Disco: “Diagonal”, de Johnny Alf

Não sei se vocês vão concordar comigo. Mas, com o passar do tempo, torna-se cada vez mais comum a gente cultivar um certo “saudosismo”. Isto porque, convenhamos, quando se fica mais velho aumenta também o “banco de memórias” e talvez com o medo de extraviá-las a gente se “agarra” aos episódios mais significativos que foram vividos. Parece até um mecanismo de autodefesa, inocente e sem grandes consequências. Sei lá, pode bem ser verdade. Contudo, na dúvida, é preciso ficarmos atentos aos caminhos e descaminhos que isso pode acarretar. Afinal, nunca se sabe…
No meu caso, meus amigos, acredito que pelo fato de ter 67 anos e ter vivido intensamente minha infância, juventude e a fase adulta, eu possa “escorregar” aqui e acolá nessas rememorações. No entanto, não sou dessas criaturas que acham que o melhor da vida foi na “sua época”. Lá, isso não! Para mim o que vale são os bons episódios, sejam eles longínquos ou recentes, pouco importa.
Vejam o exemplo desse CD do grande Johnny Alf, intitulado “Diagonal”. Quando bati os olhos nele na loja de raridades que havia na rua Augusta, em São Paulo, confesso que fiquei entusiasmado, pois sou fã de carteirinha da nossa bossa-nova e Jonnhy Alf foi um mestre. Mas é aquela velha história: tem coisas que efetivamente “prescrevem” com o tempo. E pelo visto é bem o caso. Não que o CD não tenha valor, minha gente. Porém, eu acho que ele “envelheceu” e não impressiona mais a gente como ocorria na época…
Eu ouvi atentamente as doze melodias mais de uma vez e, ainda assim, não me senti remetido ao velho Beco das Garrafas, na Copacabana que conheci na minha mocidade.
Vale muito mais como “documento histórico” do que o CD dos nossos sonhos. Tanto é verdade que ao guardar o CD na minha estante, ele acabou ficando na parte de trás. Aquela parte que pouco se vasculha e que acaba acumulando mais pó que as outras…
Paciência, fazer o quê?!

Música: Astor Piazzolla para sempre!

Eu bem sei que o tempo voa mais rápido que a história. Por vezes, nem mesmo os pensamentos conseguem acompanhar o seu ritmo. Verdade mesmo é que, algumas vezes, isso dói um bocado. Eu explico. É que eu estava remexendo no diretório de fotos no computador e, de repente, acabei me deparando com algumas que não me lembrava mais… Eram fotografias de quando eu cheguei em Floripa, em 1997. Ao observar uma delas, no apartamento na Lagoa da Conceição, lembrei-me do período que ela representava. Eu havia recém-chegado do Rio de Janeiro, após a aposentadoria especial de 25 anos de magistério e, além disso, eu acabara de sair de um casamento. Como é comum nessas horas, eu estava doído e fragilizado. Por isso, Florianópolis representava uma espécie de “terra prometida”, onde encontraria o meu paraíso e a minha bem-aventurança!
Foi o período que mais escutei jazz. É bem verdade que foram momentos de muita reclusão e, por conta disso, requeriam sons mais intimistas, mais contemplativos. Daí a minha escolha ter recaído em alguns “especialistas”, como o foi o caso de Gerry Mulligan. Sem dúvida, uma baita músico!
Mulligan é um virtuose no sax barítono, instrumento no qual tornou-se, talvez, a maior referência mundial. Consegue extrair um timbre riquíssimo daquele sax, com improvisações extremamente melódicas. Seu sopro está quase sempre impregnado por atmosfera mais intimista. Por isso, foi um dos principais expoentes do “cool jazz”, participando das gravações do célebre disco do trompetista Miles Davis, “Birth of the Cool”.
Ah, ao ver uma outra foto da mesma época, 1997, lembrei-me de um outro disco de Gerry Mulligan, “Summit” ou “Reunión cumbre”, gravado em 1974 com o genial Astor Piazzolla. Coisa linda!

