O  GRITO DO IPIRANGA

Canelau sempre foi um moleque voluntarioso, devemos reconhecer. E sabia buscar soluções sensatas para todo tipo de problema que surgia. Na idade dele, convenhamos, problemas e desafios não faltavam, minha gente. Ora ele sentia raiva por não poder usufruir dos ‘bens de consumo’ que alguns vizinhos faziam questão de esnobar sem medida. Ora se sentia impotente por não poder ‘encarar’ algumas pendengas familiares… Paciência, fazer o quê?!

É bem verdade que a vida era difícil para quase todos daquele prédio. Afinal, o Estácio era um bairro de classe baixa. Poucos ali possuíam bons recursos. E a família de Canelau, não fosse muito numerosa, até seria ‘abastada’, uma vez que o seu pai era funcionário público de uma grande empresa estatal. Mas, cá entre nós: sustentar oito bocas famintas não é fácil não! E, ainda por cima, tem roupas para comprar, dentes pra cuidar e toda sorte de despesas que filhos pequenos apresentam…

Talvez, por isso, Canelau desejasse ‘crescer’ o mais rápido possível. Porquanto, somente assim, ele poderia dar o “grito do Ipiranga” tão sonhado. Mas, para tanto, ele ainda deveria atravessar um sem números de problemas e desafios. Segundo consta, o primeiro desafio foi subir na marquise do Colégio para pegar a bola que havia chutado. É que a bola ficou presa no telhado e para subir até lá, meus amigos, a ‘empreitada’ era árdua, já que o muro que dava acesso tinha mais de três metros de altura. E Canelau visivelmente não se sentia confortável. Isso para não dizer que ele morria de medo de altura.

Foi Roberto que deu ‘cadeirinha’ para que Canelau segurasse no muro e pudesse iniciar a escalada. Depois disso, sem poder olhar para baixo, ele colocou a primeira perna na pilastra e alavancou o corpo para cima. É bem verdade que muitos colegas faziam isso de olho fechado, numa rapidez que nem se pode imaginar. Porém, Canelau sofria de ‘vertigem’ e vocês podem imaginar o que isso representa. Pânico, era o sentimento mais suave que se abatia nele!

Finalmente, ele atingiu o telhado e partir dali, bastava pisar entre as telhas para não as quebrar com o peso e provocar um tombo perigoso. Então, ele foi indo bem devagar, quase engatinhando pelo íngreme telhado, até vislumbrar a maldita bola que insistia em não se mover com as pedras que Canelau arremessava, tentando deslocá-la. Tudo em vão. Foi necessário subir mais uns dois metros, telhado adentro, para finalmente pegar a bola e arremessar para a rua.

Agora, uma coisa é certa: se a subida foi um problema, imaginem a volta. Pois é. Lá de cima, ele lembrou da antológica frase de Millôr Fernandes: “O pior do alpinismo é a volta!” Porquanto existe apenas o risco de cair, já que o prazer de poder ‘apreciar’ a vista desaparece por completo!

No entanto, aos trancos e barrancos, o nosso ‘destemido’ Canelau foi obrigado a descer do telhado, inaugurando uma nova modalidade de técnica: “salto no escuro”. O resultado já era esperado: arranhões, ferimentos e entorses nas mais variadas articulações.

A partir daí, Canelau encerrou a promissora carreira de jogador, preferindo esportes mais amenos, que não exigissem escaladas ou algo assim…

 

telhado