Memórias: Achados & Perdidos.(republicado)

Hoje eu fui almoçar em um restaurante com o meu filho. Lá pelas tantas, eu comecei a desenvolver um argumento, empunhando-o como se fosse uma bandeira. Dizia para o Gabriel que não é somente o planeta que está se exaurindo. É a humanidade, isto sim!

Contudo, sem dar muita importância à minha fala, talvez por conta dos quatorze anos de idade, eu percebi que tudo o que eu dizia era enfadonho para ele. Ainda assim, resolvi insistir. Afinal, a nossa ‘conversa’ tem que prosseguir, não é verdade?!

Então, comecei argumentando que ao se observar a história da humanidade, pode-se perceber que o homem tem sido capaz de construir um sem número de coisas a partir de suas invenções. Todavia, também é verdade que ele tem ‘extraviado’ pelo caminho significativos patrimônios que já havia acumulado. E notem que eu não me refiro aqui aos patrimônios materiais. Não, amigos! Desafortunadamente, as maiores ‘perdas’ têm sido os valores éticos, morais e até mesmo o respeito pelos bens imateriais.

Não, não! Por favor, rogo a todos que não reduzam essas ideias apenas aos aspectos ‘saudosistas’. Até porque eu não sou dessas criaturas que costumeiramente iniciam suas frases com o famigerado ‘no meu tempo’…  Porquanto as minha preocupações residem, muito mais, nas possíveis ‘atrofias’ que vislumbramos na formação do caráter e da estrutura emocional desses jovens. Confesso que me assusta o comportamento deles, indiferentes a toda e qualquer forma de tradição, legado ou valores constituídos.

Eu também já fui jovem, podem acreditar. Por conseguinte, já empunhei as bandeiras da contestação e participei de incontáveis protestos contra toda sorte de causas e movimentos. Até aí, estamos empatados. No entanto, ainda que eu abraçasse febrilmente uma dada causa, por certo, havia um componente que nos diferenciava dos atuais movimentos contestatórios: não desprezávamos os valores adquiridos. Até porque, convenhamos, precisávamos deles para dar consistência e solidez aos nossos argumentos.
Oxalá eles cresçam e possam retomar àquilo que deixaram de lado durante o percurso. Se isso acontecer, menos mal. Ainda poderemos dar boas risadas devido aos tombos e atropelos cometidos. E na dúvida, procurem o setor de achados e perdidos. Lá poderão encontrar algumas utilidades. Com sorte, poderão até mesmo resgatar antigos “afetos”!

Gabriel e eu

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Disco: “O melhor de Belchior”

EU TENHO MEDO DE ABRIR A PORTA / QUE DÁ PRO SERTÃO DA MINHA SOLIDÃO”  ( Belchior )

Decerto que não sou uma pessoa mística. Pelo menos, eu não ‘viajo na maionese’ como alguns que eu conheço, que constroem ‘ligações celestiais’ em tudo que ocorre ao redor…

De fato, reconheço, eu tenho as minhas crendices, a minha fé e o meu jeito de ver o mundo sob o prisma mais espiritual. Porém, a verdade é que esse olhar não me empurra a aceitar teorias mirabolantes de ‘causas e efeitos’, de determinismos implacáveis ou irremovíveis. Ah, lá isso não!

Por outro lado, também é verdade, eu acredito que o ‘destino’ de uma criatura pode estar sujeito a bruscas mudanças, muitas vezes difíceis de se entender. E na base dessas questões, quase sempre, está a mão do próprio indivíduo promovendo ou boicotando possibilidades. Sei que é brabo aceitar, minha gente, mas nós somos ‘conspiradores’ de primeira ordem e não poupamos ninguém… Céus, quanta ironia!

Contudo, há um punhado de gente que ao observarmos a trajetória ficaremos intrigados ou, quem sabe, perplexos com o caminho que destino seguiu… Pois é. A grande questão é: o que fez delas se tornarem tão diferentes ou inusitadas ou até mesmo ‘iluminadas’?

Vejam o exemplo do meu conterrâneo Belchior. Meu Deus, que sequência foi essa que a vida aprontou para ele? Que força misteriosa foi essa que o destino pôs em suas mãos e de que forma ele a conduziu? Sim, meus amigos, se pensarmos que ainda durante sua infância, no velho e querido Ceará, ele foi cantador de feira e poeta repentista. Que estudou música coral e piano. Que seu pai tocava flauta e saxofone e sua mãe cantava no coral da igreja. Que em 1962 ele se mudou de Sobral para Fortaleza dando início aos estudos em Filosofia e Humanidades e, posteriormente, Medicina, abandonando o curso no quarto ano, em 1971, para dedicar-se à carreira artística. Depois disso, ligou-se a um grupo de jovens compositores e músicos, como Fagner, Ednardo, Teti, Cirino, entre outros, conhecidos como o ‘Pessoal do Ceará’.

