Cinema: filme “Retratos da vida”, de Claude Lelouch, com Jorge Donn dançando o Bolero de Ravel.

Para os amantes do cinema, há uma cena do filme “Les uns et les autres” (no Brasil recebeu o título de “Retratos da Vida”) que finaliza o magistral trabalho do diretor Claude Lelouch. Em frente a Torre Eiffel, Jorge Donn dança o Bolero de Ravel, com mais 40 dançarinos. Um linda coreografia de Maurice Bejart (Ballet do Século XX). Apreciem um pequeno fragmento do balé!

Jazz: os novos tempos do jazz!

OS NOVOS TEMPOS

É bastante comum ver pessoas mais idosas alegando que “no seu tempo era tudo diferente” ou coisa que o valha. Sei bem. Eu acredito que todos percebem que as coisas ficaram mais difíceis. Com o correr do tempo, meus amigos, nós perdemos um pouco daquele atendimento “pessoal” a que estávamos acostumados. É que nesses tempos bicudos a pressa tomou conta da humanidade e, ao que tudo indica, não poupa ninguém!
Também é verdade que existe um perigoso processo que busca cada vez mais acelerar as demandas, sejam elas quais forem. Assim, ao sairmos de casa, já ligamos o GPS para saber o melhor caminho a seguir. Depois, no trabalho, efetuamos diversas reuniões na busca das soluções mais práticas e velozes respostas. Ao fim do dia, convenhamos, nos sentimos exaustos sem saber por qual motivo… e aí? O que fazer?!
Na verdade, as possíveis soluções são sempre individuais e, no fundo, não há receita milagrosa. O que vale mesmo é encontrar um “jeito certo” para harmonizar nossos sedentos espíritos. E aí, novamente, caberá a cada um de nós encontrarmos a forma de reequilíbrio. Ou não, como diria Caetano…
O que sei dizer é que essa peleja não é fácil de jogar, minha gente. Há quem passe a vida inteira sem conseguir encontrar o seu “jeito”… Paciência, fazer o quê?!
E já que eu citei o Caetano, então, não custa lembrar outra frase dele: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é!”

(Assim como ocorreu no jazz, em todos os tempos, sempre haverá o sentimento de vivermos “novos tempos”.)

Disco “Desafinado” – Coleman Hawkins

Essa vida é mesmo curiosa, meus amigos. Vejam vocês: enquanto estava almoçando, eu assistia ao programa da TV. Nele, havia uma rica discussão sobre o casamento. Eram várias opiniões que se revezavam e, vez por outra, o tema escorregava para outras questões, o que era natural e pertinente. Até que, lá pelas tantas, um dos entrevistados soltou uma frase intrigante: “…quem não sabe de onde veio, nunca vai encontrar o seu destino…” Olha, confesso a vocês que fiquei com aquela frase na cabeça. Por algum motivo, ela encontrou eco nas minhas emoções…
De imediato, eu quis saber a origem dessa frase ou pensamento. Até que descobri que a referida frase é, na verdade, um ditado muito comum nas Filipinas. Segundo consta, o ditado foi criado com forte carga moral e filosófica, com o objetivo de provocar a seguinte reflexão: “sem conhecermos as nossas raízes, não saberemos determinar a nossa missão de vida”. Simples e maravilhoso, não acham?
Pois não é que o disco que trago hoje, como recomendação, é exatamente assim: simples e maravilhoso?! É o CD “Desafinado”, de Coleman Hawkins, gravado em setembro de 1962. Céus… não existe nada mais precioso nessa vida do que ouvir “O pato” tocado pelo harmonioso sax de Coleman. Ele simplesmente consegue derramar toda doçura do mundo nessa magistral composição criada por Jayme Silva e Neuza Teixeira, e que foi imortalizada na voz de João Gilberto. Um verdadeiro espetáculo, isso sim!
Outra canção que Coleman Hawkins nos presenteia é, por certo, um dos mais populares “hits” da bossa-nova: “Desafinado”, de Tom Jobim e Newton Mendonça. E o mais interessante de tudo é que nessa belíssima faixa Coleman Hawkins conseguiu criar um clima igual aos vividos no Beco das Garrafas dos anos 60, na Copacabana majestosa e ainda inocente…
O que sei dizer, minha gente, é que o ditado filipino é procedente à medida que somente quando entendemos as nossas origens é que podemos dar conta dos nossos destinos. E no caso brasileiro, eu acredito que não fosse o chorinho e o samba-canção, jamais teríamos criado a bossa-nova!

