O Salvo-Conduto
Ah, meus amigos, o que seria de nós sem um salvo-conduto para as horas incertas da vida? Não me refiro ao documento burocrático, mas àquela permissão que a alma se dá para seguir em frente, apesar dos pesares. A vida, essa senhora de mistérios, ora nos fecha portas, ora nos abre janelas inesperadas. E é nesses momentos de encruzilhada que precisamos de um salvo-conduto emocional, um passe que nos autorize a prosseguir.
Certa feita, li em Guimarães Rosa que 'o correr da vida embrulha tudo'. Pois então. Se a vida embrulha, o salvo-conduto é o fio da meada que nos permite desembrulhar devagar, sem pressa, mas sem pausa. É a licença poética que outorgamos a nós mesmos para enfrentar o dia seguinte. Um salvo-conduto que muitas vezes vem disfarçado de um livro, de um filme, de um disco. Uma melodia de jazz que nos transporta, um verso de Drummond que nos ampara.
Lembro de uma passagem de 'A Hora da Estrela', de Clarice Lispector, onde a personagem Macabéa, mesmo desprovida de tudo, possuía uma espécie de salvo-conduto interior que a mantinha viva. Uma força vital que ignorava as adversidades.
No fundo, o maior salvo-conduto que podemos ter é a certeza de que, mesmo nas estradas mais esburacadas, a paisagem vale a pena. E que o destino, esse grande emissário de passes, sempre nos concede uma nova chance de reinício.
Que os bons ventos soprem a favor de todos nós, trazendo as permissões necessárias para seguirmos em frente, com coragem e fé na vida. Um grande abraço!