NO MEIO DO CAMINHO TINHA DORI CAYMMI…

Por diversas vezes eu disse que me considero um sujeito de sorte. Muita sorte! É que nessa travessia da vida, minha gente, eu fui contemplado com inúmeras criaturas que gentilmente selaram o meu caminho. Sim, foram encontros pra lá de especiais. E até hoje eu celebro cada um deles!

“Por toda terra que passo me espanta tudo que vejo / A morte tece seu fio de vida feita ao avesso / O olhar que prende anda solto / O olhar que solta anda preso / Mas quando eu chego eu me enredo / Nas tramas do teu desejo…”

Então, atraído pelo intenso desejo de viver aventuras, eu me soltei feito um balão. Inicialmente, foi do Ceará ao Rio de Janeiro, onde eu comecei a “soletrar o mundo”. E gostei muito do que li. Gostei das companhias que me instigaram à corrida. Afinal, era algo que não conhecia ainda: a magia das letras.

Pelas mãos de Dona Aldina, a inesquecível professora de literatura, ah, eu passeei com Capitu, subi no pé de laranja com Zezé. E com Riobaldo e Diadorim eu revisitei o meu sertão. Bebi também a água que saciou Fernando Pessoa e Drummond. Depois disso, eu me aventurei pelas entranhas da América do Sul ainda bem jovem. Fosse para ouvir e me comover com o canto de Mercedes Sosa, fosse para sorver a escrita de Vargas Llosa, Cortazar e Gabriel Garcia. Céus… como eu os agradeço pelos ‘regalos’ que espalharam nos quatro cantos.

“O mundo todo marcado à ferro, fogo e desprezo / A vida é o fio do tempo, a morte o fim do novelo / O olhar que assusta anda morto / O olhar que avisa anda aceso / Mas quando eu chego eu me perco / Nas tranças do teu segredo…”

Logo a seguir veio a ‘parceria com o magistério’. E descobri que ensinar é bem mais fácil do que aprender. Basta abrir o coração e convidar os alunos para algumas incursões. O resto, bem, o resto é sedução e convencimento. Afinal, não há nada mais atraente do que o conhecimento.

“Ê Minas, ê Minas, é hora de partir, eu vou / Vou-me embora pra bem longe…”

Vieram as primeiras viagens. Com elas, um tremendo universo a conhecer. Ora me apresentando como garçom ou cuidador de crianças, ora colhendo uvas nos campos de lavoura. Tudo valia a pena. Tudo era experiência e descoberta. Línguas a serem desvendadas.

“A cera da vela queimando, o homem fazendo seu preço / A morte que a vida anda armando, a vida que a morte anda tendo / O olhar mais fraco anda afoito / O olhar mais forte, indefeso / Mas quando eu chego eu me enrosco / Nas cordas do seu cabelo…”

Por sorte, veio o casamento e o abençoado filho para redimir alguns enganos cometidos e marcar a trilha do caminho. Além disso, de quebra, veio o prazer da escrita. Quem sabe, uma tentativa de deixar registros daquilo que me impressionou e ainda continua pulsando durante o percurso?

“Ê Minas, ê Minas, é hora de partir, eu vou / Vou-me embora pra bem longe…”

PS. Os agradecimentos a Dori Caymmi pela colaboração involuntária de sua melodia “Desenredo”.

“POR QUEM OS SINOS DOBRAM?”

Dizem que a ‘gratidão’ é um dos sentimentos mais evoluídos que um ser humano pode apresentar. Sim, é bem possível que seja. E se isso for verdade, meus amigos, torço então para que os ‘espíritos hospedeiros’ tenham esta compreensão quando chegar a minha hora…

Por enquanto, creio, ainda há muito o que fazer por aqui. Muitos projetos de vida. Muitas descobertas e… muito o que aprender, isso sim! É que a nossa estrada é longa e desafiadora, repleta de acontecimentos. Por sorte, é verdade, eu tenho sido contemplado com maravilhosas notícias, dessas que devolvem o brilho aos olhos atentos. Melhor assim!

Se eu afirmo isso, minha gente, é porque a vida vem me ensinando, todos os dias, que as pessoas representam a coisa mais importante na nossa existência.

Também é verdade que ‘homem nenhum é uma ilha’, como dizia John Donne, em seu antológico livro – “Meditações” (1623). Isso foi tão certeiro que até serviu de inspiração para o inesquecível romance, “Por quem os sinos dobram”, do escritor Ernest Hemingway, que mais tarde foi adaptado ao filme de mesmo nome.

Por sinal, se há uma coisa que sempre me intrigou, confesso, é tal do ‘destino’. Céus! Acho que dava para escrever um livro sobre isso, porquanto o tema fascina um punhado de gente nesse mundão afora. Afinal de contas, qual é o papel que nos cabe no percurso da vida? E qual é a ‘mão do destino’ que tantas histórias têm modificado por aí? Sei não. No fundo, eu acredito que cabe a cada um de nós abraçar a melhor resposta, desde que ela nos atenda. Eu, por meu turno, sempre aceitei que o destino ‘existe’ sim. Mas acredito também que a gente dá uma tremenda ‘mãozinha’ a ele… Ah, disso eu não tenho dúvida!

É o tal negócio: a gente vai pelejando como pode e, muitas vezes, sem que percebamos, surgem alguns ‘toques externos’ que corrigem ou modificam o curso dos acontecimentos. E o mais importante é que isso pode acontecer uma única vez ou mesmo diversas vezes ao longo da estrada. Isso não quer dizer que não teremos ‘outra oportunidade’…

De toda forma, o importante é a gente ficar atento aos movimentos que efetuamos, à medida que eles sinalizam os caminhos e os descaminhos que trilhamos. O resto, convenhamos, ficará por conta da nossa acuidade e zelo. Sempre.

Por isso, então, quando olho para trás, procurando entender a minha trajetória, eu descubro que o ‘destino’ foi tremendamente generoso comigo. Ao me entrelaçar a outras tantas criaturas maravilhosas, eu tive a sorte grande de aprender com elas.

Por fim, cabe registrar que a frase do título dessa crônica tem a ver com o livro de Ernest Hemingway. E é inspirada em um sermão do poeta inglês, John Donne, que diz: “A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte da humanidade; e por isso nunca procures saber por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

Pois é. Toda essa digressão me fez lembrar a comovente história filme de Sam Wood, produzido em 1944, intitulado “Por quem os sinos dobram?”. O filme é baseado no aclamado livro de Ernest Hemingway, de 1940, cuja história narra três dias na vida de um americano que se ligara à causa da legalidade na Espanha. O personagem Robert Jordan é um especialista em demolições e está focado na missão de explodir uma ponte estratégica. É bom lembrar que o magnífico romance explora temas como o amor, a morte e o custo humano da guerra. O filme contou com Gary Cooper, no papel do galã, e introduziu a linda Ingrid Bergman no cenário cinematográfico.