Aos 17 anos
Quando completei 17 anos, o mundo parecia um lugar imenso, cheio de possibilidades e mistérios. Morávamos na Rua do Catete, no Rio de Janeiro, e eu passava as tardes numa pequena livraria perto de casa. Foi lá que descobri um exemplar surrado de “Grande Sertão: Veredas”. Li a primeira frase — “Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja.” — e fiquei enfeitiçado. Aquele sertão de papel me transportava para um Brasil desconhecido, tão distante do meu cotidiano carioca.
Na mesma época, um vizinho me apresentou ao jazz. Lembro da primeira vez que ouvi Chet Baker cantando “My Funny Valentine”. A voz era suave, quase quebrada, e eu senti um arrepio na espinha. Passei a noite repetindo o disco na vitrola, até a agulha chiar. Aquela música abriu uma porta: comecei a procurar outros discos, a frequentar sebos atrás de LPs de Ella Fitzgerald, Bill Evans, Miles Davis. O jazz se tornou a trilha sonora da minha adolescência.
Aos 17 também vieram as primeiras paixões. Havia uma moça de cabelos compridos na escola que me fazia escrever poemas. Nunca entreguei nenhum — guardava num caderno com cadeado. Hoje, relendo aqueles versos, acho engraçado e ingênuo. Mas era sincero. A literatura já se insinuava como um refúgio: eu copiava trechos de Drummond, Bandeira, e tentava imitar o estilo deles. Tudo soava falso, mas a prática me ajudou a encontrar, mais tarde, a minha própria voz.
Os 17 não foram fáceis: o país vivia a ditadura, e meu pai discutia política à mesa com os amigos. Eu ouvia calado, tentando entender. Aos poucos, formei minhas primeiras convicções — algumas mantive, outras abandonei. Aprendi que o mundo é feito de cinzas e não apenas de pretos e brancos.
Quando penso naquela idade, sinto nostalgia e um pouco de tristeza. Não pelo que vivi, mas pelo que deixei de viver. O jovem de 17 queria abraçar o mundo, mas ainda não sabia que o mundo também abraça a gente — com seus espinhos e belezas. Escrevo essas linhas para não esquecer: cada idade tem seu sabor, e os 17 são uma lembrança doce, um ponto de partida.
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