Quis o destino que ele viesse, em 1971, para o Rio de Janeiro e se encontrasse com a ‘sorte grande’ e com ela estabelecesse um pacto de sucesso. O que se seguiu virou história. Afinal, ver o seu nome aparecer na posição 58 da lista das ‘100 Maiores Vozes da Música Brasileira’ pela especializada revista Rolling Stone Brasil, foi apenas um passo a mais na vida desse talentoso nordestino!

Explicação para tudo isso? Tenho não. Ou, quem sabe, o próprio Belchior nos responda sob a forma de melodia?!

“Quando eu não tinha o olhar lacrimoso  /  Que hoje eu trago e tenho  /  Quando adoçava meu pranto e meu sono  /  No bagaço de cana do engenho  /  Quando eu ganhava esse mundo de meu Deus  /  Fazendo eu mesmo o meu caminho  /  Por entre as fileiras do milho verde  /  Que ondeia, com saudade do verde marinho.

Eu era alegre como um rio  /  Um bicho, um bando de pardais  /  Como um galo, quando havia  /  Quando havia galos, noites e quintais  /  Mas veio o tempo negro e, à força, fez comigo  /  O mal que a força sempre faz  /  Não sou feliz, mas não sou mudo  /  Hoje eu canto muito mais!”

https://www.youtube.com/watch?v=dGzXuHr9uf0

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Memórias: “DORI  CAYMMI  E  A  HARLEY-DAVIDSON”

Outono de 1988. Eu ainda morava no Rio de Janeiro, no Arpoador. Como era um jovem professor, de apenas 27 anos de idade, eu descobrira a paixão pela motocicleta. Porquanto a ‘Cagiva-Harley-Davidson’ acabara de ser lançada no mercado brasileiro, com 125 cilindradas, quadro alto e motor de dois tempos. Nossa! Era uma baita moto e me proporcionou momentos de raro prazer, minha gente.

Guardo na memória incríveis passeios e aventuras que eu costumava fazer aos domingos de tarde. Bastava o sol baixar um pouco e, aí, eu pegava a moto e subia a Vieira Souto em direção ao Leblon. Na sequência, vinha a Delfim Moreira e, ao final dela, eu sempre optava pela Avenida Niemeyer, que nos brinda com um visual maravilhoso. Então, vinha São Conrado e eu tomava a direção da Estrada do Joá, que naquela época era confiável e segura. Pronto. Dali até o topo da Estrada da Pedra Bonita era bem rapidinho, ainda mais de moto, não é verdade?! E o ‘gran finale’, meus amigos, era a subida até o local em que os ‘malucos’ pulavam de asa delta… Céus…‘adrenalina pura’, isso sim! Eu permanecia ali por horas, apenas observando as pessoas e os voos…

Mas havia um toque especial nesse outono. É que as folhas das amendoeiras estavam bem amareladas e começavam a cair dos galhos, proporcionando uma visão espetacular durante o trajeto. Outro detalhe, também extraordinário, é que eu fazia este percurso com um fone de ouvido ligado ao “walkman”. E naquele outono de 1988, meus amigos, adivinhem qual era a fita de minha preferência? Sim! Era o recém-lançado álbum de Dori Caymmi. Meu Deus do Céu, quando eu acelerava a moto e subia o volume ‘Gabriela’s song’, parecia que eu flutuava nas nuvens. ‘Porto’, então, era outra melodia que eu reservava para a lenta volta, já que ela me remetia ao encantado mundo de ‘Gabriela’, na primeira versão da novela, de 1975, com o grupo vocal MPB4 deslumbrando a todos…

De um jeito ou de outro, o que eu posso dizer é que a minha vida sempre esteve atrelada aos Caymmis, seja Nana, Dori, Danilo ou mesmo ao velho e saudoso Dorival.

Abençoados, sejam!

https://www.youtube.com/watch?v=7W5r47snXhY

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Memórias: “LEMBRANÇAS DE ‘PASSARIM’ E DA MORENA DO SORRISO TÍMIDO”

O ano era 1987. E, devo reconhecer, até o mês de junho a vida corria sem grandes novidades. Talvez, até monótona. Quando muito, um tropeço aqui, uma celebração ali e uma expectativa acolá… Então, um maestro, de nome Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, lançou o mais novo álbum, intitulado “Passarim”. A partir daí, minha gente, tudo mudou! O mundo pode contemplar a mais nova obra-prima da música popular brasileira. Céus, o que foi aquilo?!

