14

Ah, meus amigos, os números sempre me intrigaram. Não pela matemática em si, mas pela forma como eles tecem o nosso destino, silenciosamente. O 14, por exemplo, sempre foi um companheiro discreto na minha jornada.

Lembro que na minha infância, no bairro do Estácio, a casa do seu Amaral ficava no número 14 da rua. Sim, aquele mesmo, do 707, que tanto povoou as minhas memórias. Era ali que eu passava as tardes, e o número 14, estampado na fachada, tornou-se um marco na minha geografia afetiva.

Mais tarde, quando me tornei professor de química, o elemento com número atómico 14 era o silício. Talvez por isso eu sempre tenha visto uma ligação invisível entre a solidez da memória e a estrutura dos cristais. Ambos, de uma forma ou de outra, guardam uma pureza que o tempo teima em não apagar.

O jazz, essa música que me acompanha, tem em “’Round Midnight” a sua face mais lírica. Thelonious Monk não sabia, mas ao compor aquela melodia atemporal, criou também a banda sonora para os meus devaneios com certos números. Há quem diga que a música é matemática pura. Eu digo que ela é um abrigo para as coincidências que a vida insiste em nos oferecer.

Os meus leitores mais assíduos sabem que gosto de encontrar padrões. Foi o cinema que me ensinou a buscar segundas leituras. No filme “Retratos da vida”, de Claude Lelouch, há uma cena em que o protagonista repara no número da cabine telefónica. É 14. E dali, a sua vida se desenrola de uma forma completamente nova. Uma ficção, claro, mas quantas vezes a realidade imita a arte?

Há quem diga que sou sonhador. Talvez seja. A todos os que me leem, fica o convite para repararem no número 14 à vossa volta. Pode ser um sinal, um sorriso do universo. Ou pode ser apenas uma coincidência. O importante é que a vida, com os seus números e as suas histórias, continua a surpreender-nos.

Um grande abraço e até à próxima reflexão.

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