A VIDA VIVIDA

Eu devia ter pouco mais de treze anos quando fui apresentado ao poeta Fernando Pessoa. E a doce criatura que possibilitou esse encontro, devo reconhecer, foi a minha professora de Língua Portuguesa, Maria Aldina. Sabemos que o tempo é algo impessoal e, muitas vezes, injusto até. Por isso, eu acredito que ela não esteja mais entre nós, ao menos, nesse plano aqui. No entanto, minha gente, existem algumas criaturas, espalhadas pelo mundo, que fazem a diferença em nossas vidas. São os verdadeiros ‘anjos-da-guarda’, isso sim. Porquanto são capazes de nos guiar e determinar, em parte, o rumo dos nossos destinos. Ah! disso eu não tenho dúvida!

Lembro também que era a minha aula preferida e que eu torcia avidamente que chegasse a semana seguinte para desfrutar de mais uma ‘viagem’ no imaginário. Isso porque, Dona Maria Aldina possuía forte talento para nos ‘raptar’, sem que percebêssemos. Muito embora, ela contasse com a nossa tácita cumplicidade…

A partir daí, nós saíamos embarcados naquela ‘encantada caravela’, em busca de novas descobertas e aventuras. Os enredos eram criados com delicada tessitura. Assim como percebíamos o apurado bom gosto envolvendo o clima de cada história. Meu Deus do Céu, que coisa linda era aquilo?!

Um dos poemas que nunca esqueci e que ela recitava com maestria, intitulava-se “Aniversário”, escrito por Álvaro de Campos, um dos pseudônimos de Fernando Pessoa. “No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, / Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma, / De ser inteligente para entre a família, / E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. / Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. / Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida…”
O fato é que a roda do mundo girou mais um bocado. Com isso, muitos sonhos foram perdidos, é verdade, mas outros tantos foram criados e até hoje alimentam esperanças. Além disso, por sorte, eles renovam os laços com a vida e nos fazem crer que outras escolhas estão à nossa frente…

Hoje eu completo mais um aniversário, de número 69, e comemoro o que a vida tem me oferecido. Na maior parte das vezes, reconheço, foram momentos de profunda alegria. Quase sempre partilhado com pessoas que deixaram marcas no percurso. E eu as agradeço. Todos os dias!

(Eu, Zelândia e Gabriel, em Amsterdam – Janeiro de 2020)

Publicado por

Carlos Holbein

Professor de química por formação ou "sina" e escritor por "vocação" ou insistência...