POR TRÁS DAS GROSSAS LENTES

Eu nem saberia dizer a quanto anos uso óculos. Pudera! Já faz tanto tempo que eu chego a pensar que nasci com eles. No entanto, é preciso reconhecer que não é lá um objeto confortável, isso sim, pois incomoda um bocado. Seja pelo peso em cima do nariz, seja pela obrigação de sempre limpar as famigeradas lentes.

Aliás, lembro até que foi no curso ginasial que experimentei o primeiro deles. E confesso que havia em mim um dúbio sentimento: o prazer de ver as coisas com nitidez, contrapondo-se à vergonha e raiva de ser apelidado por ‘quatro-olhos’. Sabe como é? É bem verdade que adolescente é uma raça preconceituosa. Basta uma pequena diferença em relação ao senso comum e, por certo, haverá imediatamente um dedo apontando para você. Como se o outro tivesse cometido um ‘delito’ irreparável ou carregasse uma ferida aberta que nunca mais cicatrizará…

O que sei dizer é que eu estava pensando nisso tudo quando veio a vontade de rever o belíssimo filme de Woody Allen, “Meia-noite em Paris”. Ah, minha gente, o filme é uma maravilhosa viagem no imaginário das criaturas. Porquanto desde o início da história a gente se sente ‘raptado’ pela atmosfera criada por Woody Allen. Sim! Quem há de resistir àquelas imagens de uma Paris encantadora e plena de “glamour”? Quem não se renderia ao entrar em ‘bistrô’ parisiense e encontrar Francis Scott Fitzgerald? E mais: quem não se imaginou sentado em um café, às margens do rio Sena, sendo recebido por Ernest Hemingway, Pablo Picasso e Luís Buñuel?!

Céus… o que sei dizer é que “Meia-Noite em Paris” é um prazer cinematográfico do início ao fim. Afinal, a atmosfera criada por Woody Allen, amparada em extraordinária trilha sonora, lentamente vai tecendo a teia de uma recorrente sedução. Além disso, o elenco é primoroso e o desempenho dos atores e atrizes, seguramente, facilitou o trabalho do diretor. Até mesmo a semelhança física de ‘Cole Porter’ foi contemplada pela delicada interpretação de Yves Hack.

Pois é, meus amigos. Sorte a minha ter lembrado desse filme ontem à noite. Só assim eu pude dormir com um invejável sorriso de satisfação. Deitado em minha cama, eu repassava cada cena imaginando como seria bom estar naquele ‘set de filmagem’.

Isso, porém, não foi problema. Até porque, de um jeito ou de outro, eu acabei me encontrando com eles. Sim. Todos eles! Pois saibam, então, que após o filme, eu brindei com Joséphine Baker ao lado da animada Gertrude Stein. Eu abracei festivamente os amigos Salvador Dali e Henri Matisse. Conversei com o poeta T.S. Elliot e, de quebra, combinei outros encontros com várias figuras da “Belle Époque”. Como fiz isso? Putz… eu rogo que me perdoem, mas… isso eu não posso contar!