07 de outubro de 2020

Outubro de 2020. O calendário não mente. Foi um mês como outro qualquer, mas o peso da história se fazia sentir. Escrevo do fundo da minha memória afetiva, como sempre faço. Lembro do cheiro do café, do silêncio da rua, das máscaras penduradas no varal. O mundo havia parado, mas a vida, teimosa, insistia em pulsar dentro de casa. Foi quando me dei conta de que o verdadeiro sentido da existência está nas pequenas trincheiras: um abraço apertado (quando possível), a leitura de um poema, o som de um saxofone ao entardecer.

O POLTRONA ESPECIAL sempre foi sobre isso. Sobre os afetos. Sobre o que nos torna humanos. Ainda que a humanidade parecesse ter enlouquecido, a arte permaneceu como um farol. E é seguindo essa luz que caminhamos, um dia após o outro. Neste 7 de outubro, não tenho grandes anúncios, apenas uma crença inabalável na força das palavras e dos sons. Outubro sempre me pareceu um mês de transição. O calor começa a dar seus primeiros sinais no Rio, as folhas secas dançam nas calçadas. Em 2020, o mundo estava de quarentena, e as ruas, vazias, contrastavam com a intensidade do que sentíamos.

Foi o ano em que aprendemos a valorizar o silêncio, a redescobrir a literatura, a ver filmes que estavam na lista há tempos. Eu, particularmente, revisitei os clássicos. Li Eça de Queirós, vi Casablanca pela enésima vez e ouvi Bill Evans como se fosse a primeira. A arte não é um luxo nestes tempos; é um respiro. É o que nos mantém sãos. Por isso, escrevo. Escrevo para não esquecer. Escrevo para lembrar que a beleza persiste. E que, mesmo nos dias escuros, há uma poltrona onde podemos nos aninhar e sonhar. Aguardo os comentários e as histórias que vocês, leitores, têm a compartilhar.

Agradeço a cada leitor que reserva um momento do seu dia para mergulhar nestas palavras. É um gesto de confiança que não tomo por garantido. O ato de escrever, para mim, é um ato de esperança. Esperança de que, mesmo neste mundo vasto mundo, haja alguém disposto a sentir junto. Sigamos, pois. Com coragem, com afeto e com a certeza de que a arte nos salva.

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