Recordações de Salvador – Parte 2 / 2

Uma das primeiras coisas que aprendi quando comecei a viajar, aos 16 anos de idade, foi a percepção de que deveria me desatar de qualquer julgamento prévio sobre o lugar da visita. Isto porque, convenhamos, minha gente, tal comportamento é o que mais nos atrapalha nos passeios e incursões. Quando se está com o espírito livre e desembaraçado, céus, as coisas acontecem espontaneamente e, quase sempre, de modo arrebatador!
Além disso, outra receita infalível é conversar com as pessoas da região e demonstrar interesse nos hábitos e nas origens das culturas locais. Por conta desse comportamento, creiam-me, geralmente temos ótimas surpresas. E ainda por cima corremos o risco de “crescermos” espiritualmente!
Lembro até que no nosso segundo dia, em Salvador, nós estávamos passeando pelo bairro do Rio Vermelho, após a visita a casa de Jorge Amado e Zélia Gattai, quando resolvemos caminhar sem rumo. Em dado momento, não é que descobrimos uma pequena agência de viagens e ali contratamos uma excursão para Ilha do Frade, na Baía de Todos os Santos? Caramba! Foi um passeio maravilhoso, pois o lugar é lindo, cheio de surpresas. Um verdadeiro refúgio, meus amigos…
E assim foi durante toda a viagem. Cada dia nós íamos para um lugar diferente e sempre nos surpreendíamos. Tudo isso sem falar das “trocentas” igrejas, cada qual com a beleza própria, que é a marca daquele povo brioso e cheio de vida!
Caetano Veloso, um baiano pra lá de bom, já nos disse um dia, em verso e prosa: “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é…”
Tem razão, parceiro… E nada mais precisa ser dito!

 

Recordações de Salvador – Parte 1 / 2

Há quem afirme que o baiano não nasce. Ele simplesmente “estreia”!
Talvez seja assim, minha gente, embora eu não posso afiançar. Mas que tem tudo para ser verdade, lá, isso tem. O que posso assegurar é que aquela gente é muito mais esperta do que nós. Sabem viver bem. A prova disso é já faz tempo que eles largaram para trás o tal do “stress”. Enterraram em um canto qualquer da cidade e ninguém deu falta… Ainda bem!
Aliás, foi em 2014 que eu tive o privilégio de passar uma semana inteira naquela abençoada terra de Todos os Santos. Sim, não é à toa que todos os santos protegem aquela gente. Porquanto eles fazem por merecer. São gentis, bem humorados e recebem a todos com os braços mais abertos do que o Cristo Redentor.
Eu havia ido a Salvador apenas uma vez e isso já fazia muito muito tempo. Portanto, a imagem que eu guardava era de uma cidade suja e que cheirava mal. Ledo engano. Salvador se modernizou. Construiu novas avenidas e revitalizou toda a orla, dando ares de moderna metrópole, sem perder o agradável “jeitinho” de província. Daí porque você anda por todos os lados e é sempre recebido com largo sorriso e a calma baiana que, de tão espetacular, chega a “irritar” os mais apressadinhos. Coisa linda!
Um dos primeiros passeios que fizemos foi visitar a casa de Jorge Amado, no bairro do Rio Vermelho. Meu Deus do Céu, o que foi aquilo?! Dá vontade de morar ali, meus amigos, tal é o aconchego que sentimos. Em cada cômodo da casa nós temos uma imensa surpresa. Pois aos olhos de todos, logo nos primeiros momentos, fica evidente o prazer que o casal tinha em receber amigos para uma boa prosa. Jorge e Zélia, ao que tudo indica, foram muito felizes naquele espaço majestoso. E deixaram inúmeros registros dessa felicidade espalhados nas diversas salas e quartos daquele encantado lar. O visitante que aceita passar o dia na “Casa do Rio Vermelho”, por certo, será recompensado ao acolher os bons fluídos que emanam de lá…

