CHET BAKER: CRIME E CASTIGO

É sabido que a vida de Chet Baker foi bastante conturbada. Nela, sempre houve um complicado dualismo: ou aparecia o doce e terno Chet Baker, com seu maravilhoso trompete e delicada voz, ou surgia o ‘dependente químico’ da heroína que, a partir daí, desencadeava uma sucessão de brigas, confusões e violências. Talvez, alguns leitores poderão perguntar: “mas, como pode isso acontecer, Carlos?!”

Sim! Ao que tudo indica, meus amigos, a natureza humana revela mais contradições do que somos capazes de atinar. Se por um lado isso representa grande lástima, por outro, também é verdade que essas ‘almas conflitadas’ têm nos ofertado momentos de raro prazer. Talvez por isso, nós nos tornamos benevolentes e, muitas vezes, ‘perdoamos os deslizes’ desses monstros sagrados.

No fundo, essa é uma questão antiga. Pois de algum modo, todos nós possuímos impulsos feito o de “Ramanovich Raskolnikov”, de Dostoiévski, em “Crime e Castigo”.
É que na obra de Dostoiévski, uma questão moral é colocada, desde cedo: o assassinato de uma pessoa reles seria moralmente errado se o objetivo fosse nobre? Afinal, no antológico romance, Raskolnikov acredita que todas as pessoas superiores acabam cometendo assassinatos para atingir os seus objetivos. E que, no final, são até justificáveis, pois representam grandes ‘serviços’ para a humanidade…

O que sei dizer é que o nosso Chet Baker, nascido em Oklahoma e criado em um subúrbio de Los Angeles, Califórnia, também sofreu bastante na infância. Ainda muito jovem, ele perdeu um dente em uma brincadeira de rua com outros meninos. Anos depois, ele perderia quase todos em brigas, supostamente com traficantes que vinham lhe cobrar dívidas.
Aos dezessete anos, ele sai da escola e entra para o exército e, em pouco tempo, é transferido para Berlim, para tocar na banda. Aos 22 anos de idade, Chet já se apresentava regularmente por toda Los Angeles. Soube, então, que Charlie Parker estava à procura de um trompetista para acompanhá-lo em sua turnê pela costa oeste dos Estados Unidos e Canadá, iniciando ali uma nova etapa em sua vida.

Por certo, o grande reconhecimento ao talento de Chet só surgiu em 1952, quando Gerry Mulligan começou a formar seu famoso quarteto sem piano e escolheu Baker, com quem já havia tocado em algumas “jam sessions”. O sucesso foi extraordinário e ele se apresentou em diversos clubes por cerca de um ano, antes de Mulligan pegar noventa dias na prisão (por posse de heroína). Depois disso, Chet viajou para a Europa e começou a ganhar prêmios e aplausos.

De volta aos EUA, começou a consumir heroína e a ser preso frequentemente. Sem a autorização para tocar em lugares que servissem bebidas, Chet resolveu voltar para a Europa. Viveu na Itália por quatro anos, onde também foi preso por drogas. Lá, casou-se e teve um filho.

Em 1964, novamente voltou aos EUA, agora dominados pelo “rock” dos Beatles. Daí, como restava pouco espaço para os músicos de jazz, passou a gravar discos comerciais de baixo valor artístico. Nessa mesma época, ele perdeu diversos dentes em consequência de uma briga envolvendo a negociação de heroína. Praticamente, foi obrigado a abandonar o instrumento de 1970 a 1973, quando tentou retomar sua carreira. Em viagem pelo Colorado para visitar um velho amigo, ouviu Dizzy Gillespie tocar em um clube. Foi o início do seu retorno. Quando Gillespie ficou sabendo do esforço de Baker para voltar à cena, ligou para o gerente do famoso “Half Note Club”, arrumando-lhe uma temporada de três semanas em Nova Iorque.

No Brasil, ao se apresentar na primeira edição do “Free Jazz”, em 1985, Baker sofreu uma “overdose” no quarto do hotel e quase morreu. De certo, era o prenúncio. Três anos depois, em um pequeno hotel de Amsterdã, Chet ‘caiu’ do segundo andar do prédio… Nunca se soube, ao certo, se ele cometeu suicídio ou se foi uma queda acidental. Desafortunadamente, essa perda representou para nós tanto o ‘crime quanto o castigo’. E por conta disso, todos nós ficamos órfãos!

 

Publicado por

Carlos Holbein

Professor de química por formação ou "sina" e escritor por "vocação" ou insistência...