A GRANDE HERANÇA RECEBIDA

Foi na casa do tio Holdemar que eu tive a sorte grande de ser apresentado à literatura de Gabriel Garcia Márquez. Pois é. Nós estávamos em 1968, eu tinha 17 anos e vivíamos tempos difíceis, pois boa parte da América Latina sofria com os regimes autoritários. Lembro até que nesse mesmo ano, em 26 de junho, eu participei da famosa ‘Passeata dos Cem Mil’, no centro do Rio de Janeiro. Meu Deus de Céu, aquele encontro foi algo impressionante. Algo que marcou para sempre a história do nosso país. E deixou registros permanentes em minha memória. Seguramente! Por isso, quando o tio Holdemar soube da minha participação, enviou-me um bilhete alertando-me sobre os perigos que existiam.

Aliás, foi no pequeno escritório de sua casa, no primeiro andar, que ele me presenteou com a novela de Gabriel Garcia, intitulada “Ninguém escreve ao Coronel”. Nossa, que estilo envolvente de narrar. Eu fiquei extasiado com a qualidade do texto. Depois disso, para minha sorte, eu conheci “Cem anos de solidão”, o “O outono do patriarca”, “Crônica de uma morte anunciada” e tantos outros livros de Gabriel, incluindo o magistral romance “O amor nos tempos do cólera”.

O mais interessante de tudo é que nessa época eu também conheci as baladas de John Coltrane. “Carlos, você conhece as baladas do Coltrane?”, perguntou-me Holdemar. Claro que não ‘conhecia’. Então, escutei. Uma, duas, diversas vezes. Incríveis! Somente após ouvir aquelas baladas é que eu fui compreender o que era elegância e bom gosto no jazz. Por sinal, confesso a vocês, no meu imaginário Coltrane tocava “Say it (over and over again)” vestido a rigor, tal era o ‘finesse’ com que ele soprava aquele sax. Além de Coltrane, eu também descobri o talento de Miles Davis, que soprava aquele trompete como um verdadeiro anjo.

Ah, meus amigos, o que eu posso dizer é que dali em diante eu nunca mais pude me separar de Coltrane, nem de Miles Davis, de Gabriel Garcia Márquez e muito menos das lembranças que carrego do ‘nego velho’, o meu amado tio Holdemar…

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Carlos Holbein

Professor de química por formação ou "sina" e escritor por "vocação" ou insistência… Ver todos posts por Carlos Holbein