Lembro que eu morava no Leblon e dava aulas de química em cinco escolas: Colégio São Vicente de Paula, Colégio São Paulo, Colégio Sagrado Coração de Maria, Colégio Rio de Janeiro e no Colégio Brasileiro de Almeida.

Lembro também que em julho, mês do meu aniversário, eu estava de ‘namorada nova’. Era uma linda morena! E para comemorar o namoro, eu comprei entrada para assistir ao show de lançamento daquela obra-prima no famoso Canecão, palco dos grandes eventos musicais do Rio de Janeiro dos anos 70, 80 e 90.

Tive que encarar uma fila de quarenta minutos para adquirir os ingressos mas saí de lá exultante pela ‘conquista’. Afinal, eram dois lugares bem localizados, quase em frente ao piano que o nosso ‘Tomzinho’ tocaria naquela noite.

Aprontei-me feito lorde, escolhendo a melhor roupa do armário. Deixei o carro na lavagem do posto, para não ‘pagar vexame’, e cheguei na casa da Rô com a antecedência necessária, sem parecer ‘ansioso’…

Ela estava linda, iluminada pelo batom vermelho escuro. Sorriu ao me ver chegando. Lentamente fomos para o Canecão, pois não havia a menor pressa… Estacionamos o carro e nos dirigimos para a mesa de número 76. Coisa linda!

Antes de começar o anunciado show, pedimos ao garçom duas taças de Kir Royal – uma adorável bebida preparada com Creme de Cassis acompanhado por vinho branco Chardonnay). Brindamos várias vezes. Primeiramente, ao nosso ‘encontro’. E, depois, ao querido Tom Jobim que acabara de entrar e dedilhava os primeiros acordes de “Anos dourados”. Um verdadeiro delírio, isso sim!

Aquela noite, meus amigos, eu nem preciso dizer que eu jamais esquecerei. Não somente pelo privilégio de ver e ouvir o amado Tom Jobim partilhando o seu talento com todos nós. Nem pela incrível emoção de ter ao meu lado aquela morena de sorriso tímido. Tampouco pelo que se seguiu…

Obrigado, Senhor!

 

 

 

Disco: “Baião Erudito”, com Nonato Luiz.

SUA BÊNÇÃO, MEU PADIM PADI ‘CIÇO’…

Foi Nonato Luiz que me confirmou a regra. Segundo ele, para se conhecer um cearense de verdade bastam apenas duas perguntas. A primeira é: você gosta de mulher? Se ele disser que sim, então, você volta à carga e arremata a segunda: e de farinha? Se ele soltar um retumbante ‘vixe!’, pronto: é sinal que você estará em frente a um legítimo pau-de-arara!

Pois é. O que sei dizer é que tenho muito orgulho das minhas raízes cearenses, isso sim. E eu já encontrei pau-de-arara em todo canto desse mundão de Deus. Só vendo como cearense é bicho nômade. Aparece em tudo que é lugar e em todas as atividades humanas…

Certa vez eu estava na fila dos correios na Basiléia, Suíça, em 1976, quando alguém começou a ‘mangar’ (no dicionário cearês é o mesmo que zombar!) da atendente que parecia mal-humorada pra ‘dedéu’.

– Olha só a cara dessa bichinha. Parece ‘abestada’!

Eu nem precisei falar nada. Apenas uma discreta risada demonstrou a minha cumplicidade ao conterrâneo…

O fato é que tudo isso me lembrou o amigo Nonato Luiz, que há tempos não aparece por essas bandas. Para minha sorte, eu tenho aqui em casa uma bela coleção de CDs do Nonato, alguns deles enviados pelo meu primo Henilton, como esse maravilhoso “Baião Erudito”. Meu Deus do Céu, que coisa linda!

O disco é em homenagem a Humberto Teixeira e Luís Gonzaga, que produziram uma obra extraordinária e perene. Afinal, quem consegue ouvir o ‘pot-pourri’ de “Juazeiro – Assum Preto – Algodão” e não se emocionar com as ricas melodias? Isso sem falar de “Légua tirana”, que na interpretação de Nonato adquire profunda dramaticidade. Algo incrível, meus amigos!

No entanto, a música que mais me comoveu foi a faixa “Vida de viajante”. Sim! Além da beleza da melodia, minha gente, ela também me remete ao apurado gosto que o cearense tem de viajar, viajar e viajar. O resultado não poderia ser outro: chorei um bocado com saudades do meu Ceará!!

