval era novo na rua e não sabia que eu tinha irmão, muito menos que fosse mais forte do que eu. Daí, como eu marquei o gol da vitória no último minuto da partida, além dos tapinha nas costas vindo dos meus companheiros da equipe, recebi também um soco na barriga vindo do Durval. Aí, a confusão se formou. E todo mundo abriu espaço para a nossa briga acontecer. Durval tinha ‘sangue nos olhos’ e queria me ver morto ou quase morto. Já eu, confesso, nunca havia brigado com ninguém e fiquei sem saber como reagir ao soco recebido.

Foi preciso tomar o segundo pontapé na coxa para perceber que não poderia evitar mais a briga. Ainda ganhei alguns segundos girando de um lado para o outro, tentando evitar o conflito. Até que o Durval pulou em cima de mim, buscando me derrubar. Só que ele errou a distância do pulo e bateu com a boca no meu joelho. Caiu estatelado no chão, com o olhar perdido. Imediatamente, começou a sangrar e rapaziada gritava para eu bater firme, já que ele estava zonzo. Mesmo não querendo fazer isso, pois nunca batera em ninguém na vida, senti muita raiva e uma vontade enorme de dar o troco. Foi o que eu fiz quando ele se levantou: devolvi o soco igual na barriga dele. Durval, que era maior do que eu e bem mais forte, nesse momento, parecia assustado com a minha reação. Então, virou-se de costas e saiu correndo para a casa. A turma do futebol comemorou a surra com gritos e assobios. Levantaram-me nos ombros, como um herói, e saudaram o novo ‘rei da briga’ da velha Zamenhof…

Por um certo tempo, Durval evitou se encontrar comigo na rua. Até que um dia ele me perguntou: “Chau, como você deu aquele golpe com o joelho na minha boca?” E eu, sem pestanejar, menti com convicção: “aprendi nas aulas de jiu-jitsu da academia.” Foi quando ele consentiu: “logo vi que você dominava as artes marciais!”

CARA OU COROA

Sim. Eu sei que tem vezes que as nossas escolhas na vida seguem um minucioso critério de avaliação. Outras vezes, porém, a gente acaba optando pelo caminho mais fácil ou menos arriscado, não é verdade? Pois é. Há, também, a questão da sorte ou da pura escolha aleatória, sem passar por nenhum filtro interno. O certo mesmo, como dizem por aí, é que ‘quando tem que ser, não adianta remar contra’. A coisa simplesmente acontece.

O fato é que sem considerar esses aspectos que foram explicitados acima, eu e Marquinhos sempre nos acertamos na hora de escolher o banco do automóvel. Fosse ao lado do motorista como copiloto ou mesmo no banco de trás. Mas, calma aí que explico.

É que na nossa adolescência, nas caronas que pegávamos para ir à praia, o ‘acordo’ tinha que ser rápido. Caso contrário, nós perderíamos aquele sinal fechado e o condutor do veículo arrancaria sem a nossa companhia. Por isso, então, quando o semáforo luminoso anunciava o amarelo e a seguir o vermelho, nós já saíamos pelo meio dos automóveis perguntando: “amigo, pode nos sar uma carona para Laranjeiras, Botafogo ou Copacabana?”

Lembro que esse processo costumava levar, normalmente, de vinte a quarenta minutos, dependendo do movimento de carros. E também da nossa sorte! Tinha dia, por exemplo, que mal chegávamos na sinaleira e logo aparecia um carro. Outras vezes, céus, a gente mofava ali no sol escaldante. No entanto, o importante era se mostrar simpático na pergunta e estar sempre com um sorriso preparado. E nesse aspecto, reconheço, o Marquinhos era mais talentoso. Ou falso. Porquanto vencia 70% das disputas comigo para ver quem conseguiria o bendito transporte…

Havia ocasiões que nós nos dávamos ao ‘requinte’ de escolher o automóvel, optando por modelos mais espaçosos ou aqueles com ar-condicionado. Aí, já viram, né? Quando isso acontecia, era festa no parquinho. Afinal, nós chegávamos em Copacabana exultantes, como verdadeiros vitoriosos!

Mas o diabo é que o Marquinhos era mais liso que sabonete e, se eu bobeasse, ele aplicava algum golpe para cima de mim. Foi bem o que ocorreu naquela quinta-feira ensolarada. Ao se aproximar da caminhonete de luxo, Marquinhos perguntou para o motorista se podia nos dar carona. O rapaz disse que sim. Rapidamente, Marquinhos entrou e se sentou no banco da frente, ao lado do jovem motorista. Eu nem liguei para a escolha dele e me dirigi para a porta de trás da caminhonete novinha. Abri a porta e me sentei rapidamente para não atrasar a partida, uma vez que o semáforo acabara de piscar o verde.

Nem bem eu me ajeitei no banco, senti a presença daquele ‘bicho enorme’ ao meu lado. Caramba! Era um baita pastor-alemão que me cheirava de cima a baixo, de minuto em minuto. E eu, impávido e quase borrado de medo, nem olhava para o cão feroz com medo dele cismar comigo. Sabe como é?!

Lá na frente, conversando animadamente, Marquinhos era só risadas. O pilantra tinha percebido a presença do cachorro quando pediu carona. Por isso, ele entrou bem ligeiro na frente e me deixou na maior ‘encrenca’. Tanto é que ao chegarmos em Copacabana, já refeito do susto, eu disse para ele: “a partir de agora vai ter que ser no ‘cara ou coroa’. Senão, eu estou fora, companheiro”.

O que eu sei dizer é que isso ocorreu há mais de cinquenta anos. Mas até hoje, confesso, eu não consigo olhar para um pastor-alemão sem me lembrar do pilantra do Marquinhos!

