“O  BELLA  CIAO, BELLA CIAO…”

 

Devo reconhecer que nessas questões, normalmente, eram Luiz Henrique e Ênio que davam o veredicto. E naquele caso, convenhamos, a sentença proferida por Ênio foi dura e taxativa: “Chau, francamente, isso é um comportamento pequeno-burguês!”

Caramba! Eu nem sabia onde esconder a vergonha. Juro. Mas é o tal negócio: que mal havia em querer comprar aquela calça “Lee” e a camisa “LaCoste”? Só porque eram estrangeiras, minha gente, sempre vão representar ‘símbolos imperialistas’? Além do mais, o importante não seria o nosso pensamento socialista, alinhado às causas comuns?! E mais ainda: porque é que em toda revolução socialista o povo tem que ser miserável, quase indigente, heim?!

O fato é que elas eram lindas, isso sim, e bem superiores à nossa brasileira calça “FarWest” e as camisetas “Hering” que vendiam na “Ki-Lojão” da Rua Uruguaiana. Afinal, era sabido por todos que a loja era a ‘número 1’ em roupas bregas e sem graça… Fazer o quê?!

Pois muito bem. O fato era que os meus argumentos não eram convincentes a ponto de demover os preparados discursos de Luiz Henrique ou de Ênio. Por isso, então, eu acabava acatando os argumentos e ‘orientações’ deles. Sempre. Porém, devo confessar: no fundo, tudo aquilo me deixava à flor da pele. Talvez, até revoltado… Sei lá!

No entanto, vejam vocês a ironia do destino. Não é que a história se encarregou de nos mostrar vários exemplos de supostos ‘libertadores da pátria’? E eles vieram com discursos arrumadinhos: ora declarando-se ‘caçadores de marajás’, ora assumindo o falso ‘nacionalismo’. Vimos no que deu… e no que ainda vai dar!

Agora, que já se passaram quase trinta anos e mundo girou um bocado, nós devemos reconhecer algumas coisas. Em primeiro lugar, é que ‘ideologia’ não tem nada a ver com bom-gosto ou requinte. Tanto é verdade que o amigo Luiz Henrique bebe os melhores vinhos importados e veste ternos de fino trato, sem perder a coerência. Ah! quanto desperdício nós tivemos em nome de supostas causas e sistemas falidos e contraditórios…

Além disso, há outras questões a serem respondidas. Em que lugar da memória ficaram guardados os sonhos de sociedades ‘mais justas e equânimes’? E o que foi feito das nossas ‘bandeiras’ e dos nossos líderes socialistas? Afora a queda daquele ‘emblemático’ muro, o que mais ruiu além dos nossos sonhos, esperanças e utopias, meus amigos?!

 

Publicado por

Carlos Holbein

Professor de química por formação ou "sina" e escritor por "vocação" ou insistência...