O OLHO MÁGICO

Eu escutei o som da campainha tocando freneticamente. Daí, pensei: “quem será o miserável que vem incomodar a gente numa hora dessa?” Antes de abrir a porta, na dúvida, dei uma espiadinha pelo olho mágico. Só que não reconheci a figura, embora fosse ‘familiar’. “Céus, eu já vi este rosto antes… mas não lembro quem é!”

O sujeito era alto e magro, bem mais velho do que eu. Decorridos alguns segundos tentando identificar a fisionomia, sem lograr êxito, acabei rendido pela curiosidade e abri a porta. “Pois não…” “O senhor é o professor Carlos?” Sim, respondi no automático. “E o senhor é quem?” Mal acabei de formular a pergunta e, pimba!, lembrei: João Saldanha, o grande escritor e comentarista esportivo. Ex-técnico da seleção de 1970!

Isso, contudo, não me trouxe alívio, e sim perplexidade. O que ele queria de mim? Foi quando ele se apresentou: “Meu nome é João Saldanha. Sou pai da proprietária desse apartamento que o senhor aluga…”

Amigos, nessa hora o meu ‘desconfiômetro’ estava desligado, pois nem imaginei o que viria a seguir. Muito afobado, ele pediu para entrar e explicar o motivo de sua ‘visita’, já tarde da noite. “A ‘questão’ toda, professor, é que minha filha resolveu vir morar comigo. Portanto, o senhor pode imaginar o problema que isso está acarretando.”

Refeito do susto inicial, eu ouvi atentamente as explicações dele. Lembro, inclusive, que concordei com quase todos os argumentos dele. Por certo, isso ocasiona muitos ‘transtornos’, uma vez que a vida da criatura toma outro rumo. Abruptamente!

“Eu posso compreender os seus motivos… Mas peço que entenda os meus. Afinal, acabei de alugar esse apartamento, pela imobiliária. O contrato não completou sete meses e ainda tenho outros cinco pela frente… E de mais a mais, eu vim para cá porque fui despejado do apartamento do Leblon, após sete anos de moradia. Ou seja: eu fiquei muito aborrecido por ter que sair daquele apartamento que tanto gostava. Ainda por cima, ele era perto de todas as escolas aonde leciono. Já esse aqui, embora mais distante, compensou pelo tamanho, uma vez que é bem mais amplo que o anterior!”

Pois é. Eu ainda pretendia dizer ao Saldanha que tão logo encontrasse outro imóvel, eu liberaria o da filha dele. Qual o quê! De repente, ele começou a esbravejar. “Porra… Eu preciso que o senhor saia até o final desse mês, professor!”

Expliquei que isso era impraticável. Eu só teria tempo para procurar outra moradia nos finais de semana, porquanto durante a semana eu dava quarenta e poucas aulas, não sobrando tempo. “Eu estou contando com a sua ajuda, professor… Com a sua ajuda!” Esta foi a derradeira frase, antes de ir embora…

Nem preciso dizer o quanto eu fiquei atordoado com tudo aquilo. E na manhã seguinte, bem cedo, eu liguei para minha irmã que morava no apartamento que me pertencia. Aliás, eu só não morava nele porque ficava na zona norte, muito contramão. Comecei a ligação com humor negro: “eu tenho duas notícias ruins para lhe dar.” Ela deu um suspiro e perguntou: quais são?!” Comecei dizendo que, mais uma vez, eu havia sido ‘despejado’. E ela retrucou: “que chato… e a segunda notícia, qual é?” Eu respondi de bate-pronto: “É que por conta disso, você também será despejada!”

Meu Deus do Céu, ela ficou uma arara, minha gente, alegando que eu iria ‘tumultuar’ a vida dela. Falou um monte… Argumentei que aquilo era necessário. Não aguentava mais fazer tantas mudanças em tão pouco tempo. O certo é que ela ficou bastante aborrecida por uma semana. Mas não é que o destino aprontou? Na semana seguinte, vejam vocês, ela conseguiu um apartamento no mesmo bloco, dois andares acima, no lado da sombra!

Com isso, eu pude entregar o imóvel da filha do João Saldanha em apenas quinze dias…

Ufa! Quando eu liguei para o Saldanha, anunciando a entrega, ele fez questão de ir pessoalmente receber as chaves. No dia combinado, ao chegar, eu o encontrei na portaria do prédio. Com um largo sorriso, abraçou-me com entusiasmo e agradeceu o esforço que eu havia feito. Para demonstrar a gratidão, João me entregou uma camisa do Botafogo, autografada pelos jogadores. Recebi por educação, confesso. Dei um leve e maroto sorriso, mal disfarçando o descontentamento. Afinal de contas, eu sou Flamenguista roxo… e aquilo me pareceu ‘provocação’! Vai saber…

Publicado por

Carlos Holbein

Professor de química por formação ou "sina" e escritor por "vocação" ou insistência...