Disco: “Porgy & Bess”, Oscar Peterson e Joe Pass

Quase todo mundo conhece ou já ouvir falar sobre a magistral ópera jazzística dos irmãos Gershwin, “Porgy and Bess”. Isto porque a consagrada obra foi executada pela primeira vez em 1935. De lá para cá, inúmeras montagens já foram apresentadas nos quatro cantos do planeta. E em quase todas, posso imaginar, deve ter sido um tremendo sucesso.
O que eu posso dizer, minha gente, é que eu tirei a “sorte grande” quando fui assistir ao espetáculo que foi encenado no Teatro Municipal, do Rio de Janeiro, em 1986. Meus Deus do Céu, o que foi aquilo? Para que tenham ideia da singularidade do evento, o teatro estava totalmente lotado e nos corredores e escadarias havia um “frisson” pairando no ar… Decerto, aquele majestoso teatro merecia isso. E no palco, tínhamos os talentos de Willard White (Porgy) e de Cynthia Haymon (Bess) ditando o andamento da ópera e, de algum modo, libertando os nossos corações. Afinal, a obra de George Gershwin é impecável e as melodias construídas com o irmão Ira Gershwin tornaram-se imortais. “Summertime” talvez seja a canção mais conhecida da ópera mas, justiça seja feita, não se pode negar o extraordinário valor de “It Ain’t Necessarily So”, “Bess, You Is My Woman Now”, “I Loves You Porgy” e “I Got Plenty o’ Nuttin'”.
Este CD, “Porgy & Bess”, de Oscar Peterson e Joe Pass contempla bem mais do que as belas canções. Porquanto ele nos apresenta um outro viés, ao introduzir o “clavicórdio”, instrumento tipicamente erudito, no ambiente jazzístico. Só mesmo Oscar Peterson se atreveria em enfrentar tamanho desafio. E, verdade seja dita: saiu-se vitorioso!
De resto, lembro apenas que aquelas melodias tomaram conta da minha alma. Coisa linda… “I love you Porgy”, era o pranto daquela sofrida mulher ecoando em todo o teatro. E eu, emocionado com o grito, respondia em meus pensamentos: “Bess, you is my woman now”!!

Disco: “Sweet and Lowdown”, trilha sonora do filme de Woody Allen.

Foi em 1967 que eu tive o primeiro contato com ele. De lá para cá, confesso: nunca mais pude me separar de suas histórias, sejam elas hilárias ou dramáticas. O que sei dizer é que Woody Allen responde, de certo modo, pelo nosso “inconsciente coletivo”. Afinal, ele é o cara! Sim, meus amigos, Woody aceitou encarnar os mais variados papéis do sujeito “desajeitado”, incapaz de lidar com os mais simples afazeres cotidianos, pois estará sempre questionando a todos e, principalmente, a si próprio. E sem que isso traga no bojo outros estereótipos, além do seu consagrado “neurótico de carteirinha”. Por tudo isso, então, Woody Allen tornou-se o nosso anti-herói preferido. Por certo, ele é o meu!
Este CD traz a trilha sonora original do maravilhoso filme produzido em 1999, intitulado “Sweet and Lowdown” e que aqui no Brasil foi convertido (argh!) para “Poucas e boas”. Aliás, o título original do filme é baseado na canção “Sweet and Low-Down”, do genial compositor George Gershwin. Curiosamente, vejam vocês, esta música esteve presente em outro filme de Woody Allen: uma das obras-primas dele, “Manhattan”, de 1979.
Quanto ao disco, são 15 excelentes canções, escolhidas a dedo, para homenagear os “mestres do jazz”. Tanto é verdade que no filme o personagem de Sean Penn (Emmet Ray) toca um violão Selmer Maccaferri, modelo 1932. Por sinal, ele é o mesmo tipo de instrumento que o famoso Django Reinhardt costumava usar. Daí porque o enredo do filme gira em torno dessa bela homenagem ao músico belga. Coisa linda!
Portanto, minha gente, são duas dicas que estou sugerindo, ao mesmo tempo: o filme e o CD. E tenho certeza de que tanto um quanto o outro serão capazes de emocionar e promover um verdadeiro deleite. Então, mãos à obra!

Disco: “Things are getting better”, Cannonball Adderley e Milt Jackson.

Existem sons na natureza que parecem nos conduzir ao reino dos céus, tal é a beleza e o arrebatamento. Isto porque algumas melodias possuem a capacidade de nos “transportar” para mares nunca dantes navegáveis, não é assim? E quando isso acontece, ah, que delícia, nós percebemos que o mundo é mesmo perfeito. Nós é que não somos… Paciência!
Mas, ao pensar nisso tudo, eu me lembrei de quando eu, minha esposa e o nosso filho fomos assistir ao lançamento do filme “Blade Runner – 2049”. O filme, minha gente, é sensacional em todos os quesitos: montagem, enredo, desempenho dos atores e, acima de tudo, possui uma soberba trilha sonora. Meus Deus do Céu, o que foi aquilo? A música parecia nos raptar completamente, abduzindo até mesmo o mais renitente espectador. Coisa linda! E olha que eu sou fã de carteirinha de Vangelis, o autor da fantástica trilha sonora do primeiro episódio do “Blade Runner”.
Mas, o que “Blade Runner” tem a ver com Cannonball Adderley, perguntarão os amantes do jazz? Calma aí, minha gente. É que Cannonball Adderley parecia possuir dotes musicais além do seu tempo, porquanto sempre foi adepto ao improviso e o suingue nas canções. Um bom exemplo disso é este CD, “Things Are Getting Better”, gravado em outubro de 1958. Ao seu lado, ninguém melhor do que Milt Jackson, o mestre do vibrafone e, de quebra, Arthur “Art” Blakey na bateria soltando os cachorros…
Faço aqui uma aposta com vocês: ouçam atentamente as melodias deste CD e depois, somente depois me digam em planeta vocês foram parar?
Mas, por favor, digam apenas a verdade!

