A PAIXÃO DE TOTÓ

Desde muito cedo eu entendi que a vida teria mais sentido se ela fosse regida pelo signo da paixão. Sim… Paixão, meus amigos! Aquela manifestação que alguns chamam de desvio, outros de obsessão e, por vezes, até de estado febril. Certo mesmo é que esse ‘comportamento’ tem propiciado profundas teses e estudos da psicanálise. Pois é. No entanto, uma coisa nós devemos reconhecer: sem paixão, o homem teria inventado a roda? A calça ‘jeans’? A música? A linguagem? Ou, para além disso, mergulharíamos tão fundo nas relações interpessoais? Seríamos seguidores de movimentos e ideologias, inda que utópicas? Sei não, minha gente… Quem pode assegurar?!

Os céticos, provavelmente, dirão: “é… mas pagamos um preço alto demais por tudo isso, meu caro Carlos”. É que segundo esses, o mundo prescindiria de muitos dessas manifestações. Porquanto foram movimentos que têm determinado o desenvolvimento da sociedade, sem dúvida alguma, porém de forma turbulenta. Os pessimistas proclamam que nós arrastamos, no bojo de tais criações, um sem número de idiossincrasias. Doenças essas que se incorporam às nossas personalidades hodiernas. É… pode ser.

“Mas, o que isso tudo tem a ver”, perguntarão os impacientes. O que tem a ver com o filme ‘Cinema Paradiso’? – indagarão alguns desconfiados leitores. Tudo bem. Mas, calma aí, companheiros! É que eu demoro a encontrar a minha linha de raciocínio, uma vez que ela também está impregnada de paixão.

O que eu gostaria de dizer, efetivamente, é que por trás da ‘criação’ nada mais há do que paixão. Sim, meus amigos, paixão! Esse doce e lindo sentimento que impulsiona a história, que arrebata espíritos empreendedores. E que nos faz acreditar em… em tudo!

A grande verdade é que na paixão se pode encontrar o talento da arte, dos místicos e dos inquietos. Com sorte, nós poderemos descobrir um pouquinho desse talento (paixão) até em nossas vidas. Ah, como isso faz bem!

Vejamos. O ser humano é capaz de se sensibilizar diante da arte. Mas, arte, convenhamos, é algo subjetivo. Algo que suscita diferentes reações para cada criatura e em cada momento da vida. É possível que, frente à arte, tenhamos diferentes comportamentos: o que para uns se traduz em desafio, para outros é motivo de certa resistência…

Quando eu assisti, pela primeira vez, ao filme ‘Cinema Paradiso’, confesso a vocês: eu fiquei profundamente comovido. Tão emocionado que me senti ‘paralisado’ diante de tamanha beleza. Meu Deus do Céu, como pode um simples mortal produzir tanta poesia em apenas 123 minutos de filme? Como pode alguém ser capaz de fazer o espectador ‘viajar’ na linguagem mais sensível da raça humana: o olhar para dentro? Talvez alguns possam responder: técnica e conhecimento! E eu refuto: não bastam!

Com toda certeza, meus amigos, é preciso bem mais do que um bom enquadramento, diálogos bem produzidos, interpretações corretas e uma trilha sonora comovente para se fazer um extraordinário filme. Pela singular razão de que é preciso tudo isso ‘junto’! E em dose perfeita!

De uma coisa eu estou convencido: no ‘Cinema Paradiso’, ocorre exatamente assim. É que a nostálgica atmosfera, criada desde os primeiros minutos, sugere sempre um contato íntimo com o espectador. E pelas mãos de Giuseppe Tornatore, diretor do filme, os personagens vão ganhando vida. Vão assumindo o espectro da dor, mas com profunda poesia. Revelando as frustrações presentes em cada um de nós, sim, mas com suavidade e encantamento. O sentimento desencadeado pelo toque de Alfredo na vida de Totó, por
exemplo, só pode ser comparado à linguagem materna, que é divina e universal.

Sabemos que o ‘conhecimento’ é o bem mais almejado na vida. De fato, ele é algo extraordinário e, muitas vezes, constitui o verdadeiro objeto de desejo. A verdade é que, por ele, temos sido capazes de buscar soluções, de criar um sem número de técnicas e, até mesmo, de pagar um bom preço para lográ-lo. Tudo isso para que tenhamos atendido a nossa ânsia de ‘desenvolvimento’.

No entanto, amigos, eu falo de paixão. Sim! Aquilo que nos dá a capacidade de sonhar, sonhar e sonhar. E, quem sabe, sonhando, possamos aplacar nossos recalcados desejos de imitar a vida por intermédio da arte?!

No filme, foram muitos os ‘beijos proibidos’ a que Totónão pode assistir na tela do ‘Cinema Paradiso’. Como consequência, quando ele se tornou um homem maduro e bem sucedido, passou a ser extremamente importante ‘recuperar’ aqueles beijos e ressuscitar ‘outras vidas’ dentro dele. Afinal, como representante de uma raça dotada de emoção, Totóseguidamente viu-se enredado por dolorosas lembranças. E ao se ver paralisado por essas memórias, ele percebeu que era preciso desatar os tantos ‘nós’ que a vida foi aprontando. Ao que tudo indica, ele conseguiu!

Quanto a nós, ‘desavisados náufragos’, quem sabe se um dia poderemos conquistar o conhecimento, sem perder de vista a paixão que nos domina? Sem que viremos às costas ao humanismo em nome do desenvolvimento! Com sorte, talvez possamos dar ao conhecimento novas formas e novos ambientes. E que consigam atender as individualidades de cada um. Com isso, devolveríamos a quem de direito o extraviado ‘selo de autoria’. Essa mesma autoria que fez Giuseppe Tornatore buscar em Ennio Morricone a trilha sonora perfeita para soltar o enredo dessa belíssima história. Ah! Tomara que isso aconteça, minha gente. Tomara!

O desempenho do menino Totó(Salvatore Cascio) é algo comovente e muito bem sucedido por Totóadolescente (Marco Leonardi) e melhor ainda na dramática expressão facial de Totóadulto (Jacques Perrin). A cena da demolição do ‘Cinema Paradiso’é, seguramente, digna de observação psicanalítica. Pode-se perceber que os alicerces da ‘memória afetiva’ de Totóvão caindo lentamente, um a um. Trágica e impiedosamente. Por outro lado, com muita sensibilidade, eles passam a ser reconstruídos na simbólica montagem dos trechos de filmes proibidos de sua infância distante. Desse modo, Totóconsegue finalmente ‘realizar’ a sua expiação e exorcizar para sempre os fantasmas que tanto incomodavam…

Aliás, segundo os irmãos Taviani (Paolo e Vittorio): “Este é o filme de um homem
dedicado ao cinema para aqueles que amamo cinema”. Romântico (mas não piegas), sentimental (mas não menos vigoroso), ‘Cinema Paradiso’traz de volta o sorriso nos lábios. Até mesmo nos homens taciturnos!





Cinema Paradiso

Publicado por

Carlos Holbein

Professor de química por formação ou "sina" e escritor por "vocação" ou insistência...