UÍSQUE PARAGUAIO

Sim, é verdade! Eu nasci em Fortaleza, no Ceará, nos idos de 1951. No entanto, confesso a vocês: no meu imaginário, ah!, eu devia ter nascido em 1851, às margens do Mississipi, em New Orleans. E ao completar seis anos de idade, por certo, eu receberia de meus pais um trompete de presente. Porém, paciência! Quis o destino que eu nascesse cem anos depois e às margens do barrento Jaguaribe, no velho Ceará. Pior ainda: não recebi presente algum de aniversário… Com sorte, apenas um aperto de mão.

Não, meus amigos, eu não estou aqui a reclamar da infância distante e tampouco das minhas raízes nordestinas. No fundo, eu tenho até muito orgulho de ser pau-de-arara. Porquanto isso legitima as vocações, restituindo o ‘espírito guerreiro’ que há em mim. Ao menos, já houve. De fato, com o passar dos anos, eu percebo que a gente vai perdendo um pouco daquela fibra e da coragem. E como agravante, o diabo desse uísque paraguaio me pegou de jeito e botou as emoções na roda. Aí, sabe como é?! Troquei o disco de “blues” que estava ouvindo e coloquei o conterrâneo Belchior para cantar:

“Meu bem, mas quando a vida nos violentar / Pediremos ao bom Deus que nos ajude / Falaremos para a vida / Vida, pisa devagar, meu coração, cuidado, é frágil / Meu coração é como vidro, como um beijo de novela…”

Ainda assim, eu lhe digo: se eu tivesse nascido no Mississipi, tudo seria diferente. Pois eu teria ao meu lado outros amigos. Sim! E talvez, nesse momento, eu estaria ouvindo Mahalia Jackson cantar “Just a closer walk”. Coisa linda! Mahalia cantaria com a mesma emoção dos “bluseiros” do velho Mississipi em New Orleans.

O que sei dizer é que ainda continuo sonhando com o trompete. Céus! Eu ali, sentado nas improvisadas cadeiras, esperando que alguma alma solidária apreciasse o som e nos oferecesse sorrisos, palmas e, de quebra, algum dinheirinho para o almoço que insiste em reivindicar o atendimento.

Pois é. Destino é destino e não se pode cobrar muito dele, não é verdade? Além do mais, não estou aqui para reclamar de nada. Muito ao contrário. Eu acredito que tenho recebido bem mais dessa vida do que mereço. E de mais a mais, convenhamos, a nossa missão nesse percurso, quando muito, é procurar aprender a ‘soletrar o mundo’ de modo correto.

Se tivermos um bocadinho de sorte, eu acredito que chegará o dia em que poderemos ler tudo aquilo que aprendemos no caminho em voz alta. Oxalá, meu bom Senhor!

A CAMINHADA DOS MEUS PAIS

Naquele bairro, ele era conhecido como “Professor Pardal”. E todos os vizinhos tinham muito apreço por ele e por sua esposa. É que, invariavelmente, às seis da manhã, eles iniciavam os exercícios de aquecimento e a posterior corrida de dez mil metros. Isso representava o equivalente a dez voltas completas pelo quarteirão no bucólico bairro em que moravam.

Após os exercícios, que terminavam por volta das sete e meia, eles voltavam para casa. Tomavam um demorado banho e se sentavam para o longo e saboroso café da manhã. Muitas frutas, cereais, pães e torradas e iogurtes naturais. Daí, cada um ia para o seu canto, ou seja, papai abria a sala de música e mamãe deitava-se na rede cearense de tucum e lia as notícias de artes no segundo caderno do jornal, antes de ir para o seu ateliê.

O que eu posso dizer é que a rotina daqueles dois, seguramente, era prazerosa e bastante movimentada. Sim! Ninguém jamais duvidou da excelente ‘qualidade de vida’ que eles usufruíam. Aliás, tanto o seu Holbein quanto Dona Jarina eram altamente bem-informados e ‘antenados’ no mundo moderno. Isso, é claro, sem perder de vista os valores serenos que eles elegeram como prioritários.

Os seis filhos já estavam formados e encaminhados e, com isso, meus pais tinham todo o tempo do mundo para os interesses escolhidos. Papai, por exemplo, estava sempre às voltas com alguma experiência sonora. Para tanto, ele montava e desmontava o sistema de som, inúmeras vezes. Ora introduzindo alguma modificação ou troca de cabos ou componentes. Ora promovendo ‘novos’ equipamentos desenvolvidos por ele. Segundo dizia, somente assim ele iria encontrar o “som de reprodução ideal”, isto é, o mais próximo possível da reprodução ao vivo, presencial.

Já a minha mãe, por seu turno, trabalhava em algum novo projeto artístico, fosse desenho ou à óleo. E o mais interessante no seu processo criativo é que, invariavelmente, ela se envolvia com mais de um trabalho. Ao mesmo tempo. Isto porque, quando percebia que alguma ideia ‘travava’, ela o deixava em banho-maria e assumia outro desafio pela frente. Desse modo, a sua produção artística era intensa e prazerosa.

O mais importante de tudo não foi ver minha mãe recebendo a ‘medalha de ouro’ no Salão Brasileiro de Desenho. Tampouco saber do sucesso da publicação de um artigo técnico sobre ‘reprodução sonora’ em uma revista de grande circulação entre os audiófilos. Importante mesmo, cá entre nós, era constatar que os nossos pais eram felizes. Sim! Felizes naquela vida e, quem sabe, na ‘nova vida’ que eles usufruem agora… E isso não tem preço!

PS. Na foto, mamãe, meu filho Gabriel e papai em momento de deleite.