PARA SEMPRE NA MEMÓRIA

Foi no ano de 1978 que eu tive essa grande lição. E de lá para cá, reconheço, ela tem permanecido ao meu lado para lembrar sempre o que é acolhimento e solidariedade. Eu explico a vocês.

Na verdade, o início da minha carreira de professor de química foi quase acidental. Estávamos em 1971 e eu era aluno de um cursinho pré-vestibular. Ao final desse ano, eu obtive aprovação no exame vestibular, alcançando o sétimo lugar no Curso de Farmácia e Bioquímica da UFRJ. Na época, eu trabalhei em um banco privado no período da tarde e, à noite, frequentava as aulas no cursinho. Mas isso só ocorreu porque eu não queria que os meus pais pagassem o cursinho, uma vez que que todo o meu período escolar – fundamental e médio – havia sido feito em escolas gratuitas. Pois é, minha gente, o ensino público já teve qualidade. Sim! E muita!

No entanto, eu estava dizendo que acabei logrando uma vaga na Universidade Federal do Rio de Janeiro. E ao começar o curso superior, em 1972, eu logo me senti identificado com a química, principalmente, a química orgânica. É que no curso de Farmácia ela era ministrada pela professora Maria Alice, craque de primeira grandeza. Ah, meus amigos, que extraordinária criatura foi aquela! Além de ser profunda conhecedora da disciplina, ela possuía um enorme talento para nos cativar. Com isso, rapidamente, eu me senti apaixonado pelo modo como ela abordava a ciência.

No ano seguinte, eu já me destacava em química, obtendo boas avaliações. Por conta disso, ao comentar com um dos donos do cursinho, recebi dele muito incentivo, acenando até com a possibilidade de ser contratado para a equipe de professores. Embora descrente, vibrei com a ideia!

No entanto, dito e feito. Um ano mais e eu ingressava na numerosa e disputada equipe de professores do cursinho. No início, confesso, eu ‘apanhei’ um bocado, pois não possuía a ‘experiência’ que os outros colegas, mais antigos, tinham de sobra. Aliás, confiança, carisma e magnetismo, convenhamos, só o tempo se encarrega de desenvolver!

Assim, decorridos três anos dando mais de quarenta aulas por semana, eu já havia desenvolvido o controle das aulas e fazia parte do ‘primeiro time’ da química.

Contudo, é aquela tal história: de algum modo, o ‘destino’ faz questão de nos testar. E não é que após cinco anos como professor, acabei recebendo a primeira grande lição do magistério?!

É que havia naquele período uma forte concorrência entre os cursinhos. Com isso, todos os anos eles publicavam nos jornais qual era a equipe de professores para o ano seguinte, com o objetivo de atrair novos alunos. Além disso, os donos de cursos ‘exigiam’ exclusividade para alguns professores. E isso eu não concordava, pois me parecia ‘autoritário’.

Então, quando chegou o final de fevereiro de 1978, eu tive a surpresa de receber o ‘bilhete azul’, por não concordar com a exclusividade. Meus Deus do Céu, faltando uma semana para o início do ano letivo, como eu faria para arrumar aulas? Como iria sobreviver?

Lembro inclusive que cheguei em casa arrasado, completamente atônito com a notícia. Meu pai, ao ver naquele estado, perguntou: “o que houve, meu filho?” Com dificuldades, eu relatei a novidade, afirmando: “pai, eu estou ferrado. Literalmente!”

Ele me abraçou com carinho e pausadamente rebateu: “ferrado por quê? Você tem casa, comida e roupa lavada. Tem saúde e família ao seu lado… Portanto, por mais que seja chato, saiba, é só um emprego que perdeu, filho.”

Nesse momento, meus amigos, eu me dei conta da dimensão do acolhimento e da solidariedade que tanto necessitava. Daí, eu abracei o meu pai e agradeci pelo gesto e pelo incentivo. E precisei de apenas dois dias para conseguir, por intermédio dos amigos, a indicação para 24 aulas em diferentes escolas da zonal sul. A partir desse episódio, a minha carreira no magistério progrediu de vento em popa e, finalmente, eu me tornei um “professor”. Acima de tudo, graças ao meu pai!

(Na foto: eu, meu pai e meu filho)