BAILA  COMIGO

Em quase todos os fins de semana, na minha juventude, havia algum baile programado pelo empreendedor Ari Mustafá. E existia também uma enorme variedade de orquestras e clubes onde ocorriam essas festas. Sim! Aquela foi uma época de muita efervescência musical para nós, jovens mancebos na faixa dos 15 aos 25 anos de idade.

No entanto, o diabo é que eu precisava organizar muitas coisas, uma vez que meus pais não tinham grandes recursos financeiros. Afinal, eram tempos difíceis para bancar roupas, ingressos e tudo o mais que era consumido pela rapaziada tijucana do Rio de Janeiro dos anos 1960 e 1970. Então, para dar conta disso, ah, eu tinha que pôr em ação várias estratégias. A primeira delas, por certo, era propor um plano de pagamento parcelado com o alfaiate do bairro, o seu Horácio. Daí, o combinado é que eu ficaria encarregado de entregar as encomendas que ele recebia dos clientes. Desse modo, eu andava por todo lado, feito um “motoboy”, só que sem moto! Algumas vezes, o que era pior, eu tinha até mesmo que subir o morro do São Carlos para levar uma calça, um paletó ou mesmo uma fantasia de carnaval. E assim, a cada entrega efetuada, eu promovia descontos na minha ‘conta corrente’ com o seu Horácio. É o tal negócio: de grão em grão… eu acumulava a graninha da calça ‘boca-de-sino’ para me ‘exibir’ nos bailes do Ed Lincoln ou da Orquestra Tabajara.

A outra estratégia que eu lançava mão, de fato, era carregar as sacolas cheias de frutas, legumes e verduras das senhoras do prédio da Zamenhof. Porquanto elas gostavam dos meus “serviços”, uma vez que eu era bastante gentil e educado com elas. E a feira da rua Sampaio Ferraz, que ocorria em todas as quartas, rendeu-me um bom dinheirinho por alguns anos, ainda que fosse a parte mais pesada das minhas estratégias. Certas quartas-feiras, eu fazia aquele percurso três ou quatro vezes para levantar um bom dinheirinho. Mas ficava com as mãos vermelhas de tanto peso… Paciência!

Lembro até que eu havia pressionado o seu Horácio para me entregar a calça “pied de poule” que tinha encomendado. Só que o sacana do alfaiate ‘morcegava’ um bocado, alegando que estava com muitas encomendas para aquela semana. O jeito foi dar uma ‘incerta’ no atelier de costura dele, lá no sobrado da rua Quintino do Vale. Com a desculpa de pegar as encomendas das entregas, eu acabei vislumbrando a minha calça ‘boca de sino’ na mesa ao lado. Uau… que tal levar a minha calça, pensei com meus botões?!

Tudo a ver, já que naquela sexta-feira haveria o baile da orquestra do Ed Lincoln, no clube Orfeão Portugal. Para tanto, eu me preparei feito um príncipe, pois até xampu eu usei no banho. Além disso, peguei o vidro de Lancaster do meu irmão mais velho e sacudi em cima, sem pena!

O que eu sei é que a calça entrou um pouco apertada. Abotoei o cinto estilo “tremendão”, calcei a bota e me mandei de casa antes que me perguntassem aonde eu ia. Ao chegar no clube, a fila de entrada já estava enorme, com muita gente bonita, sorrindo à vontade. Foi quando eu apresentei o ingresso e subi as escadarias que davam acesso ao grande salão. “Hoje é o meu dia”, pensei exultante. Peguei um copo de cuba-libre e adentrei no ‘campo da batalha”…

Foi quando eu ouvi os primeiros acordes de “Só danço samba”, de Vinícius e Tom Jobim. Foi um verdadeiro delírio para a rapaziada que aguardava a abertura do salão de dança. Rapidamente eu procurei uma moça bonita para ser meu par. E tinha uma lourinha bem ao lado da mesa central. “Aceita dançar”, perguntei todo garboso. Sim, aceito, ela respondeu. Peguei a sua mão e caminhamos para o ‘palco das grandes exibições’.

Como aquela melodia sacudiu o ambiente, eu achei que podia encerrar a música com um passe bem expressivo. Virei a moça de lado e apliquei uma descida com certo malabarismo. Foi quando ouvi aquele barulho de roupa rasgando… No primeiro momento, pensei que podia ter vindo de outra pessoa. Qual o quê! Era a minha calça que havia descosturado de ponta a ponta na parte traseira. Sem graça, agradeci a lourinha e fui saindo de fininho do salão.

Ao chegar no banheiro, descobri que a calça tinha uma costura provisória, cheio de pontas de linha espalhadas para dentro. No reservado, tirei a calça e vi uma anotação feita com lápis de cera: “Carlos – só alinhavada”.

Maldito seu Horácio!

Publicado por

Carlos Holbein

Professor de química por formação ou “sina” e escritor por “vocação” ou insistência… Ver todos posts por Carlos Holbein