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https://www.youtube.com/watch?v=Virzk-XBcMw

https://www.youtube.com/watch?v=AsMnjyjXUiU

Memórias: OS  NÁUFRAGOS,  JOHN  LEE  HOOKER  E  O JACK DANIEL’S

Verdade é que eu já cheguei em casa esbaforido, bastante irritado com o trânsito infernal do trabalho até o bairro. E aí, após o banho restaurador, liguei o velho aparelho de ar condicionado que, embora barulhento, ainda soprava um bom ventinho frio… Bendita tecnologia de 1978!

Ao passar pela sala, vislumbrei a garrafa de ‘Jack Daniel’s’. Sim, porque não, pensei?! Afinal, aquele momento era bem apropriado e, por certo, merecia a dose redentora. Algumas pedras de gelo e o copo largo e baixo de cristal, presente de minha querida mãe, foram suficientes para iniciar os ‘trabalhos’. E o primeiro gole foi precioso: céus! Parecia até ‘néctar dos deuses’, tal o relaxamento provocado. Além disso, como uma coisa leva a outra, do sofá eu divisei o CD adquirido na semana anterior, ainda lacrado… John Lee Hooker, porque não, perguntei-me mais vez?!

Contudo, cá entre nós, tem coisas que precisam de ‘rito’. Porquanto não podem ser banalizadas. Por isso, fui até a cozinha, que ficava a quatro passos da sala, que também era quarto de dormir… um mundo pequeno, né? Paciência!

Cortei umas quatro fatias de queijo provolone e piquei em pequenos cubos, espetados por palitos. Após isso, deitei-me na rede cearense que atravessava o quarto, pus a banqueta ao meu lado e respirei profundamente, como se precisasse expelir aquela atmosfera de tensão e raiva para fora dos meus pulmões. Ufa!

Nessa altura do campeonato, a guitarra de John Lee Hooker já ecoava pelo ambiente, tornando a atmosfera contaminada pelo aroma do Gudan e do Jack Daniel’s algo íntimo e convidativo. E pelo jeito, tudo isso conspirava. Rapidamente. Portanto, não havia como evitar as recordações. Eram lembranças da última viagem pelos Cânions do São Francisco, entre Alagoas e Sergipe, em 1977. O que ninguém sabia é que dentro daquele barco que nos conduzia pelas barrancas do rio, vazavam muitas angústias represadas, envoltas em tácito silêncio.

Lembro apenas que me debrucei na grade do barco enquanto ele penetrava pelo rio adentro. No meu pensamento, somente o filho ou a filha que eu poderia ter se ela tivesse aceitado o momento… Hoje, esse filho ou filha teria quarenta anos. Meus Deus, quem pode imaginar o que isso representaria para minha vida?!

 

Disco: “Momentum”, de Luiz Gustavo Zago.

Exceto na física, ‘Momentum’ NÃO é “momento” (moment), mas sim ‘impulso’, embalo, fôlego…

Pois é, minha gente. Nessa altura da vida, aos 67 anos de idade, eu posso assegurar a vocês que não há nada mais prazeroso do que perceber que conquistamos bons amigos. Ah, lá isso é verdade. Até porque, talvez seja a maior ‘condecoração’ que uma criatura pode almejar. O resto… convenhamos, é apenas paisagem!

E um desses amigos que conquistei aqui em Florianópolis é o extraordinário músico Luiz Gustavo Zago. Além de exímio pianista, Zago, embora jovem, já figura na galeria dos melhores arranjadores desse país. Tanto é verdade que ele é procurado por muitos expoentes da MPB.

Ao fazer uso de requintado bom gosto musical, Zago consegue transitar por uma gama enorme de ritmos, que vão do erudito ao tango, passando pelo jazz, rock e o que mais se consiga imaginar. Tudo isso, amparado em encantada leveza e profundidade melódica. Talento é que não falta ao homem…

O mais recente álbum de Luiz Zago, lançado em novembro de 2018, intitulado “Momentum”, merece atenção especial do ouvinte. Porquanto as treze faixas que compõem o CD apresentam incríveis variações, ainda que mantenham o mesmo clima intimista. A começar pela belíssima composição “Inverno”. Meu Deus, eu fiquei de boca aberta com o fôlego empreendido por Zago e os primorosos músicos Tie Pereira, Richard Montano e Daniel Galvão. Aliás, em algumas passagens, devo confessar, eu me lembrei com saudades do estilo melancólico de Astor Piazzolla…

Coisa linda!