NOTÍCIAS DA TV (Parte 2)

Ah, meus amigos, a televisão ainda é capaz de nos pregar umas peças… ou melhor, de nos oferecer presentes inesperados. Ontem, numa madrugada de insônia, enquanto mexia no controle remoto, fui parar num canal que passava um documentário antigo sobre a vida e a obra de Tom Jobim. Sim, o maestro soberano!

Confesso que, a princípio, a imagem era um tanto embaçada, característica das gravações dos anos 1960 e 1970. Mas bastou Tom começar a falar, com a sua voz macia e mansa, que o quarto escuro se iluminou. Ele estava sentado ao piano, dedilhando "Águas de Março". Foi quando um apresentador, já cabelos brancos, perguntou-lhe sobre o segredo da beleza das suas canções.

Tom, com a sabedoria de quem já viveu o suficiente, respondeu algo que me tocou fundo: "Olha, a beleza não está na canção, ela já está pronta no ar. Eu apenas a pego. A gente tem que ter a humildade de saber que a música já existe. A gente só tira o véu."

Fiquei pensando naquilo, meus amigos. Será que o mesmo não se aplica a tudo na vida? A literatura, o cinema, o amor? A arte não seria uma descoberta, um 'desvelar' daquilo que já está posto à nossa volta? O poeta Carlos Drummond de Andrade, que tanto admiro, já dizia algo sobre as pedras no meio do caminho. Talvez, para Tom, a beleza fosse a pedra que todos veem, mas poucos têm a sensibilidade de transformar em melodia.

Aquele programa de televisão, que por certo já tinha ido ao ar há mais de cinquenta anos, ganhava uma vida nova na minha sala. E por alguns instantes, eu não estava mais no meu apartamento em Florianópolis, mas num estúdio no Rio de Janeiro, na década de 1970, vendo o maestro trabalhar.

Lembrei-me, então, da minha mãe. Ela adorava Tom Jobim. Cantarolava "Garota de Ipanema" enquanto cozinhava. A televisão, naquele tempo, era o centro da sala. A família se reunia em volta dela como se fosse uma fogueira. Hoje, cada um tem a sua tela. Mas a magia, quando a gente se permite, ainda acontece.

A entrevista seguiu e Tom falou sobre os passarinhos do Jardim Botânico, sobre a amizade com Vinícius, sobre o exílio em Los Angeles. Em determinado momento, soltou uma frase que anotei num papel qualquer da mesa de cabeceira: "O importante é a gente não ter medo de viver. O medo é um bicho que engole a gente."

Pois então, meus amigos. O que tirei desse encontro noturno com a televisão foi uma injeção de ânimo, uma injeção de poesia. A TV, muitas vezes tratada como esse objeto banal e ruidoso, ainda guarda essas preciosidades. Basta a gente ter paciência, e sorte, de encontrar o programa certo na hora certa.

Deixo aqui o meu convite para que vocês também, ao zapearem por aí, prestem atenção nos documentários, nas entrevistas antigas, nos filmes em preto e branco. Quem sabe vocês não encontram também um 'Tom Jobim' esperando para lhes fazer companhia?

Reflexões sobre a TV de hoje

Claro que nem tudo são flores. A programação aberta, muitas vezes, parece um verdadeiro "vale-tudo" em busca de audiência. Programas que tratam a inteligência do telespectador como se fosse uma mera peça de estatística… Isso é triste. Mas, assim como no jazz, a gente aprende a fazer os solos na hora certa, driblando as notas ruins. A programação ruim a gente dribla com o controle remoto, em busca daquela nota harmônica que acalma o coração.

Enfim, a televisão pode ser uma grande janela para o mundo. Ou apenas um espelho daquilo que não queremos ver. Cabe a cada um de nós escolher o foco. Eu, pessoalmente, prefiro as janelas abertas para o mar da memória e da boa arte.

Para refletir

  • A TV ainda pode ser um veículo de cultura e emoção.
  • Documentários e entrevistas antigas são verdadeiras cápsulas do tempo.
  • A arte, como disse Tom Jobim, está no ar. Basta saber ouvir.
  • Não deixe que a programação medíocre roube o seu tempo. Busque o que te faz bem.

Um grande abraço a todos e boa diversão!

Publicado em