LAÇOS  &  ENTRELAÇOS

 

Certamente esse é um assunto bastante delicado, difícil até. Isto porque, quase sempre a gente esbarra em suscetibilidades. Vindas de todas as formas. E com isso, o tema acaba virando um verdadeiro tabu. Cheio de ‘não-me-toques’, melindres e outras coisas mais…

De fato, eu me refiro aos aspectos familiares, cujo protagonismo envolve as relações com os pais e os irmãos. Alguém poderá dizer: “Carlos, pelo amor de Deus, isso é ‘casa de marimbondos’, então, é melhor não mexer!”  Sei bem disso, minha gente. E tampouco pretendo levantar o dedo em riste para qualquer familiar. Longe de mim essa intenção!

Na verdade, o tema surgiu nesse período de confinamento, por conta da pandemia. É que para preencher o tempo, obrigatoriamente, nós temos assistido a muitos filmes. Alguns deles, devo reconhecer, foram maravilhosos e nos fizeram refletir sobre o entorno da história. Filmes que nos emocionaram, que apontaram a mira na direção dos tantos ‘nós’ que existem por aí.

Como é habitual, nessas horas, a gente para pra pensar e avalia os ‘ecos’ provenientes. Ecos dos enredos das histórias que, de algum modo, refletem na gente. No fundo, isso é algo bastante interessante, e sadio, à medida que desenvolve a nossa capacidade de observação.

Como pano de fundo dessa nossa conversa, meus amigos, eu irei evocar o belíssimo texto escrito pela blogueira Ivi Kuchpil, do site “Biarticulando”.

Segundo ela, “ao ler à sinopse do filme sul-africano, “Buraco na Parede”, pode-se concluir – precipitadamente, diga-se de passagem -, que estamos diante de mais uma história de ressignificação, quando o personagem principal descobre que tem poucos meses de vida e resolve aproveitá-los de forma intensa e reconciliadora.

Porém, “Buraco na Parede” vai além disso: consegue ser intimista, sensível, engraçado, tudo sem flertar com o dramalhão ou a pieguice.

No centro da história, temos Riaan, sujeito independente, de espírito livre e hedonista que descobre ter um câncer de cólon no estágio quatro.

Com poucos meses de vida pela frente, Riaan, durante um de seus mergulhos diários no mar, conhece Ava e propõe a ela um emprego/aventura: o acompanhar na sua última viagem pela África do Sul, revendo amigos, amores e lugares.

Para isso, Riaan convoca o filho único, Ben, a quem não vê há três anos e que vive no exterior, para ser o terceiro elemento nesta jornada.

Nem tudo serão flores nesta pequena odisseia pessoal: ressentimentos e conflitos também vêm à tona, o que deixa a história ainda mais humana e sem idealizações.

Totalmente falado no idioma africâner e tendo como cenário as estonteantes paisagens de Transkei e KwaZulu-Natal, incluindo a fazenda de café do protagonista, o longa-metragem é um deleite para os olhos. Mas acima disso, deixa uma mensagem que vai além dos créditos finais: a vida é curta e inesperada.

Filme belo e que pode nos levar a uma breve autoavaliação… Recomendo.”

Que bom ter pedido emprestado a Ivi Kuchpil um pouco do seu olhar talentoso. Poupou-me tempo e a agudeza de observação. Com isso, eu criei coragem para empunhar o tema central: família. Peço desculpas a quem se sentir melindrado. Mas meu desejo não é apontar falha ou culpa de alguém. Muito pelo contrário. Se houve enganos na relação familiar, quem sabe, caiba a mim a parcela maior dos movimentos ocorridos? Afinal, fui eu que me afastei dos entes, por motivos que nem vêm ao caso aqui. Simplesmente, foram movimentos espontâneos, quase naturais, como as ondas do mar que criam diferentes desenhos a cada dia.

Todos eles, familiares, foram e continuarão sendo importantes na minha vida. No entanto, chega um momento em que é preciso ‘desatrelar’, quebrar viciados laços que não respondem mais pelos afetos presentes. Prescreveram com o tempo, isso sim. E não cabe nenhum desejo de ‘futucar’ antigas feridas ou episódios distantes…

Talvez seja o caso de apenas sugerir aos interessados que assistam ao filme e extraiam dele o que for conveniente e verdadeiro para cada um. O resto, meus amigos, é tão somente história e imaginação!