Literatura: Rubem Braga, o cronista.

Em 1976, meu tio Holdemar Menezes publicou o primeiro livro de crônicas dele, intitulado “O Barco Naufragado”. Era uma coletânea de trinta e quatro crônicas, divididas em duas partes: a primeira foi denominada como “do quase riso” e a segunda como “da quase angústia”. Na época, eu havia achado muito interessante esta abordagem entre o humor e a angústia. De fato, se pensarmos bem, veremos que quase tudo ao nosso redor possui tais aspectos. Aliás, para nos provocar, logo na apresentação do livro há uma frase de Ney Messias com esse nítido propósito. Segundo ele, “a crônica é uma oportunidade única para se fazer de tudo: poesia, sociologia, religião e besteira. Não prefiro a crônica por outro motivo, senão pela oportunidade de variar, incontrolavelmente”. Maravilha, minha gente!
Realmente, a crônica é um gênero literário que parece consagrar esses aspectos como primordiais: o humor e a angústia. Contudo, convenhamos, isso não envolve apenas o “dualismo” literário e, sim, da vida. E foi René Descartes, filósofo, físico e matemático francês quem desenhou essa perspectiva. Segundo ele, o pensamento e a matéria são substâncias independentes e incompatíveis. Mas, até que ponto isso é perene e universal?! Afinal, muitas vezes, ao voltarmos o nosso olhar para um sem número de episódios, ficamos com a impressão de que quase tudo é relativo e depende da situação e dos fatores que envolvem o próprio episódio…
Se observarmos pelo prisma emocional, sem dúvida, haveremos de aceitar a forte influência que os nossos afetos proporcionam. Algumas vezes, eles até determinam as chances e os destinos da criatura…
Ainda assim, indiferente a tudo isso, Rubem Braga, o grande mestre do gênero, certa vez escreveu uma antológica crônica, intitulada “Ai de ti, Copacabana”. Nela, está gravada uma apoteótica previsão do cronista, que surge entre o temor e a culpa, amaldiçoando os destinos do bairro carioca. Eis um pequeno trecho:
“Ai de ti, Copacabana, porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz te abalará até as entranhas.
Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram Princesa do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no seio da noite.
Já movi o mar de uma parte e de outra parte, e suas ondas tomaram o Leme e o Arpoador, e tu não viste este sinal; estás perdida e cega no meio de tuas iniquidades e de tua malícia.”
Abençoado seja, Rubem Braga!

Rubem Braga

Disco: “Blues in the city”, com Laverne Butler.

Para aqueles que pediam por novidades no jazz, então, trago hoje para pôr à prova de todos o álbum de Laverne Butler, intitulado “Blues in the City”. Laverne veio de New Orleans, na Louisiana e já está com o pé na estrada desde 1990, cantando em bares, boates e teatros, além dos cinco álbuns gravados em selos de grande expressão, como Chesky, MaxJazz e HighNote. Quanto ao estilo, pode-se dizer que Laverne é bem chegada ao “cool”, preferindo as baladas e os consagrados “blues” como carro-chefe do repertório musical.
Outra coisa que também podemos observar, ao escutarmos o agradável CD, é que Laverne Butler possui pouca potência de voz e modulações. Para compensar, bem esperta, ela busca composições que não comprometam os seus recursos vocais. Desse modo, a gente é capaz de ouvir o CD inteiro sem cansar. Contudo, isso cobra algum preço: não emociona, não arrebata e nem deixa um gosto de “quero mais”!
Portanto, eu peço licença aos amigos “amantes das novidades” para declarar que só no Brasil existem dezenas de cantoras melhores quer Laverne Butler. Eu mesmo ouvi na semana passada, em Porto de Galinhas, Pernambuco, uma moça cantando feito passarinho em um restaurante de terceira linha. Céus! Eu e minha esposa sentamos no banco em frente ao restaurante e ficamos ali por mais de meia hora ouvindo maravilhas de Chico Buarque, Djavan, Tom Jobim e tantos mais. Nem disfarçamos a nossa emoção, pois no final a cantora até nos ofereceu de “brinde” uma canção de Lenine, “O Último Pôr do Sol”. Eu não sei dizer se foi pela forte emoção ou se pela “caipirinha” que corria nas veias, mas, o fato é que dançamos ali mesmo na rua: eu e minha esposa… Coisa linda, minha gente!
Na outra calçada, no entanto, meu filho colocava a mão na cabeça e repetia aos quatro cantos: “caramba… que “mico”, pai”!
Melhor deixar pra lá… Coisas de viagem!