Disco: Jazz, My Romance – Ron Carter

No tempo em que era um jovem professor eu fiz uma escolha pessoal que muito me valeu. Por certo, meus amigos, essa escolha foi acontecendo aos poucos e quando me dei conta, já estava imbuído desse atributo. Também é verdade que muitas pessoas foram responsáveis por essa lenta transformação, uma vez que a gente aprende com todo mundo. Sim. Com todo mundo mesmo! Basta ter um coração disponível e uma mente aberta e, no fundo, há sempre alguém para nos ensinar algo novo, não é verdade?
Lembro também que o primeiro impacto que recebi nesses “aprendizados” foi por intermédio de uma antiga namorada. Ela era uma pessoa diferenciada e via o mundo por um olhar muito particular e próprio. Ao seu lado, encantava-me tremendamente experimentar cada dia uma nova descoberta. Aprendi muito com ela e guardo as melhores recordações que se pode ter.
Contudo, alguém poderá estar inquieto ou curioso em demasia a ponto de indagar-me: “afinal, sobre o que você se refere, Carlos?” Tudo bem, eu digo: estou me referindo à elegância, ao bom-tom, ao refinamento natural que encontramos em tudo nessa vida. Sem pedantismos ou frescuras. Apenas bom gosto, minha gente! E isso não “custa” nada a mais, além do olhar apurado.
Veja o caso desse CD, “Jazz, My Romance”, do extraordinário Ron Carter. Ele é a síntese de tudo que escrevi até agora, pois guarda em cada melodia a sabedoria de tocar com qualidade e elegância. Meu Deus do Céu, quando sentei para escrever o texto, confesso, nem tinha ideia do que sairia. Mas, bastaram alguns minutos ouvindo Ron Carter com Herb Ellis na guitarra e Kenny Barron no piano e, “voilà”, tudo se abriu em minha frente…
Portanto, quero agradecer a essa antiga namorada que me abriu as portas do mundo (literalmente) e a todos que me ensinaram algo de bom e propiciaram esse maravilhoso reencontro com o mestre Ron Carter. Abençoados sejam!

https://www.youtube.com/watch?v=Eg0z2HRWH6A&list=PLD1Eb4mn7NHMpe8rN-r83KyAqv4jy7rQu

Ron Carter_Jazz_My_Romance

PELAS RUAS DO RECIFE (Final)

Viajar, meus amigos, talvez seja uma das coisas mais prazerosas dessa vida. Principalmente, quando a gente se permite experimentar novos olhares e novas sensações, sem julgamentos prévios sobre o que vem pela frente. Quase sempre a resposta é positiva e quem lucra com isso somos nós.
Há duas semanas atrás estávamos eu, minha esposa e o nosso filho desvendando os caminhos do Recife. Confesso a vocês: foi uma das mais belas viagens que fizemos. Porquanto a atmosfera do velho Recife conspira favoravelmente, propiciando ao turista descobertas sensacionais. São sensações que vão dos sabores e aromas da culinária ao colorido intenso das paisagens. Tudo isso, é verdade, regado ao bom tempero do humor pernambucano e a diversidade cultural que ali se vislumbra.
Curiosamente, a primeira percepção que tivemos sobre os pernambucanos foi inusitada. Eu explico. É que quando eles estão conversando, muitas vezes, parece até que estão tendo uma acalorada discussão. Isto porque o jeito de falar deles é vigoroso e, algumas vezes, soa áspero. Contudo, se você se dirige a qualquer pessoa e pergunta algo, aí, sim, a gentileza é a tônica. Param para ouvir e respondem com todo interesse e delicadeza.
Outro aspecto que nos impressionou na viagem é que o turismo praticado por eles é cuidadoso e não predatório como vemos em tantos lugares por aí. Os preços são condizentes e não aviltam o bolso do viajante. Come-se muito bem por um preço justo.
Aliás, na véspera do nosso retorno, minha gente, eu fui conhecer o famoso restaurante “Parraxaxá”, especializado em comidas típicas nordestinas, tais como “carne de sol”, feijão de corda, escondidinho de macaxeira e farofa de bolão. Tudo isso sem falar do bolo Souza Leão, da Cartola e do doce de jaca, uma vez que a tapioca eu já conhecia do meu Ceará.
Por último, resta falar da incrível diversidade cultural. Afinal, Recife não respira apenas o frevo. Muito ao contrário, aonde quer que se ande encontramos espaços culturais devidamente explorados com orgulho e tradição. Que vão do Centro Histórico, no “Marco Zero”, ao deslumbrante Instituto Ricardo Brennand, com o seu majestoso palácio medieval. Ah, Recife… nos aguarde. Já, já estaremos de volta. Com certeza!