Vinte e três
Hoje é 23 de julho de 2025. Acordei com o número 23 na cabeça. Não sei bem por quê. Talvez seja a data. O inverno em Florianópolis está especialmente úmido este ano, com aquela garoa fina que nos convida a ficar em casa, ouvindo um bom disco e observando a neblina tomar conta do Morro da Lagoa.
O número 23 sempre me intrigou. Lembro que, aos 23 anos, eu recém havia começado a lecionar Química. Era um tempo de descobertas. As pessoas costumam dizer que a vida começa aos 40, mas eu discordo. A vida realmente pulsa é nos 20 e poucos, quando a gente ainda acredita que pode mudar o mundo com um giz e um quadro-negro. E, de certa forma, a gente muda. Pelo menos o mundo de alguns alunos.
“O Senhor é o meu pastor, nada me faltará.” Estas palavras, do Salmo 23, sempre me trouxeram um conforto imenso. Elas me lembram que, no meio das turbulências, há uma mão invisível que nos guia. Hoje, ao olhar pela janela e ver a garoa persistente, não pude deixar de pensar na quantidade de “23” que já passaram pela minha vida. Foram 23 de março, 23 de abril, 23 de maio… datas que marcam aniversários, encontros, despedidas. O poeta Drummond escreveu sobre o “mundo mundo vasto mundo”. O meu mundo cabe em um número. O número 23.
Há quem diga que o tempo é uma linha reta. Discordo. O tempo é um emaranhado de fios, onde os números se repetem como em um caleidoscópio. Um mesmo número pode representar uma casa onde se foi feliz, uma idade cheia de promessas, ou simplesmente o dia de hoje. O filósofo disse que o acaso não existe. Talvez o 23 tenha vindo me visitar hoje para me lembrar de que tudo faz parte de um grande tear.
E a vida segue o seu curso. Gabriel, meu filho, está cada vez mais envolvido com seus projetos. João Pedro, meu neto, descobriu que o Minecraft pode ser mais divertido que a aula de inglês (céus!). O mundo continua girando, e eu aqui, aninhado neste 23 de julho de 2025, sentindo o cheiro de café fresco vindo da cozinha.
Termino este pequeno texto ao som de uma melodia de Bill Evans, o “Waltz for Debby”. O piano dele, parecido com o salmo, me traz tranquilidade. Desejo a todos que encontrem os seus próprios números da sorte. E que, acima de tudo, possam sentir a paz de uma manhã de inverno, mesmo que chuvosa.
Um grande abraço a todos e boa diversão!